logo do projeto lunar

Capa
As chamas de Aurethys
⚔️ Capítulo 3 - Sob o Peso do Silêncio
761 palavras • 4155 caracteres • ⏱ 3 min 03 s

⚔️ Capítulo 3 - Sob o Peso do Silêncio

0
0
0

A chuva ainda não cessara.

Ela descia em fios finos sobre os muros de Mythralis, lavando o sangue seco e o pó da noite anterior.

Mas nada limpava o que ficara no ar: a desconfiança, o medo e algo mais - algo que Lysandra não conseguia nomear.


No grande salão, o fogo ardia alto, mas o frio parecia vir de dentro.

Draven Kaelith permanecia sentado à mesa do conselho, o manto encharcado repousando sobre a cadeira ao lado.

Sua postura era calma demais para um invasor, e isso inquietava a todos.


Lysandra o observava à distância.

O rosto dele era impenetrável - uma máscara feita de ferro e tempestade.

Mas, quando os olhos âmbar se ergueram e cruzaram os dela, algo se partiu dentro de si.

Um eco. Uma lembrança. Um aviso.


Vaelra, ao seu lado, notou.

- Não olhe tanto. Ele pode achar que venceu.


Lysandra desviou o olhar, o maxilar tenso.

- Que ache o que quiser. Eu não temo ele.


- Não é medo o que eu vejo - murmurou Vaelra, com um meio sorriso cansado. - É curiosidade.


Lysandra não respondeu.

Havia algo errado em tudo aquilo - no modo como Draven falava, calmo e paciente, mesmo cercado por homens que o odiavam.

E, principalmente, no modo como a presença dele parecia... familiar.

Como se uma parte dela o reconhecesse, mesmo sem nunca tê-lo visto antes.


Horas depois, o conselho se dispersou.

Pietro se retirou, exausto, deixando a filha com ordens de manter distância do estrangeiro.

Mas o destino raramente obedece ordens.


Quando o castelo adormeceu, Lysandra ainda estava acordada.

Caminhava pelos corredores silenciosos, tentando entender o que havia despertado dentro dela na noite anterior.

As sombras sussurravam quando ela passava - não em voz alta, mas o suficiente para fazê-la sentir que aquela magia não era só dela.


E então, a voz dele.


- Anda sempre assim, à espreita, ou só quando está com medo?


Lysandra parou, o coração disparando.

Draven estava ali, encostado em uma das colunas, os cabelos ainda úmidos, o olhar tão afiado quanto a lâmina que carregava à cintura.


- Não sabia que espiava mulheres pelos corredores - respondeu ela, sem virar o rosto.


- Só quando as sombras me chamam. - Ele deu um passo à frente. - E, curiosamente, elas sempre chamam quando você está perto.

Ela o encarou, enfim.

- Quer dizer que me segue porque ouve vozes?

- Digo que há algo em você que o mundo tenta esconder, mas eu escuto.

- Não sabe nada sobre mim.

- Ainda não.


O silêncio entre eles se alongou.

Lá fora, o trovão rugiu.


Draven se aproximou mais um passo - não o bastante para tocá-la, mas o suficiente para o ar parecer vibrar entre eles.

O olhar dele desceu brevemente até a marca prateada que brilhava no pulso de Lysandra, o vestígio da energia que ela liberara no salão.


- A luz e a sombra dentro de uma só carne... - murmurou ele. - Isso não devia ser possível.


- Então talvez eu seja um erro - sussurrou ela.

Draven sorriu, um daqueles sorrisos que não chegam aos olhos.

- Ou talvez você seja o que o mundo tentou apagar.


Por um instante, Lysandra quis acreditar nele.

Mas as palavras de seu pai ecoaram em sua mente: "Magos mentem como respiram."


Ela recuou um passo, fria.

- Não ouse me estudar, Kaelith. Não sou uma das suas armas.


- Nunca disse que era. - A voz dele soou suave, mas havia algo perigoso ali. - Mas me diga, Lysandra... quando o poder chama, você o obedece, ou o teme?


Ela hesitou.

E ele percebeu.


Draven se aproximou mais uma vez, os olhos âmbar capturando os dela.

- Porque o medo é o primeiro sinal de que a magia começou a escolher.


Por um segundo, ela achou que ele a tocaria.

Mas ele apenas passou por ela, deixando o cheiro de chuva e metal no ar.


- Boa noite, Kaerys. - Sua voz se desfez no corredor. - Sonhe com trovões.


E então ele se foi, levando consigo o pouco de paz que ainda restava.


Lysandra ficou parada, o peito apertado, as mãos trêmulas.

As sombras ao redor sussurravam novamente, mais fortes agora, como se o mundo inteiro esperasse uma resposta dela.


Mas tudo o que conseguiu fazer foi fechar os olhos e murmurar:


- O que você quer de mim?


Nenhuma resposta veio.

Apenas o eco distante de um trovão -


e a sensação de que, a partir daquela noite, nem ela nem Draven voltariam a dormir em paz.


Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar ❤️

Seja respeitoso. Comentários são públicos e não podem ser apagados.