Só passear por lugares calmos com a pessoa que você ama era um nível diferente de calmaria e tranquilidade que era difícil de explicar, dava apenas pra sentir. E enquanto eu cavalgava nas nuvens com o Zorro e Dandara voava aos céus com a Estrelinha, nós respiramos fundo e aproveitamos o momento pra nos recuperarmos da música. Depois olhei pra ela, ousando uma conversa.
Antônio: então Dandara, tem pensado muito em algo específico ultimamente?
Dandara: eu tenho pensado bastante no que você falou sobre espelhos e como nós temos que sempre reconstruí-lo à nossa maneira depois dele ser quebrado, mas acho que essa metáfora não é o bastante, tipo, quem quebrou o espelho? O que vem depois da quebra? De onde vem as partes e cacos que não eram nossos antes? Então tentei pensar numa solução pra todas essas perguntas, e encontrei uma solução bem interessante
Antonio: hmhmhm, e qual e?
Dandara: o vidro
Antônio: como assim?
Dandara: acho que esse espelho quebrado que você mencionou pode ser interpretado como o espelho que nos reflete, quando somos crianças inocentes que ainda estão aprendendo a falar, na teoria, nossos espelhos deveriam ser puros, imaculados, sem rachaduras, mas ao mesmo tempo, eles são sem graça por não conseguirem refletir nada. E quanto mais nos crescemos, nos somos jogados em um grande labirinto cheio de espelhos coloridos, espelhos esses que representam os grupos e as comunidades que adotamos na nossa personalidade, como os cacos que representam nossos pais, e os cacos que representam nossos robes, pra mim e musica e pra você são os livros
Antonio: hummmm, estou gostando de onde isso está indo
Dandara: (sorri) e quanto mais ficamos nesse labirinto, mais nos batemos e quebramos esses espelhos coloridos, e escolhemos a dedo os cacos que queremos manter em nosso espelho branco e sem raça…na verdade, era isso que eu queria te falar, acho que nosso espelho nunca quebrou, ele apenas fica com tantos cacos diferentes que às vezes é difícil perceber o que ta abaixo de tudo
Antonio: mas com exceção de alguns casos, o espelho branco original ainda está lá
Dandara: exatamente, e eu ainda vou além, os cacos juntos ao espelho, distorcem a imagem da pessoa que o carrega pra de si propria e do mundo a volta dela, cacos certos, fazem as pessoas entenderem o mundo em volta dela como ruim e perigoso, e que elas não podem nunca ser independentes…enquanto seus reflexos delas próprias refletem um monstro, pois esses cacos eram tão ruins e tão contra o que o espelho inicial dessa pessoa realmente era que ela começou a odiar a si própria, por não gostar das escolhas que todo o trauma e dor de sua vida decidiram ser a “escolha certa”, e no fim, quando você se odeia, você só consegue se enxergar como um monstro egoísta.
A Dandara parou de falar, se permitindo ficar melancólica, mesmo que só um pouco.
Antonio: mas tem um outro lado disso, ne?
Dandara: e claro que tem, sempre tem outro lado, e se não tem é por que você não procurou o bastante (tosse) quando você é ensinado certo, tem o grupo certo de amigos, e tem um pouquinho de sorte, você consegue os cacos certos para refletir algo bem melhor no seu espelho, pois eu disse que o espelho branco e vazio, bom, ele reflete toda a sua infância, mas com os cacos certos, eles refletem a forma ideal que você quer ter, e o interessante, é que não existe uma reflexão certa, você pode refletir um Rei, ou um cavaleiro, uma bruxa poderosa, uma grande curandeira, as possibilidades são infinitas, e tão infinitas que não tem jeito certo e definitivo de fazer sua própria janela de cacos, cada um tem a sua própria…e…eu ainda to tentando descobrir a minha
Antonio: e o que ela tá refletindo agora?
Dandara: hehe, acho que está refletindo uma exploradora.
Absorvi com cuidado tudo que a Dandara falou, deixei minha cabeça olhar pra cima, fechei os olhos e refleti um pouco antes de responder.
Antonio: sua observação está boa, muito boa mesmo, mas você esqueceu de dizer duas coisas
Dandara: e quais são?
Antonio: o ponto seguro
Dandara: ponto seguro?
Antônio: é, no meio de grandes voltas, espirais e becos sem saída no labirinto de espelhos, existem lugares onde você pode descansar sua cabecinha preocupada e relaxar um pouco, sem pensar muito em todos os cacos que você reuniu e ainda iria reunir.
Dandara: hummmmmmm
Antônio: na teoria, todos começam seu lugar seguro em suas casas e com seus pais, pois o lugar seguro pode ser tanto um lugar quanto uma pessoa. Mas também existem os lugares seguros quebrados, que apenas te deixam de guarda baixa para depois você se confundir e começar a quebrar e pegar os cacos de vidro errados
Dandara: acho que eu nasci num lugar seguro quebrado
Antônio: é bem provável, mas qualquer pessoa que já entrou num lugar seguro quebrado tem a chance de se tornar alguém melhor, e alguém que nunca entrou em um lugar seguro quebrado, vai ficar preso no primeiro que entrar por não saber como sair dele, entende?
Dandara: mais ou menos
Antonio: e voce também esqueceu de falar sobre o fato do espelho não ter só uma imagem apenas quando ele estiver com os cacos certos. O espelho de sua alma, seja ele simples ou complexo, é um espelho especial que se você olhá-lo por ângulos diferentes, ele refletirá algo diferente, eu como exemplo, apesar do meu espelho está incompleto, se eu olhar pra direita, irei enxergar que sou um filho, se eu dar 2 passos pra direita, me enxergo como um irmão, se eu der mais dois passos, enxergo um aluno. E isso só pensando sobre um dos lados, você…consegue se ver dessa forma?
Mas a Dandara não respondeu, ela apenas me olhou nos olhos alguns segundos, e depois riu de forma despreocupada por algum tempo, quando ela terminou de rir, falou.
Dandara: impressionante, não importa o que agente fala, parece que sempre voltamos pro mesmo tema
Antonio: isso significa que o tema é bom, e que no fundo agente sempre quer voltar pra ele no final
Dandara: com uma resposta na ponta da língua, como sempre.
Depois a Dandara de novo ficou um tempo sem falar, até dizer.
Dandara: eu ainda…to descobrindo totalmente o que meu espelho reflete…sei que sou a filha de um monstro, a filha descartada, a filha desejada, alguém durona, alguém frágil, alguém sensível, alguém teimoso, a maga, a amante de flores, a amante de perfumes, a cabeleireira amadora, a professora, a paciente, a fria, a linda, a feia, a gentil, a cruel, a esforçada, a preguiçosa…e até agora, minha princesa e meu monstro estão misturados, como algo vindo de uma casa dos horrores
Antonio: tranquilo Dará, as vezes eu vejo um monstro refletindo em meu espelho também, mas o truque é sempre tentar entender que não tem monstro nenhum, só uma forma distorcida de você mesmo
Dandara: sei, legal, mas e se o monstro te atacar? E tentar te dominar?
Antônio: ah, Dará, o monstro nunca te ataca, ele só quer sair e ser escutado, no fim de tudo, você que o empurra, você que o prende, e você que o ataca primeiro, ele apenas revida.
O rosto de Dandara ficou surpreso algum tempo, antes dela lentamente voltar ao normal.
Dandara: e depois, é só aguentar os ataques até ele se acalmar novamente, certo?
Antônio: mais ou menos, você tem que dar paciência a si própria, de tempo para seu corpo se recuperar da dor que passou, nada é feito do dia pra noite.
Cara, me sinto um disco arranhado, sempre falando a mesma coisa o tempo todo. Mas era interessante que, cada vez, parecia que Dandara entendia algo de diferente, o rosto que ela fazia agora era totalmente diferente de quando eu falei aquilo pela primeira vez. Não pude aguentar e dei um sorriso bem largo enquanto ela vinha mais perto ainda de mim.
Antônio: Dandara…você cresceu
Dandara: você também
Antônio: hehe, você sequer entende o que isso significa?
Dandara: eu tenho uma teoria. Crescer significa muito além de perder a virgindade, pagar impostos, trabalhar ou perder sua preciosa inocência. Sim, tudo isso ajuda bastante também, mas a principal coisa que define alguém “crescido” é o fato dela saber se controlar, controlar suas emoções, controlar seus impulsos, e controlar a própria vida, nunca depender de ninguém…eeeeeeeeeeeu, fiz uma pesquisa sobre meu pai biológico, e pelo que parece, ele teve uma vida boa, ele fazia um monte de coisas ruins e sempre era perdoado, até ele entender que, não valia a pena ser bom, e que ser um canalha com todo mundo, seja com a própria mãe ou com a própria esposa, não tinha diferença, pois ele era…intocável.
Vi a Dandara apertando mais forte o cabo da vassoura, o medo no rosto dela era diferente, era quase como se ela pensasse o quanto desviou ou escapou de algo horrível.
Dandara: nem preciso dizer que os pais dele só descobriram que não deviam criar uma criança assim quando já era tarde demais.
O medo, junto da tristeza de Dandara, criou algo que me deixou reflexivo, ela estava cheia de pena, pena da pessoa que a machucou tanto.
Antônio: humpf, um caso bem comum de um adulto com mente de criança, oooou como eu gosto de chamar, um adulto que nunca cresceu
Dandara: meu pai nunca cresceu?
Antônio: não, e eu nem preciso conhecê-lo pra saber disso, sou muito contra fazer assumpções das pessoas, mas sinto que não preciso o ver pra saber que tudo que sei dele é verdade
Dandara: e seu pai, ele cresceu?
Antônio: sim e não, ele cresceu até um ponto, mas depois ele…pareceu parar no meio do caminho
Dandara: então ele é um adulto ou não?
Antônio: de novo, sim e não, melhor dizendo, ele é um adulto, mas incompleto, ele é responsável por si próprio, ele entende os próprios problemas, mas não os corrige, e ele magoa e machuca pessoas e não se importa nada com a dor que causa. Enquanto ele é um adulto decente, está longe de ser o que eu chamaria de alguém “completo”
Dandara: e por que você fala isso?
Antônio: por que essa é a pegadinha dessa jornada de ser adulto, ela quase nunca termina, poderei estar com 80 anos, a beira da morte e ainda poderia ter várias coisas para aprender, e meu pai, parece que ele deixou de aprender sobre si mesmo, e sobre como lidar com ele próprio
Dandara: quem garante que ele realmente aprendeu sobre si próprio?
Antônio: você não precisa ser um filósofo amador pra saber mais sobre você, você só precisa tirar, sei lá, 5 minutos do seu dia, pra pensar sobre como você tá se sentindo, você mais do que ninguém deve saber o quanto isso é útil
Dandara: hehe, pior que é mesmo
Antônio: muitas pessoas fazem isso e crescem sem nem saber o quê estão fazendo. Nós, estamos no caminho pra maturidade de forma consciente, mas consciente ou não, existem muitos que crescem e se tornam pessoas responsáveis, que pra variar, não machucam ninguém, não dependem de ninguém e que estão felizes com o que conseguiram e o que ainda vão conseguir. As pessoas não entendem o que significa aguentar e lidar com seus sentimentos até sentirem isso na pele, o que é irônico por que, até animais tem sentimentos, e essas pessoas tentam ignorar os próprios
Dandara: a clássica contradição da inteligência, não é?
Antônio: não é uma contradição, é uma afirmação, o motivo de nos isolarmos e diminuirmos partes de nós é que queremos fazer parte de um bando e essa é a parte mais primitiva que nós mantivermos de nossos ancestrais, apenas alguém inteligente de verdade aceita tudo de bom e tudo de ruim do outro. Ou a querida moeda, por mais moderna que pareça, a ganância absurda de certas pessoas por ela, não chega a sequer ser humano, quando o objetivo de felicidade de uma pessoa é apenas conseguir mais e mais dinheiro, e sentir prazeres absurdos sem se importar com mais nada ou mais ninguem, ele não é diferente de um animal que apenas deseja sobreviver e ter prazer através do instinto, ao invés da lógica.
Dandara: mas buscar prazer não é algo natural pra todo ser humano?
Antonio: sim, mas humanos são diferentes de animais por que aprendemos a desfrutar desses prazeres sem sacrificar um ao outro, é contraditório dizer isso já que ainda matamos animais, mas me fala Dandara, você acha mesmo que valentões, ladrões, assassinos e toda pessoa que maltrata e machuca alguém mais fraco apenas pra provar que é mais forte ou desfrutar de um prazer doentio através desse ato é mais humano que…sei lá, nosso professor, nossos pais ou até nossos colegas?
A Dandara absorveu as palavras por algum tempo, mas não por estar confusa, mas sim por estar absorvendo tudo que eu disse, e quando entendeu tintim por tintim o que eu falei, ela respondeu
Dandara: não, eles não são
Antônio: exatamente.
Cavalgamos em silêncio por alguns segundos, eu queria saborear toda a conversa que tivemos naquele breve momento, e Dandara também, depois de quase 20 minutos, ela falou de novo.
Dandara: como se consegue o bom senso pra diferenciar a maldade do que só parece ser maldade?
Antônio: intuição, existe uma diferença entre reprimir uma criança por gostar de um livro de princesas e reprimir ela por bater em outra criança
Dandara: e qual é?
Antônio: o primeiro caso é apenas uma criança experimentando algo novo, inofensivo que ninguém vai se machucar. E o segundo caso é quase igual, com a simples diferença que: aquilo é algo ruim por que machucaria outra pessoa e se não for reprimido, a criança fará isso de novo, e de novo, e de novo, até ela começar a gostar disso e vai machucar muito mais do que crianças…
Dandara estava de olhos arregalados, eu também estava, e por mais algum tempo, nós dois ficamos apenas observando o outro enquanto continuávamos nosso caminho.
Não tava tentando ser tão específico assim, mas no fim deve ter sido melhor dessa forma mesmo, pois ela sorriu pra mim, depois falou.
Dandara: eu amo os papos que tenho com você
Antônio: eu também Dará eu também.
Sorrindo, nós dois apenas ficamos mais algum tempo passeando, aproveitando o silêncio do céu mais vazio e desabitado que viajávamos, e respiramos, respiramos, e respiramos mais.
Depois de falar tanto, minha garganta doía e meus ouvidos doíam por causa da minha própria voz, mas eu estava feliz, feliz demais, eram momentos como esse que eu desejava durar para sempre e do mais profundo nada, ouvi Dandara falar.
Dandara: eu te amo
Antonio: eu amo mais
Dandara: eu te amo 100 vezes
Antônio: eu te amo pra sempre.
E novamente, não pensei quase nada naquele momento, só falei, cara, como ela faz isso.
Antônio: sinto que poderia viver por 1000 anos e nunca iria conseguir me cansar de você
Dandara: e eu sinto que podia ser imortal e nunca iria me cansar de você.
Depois nós rimos, sim, isso era bom, muito bom, muuuuuitos bom mesmo.

