Entrei em meu carro assim que saí daquele maldito hospital.
Só de pensar que Elizabeth estava desperdiçando os anos da mocidade em um ambiente tão mórbido e repleto de enfermidades como aquele era o suficiente para me deixar doente. Inclinei a cabeça sob o volante do carro, soltando um suspiro que no fim se mesclara com a angústia que sentia, ou reprimia, dentro mim.
Eu tinha de ser forte. Mas com quem poderia desabafar? A morte de Lindsay levou um pedaço de mim consigo, e só de pensar no que poderia ocorrer caso Elizabeth...
Senti minha garganta fechar. Uma dor insuportável percorria todo o caminho de meu peito até a região de epiglote. Ficava cada vez mais difícil de respirar, tentava puxar ar para meus pulmões, mas algo parecia me impedir de fazer qualquer tipo de movimento. Estava paralisado, enfim.
Mais uma daquelas crises de ansiedade, tudo o que precisava.
O mundo a minha volta escurecia à medida que os segundos passavam diante de meus olhos. Começava a perder a consciência de meus próprios sentidos: minha visão estava turva, meus ouvidos só ouviam um zunido incessante, e não conseguia sentir o volante do carro em minhas mãos.
Magnus, você precisa lutar.
Uma voz ressoou de dentro de minha cabeça, e foi o suficiente para me acordar daquele estado terrível de transe. Puxei o máximo de oxigênio que pude, antes e soltar uma tosse agarrar o remédio mais próximo que tinha de mim. Acabei tomando sem um gole d'agua, desesperado demais para pensar na hipótese de morrer asfixiado com um comprimido grande o suficiente para ficar travado em minha garganta.
Engoli a seco. Aquilo não era nada comparado ao que estava disposto a aguentar ou sacrificar pela única pessoa que ainda me restava naquele mundo mesquinho e sujo. O comprimido se dissolveu parcialmente em minha boca, deixando um gosto amargo e repugnante para trás, transformando minha expressão em uma careta.
-- Que gosto horrível... - Resmunguei comigo mesmo. Eu sabia que, lá no fundo, Elizabeth estaria decepcionada, pois havia prometido para ela que cuidaria melhor de minha saúde, e sabia o quanto detestava mentiras e falsas promessas.
Perdoe-me, minha filha.
Era complicado voltar para casa. Não porque eu confundia o caminho ou a estrada ficava escura demais a noite, mas por saber que assim que chegasse lá a única coisa que estaria me esperando seria uma pilha de papéis e reuniões incessantes até tarde da noite.
Estava cansado de ter que arcar com a irresponsabilidade de meus colegas de trabalho, que sempre reclamavam por não terem clientes o suficiente, mas não faziam o mínimo para sequer mover a bunda da cadeira. Eles pensam que coisas assim caem do céu? Não sabem sequer o que esforço de verdade significa. Não sabem o que é ter um motivo para levantar da cama todos os dias e dar o seu melhor por mais que tudo esteja dando errado. Não sabem o que é se sacrificar por alguém que você daria o mundo e mais um pouco para ter a seu lado nem que fosse por alguns minutos.
Não sabem o que é ter de se agarrar a uma mísera faísca de esperança para não sucumbir à loucura.
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Fui diretamente ao meu quarto assim que cheguei em casa. Ou deveria dizer, escritório. Já não era mais um local onde podia descansar e esvaziar minha mente, mas sim ocupá-la com cada vez mais preocupações e estresse.
Uma parte de mim me repreendeu por nem sequer cumprimentar as diaristas, Sarah e Madeline, que se sacrificavam tanto para manter o ambiente em ordem quando chegasse. Apenas porque as pagava uma certa quantia para realizarem determinado serviço não significava que possuía o direito de as menosprezar como se fossem meras agregadas.
Elas ainda eram parte da família. Viram Elizabeth crescer assim como eu e Lindsay, ensinaram-na a ler e a escrever quando era apenas uma menininha, ajudavam-na com o dever de casa e a vestiam para festinhas da escola ou de aniversário. Lembrava-me vividamente da alegria de Elizabeth enquanto faziam penteados em seu cabelo, e da maneira delicada de como o escovavam e cuidavam para que estivesse perfeitamente hidratado e saudável.
Além disso, não me lembro de um dia sequer em que a casa estivesse desarrumada ou o café da manhã não estivesse pronto à mesa quando acordássemos. Tudo era sempre ministrado com a maior cautela possível para que nos sentíssemos confortáveis em nossa própria casa. Nada nunca nos faltou, e tudo graças àquelas duas mulheres.
Eu sabia muito bem que estava sendo ingrato naquela hora, mas sentia como se minha mente fosse explodir caso não tirasse nem que fossem cinco minutos para respirar e colocar tudo nela em ordem.
A escrivaninha se tornou o local de apoio para reuniões profissionais, e não onde realizava leituras diárias para desopilar. Doía ver os livros que tanto amava ler e apreciar completamente jogados de lado ou enterrados por uma pilha de documentos e outros tipos de arquivos. Quanto tempo fazia desde que não limpava aquela bagunça? Talvez algumas semanas? Ou talvez alguns meses? Ora bolas, nem sequer lembrava o que havia comido no café da manhã!
Joguei-me na cama assim que entrei, afundando meu corpo no colchão e deixando que o breve conforto tomasse conta dele. Por alguns minutos, eu poderia parar de me preocupar com aquele turbilhão de pensamento que assombravam minha cabeça.
Fechei meus olhos e esfreguei o rosto com as mãos, esperando que o gesto fosse milagrosamente me livrar de todo o sofrimento e angústia da situação. E pasmem, não funcionou.
—Talvez um banho possa ajudar... —Murmurei comigo mesmo, sabendo que não tinha mais disposição para levantar.
ROOONC.
E como se não pudesse piorar, eu estava com fome. Eu não tinha comido nada desde a hora do almoço, provavelmente por não ter sentido necessidade de comer, ou apenas por ter esquecido. De fato, eu vinha esquecendo das coisas muito mais frequentemente do que costumava antes, o que é estranho pois costumava ter uma excelente memória.
Talvez seja por isso que recentemente venho escutando comentários de Sarah sobre como estou ficado cada vez mais magro. Admito que acabo não percebendo, ou até mesmo não ligando, mas sou grato a ela por tomar a precaução de sempre aumentar um pouco a quantidade de comida em meu prato quando faço refeições em casa.
A lembrança fez surgir um pequeno sorriso em meu rosto sem que percebesse, o que me deu energia o suficiente para finalmente tomar um banho. Havia me esquecido do quão relaxante era sentir a água passando pelo seu corpo, como se lavasse todos os problemas e tristezas para fora de você, acalmando a alma e afastando todos os pensamentos negativos que pudessem surgir.
Depois de um dia exaustivo, não tinha noção do quão revigorado iria me sentir após lavar os cabelos e trocar de roupa, aquele terno realmente pinicava. Abri meu guarda-roupa e peguei a blusa que Elizabeth havia me dado alguns anos atrás de Natal – uma camisa preta com uma estampa do Pink Floyd. Era minha banda favorita quando era menino, e eu costumava colocar algumas músicas deles no carro quando iria deixá-la na escola.
— Bons tempos... — Tentava não ficar emotivo toda vez que pensasse em minha filha ou em minha falecida esposa, mas era praticamente impossível não se sentir solitário naquela casa. Uma casa repleta de mobílias não se compara a uma residência em que o amor emana de todos os cantos dela.
Peguei a calça moletom mais confortável que tinha, e enquanto me vestia, sentia o cheiro de comida de panela recém feita vinda da cozinha.
Sarah e Madeline, muito obrigada.
Desci até o andar debaixo e me deparei com a mesa da sala de jantar servida com uma de minhas combinações favoritas: arroz branco, batata assada e bife ao molho madeira.
Ainda estava um pouco pasmo com a gentileza daquelas duas mulheres, antes de lhes agradecer e as convidar a apreciar a refeição junto de mim à mesa. Elas sempre foram muito prestativas, como duas irmãs mais velhas tomando conta do resto da família.
Logo na primeira garfada consegui perceber a qualidade dos ingredientes, a batata estava fresca, o arroz acabara de ser cozinhado e a carne estava macia e bem temperada. Uma onda de gratidão preencheu meu corpo, eu não podia acreditar no quão sortudo era.
-- Vocês se superaram essa noite. Digo, a comida está sempre uma delícia, mas adorei o que fizeram com as batatas e o bife. Está divino!
Sarah sorriu para mim, trazendo a panela com as batatas assadas para mais perto de mim.
— Coma o quanto o senhor quiser, você merece.
— Vocês são muito gentis comigo. Não sei se algum dia poderei retribuir o favor...
— Ora, o senhor já fez e faz tanto por nós! O mínimo que poderíamos fazer seria uma janta meramente adequada — Madeline respondeu, apontando para a comida servida a mesa.
Parei um momento para refletir enquanto terminava meu prato. Apesar de não termos laços consanguíneos, tratávamos uns aos outros como se fôssemos parte de uma mesma família.
Passei tanto tempo envolto em meus próprios pensamentos que havia esquecido o quão importante é aproveitar os momentos bons com quem realmente merece e se importa conosco.
Olhei para a o bife, o arroz e a batata. E de repente, senti meus olhos lacrimejarem.
— Elizabeth, as batatas estão macias, que nem você gosta...
Deixei que a emoção tomasse conta de mim. Senti ambas as mãos de Sarah e Madeline sobre meus ombros, acariciando-os levemente, e permiti que me sentisse humano de novo.
Naquela noite, entendi o real significado de morrer de saudade.

