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O Herói Dos Esquecidos: O Umbral do Infinito
02 |🌟| Aquilo Que Restou
1395 palavras • 9041 caracteres • ⏱ 5 min 35 s

02 |🌟| Aquilo Que Restou

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O som da água atravessava os céus.

Rios inteiros deslizavam acima das nuvens como correntes suspensas na própria existência, iluminando o horizonte com reflexos azulados que dançavam lentamente sobre as falésias. Fragmentos de antigas construções permaneciam presos entre aquelas correntes celestes, consumidos pelo tempo, mas ainda resistindo de alguma forma.

Samuel caminhava em silêncio.

O vento daquele mundo era frio, porém leve. As pedras sob seus pés carregavam marcas antigas, símbolos gastos que pareciam contar histórias esquecidas há eras. Ao longe, enormes estruturas se erguiam entre a névoa, conectadas por pontes estreitas esculpidas diretamente nas montanhas.

Aquele lugar era silencioso.

Não um silêncio vazio.

Um silêncio calmo.

Como se o próprio mundo tivesse aprendido a viver devagar.

Os olhos de Samuel acompanhavam os rios acima dele por alguns instantes. A água brilhava como estrelas líquidas atravessando o céu.

Era bonito.

Mas havia algo estranho.

Algo difícil de explicar.

A Luz permanecia quieta dentro dele desde que havia chegado ali. Nenhum sinal. Nenhuma presença. Apenas aquele silêncio constante acompanhando cada passo.

Samuel parou perto da borda de uma das falésias.

Lá embaixo, pequenas luzes atravessavam lentamente os caminhos construídos entre as montanhas. Algumas pontes antigas e jardins iluminados pela água refletida do céu.

Mesmo distante, ele conseguia sentir.

Aquele mundo ainda estava vivo.

E talvez fosse exatamente aquilo que tornava a sensação pior.

O vento soprou novamente.

Mas o que estava causando o esquecimento em um mundo assim?

Samuel continuou caminhando até observar algo em sua frente.

Ele estreitou os olhos.

Tinha algo errado.

Tudo estava plano e escuro.

Tinha algo faltando.

Ou melhor…

algo removido.

Apagado.

Samuel se aproximou lentamente.

Não havia chão.

Não havia céu.

Não havia ruínas.

Não havia destruição.

Só o vazio.

Uma ausência tão profunda que parecia machucar o próprio mundo ao redor.

Ele permaneceu parado diante daquilo por alguns segundos.

O silêncio ali era diferente.

Pesado.

Samuel olhou para trás.

A borda daquele vazio atravessava lentamente as montanhas ao longe.

E então ele viu.

O mundo estava se fragmentando.

Não como pedra quebrando.

Não como algo desmoronando.

Partes inteiras da realidade simplesmente começavam a virar partículas escuras antes de desaparecerem em silêncio.

Pontes antigas se desfaziam lentamente no ar.

Fragmentos das falésias sumiam junto do vento.

E os rios…

Os rios estavam desaparecendo.

A água deixava de existir aos poucos, consumida por aquele vazio que avançava sem pressa.

Samuel observava tudo imóvel.

Os olhos fixos naquele horizonte sendo apagado.

Então algo chamou sua atenção.

Os seres lá embaixo.

Elas continuavam andando.

Continuavam vivendo.

Como se não percebessem.

Como se aquele pedaço do mundo jamais tivesse existido.

Samuel não mostrava reação.

Então seus olhos pararam em uma criança.

Ela estava parada perto da borda de um jardim suspenso, observando o céu.

Os rios brilhavam nos olhos dela.

Por um instante, Samuel apenas ficou olhando.

E então parte daquele jardim começou a desaparecer.

As flores sumiram primeiro.

Depois os pequenos pilares de pedra.

A borda inteira começou a virar fragmentos escuros que se dissolviam lentamente no ar.

A criança apenas deu um pequeno passo para trás.

Como se não entendesse o motivo daquele espaço parecer diferente agora.

Então voltou a olhar os rios acima dela.

Como se tivesse esquecido.

Samuel estreitou levemente os olhos.

O vazio continuava avançando pelas montanhas distantes.

Sem pressa.

Sem raiva.

Aquilo era o pior.

Não havia destruição.

A existência simplesmente deixava de estar ali.

Os dedos de Samuel tocaram lentamente o cabo da arma presa às suas costas.

A Luz permanecia inquieta dentro dele.

Mas quieta.

Como se nem mesmo ela compreendesse completamente o que estava diante deles.

Os olhos de Samuel voltaram ao horizonte.

Partes inteiras daquele mundo estavam desaparecendo agora.

E o silêncio continuava o mesmo.

Os rios ainda atravessavam os céus e o vento continuava percorrendo as montanhas como sempre havia feito. Nas pontes suspensas, pequenas luzes seguiam seus caminhos sem pressa, ignorando que partes inteiras daquele mundo já haviam desaparecido. A vida continuava caminhando ao lado do próprio fim sem perceber.

O Esquecimento não queria destruir aquele lugar.

Queria fazer com que ele jamais tivesse existido.

Samuel permaneceu imóvel por alguns segundos.

Os olhos fixos naquele horizonte vazio.

Então fechou os olhos lentamente.

Não existiam respostas ali.

Apenas silêncio.

E algo muito pior crescendo através dele.

Samuel soltou um leve suspiro.

Então uma luz surgiu diante dele.

O portal atravessou o ar como um rasgo dourado no meio daquele vazio impossível. Seu brilho refletiu nos rios suspensos acima das nuvens, fazendo as correntes celestes estremecerem suavemente.

Samuel observou aquele mundo uma última vez.

As montanhas continuavam desaparecendo ao longe.

Os rios ainda brilhavam.

E ninguém parecia perceber.

Então ele atravessou a luz.

E o mundo ficou para trás.

--- 🌟 ---

A toca estava silenciosa.

O cheiro da madeira antiga ainda permanecia ali. A terra sob o chão continuava aquecida, e pequenas luzes douradas iluminavam fracamente as paredes daquele lugar escondido entre mundos.

Samuel caminhou devagar pelo interior da toca.

Tudo parecia igual.

Os objetos permaneciam espalhados pelas prateleiras. As lembranças. Os fragmentos de mundos que ele havia salvado. Pequenas provas de que aquelas histórias ainda existiam em algum lugar da realidade.

Samuel passou os olhos lentamente por cada um deles.

O medalhão antigo.

A pequena escultura quebrada.

As flores cristalizadas.

A fotografia envelhecida.

O silêncio daquele lugar sempre havia sido confortável. Como um refúgio distante do caos atravessando os mundos.

Mas agora…

parecia vazio.

Samuel parou diante de uma das estantes.

Seu olhar estreitou levemente.

Então ele percebeu.

Havia espaços vazios ali.

Pequenos espaços entre os objetos.

Como se algo tivesse desaparecido.

Os olhos de Samuel permaneceram fixos na prateleira por alguns segundos.

Ele sabia.

Antes havia mais coisas ali.

Muito mais.

Então algo aconteceu.

A fotografia começou a desaparecer.

Não queimou.

Não se desfez.

A imagem apenas começou a apagar lentamente, como tinta sendo removida da própria realidade.

Os rostos sumiram primeiro.

Depois as cores.

Então o papel inteiro virou pequenas partículas escuras antes de desaparecer completamente no ar.

Samuel permaneceu imóvel.

Outro objeto desapareceu logo depois.

E mais um.

As relíquias começavam a sumir uma após a outra pela toca inteira. Sem som. Sem violência. Como se nunca tivessem pertencido àquele lugar.

Os olhos de Samuel acompanharam aquilo em absoluto silêncio.

Então ele percebeu.

Duas coisas permaneciam intactas.

O colar preso em seu pescoço.

E o dispositivo neural preso à sua cintura.

Ambos continuavam ali.

Vivos.

Como se o vazio não pudesse alcançá-los.

A Luz finalmente surgiu diante dele.

O brilho dourado preencheu lentamente o interior da toca, iluminando as paredes enquanto o silêncio daquele lugar parecia se tornar ainda mais pesado.

Mas até aquela luz parecia diferente agora.

Mais fraca.

Mais distante.

Então a voz ecoou suavemente:

— Eu sinto muito.

Samuel observava os objetos desaparecendo ao redor.

— Não previmos que isso aconteceria.

— Antes, os mundos conseguiam resistir sozinhos.

— Agora… até aquilo que foi salvo começou a desaparecer.

Samuel permaneceu imóvel.

Os olhos fixos nas prateleiras vazias.

— Como isso aconteceu?

A Luz oscilou levemente.

— Ele chegou até o Guardião.

O silêncio pareceu mais frio.

— As memórias começaram a ser apagadas em toda a existência.

— Lentamente.

— Mundo após mundo.

Samuel voltou os olhos para o colar em seu peito. O brilho dourado refletiu suavemente sobre ele.

— Mas ainda existem coisas resistindo.

Os olhos de Samuel desceram até o dispositivo neural.

— Porque ainda existem dentro de você.

A Luz atravessou lentamente os objetos restantes da toca.

— Esses mundos permanecem vivos em suas lembranças.

— Enquanto continuar carregando eles… o Esquecimento não poderá apagá-los completamente.

Samuel observou tudo sem dizer nada.

Seus olhos voltaram lentamente para os espaços vazios espalhados pela toca.

Lugares onde antes existiam histórias.

Agora… não havia nada.

Nem mesmo sinais de que algo esteve ali.

A Luz permaneceu quieta por alguns segundos antes de falar novamente:

— Não é mais sobre salvar mundos.

— É sobre impedir o fim deles.

Pela primeira vez desde que chegou ali, Samuel ergueu levemente o olhar.

O brilho dourado refletia em seus olhos agora.

Calmo.

Firme.

— Então esse vai ser o fim dele.

A Luz não respondeu imediatamente.

Porque até mesmo aquele silêncio parecia carregado de algo antigo demais para receber um nome.

E enquanto as últimas lembranças desapareciam da toca...
Samuel permaneceu imóvel.

Porque agora ele finalmente entendia.

O Esquecimento não estava chegando.

Ele já estava aqui.

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