A manhã seguinte nasceu fria e envolta em uma névoa densa que subia do rio Potomac, cobrindo os jardins de Blackwood House com um manto cinzento. Fingindo uma caminhada matinal para espairecer a mente após o fatídico jantar, Emily cobriu-se com uma capa escura e esgueirou-se até a antiga casa de chá, uma estrutura de madeira e trepadeiras nos limites mais isolados da propriedade.
O coração dela batia com força contra as costelas quando empurrou a porta rangente. Elias já estava lá. Vestia seu traje de trabalho simples, mas seus olhos castanhos transmitiam uma preocupação profunda que desarmava qualquer tentativa de Emily de parecer forte.
— Emily... — Elias deu um passo à frente, a voz baixa, respeitando o perigo do momento, mas cheia de uma ternura genuína. — Eu vi a movimentação de carruagens ontem à noite. Os criados estão comentando nos estábulos. É verdade?
Emily não conseguiu conter as lágrimas que haviam secado na noite anterior. Ela desabou nos braços dele, sentindo o cheiro familiar de palha, couro e o calor que faltava nos salões aristocráticos.
— Meu pai anunciou o noivado, Elias — sussurrou ela, com a voz embargada. — Com o Visconde. Eles querem me levar para a Europa após o casamento. Minha mãe diz que não há escolha, que meu pai jamais voltará atrás.
Elias sentiu o impacto das palavras, e seus braços a apertaram com mais força. Ele segurou o rosto de Emily com suas mãos calejadas pelo trabalho, forçando-a a olhar para ele.
— Isso está errado, Emily. Completamente errado — disse ele, com os olhos brilhando de determinação e uma dor contida. — Eles podem ter o dinheiro, os títulos e as leis da sociedade, mas eles não têm o seu coração. Nós nos amamos. Eu não vou ver o homem que você odeia trancá-la em uma corte do outro lado do oceano.
Ele a puxou para si, unindo seus lábios em um beijo desesperado, necessitado, que misturava a amargura da despedida iminente com a promessa ardente de sua paixão. Quando se afastaram, Elias tinha um brilho focado no olhar. Um plano havia se formado em sua mente.
— Escute-me bem — sussurrou ele, segurando as mãos enluvadas de Emily. — Na próxima sexta-feira, na calada da madrugada, por volta das três horas, prepararei a carruagem mais leve e os cavalos mais rápidos sob o pretexto de uma entrega de mantimentos na cidade. Nós fugiremos para Filadélfia. Lá, a comunidade de quakers e os novos negócios da ferrovia acolhem quem quer recomeçar. Casaremos em segredo e depois seguiremos para o Oeste, para as novas terras de Ohio. Longe deles. Longe de Washington. Seremos felizes, eu prometo.
Emily olhou para ele, o medo dando lugar a uma centelha de esperança pura. Ela assentiu, selando o pacto com um aceno firme.
Ao retornar para seus aposentos, a adrenalina da esperança ainda corria pelas veias de Emily. Sentindo o peso do segredo e buscando o conforto daquela que acreditava ser sua única amiga e confidente na casa, Emily trancou a porta do quarto e virou-se para Viviane, que escovava algumas fitas de cetim.
— Viviane... preciso confessar algo, mas você deve jurar pela sua vida que guardará este segredo — pediu Emily, os olhos brilhando de uma forma que Viviane não via há muito tempo.
— Claro, minha querida senhorita. Sabe que seu coração está seguro comigo — mentiu Viviane, endireitando a postura com extrema atenção.
Emily, em sua inocência, despejou tudo: o encontro na casa de chá, a determinação de Elias, e o plano minucioso de fugirem para a Filadélfia na madrugada de sexta-feira para começarem uma nova vida no Oeste.
Atrás da máscara de surpresa e falsa preocupação, o sangue de Viviane ferveu. Uma fúria gélida tomou conta dela. Elias estava disposto a largar tudo, a arriscar a própria vida na guilhotina da lei, por ela? Pela patroa rica que tinha o mundo aos seus pés? A inveja que Viviane sentia transformou-se em um plano de vingança perfeito. Ela não apenas destruiria a felicidade de Emily, como garantiria sua própria ascensão.
Dois dias depois, o Visconde visitou Blackwood House para uma reunião formal de negócios com Edward Prentiss. Viviane vigiou os passos do nobre. Quando Edward retirou-se temporariamente do escritório para buscar alguns papéis na biblioteca, deixando o Visconde a sós, a dama de companhia viu sua oportunidade.
Ela bateu suavemente na porta e entrou com uma bandeja de chá, fingindo servidão. O Visconde mal ergueu os olhos para ela, tratando-a com a indiferença típica que reservava aos criados.
— Milorde — chamou Viviane, a voz firme e calculista, sem o tom submisso habitual. — Peço perdão pela audácia, mas trago informações que dizem respeito à sua honra. Sei de algo muito sério sobre sua noiva, a Senhorita Emily.
O Visconde ergueu uma sobrancelha, o olhar gélido fixando-se na criada.
— Uma criada com fofocas de alcova? O que poderia você saber que me interessaria?
— Não são fofocas, Milorde. É um plano de fuga — desferiu Viviane, aproximando-se um passo. — Mas, como o senhor sabe, uma mulher na minha posição precisa pensar no futuro. Por uma quantia justa... digamos, quinhentos dólares em ouro... eu lhe entregarei o dia, a hora e o destino do plano que transformará seu noivado em um escândalo público para toda Washington.
O Visconde estreitou os olhos. Aquela era uma quantia exorbitante para uma criada — o equivalente a anos de salário —, mas o preço de ver seu nome e o de sua linhagem arrastados pela lama de um escândalo de rejeição seria incomensurável. Ele retirou do bolso interno da casaca um pesado talão de notas promissórias e uma pequena bolsa de moedas que trazia consigo, batendo-os na mesa de jacarandá.
— Fale — ordenou ele, a voz cortante como uma lâmina. — Se for verdade, o ouro e o crédito serão seus. Se estiver mentindo, eu garanto que você terminará na sarjeta antes do anoitecer.
Viviane sorriu, os olhos brilhando com o triunfo da traição. Pegou a bolsa de moedas e começou a falar.
— Na próxima sexta-feira, às três horas da madrugada, a Senhorita Emily planeja fugir para a Filadélfia. E ela não irá sozinha. Ela irá nos braços de Elias, o cocheiro da família.
O Visconde tensionou a mandíbula, os nós dos dedos ficando brancos ao apertar a bengala de castão de ouro. A humilhação de ser trocado por um reles funcionário dos estábulos acendeu um ódio mortal em seu peito.
— Ela desabafou comigo, Milorde — continuou Viviane, destilando seu veneno final com um prazer quase palpável. — Ela chorou noites inteiras dizendo que o despreza. Emily Prentiss não o ama, nunca o amará. O coração dela pertence inteiramente ao
cocheiro.
──────── 𝓑𝓵𝓪𝓬𝓴𝔀𝓸𝓸𝓭 ────────

