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Sancta Corrupta
Prólogo
730 palavras • 4648 caracteres • ⏱ 2 min 55 s

Prólogo

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Tereza acordou com a sensação de que algo\nestava errado.

Não foi o frio que a alertou primeiro,\nnem o cheiro úmido que se infiltrava em seus pulmões. Foi o silêncio. Um\nsilêncio pesado demais, artificial demais, como o que antecede uma tempestade\nou uma sentença.

Ela abriu os olhos.

O teto de pedra irregular surgiu acima\ndela, iluminado por uma luz trêmula que dançava como um erro. As sombras se\nmoviam devagar, projetadas pelas tochas presas às paredes da câmara\nsubterrânea. O ar era espesso, impregnado de terra, mofo e algo mais — um odor\nmetálico que ela só reconheceria tarde demais.

Tentou se mover.

A dor veio imediata.

Cordas grossas prendiam seus pulsos e\ntornozelos a um altar de pedra. Estavam apertadas demais, cravando-se em sua\npele com uma crueldade metódica, como se tivessem sido ajustadas com cuidado\npara não permitir fuga alguma.

O coração de Tereza disparou.

— Não... — murmurou, a voz fraca, como se\ntivesse sido arrancada de um sonho ruim. — Não... isso não...

Ela puxou as cordas, primeiro com\ncautela, depois com desespero. As fibras ásperas queimaram sua pele,\narrancando-lhe um gemido. As amarras não cederam. Apenas se apertaram mais.

Memórias emergiram em fragmentos\nconfusos.

O salão iluminado. Risos. Taças erguidas.\nSeu aniversário de vinte anos. O anel de noivado ainda pesado demais em seu\ndedo. O sorriso de Lucan, tão seguro, tão... amoroso. O jardim. A lua. O som de\npassos atrás dela.

Depois, nada.

— Alguém... — tentou chamar. — Tem alguém\naí...?

Sua voz ecoou fracamente pela câmara.

Então, passos.

Ela virou a cabeça com esforço.

Eles estavam ali.

Todos.

Seu pai, o Duque Marcellus Ironcliff,\nmantinha-se ereto, as mãos cruzadas às costas, o rosto austero como em uma\ncerimônia religiosa. Ao seu lado, seus irmãos observavam em silêncio. Algumas\nexpressões tensas. Outras... vazias.

Lucan estava um pouco atrás.

Não se aproximou.

— Pai...? — A voz de Tereza vacilou. — O\nque está acontecendo? Por que eu estou aqui?

O duque deu um passo à frente.

— Era necessário — disse ele, sem elevar\na voz. — Para o bem da família. Para o bem de todos nós.

As palavras demoraram a fazer sentido.

— Necessário...? — repetiu ela, confusa.\n— Pai, eu... eu não entendo.

Ela procurou desesperadamente por um\nrosto conhecido que lhe devolvesse alguma segurança.

— Lucan...? — chamou, a esperança se\nagarrando à última coisa que lhe restava. — Por favor, diga alguma coisa.

Lucan desviou o olhar.

Foi nesse instante que algo dentro dela\ncomeçou a ruir.

O cântico começou sem aviso.

Vozes graves entoaram palavras antigas,\ncarregadas de um peso que parecia comprimir o ar. As tochas tremularam\nviolentamente, projetando sombras distorcidas que se arrastavam pelas paredes\ncomo criaturas vivas.

O pânico tomou Tereza por completo.

— Não! — gritou. — Por favor! Eu fiz tudo\ncerto! Eu rezei, eu servi, eu obedeci!

Ela se debateu contra as cordas, a pele\njá marcada de vermelho e sangue. Seus olhos queimavam de lágrimas.

— Pai, por favor... — sua voz quebrou. —\nEu sou sua filha.

Marcellus a observava como se estivesse\ndiante de um objeto sagrado prestes a ser consagrado.

— O poder que busco está além da sua\ncompreensão — respondeu ele. — Sua morte é um preço aceitável.

Uma lâmina foi erguida.

O brilho frio do metal refletiu a luz da\nlua que se infiltrava por uma abertura no teto. O cheiro de incenso se\nintensificou, misturando-se ao medo.

Tereza começou a rezar.

Não em voz alta. Não como santa. Como uma\ncriança aterrorizada.

— Por favor... — sussurrou. — Deusa, por\nfavor... eu estou aqui...

Nenhuma resposta veio.

Então, uma voz diferente ecoou pela\ncâmara.

Grave. Antiga. Invisível.

— Ah... que oferenda rara.

O mundo pareceu prender a respiração.

— Uma alma tão pura... — continuou a voz,\nsatisfeita. — Há quanto tempo não me presenteiam com algo assim?

A lâmina desceu.

A dor foi imediata, brutal, roubando-lhe\no ar. O frio do metal atravessou seu peito, e algo escuro começou a se espalhar\npor dentro dela, drenando sua vida lentamente.

Tereza tentou gritar.

Não conseguiu.

Seus olhos, embaçados pelas lágrimas e\npela dor, percorreram uma última vez os rostos ao redor do altar. Procuraram\narrependimento. Horror. Amor.

Não encontraram nada.

Lucan continuava sem olhá-la.

Uma lágrima escorreu por seu rosto.

Quando o coração parou, o cântico cessou.

O silêncio retornou à câmara.

Tereza Ironcliff jazia imóvel sobre o\naltar de pedra. A Santa. O sacrifício perfeito.

— Que desperdício delicioso — murmurou a\nvoz invisível.

Em algum ponto esquecido do Império\nAureallis, uma jovem foi sacrificada.


A Santa que se doou para salvar a todos.\nE ninguém veio salvá-la.

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