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Não é uma Maldição 1🌻
A essência em todos nos
2946 palavras • 16311 caracteres • ⏱ 11 min 47 s

A essência em todos nos

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Eeeeeeitaaaaa, o dia ainda não tinha acabado? Eu ainda tinha um bom tempo antes de ir pra casa, mas não tava mais no clima pra conversar com qualquer um, então peguei meu cristal e digitei a um amigo. E depois desse amigo deixar claro que tava com a agenda livre, liguei pra ele, tinha se passado só alguns meses, mas eu ainda amei ouvir a linda voz dele.


Davi: faaaaaala cachinhos, o que foi?


Antônio: que tal um jogo?


Davi: pode começar


Antônio: quais são as partes de você que você conhece bem?


Davi: essa é fácil, eu sou um cavaleiro, um irmão, um filho, um cozinheiro, um mestre, um aluno, um amigo, um filo-arcano amador, um garoto calmo, um garoto irritado, um fã de cavaleiros lendários, um fã de príncipes corajosos, e um fã de cavalos lindos, quer que eu continue?


Antônio: não precisa, agora eu quero que você pegue cada uma das partes de você que você mencionou e as que você não mencionou, e descarte, joguei elas pra outro canto.


Pela voz falhada de Davi, pensei que ele não estava me entendendo, mas tudo bem, o que eu pedi era estranho mesmo.


Antônio: então, sem nenhuma dessas coisas, o que sobrou?


Davi: era pra ter sobrado alguma coisa?


Antônio: sim, cada uma das partes que fazem parte de você deveriam estar ligada por algo, algo que faz as partes de você que realmente fazem parte de você ficarem mais ligadas e as partes que não combinam com você não conseguirem ficar ou precisarem de grande esforço pra ser colocadas nelas, a sua essência, a coisa que molda você ao mesmo tempo que molda a mim e molda todas as pessoas que você conhece.


Dei uma pequena pausa, deixando o Davi absorver cada coisa que eu disse.


Antônio: e aí, tá sentindo?


Davi: acho que sim…mas está meio confuso, você descobriu o seu?


Antônio: mais ou menos também, o que eu descobri é que a minha essência é a tranquilidade, posso gostar de uma boa briga, uma música pesada e até observar uma confusão às vezes. Mas eu, em meu mais profundo ser, sempre tento manter tudo ao meu redor o mais tranquilo possível, evito pessoas que me deixam estressado, não gosto de ler histórias que são apenas trauma, dor e raiva o tempo todo e sempre desejo estar em lugares tranquilo, só saindo da minha zona de conforto quando é totalmente necessário…é isso que eu quero perguntar pra você, o que é o seu centro Davi, o que é a parte de você que faz você gostar muito de certas coisas, e odiar outras coisas? Qual é a parte de você que te ajuda a moldar sua personalidade até esse momento?


O Davi não respondeu, ele demorou um bom tempo pra falar, até pensei em desligar, sabendo que esse tipo de coisa não era algo que se perguntava assim do nada e a pessoa já sabia a resposta, mas numa velocidade absurda, Davi me respondeu.


Davi: a minha essência é…a proteção…acho que desde meu sonho de ser cavaleiro, da proteção que eu fiz com minhas irmãs, apesar de ainda ter raiva dela, meu cuidado com você, meu pulso mais mole na brigada de cavaleiros. Tudo aponta apenas pra uma coisa: proteção. Acho que no fundo, eu sempre soube que a guarda, o cuidado e a proteção sempre foi parte de mim, hehe, acho que depois disso, fica mais claro por que agente se tornou tão amigo.


Me encostei numa parede enquanto agente continuou conversando, é, acho que nossos centros estavam bem organizados e bem unidos para conseguirmos ser amigos, e jogando papo fora, contei pro Davi o que aconteceu, já falando de cara que não queria falar do meu pai ainda.


Com o papo jogado fora, descobri que ele tava agora num navio indo lutar com um monstro disfarçado de uma ilha pequena,  ele já tá jogando alto, pedi pra ele pegar uma lembrancinha pra mim, e ele confirmou que iria, e pra variar, ri e me diverti, apesar dele estar a quilômetros de distância de mim, haaaaaah, finalmente me senti bem o bastante pra voltar pra casa, me sentia limpo, sem nenhuma raiva, rancor ou negação em mim. Só precisei dos meus 3 melhores amigos pra ficar bem de novo, que alegria.


Davi: mas me fala, por que me ligou?


Antônio: nada demais, só queria conversar com você, eu tive um dia bem ruim


Davi: pffff, pelo que você me falou, sem contar a manhã, seu dia foi ótimo


Antônio: talvez, mas eu garanto Davi, se você não tivesse atendido minha ligação, eu teria continuado um pouco mal, isso é o quanto meu pai me magoou, então…obrigado.


O Davi não respondeu por um bom tempo, novamente pensei em desligar, mas antes disso, eu ouvi ele responder.


Davi: desculpe


Antônio: pelo que?


Davi: eu só…pensei que as coisas iam se resolver com seu pai, não pensei que a sua raiva era tão profunda assim


Antônio: a minha raiva é algo que ninguém vai entender, por que apenas eu a tenho e apenas eu sei o quanto dói, as pessoas podem apenas interpretar, o simples fato que você está se desculpando de ter me entendido errado já me mostra que você é bem melhor que esses caras dizem “me entender”, então não se preocupa


Davi: ótimo, vou desligar, já conversamos demais


Antonio: concordo, já falamos bastante, obrigado mano.


Depois que desliguei o celular, fui até a saída para alunos, e sai sem o Zorro, eu tinha meu apito, então não tinha problema eu não sair com ele. No caminho pra casa, nem deixei minha varinha a vista, eu apenas endireitei minha postura, estudei o peito, e comecei a andar de acordo com o poder grande que eu carregava, ninguém tentou me atacar, mas ainda fiquei com a guarda alta, por garantia, ter a postura de um grande mago era bem importante também. 


Respirei fundo quando cheguei em casa, ela estava a mesma de sempre, mas agora, ela parecia duas vezes menor e 10 vezes mais acolhedora, cumprimentei os empregados, pensando como o lugar parecia bem mais alegre que o normal, mas não fui ao meu quarto, eu ainda tinha um compromisso na cozinha que não podia esperar.


Sentia que algo estava de diferente, mas o que, então uma das empregadas falou que minha mãe queria falar comigo algo urgente, uuuuun, fazia tempo que ela não me chamava assim, então fui direto a sala de conferências, mas não, a empregada falou que o meu irmão estava na sala de conferências, e a minha mãe estava na cama de casal. Então ela finalmente passou o bastão, boooooom.


Levou menos de 10 minutos pra eu chegar lá, então vi que minha mãe estava lá, sentada na cama, preparada pra me falar algo que parecia bem importante, não quis falar nada, apenas me sentei do lado dela e a dei o tempo certo pra falar, e quando ela abriu a boca, fiquei e não fiquei surpreso ao mesmo tempo.


Mãe: filho, você deve ser grande o bastante pra entender isso, mas eu e seu pai…vamos nos separar


Antônio: agente vai perder o nome Carvalho?


Mãe: não, espera que? Você quer ficar comigo?


Antônio: sim, nunca vou ficar com ele, mesmo que tenha que perder meu sobrenome


Mãe: não, não vamos, eu só quero que você saiba que…seu pai não vai mais ficar aqui em casa, e que as coisas podem ficar estranhas com o passar do tempo, entende?


Antônio: eu entendo, mas por que eu não vou perder o nome da família, nem você?


Mas: ah, é que o seu pai fez coisas o bastante pra pessoas poderosas pensarem que pessoas um pouco mais dignas receberem o nome Carvalho.


Ela falou aquilo de forma estranha, mas entendi mais ou menos o que ela estava tentando dizer. Alguns dias depois, descobri que meu pai tinha perdido o nome Carvalho e mandado pra fora de casa, e tudo aquilo…me abalou bem menos do que pensei, na verdade, eu não senti nada quando ouvi a notícia, ou pelo menos tentei não sentir nada e consegui. 


Eu já tinha passado por tanta coisa boa e ruim com meu pai, e agora talvez nunca mais visse ele, era estranho o quanto eu não estava nem feliz, nem triste e nem irritado com isso mais, apenas o mais profundo vazio.


CAPÍTULO 8


E pra terminar o dia bem, fui na sala de conferências, falar com o Pedro, e como eu esperava, ele estava na sala, rodeado de vários papéis assim como a minha mãe ficava, mas ele parecia com bem mais vida que ela. O cabelo preto, junto de músculos definidos e um rosto duro e pesado de cavaleiro destacavam seu título de cavaleiro veterano. 


No início, não falei nada, só me sentei numa cadeira e olhei meu irmão, eu tinha a primeira coisa que queria dizer na ponta da língua, mas dei o tempo do Pedro entender que eu estava lá e começar a dar menos atenção aos papéis.


Antonio: desculpa por não ter falado com você ano passado, aquele ano foi doido


Pedro: ta desculpado, e com a forma que seu bastão esta, não foi por bobagens que você não pode me ver


Antônio: então, como tem passado?


Pedro: bom, talvez eu tenha conseguido uma casinha pra descansar quando não quiser vir pra casa, se é que me entende.


Nooooossa, todo mundo tava conseguindo alguem, legal…agente ficou sem falar nada por algum tempo antes de falarmos novamente.


Antonio: cara, me sinto um péssimo irmão, não faço ideia do que falar


Pedro: não pensa demais cara, apenas fala o que ta pensando


Antônio: já falei muito sobre mim hoje, eu quero ouvir sobre você.


Meu irmão levantou a cabeça, depois de bastante tempo, e me respondeu.


Pedro: bom, desde que eu não precisei mais me preocupar em manter você vivo e seguro, eu tenho tentado encontrar algo que eu goste


Antônio: sério? E o que descobriu?


Pedro: sabe como é, eu tô tentando coisas diferentes um bom tempo, primeiro eu tentei música, depois apicultura, depois cuidar de plantas, e depois dança


Antônio: e qual delas te interessou mais?


Pedro: eu descobri que, eu amo plantas, ter algo pra cuidar, e que não vai acabar se rebelando contra mim ou fazer algo de nível horror cósmico é algo que me deixa bem tranquilo


Antônio: você tem alguma planta aqui?


Pedro: O QUE. Ah, eoah.


A cara de incredulidade do Pedro me pegou de surpresa.


Pedro: é sério que você não viu a estufa que eu fiz na casa?


Antônio: não


Pedro: ooooouh, Antônio.


Pedro então se levantou da cadeira, com muitos papéis sendo derrubados no chão, e falou.


Pedro: vamos lá, eu te mostro


Antônio: não é melhor você terminar isso?


Pedro: não, eu posso terminar isso depois, ainda mais com ajuda, deixa eu te mostrar o lugar.


Meu irmão se aproximou devagar de mim, me pegou com cuidado pelo ombro e me levou no meio dos corredores até a estufa que ele mencionou.


Bom, não era atoa que eu não tinha encontrado, ela ficava em um corredor que eu não usava muito, e na última vez que fui ali, não tinha uma porta antes.


Antônio: você não facilitou também pra eu ver né?


Pedro: foi mal maninho, às vezes eu esqueço.


Sorri da brincadeira do Pedro, pois apesar de tudo, ele ainda tentava me entender, diferente de um certo alguém.


Dentro da estufa, senti um cheiro mais puro do que do lado de fora, junto com o cheiro de terra e fertilizante. Uuuuun, tinha bastante verde ali, mas havia muitas frutas, flores e até animaizinhos no meio das plantas, olhei em volta e amei o que meu irmão fez, as plantas eram lindas, e eu podia sentir o carinho em cada um dos vegetais, eles eram pequenininhos, mas pareciam ter bastante carinho neles.


Antônio: você se importa de servir essas belezas no jantar?


Pedro: só se você não se importar de comer.


Ri com ele, enquanto ainda olhava os vegetaizinhos, cara, os verdadeiros e puros eram tão diferentes que às vezes me deixavam mal.


Então, o Pedro me chamou e pegou um vaso com uma flor peculiar com o formato de uma placa de “pare” laranja.


Pedro: cheira isso


Antônio: o que isso vai fazer?


Pedro: cheira irmão.


Ele tava aprontando algumas coisas, via isso no olhar dele, mas ainda paguei pra ver, me aproximei da flor e cheirei bem fundo, e fiquei impressionado.


Antônio: chocolate?


Pedro: touché, adivinha o que essa flor faz?


Antônio: hummmmmf, ela dá frutas de bombons?


Pedro: sim, e ela só cresce se você a derramar com leite. Agora cheira essa.


A próxima que ele me deu parecia uma violeta feita totalmente de ferro. Eu até toquei nela algumas vezes pra ter certeza que não estava tocando algo falso, e apesar da sensação estranha, ela não parecia diferente de uma planta normal, quando a cheirei, disse.


Antônio: essa tem cheiro de novo


Pedro: é uma descoberta bem antiga nas explorações, existem várias ilhas por aí que possuem uma aparência que faz jus ao nome “selva de pedra” você consegue imaginar um ambiente tão duro e hostil que uma simples flor dessa precisou ficar assim pra sobreviver.


Hummmm, aquele sorriso era novo, nem me lembro se algum dia já vi o Pedro sorrir daquele jeito.


Antônio: não, mas com certeza você deve conhecer


Pedro: e se você passar por coisas como eu, com certeza vai encontrar plantas assim também.


Me distrai um pouquinho e olhei tudo ao meu redor novamente, eu não era um herbologista, mas eu conseguia ver plantas brutas como a planta com cheiro de novo e plantas mais suaves e sensíveis como a planta dos chocolates, junto com várias outras que precisavam ou ficar imersas na água ou serem postas em um lugar parecido com uma nuvem de terra que flutuava no ar, e vendo tudo aquilo, só uma coisa foi registrada em minha cabeça.


Antônio: como você conseguiu fazer tantas plantas diferentes ficarem em um lugar só?


Pedro: muito estudo e trabalho duro.


Eu olhei pro Pedro com a cara mais descrente que já fiz, e ele não tinha nenhuma zombaria no rosto.


Antônio: tudo isso…só estudando e trabalhando duro?


Pedro: sim


Antônio: bom, é como falam, se você trabalha com o que você ama, nada fica difícil demais.


Olhei as plantas novamente, ainda descrente que ele fez tudo isso só estudando e trabalhando duro por alguns segundos, mas sinceramente, ele também havia feito um bom jogo de plantas, elas davam uma boa combinação, o lugar era bonito, não só saudável. E colocando a mão no meu ombro, ele falou.


Pedro: bonito, não é? Esse foi o meu terceiro hobie tentado, quando comecei, eu só pude me perguntar, “isso vai valer a pena?” Ou “será que vou recuperar o tempo que perderei?” E quando o trabalho ficou finalizado, sabe o que eu pensei?


Antonio: você pensou “por que eu não fiz isso antes?


Rindo, Pedro deu um cafuné na minha cabeça, e revidei empurrando ele um pouco, e depois de alguns empurrões que quase viraram uma briga, a gente parou, ainda rindo.


Pedro: isso mesmo, só consegui pensar no “por que não fiz isso antes?”...é meio difícil explicar, mas quando eu estou aqui, eu me sinto no meu “lugar feliz”


Antônio: pffff, lugar feliz?


Pedro: é, meu lugar feliz, o lugar especial que você vai quando tá mal, você não tem um lugar feliz?


Antônio: aaaah, entendi, acredite maninho, eu tenho muuuuuuitos lugares felizes, (gentilmente bate no peito de Pedro) pobre criatura, como você sobreviveu tanto sem um lugar feliz?


Depois disso, o Pedro ficou sem falar por alguns segundos, um pouco envergonhado e quase ficando vermelho.


Pedro: bom, era porque você e a mamãe eram meu lugar feliz


Antônio: o papai não


Pedro: não, o papai não, nunca foi.


Sei que aquilo devia me deixar triste, mas fiquei feliz em não ser o único afetado da família, acho que ser o único afetado seria pior. E para impedir a conversa de ir pra um lugar ruim, falei.


Antônio: com isso, acho que meu número de lugares felizes ficou duas vezes maior.


De brincadeira, meu irmão tocou seu dedo em meu nariz, e falou.


Pedro: com essa sua carinha linda, não duvido que você tenha muitos amigos


Antônio: e com esse rosto gostooosooo, você deve ter muitas minas correndo atrás de você.


E de novo, ele fez cafuné na minha cabeça, mas pra disfarçar um mata leão que ele tentou me dar, mas eu escapei e agente ficou trocando golpes infantis por quase 5 minutos antes da gente se afastar um do outro de novo.


Pedro: não fala de seu irmão como se ele fosse um galinha, eu sou dono apenas de uma, o resto é o resto


Antônio: uuuuun, então você…


Pedro: não…pelo menos não oficialmente, agente só flerta e brinca, mas agente nunca se beijou


Antônio: você quer umas dicas mano?


Pedro: obrigado maninho, mas acho que quero descobrir as coisas por conta própria


Antônio: ok, mas se eu fosse você, eu daria uma das flores com cheiro de chocolate pra ela


Pedro: e é por isso que eu não quis sua ajuda, ela não gosta do cheiro de doces, mas sim do novo


Antônio: aaaaaaaaoooooug, fui superado.


Ainda rindo, conversei com Pedro mais algum tempo e depois descansei bem ao lado dele, em meio a todas as plantas, me sentia em meu próprio jardim do Éden, nada podia nos atingir ali, nada, nada mesmo, eu estava curioso sobre o que aconteceria na nossa família, mas achei melhor ignorar, pelo menos por enquanto, eu não queria saber nada de meu pai por enquanto.


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