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Não é uma Maldição 1🌻
Meu lugar feliz
1261 palavras • 6974 caracteres • ⏱ 5 min 03 s

Meu lugar feliz

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Apesar de toda a premiação, naquele momento, estava tentando ser a pessoa mais neutra do mundo, ainda mais quando ia para uma sacada e tentava convencer minha alegria e a minha raiva a não se manifestar, até que meu pai falou.


Pai: desculpa.


E foi isso, uma única palavra fez a grande fortaleza que eu criei em meu coração se desmoronar, mas meu orgulho, raiva e senso de preservação forçaram tudo a continuar junto, eu não podia me abrir tanto assim, eu queria confiar nele, mas aquele era um caso clássico que o que eu precisava não era o que eu queria.


Antonio: ta se desculpando por que?


Pai: por que…eu te machuquei, por muito tempo, sei que nunca posso te fazer confiar em mim novamente,mas eu quero que saiba, que eu sinto muito e vou fazer de tudo pra você confiar em mim


Antonio: incluindo admitir que eu sou um Singular? parar de jogar a culpa em mim por várias coisas? e ter uma conversa normal comigo? e entender as coisas que eu odeio, sem nunca me forçar a ter algo que eu não quero?


Pai: sim.


Achei que iria perder o controle naquela hora, mas não, seja lá o que queria sair de mim naquele momento, se acalmou tão rápido que nem eu acreditei. Estando perdido por quase nunca está calmo e tranquilo naquela intensidade, apenas olhei o horizonte, tinha tantas pessoas lá embaixo.


Antonio: sabe, o mais estranho de tudo, e que apesar de todas as reclamações que tenho pra você, ainda sei que você me criou bem, você e minha mãe


Pai: por que?


Antonio: quando eu tava com aquelas outras crianças, quando eu tinha 7 anos, nunca foi minha maldição que me afastou delas, elas eram mal educadas, respondonas, mandonas e amavam uma briga, crianças malcriadas, e eu não era assim, e talvez eu tivesse tido azar, mas quase todo lugar que já fui era assim, crianças e adolescentes mal educados, que eu precisava bater as vezes pra conseguir manter minha vida tranquila, e o que mais me separava deles era que eu era educado, e com isso, nunca poderei te culpar.


Mas meu pai não respondeu, apenas continuou em silêncio, eu via, ele remoendo cada palavra, ele tentou falar várias coisas pra mim, mas ele não conseguiu, ele so ficou parado, não conseguindo argumentar


Antonio: tudo bem?


Pai: sim


Antonio: bom, não sei se você notou, mas eu tenho uma namorada


Pai: hummmmmm.


E novamente, ele não falou nada diretamente, só começou a remover suas próprias palavras, e depois decidiu não falar nada. Não queria ter uma conversa unilateral, não agora que estava frente a essa versão tão diferente e estranha do meu próprio pai.


Antonio: então, tem feito o quê?


Pai: …


Antonio: você tem visto algo no espelho?


Pai: …


Antonio: voce conseguiu um lugar pra morar?


Pai: …


Antonio: voce leu algum livro recentemente?


Pai: …


Ah droga, a minha raiva estava aumentando, mas ainda não sabia se ela estava escapando, ou se eu estava a deixando sair.


Antonio: …anda…vai…anda…fala alguma coisa


Pai: …


Antonio: FALA ALGUMA COISA.!


Ok, agora eu sabia, eu deixei a raiva sair, e mais um pouco de silêncio, depois, meu pai quebrou seu silêncio.


Pai: e o que você quer que eu fale? dos anos que eu fui um completo otário e torturei meu filho em coisas que ele biologicamente não conseguia fazer? ou quer que eu fale dos esportes que eu amo e você detesta? tanto que você tem espasmos sempre que tocamos no assunto. Ou talvez você quer que eu fale das milhares de mulheres que eu tive enquanto ainda tava com sua mãe e que afirmam que eu sou uma galinha? agora escolhe filho, o que você quer que eu fale?


Dessa vez, eu que fiquei em silêncio, e agradeci a mim mesmo por nunca ter abaixado a guarda, e agora, a fortaleza que desmoronava em meu coração se reconstruiu 10 vezes mais forte, um pedido de desculpas não a abalaria agora.


Antonio: não sei por que ainda tento confiar, sempre que agente conversa eu fico magoado e triste, e agora sei que aquela desculpa de antes foi mais vazia do que tudo


Pai: não é verdade filho, eu to tentando mudar


Antonio: nesse caso, tenta mais, e depois tente falar comigo sem me ofender de 10 formas diferentes.


Falei aquilo e deixei meu pai sozinho no meio da rua, ele não foi atrás de mim, e apesar de doer, não doía tanto quanto antes, eu ia aguentar aquilo como um campeão, em minha caminhada pra casa, deixei duas lágrimas caírem, as limpei antes de entrar em casa, e lá dentro minha mãe me esperava.


Mãe: vamos ter uma festa em 4 dias, se prepare


Antônio: ah, sim, claro.


Não tava com muita energia pra perguntar quem iria pra festa, eu só fui mais pra dentro do meu quarto, me deitei no chão por que não queria sujar a cama e respirei, respirei fundo e tirei um cochilo no chão, só acordando quando o Pedro me acordou e pediu pra eu tomar banho, algo que fiz sem problemas.


Pedro: ai Antonio, quer que eu faça algo pra você?


Antonio: você pode fazer aquele chocolate quente especial?


Pedro: vai sair no capricho mano.


Usei a energia recuperada que ainda tinha para me sentar na mesa da cozinha, e depois de 20 segundos, Pedro voltou da cozinha com uma xícara fumegante de chocolate quente na mão, uma xícara com, alem de chocolate, também tinha açúcar, chantili e raspas de chocolate. Coisas que qualquer um podia por em um chocolate quente, mas a do meu irmão era especial, já havia visitado muitas cafeterias, e podia dizer que não existia um chocolate quente como do meu irmão, toda a dor que passei com meu pai, todo o stress de toda a cerimônia, tudo foi embora em um único gole. 


O próximo me fazia sentir que eu estava sendo carregado de forma gentil por várias nuvens, até o ponto de que comecei a dar risadas calminhas enquanto meu corpo inteiro relaxava e sentia que iria dormir novamente.


Antônio: que delicia, é como a alegria em um copo


Pedro: fico feliz de alguém gostar tanto das minhas canecas


Antônio: não é só gostar, se esse lance de ser um cavaleiro não tivesse dado certo, ia te falar pra você investir em ser um cafeteiro


Pedro: bom, e como dizem “sempre tenha um plano B”


Antonio: meu plano B é arriscar em construir prédios se os golens não derem certo


Pedro: pffff, depois de tudo isso.


Meu irmão falou, apontando pro robe, o cajado, e o chapeu que eu ainda não tinha tirado.


Pedro: acho que vai ser difícil tentar algo novo


Antonio: ue? antes tarde do que nunca, né?


Pedro: antes tarde do que nunca…quando as coisas envolvem aquele cara, essa palavra é certa


Antônio: NÃO MANINHO, POR FAVOR, NÃO FAZ ISSO


Pedro: epa, epa, fazer o que?


Antônio: POR FAVOR, PODEMOS NÃO FALAR DELE!? ESSE ERA PRA SER MEU DIA, MAS ELE FICA SE INFILTRANDO EM TUDO, DESTRUINDO MINHA ALEGRIA, DEIXA EU DORMIR COM A FELICIDADE DE HOJE, POR FAVOR


Pedro: mano, fica calmo.


Eu respirei fundo depois daquilo, respirei, e respirei. Depois conversei um pouco mais com meu irmão, e ele fez o que eu pedi, ele não mencionou mais meu pai em nenhum momento, e junto das brincadeiras  e aventuras que o próprio Pedro contou, e o chocolate quente, me senti limpo novamente, limpo para conseguir tomar banho, deitar e me preparar pra festança que iria rolar.


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