As tochas avançavam pelo corredor subterrâneo do castelo real de Loren, iluminando as paredes de pedra intocadas por mãos humanas por séculos. O ar pesado e úmido, carregado com o cheiro de terra molhada.
O silêncio naqueles corredores era pesado, fúnebre. Alaric caminhava à frente do pequeno grupo, segurando um mapa aberto.
O pergaminho já estava gasto, as bordas quase desmanchando, mas as linhas desenhadas ainda eram legíveis o suficiente. Ele aproximou o mapa da tocha de um dos soldados e analisou as marcações mais uma vez antes de olhar para o corredor adiante.
— É aqui — disse em voz baixa, apontando para uma bifurcação no túnel.
Os soldados que o acompanhavam se aproximaram para observar melhor. Um deles levantou a tocha e iluminou a parede lateral, revelando pedras ainda mais antigas do que as que formavam o restante do castelo.
— Nunca pensei que viria até subterrâneo do antigo castelo vasculhar criptas antigas. Parecemos até um bando de saqueador de túmulos — comentou o homem da tocha.
O outro soldado cruzou os braços e olhou para o túnel escuro que seguia adiante.
— Ainda não entendo por que o general quer que a gente encontre essa passagem. Se ela ficou escondida por duzentos e cinquenta anos, talvez seja melhor continuar assim.
Alaric finalmente dobrou o mapa e o guardou dentro do casaco.
— Depois das últimas reformas no castelo, os engenheiros encontraram referências a túneis que não aparecem nos registros atuais. Esse mapa estava guardado nos arquivos antigos da biblioteca. O comando quer garantir que não exista nenhuma passagem que possa ser usada para entrar na fortaleza sem ser vista.
— Então estamos aqui para confirmar que um túnel morto continua morto? — resmungou o soldado.
— Exatamente.
Eles seguiram pela bifurcação indicada no mapa. O corredor parecia cada vez mais antigo à medida que avançavam. As pedras mudavam de tamanho e formato, encaixadas de maneira diferente da arquitetura mais recente do castelo.
— Essas paredes parecem estranhas. — comentou o homem da tocha.
— Essa parte é anterior à última grande expansão da fortaleza. — respondeu Alaric.
Ele parou diante de uma parede aparentemente sólida. As tochas iluminaram blocos de pedra perfeitamente alinhados, sem nenhuma indicação clara de passagem ou abertura.
— Segundo o mapa, a entrada está aqui.
O soldado arqueou uma sobrancelha.
— Aqui? Mas é uma parede.
Alaric passou os dedos lentamente sobre a superfície fria das pedras, procurando algo que talvez estivesse escondido entre as juntas.
— Depois da morte de Abner von Loren, essa passagem foi selada.
— O rei Abner? — perguntou um dos soldados. — Filho do tal Rei Tolo?
— O mesmo.
Alaric assentiu enquanto continuava examinando as pedras.
— Quando Abner morreu, os inimigos atravessaram as muralhas externas durante a invasão do norte. Houve caos dentro da fortaleza por alguns dias. Para evitar que os invasores chegassem até os túmulos da antiga família real, várias passagens foram escondidas ou destruídas.
O soldado da tocha franziu a testa.
— Então isso leva à cripta antiga?
— Leva.
Alaric encontrou uma pequena depressão entre duas pedras maiores. Era tão discreta que passaria despercebida para qualquer pessoa que não estivesse procurando exatamente por ela.
Ele pressionou o ponto com firmeza. Durante um segundo nada aconteceu, e o soldado ao lado chegou a soltar uma risada baixa. Mas então um estalo seco ecoou dentro da parede, seguido por um rangido profundo de pedra contra pedra. Poeira caiu do teto enquanto um dos blocos se movia lentamente para dentro da estrutura, revelando uma abertura estreita e escura.
— Meu Deus... — murmurou o soldado.
Além da abertura havia uma escadaria que descia em espiral, esculpida diretamente na rocha.
— A cripta antiga da família real — disse Alaric.
Ele pegou uma das tochas e começou a descer a escadaria. Os outros o seguiram. A descida foi longa. Quando finalmente chegaram ao final da escadaria, o espaço se abriu em uma grande câmara subterrânea sustentada por colunas grossas de pedra escurecida.
A luz das tochas revelou fileiras de sarcófagos alinhados contra as paredes. Cada um era feito de pedra esculpida e decorado com símbolos reais. Estátuas de reis e rainhas repousavam sobre as tampas dos túmulos, algumas quebradas, outras intactas, todas cobertas por uma fina camada de poeira acumulada ao longo dos séculos.
— Então é verdade — disse um dos soldados. — A cripta antiga ainda existe.
Alaric caminhou lentamente entre os túmulos. Ele observava as inscrições com atenção, lendo os nomes de governantes e datas que pertenciam a uma era anterior ao castelo que existia hoje sobre suas cabeças.
No centro da câmara havia algo diferente. Um pedestal, muito mais simples do que os túmulos ao redor.
Sobre o pedestal repousava um objeto.
Uma caixa.
Ela era feita de metal escuro e estava envolta por correntes presas a pequenos selos de ferro. Símbolos estranhos haviam sido gravados na superfície da tampa, formando padrões que nenhum dos homens reconhecia.
A chama da tocha tremulou quando Alaric se aproximou. O soldado atrás dele franziu o cenho e inclinou levemente a cabeça, como se tentasse ouvir algo melhor.
— Espera… — murmurou o homem.
Alaric parou a poucos passos do pedestal.
Então um sopro de ar frio atravessou a câmara, fazendo as chamas das tochas oscilarem novamente. O som que veio junto com aquele vento era tão fraco que poderia facilmente ser confundido com o eco distante das pedras. Ainda assim, os três homens trocaram olhares ao mesmo tempo.
— Você… ouviu isso? — perguntou o segundo soldado.
— Pareceu uma voz — respondeu o primeiro, hesitando.
Alaric continuou olhando para a caixa.
O som havia sido quase impossível de compreender. Ainda assim, uma impressão estranha permaneceu na mente dele. Algo sussurrado baixo.
"Afaste-se."
O soldado atrás dele apertou o punho ao redor da tocha.
Alaric não reagiu. Ele estava olhando para a caixa com atenção. Havia algo nela que parecia errado. Tudo naquela cripta estava coberto por poeira, mas o metal da caixa parecia relativamente limpo.
— Estranho — disse o soldado.
Alaric estendeu a mão lentamente. Por um breve instante hesitou, uma sensação incômoda de que aquele objeto não pertencia àquele lugar. Mesmo assim, sua curiosidade falou mais alto. Seus dedos tocaram a superfície fria da tampa.
No mesmo instante um arrepio percorreu sua espinha.
Ele retirou a mão lentamente.
— Capitão… — disse um dos soldados em voz baixa.
Alaric virou-se.
— O que foi?
O homem estava olhando para a escuridão no fundo da cripta, além das colunas.
— Você ouviu isso?
Alaric ficou imóvel por alguns segundos.
Ele voltou a olhar para a caixa.
E naquele momento percebeu algo que o incomodou ainda mais. Um dos soldados virou a cabeça para o fundo da sala e estreitou os olhos.
— Ei… — disse em voz baixa.
Alaric também olhou naquela direção.
Entre duas fileiras de túmulos, algo parecia ter se movido. Talvez fosse apenas as sombras criado pelas tochas, mas por um momento elas pareceram deslizar de um sarcófago para outro como se tivessem vontade própria.
— Você viu isso? — perguntou o soldado.
O outro homem levantou a tocha mais alto e deu alguns passos para frente, tentando iluminar melhor o espaço entre as colunas de pedra.
— Provavelmente rato — disse.
Alaric não respondeu. Seus olhos percorriam lentamente o fundo da câmara, além da linha de sarcófagos onde a luz das tochas mal chegava. Por um único instante ele teve a impressão clara de que havia alguém ali, parado entre as sombras. Um vulto, imóvel, envolto em algo que lembrava um manto escuro. O rosto não era visível, apenas a forma de um capuz que parecia encarar diretamente para ele.
Então a chama da tocha oscilou novamente.
E a figura desapareceu.
Alaric piscou algumas vezes, tentando focar novamente no mesmo ponto, mas não havia nada ali além de pedra e escuridão antiga.
— Capitão? — chamou um dos soldados.
Ele desviou o olhar.
— Nada — respondeu depois de um momento. — Só uma sombra.
O homem da tocha soltou o ar pelo nariz e deu de ombros.
— Seja o que for, acho que já vimos o suficiente por hoje. Essas criptas ficaram esquecidas por duzentos e cinquenta anos. Podem esperar mais um pouco.
O outro soldado concordou com um aceno.
— E se demorarmos muito, a cozinha fecha. Depois não adianta reclamar do pão duro.
Alaric permaneceu olhando para o pedestal. A caixa continuava ali, as correntes presas em torno dela fazia ele hesitar em remove-la.
Ele se aproximou.
Então segurou o objeto com cuidado. O metal frio e pesado para algo daquele tamanho.
— Vamos voltar — disse por fim.
Quando a luz das tochas desapareceu na espiral da escada, a cripta voltou ao silêncio.
Alguns segundos depois, uma das correntes que selavam a caixa escorregou lentamente do pedestal e caiu no chão de pedra.
Um lamento baixo ecoou, vindo do fundo da cripta.

