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Notas Finais de Elizabeth Prudence
Elizabeth 🩷🧸 — 02
2144 palavras • 13041 caracteres • ⏱ 8 min 35 s

Elizabeth 🩷🧸 — 02

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— Compra duas.  


— Compra quatro. 


— Oito.  


— Bloqueio.  


— ...sua desgraça- 


Uma risada escapou de meus lábios enquanto ouvia o protesto de Lyan. Ele nunca foi bom jogando UNO, ou talvez não tivesse sorte o suficiente com as cartas.  


Observava ele murmurar alguns xingamentos enquanto pegava as cartas extras com certo desdém. Eu não era sádica ou algo parecido, mas era difícil não sorrir quando ele fazia aquela cara de bravo que mais parecia um esquilo com a boca cheia de nozes.  


Lyan e eu nos conhecíamos desde o terceiro ano do ensino fundamental. Eu o considerava como um irmão mais novo, apesar de ser alguns meses mais velho que eu. Ele tinha um jeito de menino mimado quando queria, apesar de sua aparência dar o ar de um garoto completamente diferente.  


Lyan era alto, tinha quase um e oitenta de altura com apenas quinze anos de idade, o que me assustava de certa forma, mas ao mesmo tempo invejava. Quem me dera ter uma genética tão boa quanto a dele.  


Tinha os cabelos pretos mais sedosos e brilhosos que já vi, isso sem contar com seus olhos cor castanho claro — uma cor semelhante ao mel — que fariam qualquer um parar para admirá-los. Seu corpo era visivelmente definido, por mais que ficasse escondido por baixo das roupas largas que ele normalmente usava. Costumava zombar de sua cara dizendo que o fazia parecer um morador de rua, mas com o passar do tempo, ele apenas ria da "chacota".  


Sentia faltar de caminhar com ele todo dia para ir para a escola, de jogar videogame na casa dele e de passar horas vendo todo tipo de filme enquanto corríamos risco de morrer de pressão alta ou de diabetes pela quantidade de porcaria que comíamos.  


Daria tudo por apenas um daqueles dias novamente.  


— Não adianta resmungar, você perdeu — Tomei as cartas de sua mão e as embaralhei antes que ele pudesse reclamar sobre eu "estar trapaceando" de alguma forma. Tínhamos jogado apenas quatro rodadas e ele conseguira triplicar o número de cartas que tinha no início em menos de quinze minutos.  


— Com você trapaceando fica fácil — Lyan colocou a mão no queixo, claramente irritado com o fato de não ser bom jogador de UNO. É sério que ele não percebia que fazia biquinho quando ficava bravo? 


— Você realmente não sabe perder, hein — Revirei os olhos. Era difícil não se entreter com a atitude infantil de Lyan. Ele tinha um porte de homem a ser carregado, mas quando se conhece ele tão bem quanto eu, percebe-se que ele não passa de uma criança birrenta — Vamos mais uma rodada?   


— Só mais uma, mas antes... — Lyan olhou ao redor do quarto de hospital, verificando se havia alguma enfermeira ou médico por perto. Assim que confirmou que estávamos sozinhos, pegou sua mochila e tirou uma caixa retangular de metal, onde costumava guardar peças de dominó, e abriu. Dentro dela estava cheio de docinhos de festa, indo de trufas de chocolate até empadinhas com recheio de limão.  


Meus favoritos.  


— Espero que a comida do hospital não tenha estragado seu paladar — Ele disse com um breve sorriso, pegando minha mão e colocando uma das trufas.  


Encarei a doce por alguns segundos. Não me leve a mal, eu adorava doces, ou melhor, amava doces. E tinha medo de que, caso mordesse logo, aquele mísero momento de prazer fosse se esvair de minhas mãos.  


Depois de tanto tempo sozinha, você passa a se apegar até mesmo a menor demonstração de carinho vinda de alguém que ama.  


— Vai derreter antes mesmo de você comer, se continuar assim — Lyan pegou um dos bombons de dentro da caixa e o colocou na minha frente, olhando para mim com uma cara de quem espera por alguma coisa.  


— O que? Ah, sim — Encostei minha trufa na dele, como se fossem duas taças fazendo um brinde.  


— Tim tim.  


Comemos as trufas ao mesmo tempo, deixando que o chocolate derretesse na língua. Ainda lembro de quando brindávamos nossos doces quando éramos crianças, fingindo que eram taças de vinho iguais a de nossos pais. Já que não podíamos beber álcool, tivemos de encontrar outra solução.  


Nos encaramos por alguns segundos e sorrimos simultaneamente um para o outro com a lembrança dos velhos tempos. Nós não precisávamos dizer nada, sabíamos que estávamos pensando a mesma coisa. Rimos, até.  


Lyan era fanático por doces. Ou melhor, é fanático por doces. Lembro-me vividamente dele acabando com a boca completamente suja de granulados e cobertura de bolo depois de alguma de suas festinhas de aniversário. Ele sempre roubava os docinhos antes dos parabéns, e costumávamos dividir quando ninguém estava olhando.  


Ele já estava no terceiro bombom quando terminei o meu. Acho que seu corpo se acostumou a operar com elevados índices de açúcar no sangue. Como ele ainda não havia pegado uma diabetes?  


— Achei que o intuito era compartilhar.  


Lyan olhou para mim com olhos que diziam "eu não fiz nada", como se tentasse fazer com que sentisse pena dele por não conseguir controlar seu desejo por açúcar.  


Bestão.  


— Não funciona comigo, esqueceu? — Dei um tapa atrás de sua cabeça, e a Drama Queen deixou que ela caísse no colchão. Eu estava sentada em cima da cama enquanto Lyan se contentava com um daqueles banquinhos super desconfortáveis de hospital, aqueles tradicionais de fila de espera.  


Revirei os olhos, dando uma puxadinha nos fios de cabelo do suposto defunto. Por fim, ele levantou a cabeça e apoiou o queixo em uma das mãos, o olhar fico no meu.  


— Eu não comi tudo, comi? Deixei alguns para você.  


— Claro, se eu não tivesse te impedido, você estaria mastigando os lençóis da minha cama agora! 


— Eu não sou tão idiota! Se bem que se tivesse gosto de chocolate...  


— Você não vai comer meus lençóis! 


Ele fez um biquinho por alguns segundos. Apenas por alguns instantes, antes de se desmanchar em um riso fraco. De repente, senti a mão de Lyan se entrelaçar com a minha, e seu polegar gentilmente acariciava a parte de trás dela.  


Se não o conhecesse tão bem, diria que vi lágrimas se formarem em seus olhos. Ele virou a cara, como se o gesto fosse despistar minhas preocupações. Senti-o apertar minha mão um pouco mais forte, e ouvi palavras proferidas em um tom tão baixo que pareciam súplicas. Se é que não eram.  


— Lizzy, por favor, fica bem logo — Eu pude ouvir sua voz trêmula.  Detestava vê-lo tentar esconder sua tristeza de mim, e para piorar, saber que eu era o motivo dela.  


Apertei a mão de Lyan de volta, passando a outra mão por seu cabelo com o toque mais suave que pude transmitir. Ah, agora sim ele estava chorando. Que maravilha.  


Não, eu não iria repreendê-lo por estar colocando suas preocupações e pensamentos para fora. Ele não é uma máquina sem sentimentos, era apenas um garoto com saudades da melhor amiga.  


Ah sim, as saudades. Morra ou viva por elas, é claro! E neste caso, eu era responsável por estar matando meu melhor amigo. Meus parabéns, "Lizzy".  


— Eu vou ficar bem, eu prometo — Ambos sabíamos que era mentira. Eu odiava mentiras, e odiava ter que admitir que precisávamos delas para nos mantermos sãos. — Vou melhorar logo, você vai ver. Assim que sair daqui vamos poder ir aonde quisermos e tomar todos os sabores de sorvete que pudermos ingerir.  


Pensei que a mera menção de qualquer comida com a mínima gramagem de açúcar em sua composição seria o suficiente para distrai-lo daquele estado de remorso e depreciação, e infelizmente estava completamente enganada. Eu o conhecia de verdade? Ou só não sabia medir o quanto ele me amava para não fingir emoções que não o pertenciam apenas para "apaziguar" a situação? 


 Lyan parecia se arrepender de todas as vezes que não pode me visitar em casa quando faltava a escola por estar doente, fosse por uma gripe ou um resfriado que não durava mais que um dia. Meu peito doía só de ter que ver a pessoa mais feliz que conhecia completamente abalada, destroçada em mil pedacinhos. Tudo por minha causa. 


Tive vontade de tomá-lo em meus braços, de agarrá-lo e segurá-lo por quanto tempo fosse preciso para que ele acalmasse toda aquela agitação dentro de si, mas ele foi mais rápido que eu. Convivemos tanto tempo juntos que praticamente líamos a mente um do outro.  


Senti seus braços se enrolarem ao redor da minha cintura, e sua cabeça descansar sob meu ombro. Podia ouvir alguns pequenos soluços e fungados abafados, iguais aos de uma criancinha ao perder seu brinquedo favorito. Afaguei seus cabelos com a maior delicadeza que pude transmitir, e em troca ele apertou o abraço. Segurava-me tão forte que não era capaz de soltar sozinha – provavelmente precisaria da ajuda de outras duas ou três pessoas para fazê-lo —, e ainda sim parecia ter medo de aumentar a força, como se eu fosse uma bonequinha de porcelana extremamente frágil que pudesse quebrar a qualquer momento.  


Bem, não estava longe disso. 


-- Lizzy... -- disse Lyan com a voz trêmula. -- ... deixa eu continuar sendo seu melhor amigo, por favor. 


Meu coração parou por um segundo. O peso de suas palavras me acertou como um soco diretamente no estômago. Ele não implorava por minha amizade, e sim por minha vida. Quis vomitar, mas não de desgosto – bom, talvez um pouco de mim —, mas de repúdio. Mataria qualquer um que fizesse Lyan chorar daquela maneira, mas o que fazer quando meu pior inimigo é quem ele mais almeja amar, ou melhor, continuar amando?  


— Você sempre será meu melhor amigo, Lyan – Uma maldita lagrima escorreu de meu rosto, e minha voz fraquejou por um momento. — E eu amo você. 


Ele soluçou. Algo parecido com "Eu também te amo" foi pronunciado contra meu ombro.  




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Era por volta de oito da noite. Lyan havia ido embora fazia apenas algumas horas, depois das enfermeiras terem que insistir para que ele me largasse e compreendesse que o horário de visitas tinha acabado.  


Bem, pelo menos ele me visitou.  


Pensei comigo mesma, um sorriso fraco surgindo em meu rosto enquanto usava um garfo para remexer minha janta pela quarta vez. Eu não estava com fome, talvez por causa dos doces, ou apenas por causa do desânimo. Não que eu gostasse de desperdiçar comida, muito pelo contrário! Costumava raspar o prato com tremendo gosto, comeria até mesmo os talheres se fosse possível. Porém, aquela não era a comida caseira que tanto amava. As batatas estavam pastosas, o arroz sem gosto e o bife estava duro. Em circunstâncias diferentes, teria repetido o prato duas ou três vezes, mas aqui? Tudo parecia ter gosto de plástico ou coisa parecida, poderia estar sendo fresca, mas nenhuma daquelas refeições se igualavam a comida de Sarah ou Madeline. Ou sequer de minha mãe.  


— Mamãe... — Suspirei, tentando controlar outra crise choro. — Pode fazer bolinhos de chuva hoje? — Murmurei a tal frase que tanto repetia quando criança, como se mamãe estivesse a meu lado.  


Comi duas garfadas antes de jogar o resto da comida fora. Sim, eu sabia que era falta de respeito, mas até mesmo as enfermeiras já haviam se acostumado com esse hábito meu. Provavelmente sabiam que já não tinha disposição para acordar e sequer realizar os mesmos monótonos e redundantes exames. 


Olhei ao redor do quarto de hospital, e na cômoda próxima a minha cama havia um presente que Lyan havia deixado lá mais cedo. Estávamos tão envoltos nas brincadeiras e nas demais coisas que acabei não reparando. 


Era uma embalagem rosa com estampas de coelhinho nela, e um pequeno bilhete escrito à mão:  


"Quando se sentir sozinha, saiba que estarei sempre a seu lado." 


Abrindo a embalagem, revelava-se uma raposinha de crochê extremamente bem-feita. Nunca tinha visto uma técnica de tamanha precisão e perfeição, e analisando o bichinho, notei que outro bilhete caiu de suas costas. 


"Era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu a tornei minha amiga. Agora ela é única no mundo."                                                                 — O Pequeno Príncipe. 


Não pude me conter. Abracei a raposinha com toda a força que me restava, encharcando-a com as lagrimas. Pobrezinha, mal "nasceu" e já estava sendo bombardeada com emoções de uma menina carente. Carente de um amigo. 


"Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas."  


A frase ressoou em minha cabeça. Chorei até adormecer naquela noite.

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