Emile Rose; filha amada e bondosa.
Era o que estava escrito na lápide.
Trovões e relâmpagos troavam a meu redor, o céu estava completamente coberto por nuvens carregadas de água e que ameaçavam encharcar todos ali.
Meu guarda-chuva já não era suficiente para me proteger. O ar frio batia em minhas costas com certa violência; podia sentir um arrepio subir em minha espinha dorsal enquanto observava os coveiros cobrirem o caixão com camadas e camadas de terra.
Eu não entendia o motivo do luto, por mais que estivesse usando um daqueles vestido de babados preto e um véu sob minha cabeça que eram as adequadas vestimentas para esta ocasião.
Nem sequer sabia se me importava com a morte da tal garota, mas quando todos a sua volta estão emotivos ou à beira das lágrimas fica difícil não ser influenciado.
A mão de minha mãe se estendia sob meu ombro e o acariciava com carinho, como se estivesse tentando me confortar pela perda de um ente querido. Seu toque era frio como a pele daquela que falecera, embora aquecesse meu coração.
— Vai ficar tudo bem, querida. Estamos aqui com você. — Mamãe me puxou para mais perto, pressionando um suave beijo em minha cabeça.
Sentia vontade de lhe perguntar oque estaria acontecendo naquele cenário, mas a saudade acumulada dentro de mim não me permitia o dom da fala. Há anos que não ficava tão próxima de minha mãe, e não estragaria circunstância tão preciosa e rara por meras dúvidas que iriam se esclarecer mais tarde.
Não é?
*—**—*
Poucas horas depois, acordei. Meus olhos procuravam, confusos, quaisquer sinais do possível enterro que havia presenciado.
Nenhum sinal do vestido, do véu ou até mesmo de minha mãe. Apenas quando reparei apropriadamente no cenário a meu redor foi quando tudo se esclareceu: era apenas um sonho. De novo.
Ah, claro. Mais um daqueles sonhos esquisitos. Já estou ficando cansada disso.
Eu não tinha oportunidade nem de frequentar a escola, quanto mais sair desta porcaria de hospital para ir a um enterro de alguém que não conheço. Ou conhecia? Não me lembro.
Papai disse que a doença poderia afetar algumas partes do meu cérebro, mas não acredito que tenha chegado a um ponto onde minha memória tenha sido corrompida. Sempre fui boa em lembrar das coisas, especialmente datas e acontecimentos específicos.
Talvez seja por isso que gosto tanto de história. Nas tardes de domingo, quando Connor, meu tutor da tal matéria, vem me ensinar sobre Grécia ou Mesopotâmia, consigo interligar as datas de cada acontecimento específico ao que ele está me explicando. De vez em quando, me elogia pela minha facilidade em aprender, e o escuto falando de mim para papai. Não vou mentir que não fico feliz em observar seu semblante, que carrega uma expressão preocupada e apreensiva a maior parte do tempo, suavizar nem que seja por apenas alguns instantes.
Assim como seu sorriso, seu nome também era encantador: Magnus. Tentei chamá-lo assim uma vez, mas ele riu e disse que deveria me referir a ele apenas como 'papai', como forma de respeito. Senti-me um pouco incomodada já que escutava Lindsay, minha mãe, o chamar daquela maneira o tempo todo. Mas oque esperar? Tinha apenas 5 anos de idade, seria estranho manter esse nível de formalidade entre família.
Posso dizer que os anos mais felizes de minha vida foram dos meus quatro até meus sete anos de idade. Foi o período em que meus pais estavam mais presente em minha vida, vivíamos saindo para fazer piqueniques e para passear na pracinha da cidade em que morávamos. Lembro de me empanturrar com os maravilhosos bolinhos de chuva que cozinhávamos juntos, e da maneira como a risada de papai parecia aliviar todos os problemas do mundo nem que por um apenas alguns minutos. Ele vivia enfurnado no trabalho, chegava em casa exausto e mal tinha forças para trocar uma palavra sequer comigo ou com mamãe — que frequentemente reclamava sobre ele se sobrecarregar demais. Por mais que pequena, não era uma criança boba. Sempre notara o tom arrastado em sua voz ao tentar proferir quaisquer palavras a mim, oque apenas evidenciava o quão desgastado meu pai estava.
Mamãe também vivia ocupada, era uma mulher de mão cheia. Nunca parava quieta e a todo momento parecia estar fazendo algo diferente, fosse lendo um livro, costurando os vestidos de minhas bonecas ou me ajudando com a lição de casa. A cada momento que passava com ela, entendia um pouco mais do porquê meu pai havia se apaixonado por aquela mulher — quem não iria? Provavelmente um louco! Minha mãe era a pessoa mais paciente que conhecia, juntamente com a mais carinhosa, isso tudo sem contar com suas incríveis habilidades culinárias. Ah, que saudade de suas tortas de maçã! Eram as únicas que podiam me animar depois de um dia exaustivo — mas apenas por terem sido feitas com tanto amor e carinho.
— Elizabeth?
Minha linha de pensamento fora quebrada por uma voz do mundo exterior, provavelmente passara tanto tempo divagando em meus próprios pensamentos que nem sequer notei a presença de papai ali. Virei a cabeça por um instante e ali ele estava: ainda vestido com o terno do trabalho e o cabelo moreno, levemente grisalho, completamente bagunçado. Teria rido se não fosse falta de respeito.
Papai se aproximou de mim, me deu um abraço e um beijo na testa, do mesmo jeito que fazia quando era pequena. Senti falta disso.
— Como você está se sentindo? Ainda está fraca ou tonta? Posso pegar um copo de água, se você quiser...
— Pai, eu estou bem. Não há nada com que se preocupar — Tentei consola-lo com um sorriso. Mas eu conhecia meu pai, e ele não iria acalmar enquanto não se certificasse completamente de que eu estava bem.
— Está comendo direito? Parece mais pálida que antes.
— É apenas a luz do quarto, pai. Já lhe disse que não há nada com que se preocupar. Eu estou bem.
Só pela expressão dele, eu já sabia que ele não confiava em nada do que havia dito. Mas não o culpo, desde a perda da mamãe, ele vem dedicando suas preocupações cada vez mais a mim, e por isso tenho tanto medo que isto acabe prejudicando-o em seu trabalho. Seu único defeito era querer que todos a quem ama não sofressem — mesmo que acarrete em seu próprio.
— Sim, sim... me desculpe — Ele passou uma das mãos pela raiz couro cabeludo - sempre fazia isso quando estava com dor de cabeça ou enxaqueca. Papai não queria deixar transparecer, mas era um completo suicida — Não queria lhe importunar, deve estar cansada, não é?
Cansada de ficar nesse lugar o dia todo? Talvez. Mentalmente abalada ao ponto de estar à beira de uma grave dependência de remédios que nem você? Não.
— Cansada de ficar longe de ti, isso sim!
As sobrancelhas de meu pai ergueram-se por alguns segundos, antes de sua face suavizar e seus lábios difundirem-se em um fino sorriso.
Ele riu.
Estava com saudades disso.
Senti-o passar a mão pela minha cabeça, exatamente da maneira como fazia quando era apenas uma criancinha. Ah, os dias inocentes e despreocupados! Agora memórias tão preciosas e distantes...
Sabia que papai fazia tudo aquilo apenas para me ver bem, exauria-se mais e mais a cada dia que passava, acreditando que todo aquele esforço seria recompensado em meu bem-estar.
Odiava que fosse tão altruísta e egoísta ao mesmo tempo. Importava-se mais com as saúde dos que estavam a sua volta do que com a própria, e este ato de negligência me enfurecia.
Mamãe tinha razão quando disse que o maior pecado desse homem era amar demais.
— Assim que receber alta, prometo que não iremos desgrudar um do outro, ok?
Eu só podia concordar. Não queria deixá-lo ainda mais triste ao insistir na dura realidade em que estava, sem nenhuma garantia de que iria sair daquele hospital tão cedo. Possuía a mesma chance de melhorar em alguns meses ou de morrer em duas semanas.
— Mas para isso você precisa estar vivo, então trate de descansar!
— Querida, você se preocupa demais...
— E o que me resta para me preocupar?!
As palavras saíram mais rápido do que pude processar, como se estivessem apenas esperando o momento certo para que fossem libertadas. Enrijeci ao notar que o sorriso antes presente na face de papai havia se esvaído como um sopro de vento. Ele me descrevia como uma benção, mas naquele momento era como a desgraça, que lhe trazia a tona os infortúnios e infelicidades da vida.
Em vão tentei justificar minha fala, dizendo que estava solitária e que as saudades eram tantas que mal me cabiam no peito, mas papai me interrompeu, consciente dos pensamentos que verdadeiramente me perturbavam.
— Tens saudades de tua mãe, não é?
Abaixei a cabeça. Há muitos anos não sentia tamanho constrangimento. Não havia um pingo de mentira em suas palavras, e isto era o que mais envergonhava-me.
Mamãe era minha companheira de todas as horas. Ela sempre esteve lá para me socorrer, fosse após um dia cansativo na escola ou em dias em que a terrível enferma tomasse conta de mim.
Em hipótese alguma ausentava seu serviço e o cedia a alguma criada, o orgulho e o afeto nunca lhe permitiriam tal ato.
Eu daria tudo para tê-la comigo de novo.
— Já dói demais só de pensar que a perdi, não posso perder você também.
Apenas me dei conta de estar chorando quando papai afagou minha bochecha com um dos dedos, limpando uma lágrima que acabara de cair de meus olhos.
— Eu sei, Elizabeth. Eu sei... — Ele abraçou-me o mais forte que pode, mas não o suficiente para causar algum tipo de dor. Era um daqueles 'abraços de urso', os quais sabia que gostava tanto. Fechei os olhos por um instante, deixando meus sentimentos tomarem conta de mim e permitindo que algumas míseras lágrimas escorressem.
Se ao menos aquele momento pudesse durar para sempre...
— Senhor Magnus, o horário de visitas acabou.
Acabei nem me dando conta de que uma das enfermeiras estava nos observando. Detestava ter que me despedir de papai, mas ele era um homem ocupado e respeitoso, então não repreendeu a fala da enfermeira.
— Ah, sim. Mil perdões, dê-me apenas um minuto — Recebi sua última demonstração de afeto, um carinho nos cabelos e um beijo na testa. E o mais importante de tudo, o sorriso de um homem que ama verdadeiramente alguém.
E eu era sortuda o suficiente para ser tal pessoa.
— Voltarei assim que puder.
— Estarei lhe esperando. E por favor, cuide de sua saúde como se fosse a minha.
Eu sabia que tais palavras iriam doer, mas era a única maneira de fazer com que papai levasse meu pedido a sério. Notei uma sútil tristeza em seu olhar; fingi não percebê-lá, para não preocupa-lo.
— Se é um pedido seu, não há motivos para não realizá-lo — Ele tomou minha mão com a dele, apertando-a — Eu te amo, minha querida. Mais do que tudo.
Tive vontade de gritar para que voltasse, permanecer comigo nem que por mais alguns minutos, mas papai já havia passado pela porta do quarto, acompanhando a enfermeira que viera buscá-lo.
Enfim, eu sozinha.
Novamente.

