O relógio da sala de jantar de Blackwood House badalou as dez badaladas da noite, mas para Emily, o som pareceu o veredito de uma sentença. O anúncio havia sido feito com a pompa que a etiqueta de 1840 exigia: entre taças de cristal e talheres de prata, Edward Prentiss selara o destino da filha com um brinde formal ao Visconde.
Após o término do banquete, os homens recolheram-se para o salão de fumo, mas Edward fez questão de que Emily e o Visconde fizessem um breve passeio pelo salão de música, sob o olhar vigilante, mas convenientemente distante, de Elisabeth.
O Visconde mantinha uma postura impecável, a casaca escura perfeitamente alinhada e um sorriso polido que não alcançava os olhos. Ele parou ao lado do piano de cauda, observando Emily com a posse de quem admira uma propriedade recémadquirida.
— A senhorita esteve extraordinariamente silenciosa durante o jantar, Senhorita Prentiss — começou ele, a voz mansa, mas carregada de uma autoridade natural. — Espero que a perspectiva de nossa união não lhe cause apreensão. Washington sentirá sua falta, de fato, mas garanto que a corte europeia saberá apreciar sua beleza.
Emily manteve as mãos cruzadas à frente do corpo, os dedos apertando o tecido do vestido com tanta força que as pontas estavam brancas. O peito dela doía com uma força devastadora; cada palavra do Visconde era um prego no caixão de sua verdadeira vida. Seus pensamentos não estavam na Europa, mas nos estábulos da propriedade, nos olhos profundos e nas mãos calejadas de Elias, o cocheiro da família. Era ele quem Emily amava em segredo absoluto, o homem por quem seu coração batia desesperadamente.
Ela respirou fundo, tentando manter a voz firme, ditada pelo orgulho.
— O senhor fala de mim como se eu fosse um quadro a ser transportado de uma galeria para outra, Milorde. Compreendo os arranjos de meu pai, mas confesso que meu coração pertence às terras que conheço, não aos títulos do Velho Mundo.
O Visconde soltou uma risada curta, sem humor, dando um passo à frente.
— O coração de uma jovem de boa família é um terreno maleável, minha cara. Seu pai e eu firmamos um acordo que beneficia ambas as linhagens. O papel da senhora, como minha viscondessa, será governar meus salões e estender o prestígio do nome Prentiss além-mar. A poesia e os devaneios do jardim... — ele tocou levemente na rosa que ela trazia presa ao espartilho, os olhos brilhando com uma frieza cortante — ...devem dar lugar aos deveres de uma esposa.
Emily sustentou o olhar, engolindo em seco, a imagem de Elias cruzando sua mente.
— E se eu lhe disser que a obediência cega é algo que não posso prometer?
— Então eu lhe diria que a sociedade tem maneiras muito eficazes de dobrar os espíritos mais rebeldes — respondeu ele, com um sorriso gélido. — Mas não antecipemos dificuldades. Tenha uma boa noite, Emily. Nos veremos no baile de noivado.
Ao subir as escadas de Blackwood House, o silêncio do corredor pesava sobre os ombros de Emily. Quando entrou em seus aposentos, Viviane já a esperava, com o semblante meticulosamente moldado em uma expressão de pura compaixão.
— Oh, minha querida senhorita... — Viviane aproximou-se a passos rápidos, as mãos estendidas, fingindo uma empatia que não sentia. — Eu vi de longe. O anúncio... meu coração se apertou por você.
— Ele não me vê, Viviane — desabafou Emily, a voz embargada enquanto a dama de companhia começava a desatar os nós complexos de seu vestido de seda. — Para ele, sou apenas um brasão de família, um troféu americano para adornar suas propriedades. Eu não posso aceitar isso... não quando meu coração pertence a outro. Não quando eu amo o Elias.
Ao ouvir aquele nome, as mãos de Viviane travaram por um milésimo de segundo nas costas de Emily. Um fogo ardente de ódio e inveja consumiu o peito da dama de companhia. Viviane também amava Elias. Amava-o em segredo, sofrendo em silêncio ao ver os olhares discretos e a paixão proibida que existia entre a patroa rica e o humilde cocheiro. Ouvir Emily confessar aquele amor era como sal em uma ferida aberta.
— É a sina de nossa época, infelizmente — murmurou Viviane com a voz doce, embora seus dedos puxassem os cordões do espartilho com uma firmeza quase punitiva, sentindo um prazer secreto ao ver a altiva Emily Prentiss tão vulnerável e sabendo que, agora, ela jamais teria Elias. — A senhorita tem a riqueza, o título batendo à porta... Muitas moças dariam a vida por essa posição. Mas eu sei o quanto sua alma é livre. Chore, minha senhora. Deixe que eu cuido de tudo.
Com falsa ternura, Viviane ajudou Emily a vestir a camisola de linho branco e escovou seus longos cabelos negros. Antes de se retirar para o quarto anexo, Viviane preparou a escrivaninha, acendendo a lamparina de óleo e colocando o diário de couro sobre a mesa de madeira.
— Vou deixá-la a sós com seus pensamentos, Senhorita Emily. Sei que suas palavras são seu único refúgio. Que Deus lhe dê forças.
Viviane fez uma reverência e fechou a porta. No corredor escuro, o sorriso doce desapareceu instantaneamente de seu rosto, substituído por um esgar de satisfação e rancor. Finalmente, pensou, olhando na direção dos estábulos pela janela do corredor, a intocável Emily Prentiss descobriu que as gaiolas de ouro também trancam. Elias nunca será seu.
Sozinha no quarto, o silêncio era interrompido apenas pelo estalar da chama da lamparina. Emily sentou-se à escrivaninha, abriu o diário com a pequena chave de latão e, com a mão trêmula, molhou a pena na tinta preta.
"18 de Dezembro de 1840
O pior dia da minha existência se disfarçou de banquete. Diante de juízes vestidos de linho e seda, meu pai vendeu meu futuro ao Visconde. Senti-me como as rosas que colhi esta manhã: arrancada de minhas raízes pelo corte frio de uma lâmina metálica.
O Visconde olha para mim e não enxerga a mulher que sou, os livros que li ou a música que trago na alma. Ele vê um contrato. Ele quer silenciar a minha poesia e moldar meus passos conforme a sua corte maldita. Mas a maior de todas as dores, aquela que rasga meu peito em silêncio, é saber que serei arrancada de perto de Elias. Meu doce Elias, cujos olhos são meu único porto seguro nesta casa fria.
Como posso jurar fidelidade a um nobre arrogante se minha alma já se entregou inteiramente ao homem que conduz nossas carruagens? Dizem que devo me orgulhar, que este é o ápice para uma filha de diplomata. Mas o que me serve o mundo inteiro se perder a minha própria liberdade e o amor da minha vida? Prefiro a pobreza ao lado dele à miséria de uma coroa europeia. Se ao menos houvesse uma escolha..."
Uma batida suave na porta interrompeu o fluxo de suas lágrimas. A porta se abriu devagar e Elisabeth Prentiss entrou, vestindo um robe de veludo escuro. O olhar da mãe, geralmente severo e focado nas aparências da corte, suavizou-se ao ver o estado da filha.
Emily levantou-se num ímpeto, e bastou um olhar para que as defesas da jovem desabassem. Ela correu para os braços da mãe, escondendo o rosto em seu ombro, soluçando baixinho para que o som não ecoasse pela casa.
— Mãe... por favor... não me entregue a ele — implorou Emily, a voz sufocada pelo choro. — Ele é frio. Ele quer me apagar. Eu não posso me casar com aquele homem. Eu não posso viver longe de quem eu realmente amo!
Elisabeth fechou os olhos por um instante, abraçando a filha com uma força incomum, mas logo a afastou delicadamente pelos ombros, limpando uma lágrima que teimava em descer pelo próprio rosto. O semblante de Elisabeth voltou a ser a máscara de resignation que ela usara a vida inteira.
— Emily, minha filha, escute-me — disse Elisabeth, a voz baixa, quase um sussurro para que os criados não ouvissem. — Engula esse choro. Endireite essa postura.
— Como pode me pedir isso? — Emily questionou, com os olhos negros brilhando de dor.
— Porque tem que ser assim, Emily — respondeu Elisabeth, a voz firme, mas eivada de uma profunda tristeza. — Você conhece o seu pai. Edward Prentiss não recua em uma decisão, e o prestígio desta família depende dessa aliança. Ele não aceitará um "não" como resposta, e as consequências de uma rebeldia destruiriam não apenas você, mas todos nós.
Elisabeth segurou o rosto da filha com as duas mãos, olhando fixamente em seus olhos.
— Eu já tive a sua idade, Emily. Eu também já olhei para além destes muros e desejei o que não podia ter. Mas as mulheres da nossa estirpe aprendem a governar seus reinos por trás das cortinas. Você será a Viscondessa. Engula a sua dor, guarde o seu orgulho e use a sua inteligência para sobreviver a esse casamento. É o único caminho.
Sem esperar resposta, Elisabeth deu um beijo na testa da filha, virou-se e saiu do quarto, deixando Emily sozinha com o som do relógio, a tinta ainda fresca no diário e o peso inevitável de seu destino.
──────── 𝓑𝓵𝓪𝓬𝓴𝔀𝓸𝓸𝓭 ────────

