O amanhecer chegou pálido sobre Mythralis.
O sol mal conseguia atravessar as nuvens densas que cobriam o céu — como se o mundo inteiro hesitasse em despertar.
Lysandra já estava de pé, observando pela janela o pátio vazio.
A chuva da noite anterior transformara o chão em um espelho irregular, refletindo fragmentos de um céu quebrado.
Ela se perguntava há quanto tempo não dormia em paz.
Desde a chegada de Draven Kaelith, o castelo parecia respirar diferente.
Os corredores antes silenciosos agora murmuravam o nome dele.
E as sombras — suas sombras — pareciam mais ativas, mais conscientes.
Um leve toque na porta a trouxe de volta.
— Entre — disse, sem se virar.
Vaelra entrou, o semblante preocupado.
— Seu pai está na sala de audiências. Kaelith o procurou novamente.
Lysandra fechou os olhos.
— Claro que procurou. Ele nunca faz nada sem motivo.
— E você? — Vaelra a observava com cuidado. — O que vai fazer?
— Vigiar. — Ela pegou o capuz de couro e o vestiu, escondendo parte do rosto. — Ele pode enganar meu pai, mas não a mim.
O salão do trono estava iluminado por tochas altas, o cheiro de madeira queimada e ferro enchendo o ar.
Pietro, com a expressão grave, ouvia o visitante com uma paciência tensa.
Draven permanecia de pé, as mãos para trás, a postura impecável, como se estivesse diante de um aliado — e não do homem que, há três noites, quase ordenara sua execução.
— Não vim para roubar terras — dizia ele, com voz firme e controlada. — Vim para propor um acordo.
— Acordo? — Pietro o olhou com desconfiança. — Entre um reino amaldiçoado e o meu?
Draven sustentou o olhar
— Entre dois reinos à beira da guerra. E talvez entre duas forças que não deveriam se odiar.
Lysandra, oculta nas sombras da galeria superior, sentiu o sangue ferver.
Ele falava com uma calma que beirava o insolente.
Mas havia algo mais naquelas palavras — uma sinceridade desconcertante, quase incômoda.
— E o que você ganha com isso, Kaelith? — perguntou Pietro.
Draven respirou fundo.
— Paz. E talvez... respostas.
A pausa que se seguiu foi longa.
O som distante das gotas escorrendo pelo telhado preenchia o silêncio.
Lysandra não conseguiu evitar: desceu os degraus e entrou no salão.
O olhar de Draven a encontrou imediatamente — e, por um instante, o mundo pareceu parar.
— O que ele quer dizer com respostas? — perguntou ela, a voz fria. — Porque eu tenho certeza de que não veio até Mythralis por diplomacia.
Draven se virou completamente para ela, um leve sorriso no canto dos lábios.
— Pensei que não tivesse autorização para participar das decisões do conselho.
— Pensei que soubesse o que é respeito — retrucou.
Pietro levantou a mão, cansado.
— Lysandra...
Mas ela já avançava um passo.
— Fale, Kaelith. Que respostas procura?
— Sobre o que você é.
A frase caiu no ar como uma lâmina.
Pietro se ergueu, alarmado.
— Cuidado com as palavras, estrangeiro.
Draven não recuou.
— Com todo o respeito, senhor... há forças que despertaram em sua filha que nenhum mago deste mundo entenderia. Eu as vi. Elas me reconheceram.
— E o que o torna digno de entender o que nem eu entendo? — perguntou Lysandra, com a voz tensa.
— O fato de eu ter visto o mesmo poder consumir o meu povo — respondeu ele, num tom baixo, quase dolorido.
O salão pareceu congelar.
Pietro respirou fundo, contido, antes de ordenar:
— Basta por hoje.
Draven inclinou levemente a cabeça e se retirou, em silêncio.
Mas, ao passar por Lysandra, deteve-se por um segundo — o suficiente para que ela sentisse o calor do corpo dele próximo demais.
O olhar âmbar cruzou o dela, e ali havia algo novo: cansaço, feridas que o tempo não apagara, e um pedido que ele jamais ousaria pronunciar.
Horas depois, o castelo dormia.
Mas Lysandra não conseguia se libertar daquela conversa.
Ela o encontrou novamente — desta vez no pátio, sob o luar prateado.
Ele estava sozinho, as mãos apoiadas sobre a espada, o semblante diferente: mais humano, mais silencioso.
Ela se aproximou devagar.
— O que quis dizer com “consumir o seu povo”?
Draven não se virou.
— A mesma energia que te envolve... já destruiu o que restava do meu reino.
Lysandra franziu o cenho.
— Está dizendo que eu sou uma ameaça?
— Estou dizendo que talvez você seja a última esperança de entender o que nós nunca conseguimos controlar.
O vento soprou forte, levantando o capuz dela.
Os cabelos prateados brilharam sob a lua.
Draven a olhou, e algo em seu rosto suavizou.
— Não devia carregar isso sozinha.
— E quem mais poderia? — murmurou ela.
Ele deu um passo à frente.
— Eu.
Lysandra riu, amarga.
— Você mal me conhece.
— E ainda assim, já ouvi o seu silêncio. — A voz dele era baixa, rouca. — O mesmo que eu carreguei por anos.
Ela quis responder, mas as palavras se perderam.
Havia uma fragilidade escondida na firmeza dele, algo que doía.
Por um instante, ela se viu tentada a acreditar.
Mas logo recuou.
— Se pensa que pode me manipular, vai se decepcionar.
Draven deu um meio sorriso.
— Não estou tentando te manipular, Lysandra. Estou tentando te entender.
— Então vai se perder tentando.
Ele inclinou a cabeça, e a luz da lua fez o dourado de seus olhos brilhar como fogo.
— Talvez. — Pausou. — Mas há coisas pelas quais vale a pena se perder.
O silêncio se instalou entre eles novamente.
Tenso. Vivo.
Um silêncio que dizia mais do que qualquer promessa.
Lysandra virou o rosto, mas o coração batia rápido demais.
Sentia a própria magia reagir — as sombras tremulando no chão, como se fossem atraídas por ele.
Draven observou aquilo, fascinado.
— Elas gostam de mim.
— Elas matam. — A voz dela era um sussurro.
— Talvez só quando ninguém as entende.
E, antes que ela pudesse responder, ele se afastou.
Deixou-a ali, com o som distante do vento e o eco das próprias dúvidas.
Lysandra o observou até ele desaparecer na escuridão.
O peito dela ardia — não de medo, nem de raiva.
Era algo novo.
Algo per
igoso.
E pela primeira vez, ela percebeu que o inimigo que mais a assustava talvez não fosse Draven Kaelith — mas o que ele despertava dentro dela.

