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O Esquecimento.
Uma força cósmica sem rosto, sem voz e sem origem. Ele não nasceu. Não veio de lugar algum. Em algum momento… apenas passou a existir.
No início, ninguém percebeu.
Porque o esquecimento não chegava como destruição. Não queimava mundos, não derrubava céus e não trazia morte. Ele apenas levava.
Primeiro foram os detalhes.
Nomes.
Rostos.
Depois… as memórias.
Histórias começaram a desaparecer nas brumas do tempo. Promessas perderam significado. Laços deixaram de existir.
E o mais assustador…
era o silêncio.
O esquecimento não deixava dor. Deixava vazio. Como algo arrancado da alma do mundo.
Com o passar do tempo, mundos começaram a desaparecer. Não em guerra. Não em tragédia.
Eles apenas… sumiam.
Livros tornaram-se incompreensíveis. Estrelas deixaram de brilhar. Seres esqueciam quem eram, até seus próprios nomes desaparecerem.
Era como se a existência estivesse sendo apagada aos poucos.
Não destruída.
Apagada.
Como se nunca tivesse existido.
Porque esse era o verdadeiro horror do esquecimento.
Ele não queria governar. Não queria conquistar. Não queria destruir.
Ele queria silêncio.
Queria um vazio tão profundo…
que nada mais pudesse ser lembrado.
E então…
algo mudou.
Os mundos já não desapareciam lentamente. Agora estavam sendo consumidos. O tempo começou a falhar. Memórias sumiam antes mesmo de nascer.
E pela primeira vez…
até os mais antigos sentiram medo.
Porque algo havia despertado.
E no fim…
o universo percebeu que podia ser esquecido também.
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Havia uma cabana no meio da floresta. Simples, escondida do mundo e de… tudo. A natureza ao redor permanecia viva. As árvores balançavam suavemente com o vento, flores cobriam o chão e a luz atravessava os galhos como se aquele lugar tivesse sido esquecido pelo próprio tempo.
Aquele lugar era familiar. Antigo. Como uma memória que o universo se recusava a perder.
Havia alguém sentado na frente da cabana. Não era possível distinguir seu rosto. Sua presença parecia instável demais para ser compreendida por completo. Aquilo apenas permanecia ali, imóvel, como se sempre tivesse existido.
Então algo mudou.
O céu começou a escurecer ao longe. Não como uma tempestade, mas como uma ausência. As estrelas desapareceram uma a uma. O vento morreu. E a floresta começou a apagar.
As folhas perderam a cor. As flores se desfizeram lentamente. O som da natureza desapareceu junto da luz.
A escuridão avançava.
Silenciosa.
Até finalmente parar diante da cabana.
O esquecimento estava ali.
Diante daquele lugar.
Diante daquele alguém.
O silêncio permaneceu por alguns instantes.
Então a figura sentada ergueu levemente a cabeça.
— Eu o aguardava. — Disse o Alguém.
O silêncio permaneceu absoluto. Nem mesmo o vento ousava existir naquele lugar agora.
A escuridão diante da cabana não possuía forma, rosto ou presença definida. Ela apenas estava ali, como uma ausência tão profunda que fazia o próprio mundo parecer vazio.
— Me pergunto se é verdade o que falam.
— Que o seu silêncio é capaz de silenciar até as dobras do mundo.
A floresta começou a desaparecer lentamente ao redor.
Mas a figura sentada diante da cabana permaneceu imóvel. Calma. Como alguém que já esperava por aquilo há muito tempo.
Então algo atravessou o vazio.
Não palavras. Não uma voz. Apenas uma intenção esmagadora.
O esquecimento havia chegado para consumir aquele lugar também.
— Seu rancor, sua dor e seu inferno não vão prevalecer diante do umbral. Você não será o fim. Apenas aquilo que virá antes do recomeço.
— Você chegou até aqui, mas não tão longe.
Mais árvores desapareceram ao longe. O esquecimento não respondeu. Não precisava. Sua própria existência já era resposta suficiente.
O Alguém abaixou o olhar por um instante, como se observasse algo além daquele lugar. Além daquele momento.
— Você cresceu mais do que os outros poderiam imaginar.
As paredes da cabana começaram a apagar lentamente atrás dele. Mesmo assim, ele não se moveu.
— Mas no fim… continua sendo o que é.
A escuridão avançou mais uma vez, agora próxima o suficiente para consumir os primeiros degraus da cabana.
— Você leva tudo porque não consegue criar nada. Nem mesmo o próprio fim de tudo.
Pela primeira vez, o vazio pareceu se agitar. A floresta inteira escureceu de uma vez. O chão começou a sumir abaixo das árvores.
Ainda assim, o homem apenas o encarou. sereno.
— E é exatamente por isso… que você nunca vai entender eles. Nunca vai entender ele.
A escuridão alcançou a cabana. As paredes começaram a desaparecer. As árvores sumiam uma após a outra. O céu já não existia mais.
Restava apenas o vazio.
Então o Alguém fechou os olhos uma última vez.
E mesmo diante daquilo… sorriu de leve.
— Você já alcançou quase tudo. Menos aquilo que realmente importa
O esquecimento avançou.
E a floresta desapareceu junto da cabana.
E aquele lugar... não existia mais.
--- 🌟 ---
Muito além dos mundos, onde nem mesmo o tempo seguia da mesma forma, A Luz permanecia em silêncio.
Seu brilho atravessava o lugar inteiro. Não havia chão. Não havia céu. Apenas aquele oceano infinito de cercado de luz que continuava viva.
E então…
ela sentiu.
A escuridão havia mudado.
Por um instante, o brilho ao redor daquele lugar vacilou levemente, como uma chama atingida por um vento distante.
O silêncio permaneceu por algum tempo.
Até que uma voz ecoou suavemente entre a própria luz:
— Ele começou a se mover outra vez.
Nenhuma resposta veio imediatamente.
Apenas fragmentos de brilho atravessando lentamente a escuridão, como pensamentos antigos tomando forma.
— Os mundos estão sentindo.
— O medo voltou a atravessar a existência.
A Luz permaneceu imóvel diante do vazio.
E ao longe… a escuridão parecia respirar.
Não como vida.
Mas como algo desperto.
Algo consciente.
O brilho daquele lugar tornou-se mais intenso por um breve instante.
— O Guardião caiu.
As palavras atravessaram o silêncio como uma lembrança dolorosa.
— Mesmo assim… ele permaneceu até o fim.
— Como todos os outros.
— Não.
A Luz enfraqueceu levemente ao redor.
— Não como os outros.
Então outra voz surgiu entre o brilho:
— Ele o viu chegando… e ainda assim ficou.
— Porque ainda existia esperança naquele lugar.
O brilho ao redor da Luz oscilou suavemente.
— O Esquecimento está diferente.
— Sim.
— Ele já não avança como antes.
O silêncio retornou.
E naquele instante, até mesmo eles pareciam observar a existência em inquietação.
Fragmentos de mundos atravessavam ao redor daquele plano. Pequenos ecos de memórias, vidas e histórias ainda resistindo ao apagamento absoluto.
A Luz observava cada uma delas.
Protegendo o pouco que ainda permanecia vivo.
— Quantos ainda resistem?
— Poucos.
— Quantos ainda lembram?
Nenhuma resposta veio imediatamente.
Porque até mesmo aquela pergunta parecia pesada demais agora.
O brilho ao redor diminuiu suavemente.
— E Samuel?
Pela primeira vez desde o início daquele silêncio…
A Luz pareceu mudar.
Não medo.
Não desespero.
Algo mais profundo.
Então uma presença suave percorreu o brilho daquele lugar.
— Ele continua.
A escuridão ao longe pareceu estremecer.
— Mesmo agora?
— Mesmo agora.
— Mesmo com o despertar?
— Principalmente por causa dele.
O silêncio voltou mais uma vez.
Mas agora… diferente.
Porque em algum lugar entre mundos esquecidos, ruínas consumidas e céus apagados…
a última centelha da existência ainda caminhava.
E eles sabiam.
O fim havia começado.
Mas Samuel também.
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