A chuva ainda não cessara.
Ela descia em fios finos sobre os muros de Mythralis, lavando o sangue seco e o pó da noite anterior.
Mas nada limpava o que ficara no ar: a desconfiança, o medo e algo mais - algo que Lysandra não conseguia nomear.
No grande salão, o fogo ardia alto, mas o frio parecia vir de dentro.
Draven Kaelith permanecia sentado à mesa do conselho, o manto encharcado repousando sobre a cadeira ao lado.
Sua postura era calma demais para um invasor, e isso inquietava a todos.
Lysandra o observava à distância.
O rosto dele era impenetrável - uma máscara feita de ferro e tempestade.
Mas, quando os olhos âmbar se ergueram e cruzaram os dela, algo se partiu dentro de si.
Um eco. Uma lembrança. Um aviso.
Vaelra, ao seu lado, notou.
- Não olhe tanto. Ele pode achar que venceu.
Lysandra desviou o olhar, o maxilar tenso.
- Que ache o que quiser. Eu não temo ele.
- Não é medo o que eu vejo - murmurou Vaelra, com um meio sorriso cansado. - É curiosidade.
Lysandra não respondeu.
Havia algo errado em tudo aquilo - no modo como Draven falava, calmo e paciente, mesmo cercado por homens que o odiavam.
E, principalmente, no modo como a presença dele parecia... familiar.
Como se uma parte dela o reconhecesse, mesmo sem nunca tê-lo visto antes.
Horas depois, o conselho se dispersou.
Pietro se retirou, exausto, deixando a filha com ordens de manter distância do estrangeiro.
Mas o destino raramente obedece ordens.
Quando o castelo adormeceu, Lysandra ainda estava acordada.
Caminhava pelos corredores silenciosos, tentando entender o que havia despertado dentro dela na noite anterior.
As sombras sussurravam quando ela passava - não em voz alta, mas o suficiente para fazê-la sentir que aquela magia não era só dela.
E então, a voz dele.
- Anda sempre assim, à espreita, ou só quando está com medo?
Lysandra parou, o coração disparando.
Draven estava ali, encostado em uma das colunas, os cabelos ainda úmidos, o olhar tão afiado quanto a lâmina que carregava à cintura.
- Não sabia que espiava mulheres pelos corredores - respondeu ela, sem virar o rosto.
- Só quando as sombras me chamam. - Ele deu um passo à frente. - E, curiosamente, elas sempre chamam quando você está perto.
Ela o encarou, enfim.
- Quer dizer que me segue porque ouve vozes?
- Digo que há algo em você que o mundo tenta esconder, mas eu escuto.
- Não sabe nada sobre mim.
- Ainda não.
O silêncio entre eles se alongou.
Lá fora, o trovão rugiu.
Draven se aproximou mais um passo - não o bastante para tocá-la, mas o suficiente para o ar parecer vibrar entre eles.
O olhar dele desceu brevemente até a marca prateada que brilhava no pulso de Lysandra, o vestígio da energia que ela liberara no salão.
- A luz e a sombra dentro de uma só carne... - murmurou ele. - Isso não devia ser possível.
- Então talvez eu seja um erro - sussurrou ela.
Draven sorriu, um daqueles sorrisos que não chegam aos olhos.
- Ou talvez você seja o que o mundo tentou apagar.
Por um instante, Lysandra quis acreditar nele.
Mas as palavras de seu pai ecoaram em sua mente: "Magos mentem como respiram."
Ela recuou um passo, fria.
- Não ouse me estudar, Kaelith. Não sou uma das suas armas.
- Nunca disse que era. - A voz dele soou suave, mas havia algo perigoso ali. - Mas me diga, Lysandra... quando o poder chama, você o obedece, ou o teme?
Ela hesitou.
E ele percebeu.
Draven se aproximou mais uma vez, os olhos âmbar capturando os dela.
- Porque o medo é o primeiro sinal de que a magia começou a escolher.
Por um segundo, ela achou que ele a tocaria.
Mas ele apenas passou por ela, deixando o cheiro de chuva e metal no ar.
- Boa noite, Kaerys. - Sua voz se desfez no corredor. - Sonhe com trovões.
E então ele se foi, levando consigo o pouco de paz que ainda restava.
Lysandra ficou parada, o peito apertado, as mãos trêmulas.
As sombras ao redor sussurravam novamente, mais fortes agora, como se o mundo inteiro esperasse uma resposta dela.
Mas tudo o que conseguiu fazer foi fechar os olhos e murmurar:
- O que você quer de mim?
Nenhuma resposta veio.
Apenas o eco distante de um trovão -
e a sensação de que, a partir daquela noite, nem ela nem Draven voltariam a dormir em paz.

