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As rosas de Blackwood
Jardim de inverno
1809 palavras • 10940 caracteres • ⏱ 7 min 14 s

Jardim de inverno

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O vento gelado de Washington cortava o jardim de Blackwood House naquela manhã cinzenta, mas a neve e o orvalho que tentavam dominar os gramados da imponente propriedade dos Prentiss pareciam recuar diante da teimosia de um canteiro específico. Protegidas por muros altos de pedra e pelos cuidados minuciosos dos jardineiros, as roseiras insistiam em florescer, densas e vivas, elevando-se quase até a cintura de quem se atrevesse a caminhar por ali.


Emily, aos seus vinte anos, ignorava o frio que pinicava suas bochechas, deixando-as naturalmente coradas contra a sua pele alva. Seus olhos negros e brilhantes estavam fixos na cor viva que contrastava dramaticamente com a brancura do inverno e os tons acinzentados do céu de dezembro. Com os cabelos negros parcialmente presos sob um capuz de veludo, ela caminhava entre as flores, a barra de seu vestido escuro deslizando suavemente pela terra úmida.


O cheiro no Jardim de Inverno era forte, uma mistura inebriante de rosas vermelhas recém-abertas, a madeira molhada da mansão e o perfume suave que ela mesma costumava usar nos pulsos. Para Emily, aquelas pétalas guardavam a mesma intensidade das poesias que devorava nas noites em claro e dos sentimentos mais profundos que confiava, em segredo, às páginas trancadas de seu diário. Ela sempre pensava que rosas tinham cheiro de despedida — um aroma doce, profundo e quase melancólico.


Ela parou diante de uma das roseiras mais antigas. Estendeu as mãos enluvadas e, levantando lentamente uma pequena tesoura dourada, preparou-se para colher a sua maior paixão.


Clac.


O som metálico cortou o silêncio do jardim com extrema delicadeza. Emily segurou a rosa entre os dedos antes de aparar o caule.


Clac.


Outra.


Ao seu lado, Viviane observava cada movimento. A dama de companhia mantinha a postura impecável que a etiqueta de 1840 exigia, mas seus olhos revelavam algo bem diferente da submissão. Havia um brilho frio ali. Viviane invejava tudo em Emily: a beleza estonteante da jovem, a riqueza de seus pais, Edward e Elisabeth Prentiss, e, acima de tudo, a liberdade de espírito que a patroa possuía, mesmo vivendo nas amarras rígidas da alta sociedade americana.


— Se me permite o comentário, Senhorita Emily — disse Viviane, com uma voz que tentava soar doce, mas carregava uma leve rigidez — colher rosas no auge do inverno parece uma excentricidade que apenas uma Prentiss pode se dar ao luxo. A maioria das moças estaria se aquecendo perto da lareira, bordando.


Emily sorriu levemente, sem perceber a ponta de amargura nas palavras da companheira. Ela levou uma das flores até o rosto, fechando os olhos por um instante para absorver o perfume.


— O que é a vida sem um pouco de poesia, Viviane? Prefiro o frio do jardim à monotonia de uma sala de estar — respondeu Emily, seus pensamentos já voando para o piano na sala principal, onde pretendia transformar aquela imagem em música mais tarde.


Clac.


Mais uma flor caiu suavemente em suas mãos.


O vento atravessou as árvores escuras ao redor da propriedade, fazendo as folhas secas se arrastarem pelos caminhos de pedra e trazendo, de longe, o ranger discreto das carruagens que passavam pelas ruas distantes da cidade. Mas ali, dentro dos limites de Blackwood House, o mundo parecia parado no tempo.


Viviane forçou um sorriso, aproximando-se para ajeitar a capa de Emily, tentando disfarçar o tremor de irritação em suas próprias mãos.


— Seus pais esperam que a senhorita esteja impecável para o jantar de hoje. O Sr. Edward mencionou convidados importantes.


Emily não respondeu imediatamente. Olhou para trás, onde as enormes janelas da mansão a observavam como olhos silenciosos e vigilantes. E, como se respondesse ao aviso de Viviane, o relógio de corda no interior da casa começou a bater lentamente as horas, ecoando através da névoa úmida que subia da grama.


Emily recolheu a saia do vestido pesado de inverno, segurando a cesta com as poucas e preciosas rosas vermelhas contra o corpo. O som de seus passos firmes ecoava pela varanda de pedra da mansão, logo sendo abafado pelos tapetes grossos assim que ela e Viviane cruzaram a imponente porta de entrada.


O calor da lareira do hall principal a recebeu imediatamente, trazendo de volta o sangue às suas bochechas já naturalmente coradas.


— Leve-as para o meu quarto, Viviane, por favor,— pediu Emily, entregando a cesta para a dama de companhia com um sorriso genuíno. — E peça que preparem um vaso com água fresca. Quero mantê-las perto da minha escrivaninha.


Viviane fez uma reverência perfeitamente ensaiada, segurando a cesta com uma firmeza quase excessiva. Seus olhos negros e compridos acompanharam Emily subir os primeiros degraus da escada de madeira escura. Por dentro, o estômago de Viviane revirava. Ela odiava como Emily conseguia ser graciosa sem o menor esforço, odiava a pele alva impecável da jovem e a forma como até o inverno parecia conspirar para deixá-la mais bonita. Uma Prentiss não precisa se esforçar para ter o mundo, pensou Viviane, engolindo o próprio rancor antes de se retirar para os aposentos da criada.


No andar de cima, Emily não foi direto para o seu quarto. Seus passos a guiaram, como sempre, para a sala de música. O ambiente era amplo, iluminado por grandes janelas que davam para os fundos da propriedade, e no centro repousava sua maior joia: um piano de cauda reluzente.


Ela se sentou no banco estofado. Sem tirar as luvas de pelica, acariciou as teclas de marfim. Depois, retirando-as lentamente, começou a dedilhar uma melodia suave, improvisada, que capturava a melancolia e a beleza do jardim coberto de neve. A música fluiu de seus dedos com uma facilidade impressionante, ecoando pelas paredes altas da casa.


A música, no entanto, foi suavemente interrompida pelo som da porta se abrindo.


—  Uma melodia belíssima para uma tarde tão cinzenta, minha filha,— disse uma voz firme, porém calorosa.


Era Elisabeth Prentiss. A matriarca vestia um sóbrio e elegante vestido de seda escura, com um camafeu de ouro fechando o colarinho alto. Seus olhos, idênticos aos de Emily, transbordavam orgulho, mas também a habitual preocupação de uma mãe da alta sociedade de Washington. Logo atrás dela, Edward Prentiss entrou no recinto, as mãos para trás e o semblante sério de um homem de negócios influente, embora o olhar amaciasse ao fixar-se na filha única.


— Espero que não esteja gastando toda a sua energia no piano, Emily,— comentou Edward, aproximando-se. — O jantar de hoje exigirá sua total atenção. Teremos a presença de cavalheiros importantes da capital, homens que moldam o futuro desta nação.


Emily sentiu o peso sutil daquelas palavras. Sabia muito bem o que jantares com "cavalheiros importantes" significavam para uma jovem de vinte anos na Washington de 1840.


— Estou apenas me inspirando com o inverno, papai,— respondeu Emily com suavidade, mantendo a postura impecável que sua mãe tanto lhe cobrara. — Garanto que estarei pronta para o jantar.


— Ótimo. Viviane já deveria estar ajudando-a com o vestido,— Elisabeth observou, correndo os olhos pelo cômodo. — Vá para o seu quarto, querida. Não queremos que se atrase.


Ao entrar em seus aposentos, Emily encontrou o vaso de rosas vermelhas exatamente onde queria: ao lado do seu tinteiro e de seu bem mais precioso, o diário de capa de couro trancado a sete chaves. Viviane terminava de esticar sobre a cama um deslumbrante vestido de veludo verde-escuro, ideal para a noite fria.


— Seus pais parecem ansiosos com os convidados de hoje, Senhorita Emily,—  comentou Viviane, de costas, enquanto ajeitava as rendas das mangas. — Dizem no andar de baixo que um dos convidados é o Visconde de Sterling. Um homem de posses incalculáveis que veio firmar grandes acordos.


Emily não respondeu de imediato. Ela caminhou até a escrivaninha, tocou de leve a pétala de uma das rosas e abriu a gaveta secreta, retirando a pequena chave dourada que abria seu diário. Ela sentia uma necessidade urgente de colocar no papel seus anseios e as linhas de poesia que ecoavam em sua mente antes que o espartilho e as convenções sociais da noite a sufocassem.


— Pode me dar alguns minutos a sós antes de começarmos o penteado, Viviane?— pediu Emily, sem olhar para trás.


Viviane tensionou os ombros. Ela sabia o que Emily fazia quando ficava sozinha naquele quarto; sabia da existência daquele caderno onde a patroa despejava a alma. O desejo de ler aquelas páginas e descobrir as fraquezas da jovem Prentiss era quase incontrolável.


— Como desejar, senhorita,— disse Viviane, curvando-as rigidamente e deixando o quarto, fechando a porta com um clique suave, mas carregado de promessas silenciosas.


Sozinha, Emily abriu o diário. A ponta da pena tocou o papel, e ela começou a escrever suas angústias sobre o futuro, sem imaginar o pesadelo que a aguardava no andar de baixo.


Horas depois, a sala de jantar resplandecia sob a luz de dezenas de velas de fita. O banquete servido era impecável, mas o apetite de Emily havia desaparecido por completo no instante em que fora apresentada ao convidado de honra.


Sentado à cabeceira oposta de Edward estava o Visconde de Sterling. Ele tinha setenta anos — meio século mais velho que Emily. Sua presença exalava uma frieza glacial. O homem tinha feições aristocráticas decrépitas, olhos injetados que brilhavam com uma ganância indisfarçável e um sorriso asqueroso que fazia a espinha de Emily engelar cada vez que ele a encarava. Sterling não disfarçava o tom mercantilista de suas palavras; ele estava ali para consolidar alianças políticas cruciais em Washington e, como parte do pagamento, comprar Emily. Para ele, a jovem Prentiss era apenas o mais belo e valioso troféu de sua coleção.


Durante todo o jantar, Viviane servia o vinho de forma impecável, mas seus olhos captavam cada olhar asqueroso do Visconde sobre Emily. Uma satisfação sombria e invejosa crescia no peito da dama de companhia ao ver o destino terrível que se desenhava para a orgulhosa patroa.


Emily manteve a cabeça erguida, a pele alva contrastando com a rigidez de sua postura, embora por dentro sentisse uma repulsa avassaladora.


Ao final do jantar, os cálices de licor foram servidos. O silêncio se instalou na mesa quando Edward Prentiss se levantou, limpando a garganta com solenidade. Ele olhou para a filha, depois para o ancião à sua frente, com a expressão fria dos homens que priorizam o poder acima de qualquer afeto.


— Cavalheiros, Elisabeth, minha querida filha...— começou Edward, erguendo o cálice. — Esta noite não celebra apenas um acordo de grande progresso político para a nossa família e para Washington. É com imenso orgulho que anuncio oficialmente o noivado de minha filha, Emily Prentiss, com o Visconde de Sterling. O casamento será realizado antes do término do inverno.


O mundo de Emily pareceu desabar em um silêncio ensurdecedor, enquanto o olhar asqueroso do Visconde se fixava nela, brindando à sua nova aquisição.


     ──────── 𝓑𝓵𝓪𝓬𝓴𝔀𝓸𝓸𝓭 ────────


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