O amanhecer em Mythralis trouxe um silêncio estranho.
Nem os sinos do templo soaram. Nem o vento ousou cantar.
Algo se movia nas fronteiras — e todos sabiam o que isso significava.
Os estandartes negros e dourados de Elyrion despontaram sobre as colinas, tremulando como asas de corvo.
Dez cavaleiros atravessavam os portões, e à frente deles vinha Draven Kaelith, o Mago da Tempestade.
O chão parecia vibrar sob os cascos dos cavalos, como se o próprio mundo reconhecesse sua presença.
De pé no terraço do salão principal, Lysandra Kaerys observava a chegada.
Seu pai, Pietro, ordenou silêncio absoluto entre os guardas.
E, por um instante, ela se perguntou se aquele tremor que sentia vinha do medo — ou de algo muito mais antigo despertando dentro dela.
Quando Draven desmontou, o ar ao redor pareceu se dobrar.
Ele era alto, o rosto marcado por sombras e uma confiança perigosa.
O capuz negro o tornava quase uma extensão da própria tempestade que o seguia, e seus olhos âmbar — intensos, inteligentes e letais — varreram o pátio com a precisão de uma lâmina.
Atrás dele, Davwn observava em silêncio, a mão sobre o punho da espada.
Ao ver Lysandra, seus olhos vacilaram — um breve lampejo de surpresa.
Mas Draven notou.
E esse detalhe bastou para o mago entender que aquela garota, de cabelos prateados e olhar luminoso, não era apenas uma filha de general.
—Pietro Kaerys.
disse Draven, a voz grave e perfeitamente controlada.
— Elyrion envia suas saudações… e seus termos.
Pietro se ergueu, com a postura de um guerreiro que já vira guerras demais.
— Não esperava ver o Mago da Tempestade fora dos muros de Elyrion.
— Nem eu esperava que Mythralis ainda ousasse fingir independência.
As palavras caíram como aço.
E nesse breve instante, Lysandra sentiu algo — um frio no peito, um eco distante, como se as sombras ao redor respirassem junto com ela.
Enquanto os homens discutiam, Lysandra e Draven se olharam pela primeira vez.
Foi um instante. Um só.
Mas o mundo pareceu parar.
Ele a observava com um olhar que misturava curiosidade e perigo.
Ela, com o brilho prateado refletido nas pupilas, sentiu o ar ficar pesado, espesso, como se a própria realidade se curvasse entre eles.
O trovão soou ao longe.
E então, a magia reagiu.
As tochas do salão tremeram, as sombras se alongaram, e uma aura prateada começou a surgir em torno de Lysandra.
Seu coração disparou. As chamas vacilaram.
Draven ergueu uma sobrancelha, fascinado.
— Interessante…
murmurou ele, baixinho, o tom quase divertido.
— Cale-se.
disse ela entre os dentes.
Mas era tarde demais.
A energia se desprendeu dela em um clarão de luz e sombras entrelaçadas — o símbolo de algo que não deveria existir.
Os guardas recuaram, aterrorizados.
Davwn avançou, espada em punho.
Draven, no entanto, apenas levantou uma mão.
— Não se atrevam.
ordenou ele, sem tirar os olhos de Lysandra.
As palavras foram calmas, mas carregadas de autoridade.
E foi então que o olhar dele mudou — não mais arrogante, mas quase reverente.
Como se reconhecesse nela algo que o mundo esquecera.
— Diga-me seu nome.
ele pediu, a voz agora baixa, quase um sussurro.
Lysandra respirou fundo, sentindo as sombras se acalmarem ao seu redor.
— lysandra Kaerys
Draven sorriu, devagar, como quem decifra uma profecia antiga.
— Então é você...
— O que...?
— Aquela que nem a luz ousou destruir.
O trovão explodiu no horizonte, e o vento varreu o salão, fazendo as bandeiras de Mythralis se rasgarem.
Quando o som cessou, Draven ainda a observava — não como inimigo, mas como alguém que havia encontrado o seu igual.
Naquela noite, as chamas do templo queimaram azuis.
Os anciãos murmuraram sobre um sinal antigo, uma união que jamais deveria acontecer:
“Quando a Lua e o Trovão se encontrarem, os reinos ruirão.”
E enquanto a chuva caía sobre Mythralis, Lysandra olhava pela janela, o colar de sua m
ãe em mãos, e sentia algo novo pulsar em seu peito.
Não era medo.
Era destino.

