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Não é uma Maldição 1🌻
O que é um humano?
2338 palavras • 13126 caracteres • ⏱ 9 min 21 s

O que é um humano?

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Aquele dia da escola estava bem longo, bom, talvez por isso que depois de um tempo, falei.


Antônio: obrigado Midas, mas acho que preciso sair um pouco.


Mas o Midas não parecia ofendido, muito pelo contrário, ele parecia bem tranquilo com tudo.


Midas: claro, qualquer coisa pode falar comigo.


E com a confirmação dele, sai de um dos meus esconderijos e fui até o porão da escola, mas não fui pra saída, não, eu não iria sair ainda. Andando pelos corredores que permitiam cavalos em cima do Zorro, cheguei em um corredor que ia para a esquerda mas no lugar disso, fui pra Direita, e ao invés de me espatifar na parede, atravessei a porta e fui logo para o estábulo do clube de cavaleiros. 


Hehe, sim, aquele lugar poderia me alegrar, sem dor e sem tristeza, eu queria passar o resto do dia sem tocar no assunto uma única vez, então andei até os outros cavaleiros, pronto pra cumprimentar todo mundo, e quando passei, fiquei impressionado com o quão “pequenos” os outros alunos eram, claro, existiam alunos do terceiro ano ali, mas até eles, todos pareciam bem pequenos perto de mim de alguma forma. 


Hummmm, eu via também vários alunos com alguns cortes e com machucados, feridas de guerra, ah não, então nem a professora conseguia controlar os alunos, a indignação do meu ser desfez qualquer resquício de raiva acumulada de meu pai, e eu apenas cavalguei até a pista, de lama, era difícil para a maioria dos cavaleiros e muito, mas muito difícil manter a corrida, então ela estava quase vazia, perfeita pra alguém que queria um pouco de paz como eu.


Dando um pouco de magia pro Zorro, adaptei os cascos dele pra não afundarem na neve, respirei a lama em meu nariz, senti cada grama de frio em todo meu ser, oh frio, massageie meu humor e faça toda a raiva e dor em meu ser se acalmar, pois aprendi do pior jeito o que acontecia quando eu ficava com raiva, depois, apenas trotei com muita intensidade, sim, eu não precisava pensar nisso, não agora, eu só precisava correr, correr e correr mais. Até que alguém começou a me acompanhar, era a Saytus.


Saytus: oi Antonio


Antonio: oi, fala, o que foi?


Saytus: você...pode continuar a história do outro dia?


Ahhhh, é mesmo, eu tinha começado o padrão de narrar histórias pra ela.


Antonio: voce tem sorte que eu já tenho aquele livro bem aqui


Falei aquilo enquanto criava uma e colocava um livro em minha frente, precisava de um cuidado extra pra não tropeçar enquanto narrava um livro e cavalgava, mas enquanto não fosse uma pista de obstáculos, não iria tropeçar. E logo, comecei a contar de cabo a rabo a história, e depois de ler quase 8 capítulos pra ela, perguntei.


Antônio: então, o que você entendeu desse capítulo?


Saytus: acho que o boneco tá passando por coisas novas, sem ter mais o pai dizendo o que ele deveria ser, mas ele procurou as coisas no lugar errado, fazendo ele acabar em um lugar onde ele apenas se divertia e ficava alegre o tempo todo, mas que não o fazia entender onde ele queria ir ou o que ele precisava fazer pra se tornar um menino real


Antonio: bom, bom, o que mais?


Saytus: a metafora das crianças se tornando burros é simples de entender, se voce brincar e se divertir por tempo demais, sem pensar no que fazer quando a diverçao acabar, voce vira um “Burro de carga” que é usado apenas para tarefas simples e vai precizar de quase 10 vezes mais força para voltar a ser quem voce era


Antonio: nossa, tudo isso?


Saytus: não só isso, o boneco começou a virar um burro tambem, mas ele fugiu antes da transformaçao se completar, ele fugiu. O que eu entendi com isso é que “mesmo como um “boneco” voce ainda pode descer mais e se tornar um “brurro” se não tomar cuidado”. Alem da simples interpretaçao de que o boneco estava “se tornando” um burro, mas ele fugiu antes disso se completar, que é uma metafora que, mesmo afetado, não é tarde demais pra pegar o caminho certo.


Antonio: muito bom, e o que significa em sua opinião ser um “menino de verdade”


Saytus: bom, isso é só minha interpretação, mas acho que é bem mais forte que ele quer simplesmente ser fisicamente “de verdade” e não de madeira. As reescrituras do conto mostram que do inicio ate o fim do livro, o boneco apenas era visto como, olha que ironia, um objeto, um subtituto pra uma criança perdida, um macaquinho de circo, um burro de carga, cada interpretaçao tem uma coisa em comum, ninguem encherga o boneco como um menino real, apenas um meio para um fim, bom, pelo menos ate o fim do filme, onde o carpinteiro que o criou, depois de passar por sua propria aventura solo, entendeu que o boneco não era o filho que ele perdeu, mas seu proprio filho, então quando o boneco se sacrificou para salvar o pai, e grandes lamentos foram dados na noite, a fada que concedeu vida ao boneco o transformou em um menino de verdade, mas não por que ele tinha que ser de carne para ser de verddade, era uma metafora, ele não era de verdade por que todos apenas o viam como um objeto, mas quando o pai dele finalmente o viu como seu filho, ele ãao era mais um objeto, ele era um menino de verdade.


Boooooom, ela estava melhorando, não pude fazer nada além de bater palmas bem devagar pra ela, por que ela realmente mandou bem ali.


Antonio: muito bom Saytus, agora me fala, li uma história recentemente dois psicólogos conversando, o mais velho e sábio indagou que não se pode controlar o quanto uma árvore cresce, quando ela dá flores ou quando ela dá frutos. E outro psicomago falou que é possível controlar quando colher a fruta e onde a semente será plantada, o que você acha disso?


Saytus: as duas afirmações do psicomago mais novo estão erradas


Antonio: por que?


Saytus: por que não é possível controlar quando a fruta irá cair, podemos a colher, mas se colhermos muito cedo, ela estará verde, e se a colhermos muito tarde, ela estará podre, a fruta tem seu próprio tempo para ser colhida. E não importa o quão bom esse mestre seja, ele não pode plantar uma semente no meio das rochas, ou em uma terra podre recheada de cinzas e sal, não importa o que ele faça, existe lugar e hora pra plantar uma semente se quiser que ela cresça


Antonio: interessante


Saytus: então sim, as duas afirmações do dito Psicomago estão erradas, o dialogo era sobre o que?


Antonio: o filo-arcano estava conversando com o mestre sobre a obsessão dele por controle, e a árvore foi usada como um exemplo de como ele não pode controlar tudo


Saytus: hehe, o mestre dele deve ser bem sábio, existem tantos exemplos de “falta de controle” que uma árvore pode dar


Antonio: me diga outro então


Saytus: por exemplo, apesar da árvore não fazer ou dar o que você quer, ela ainda é algo que você precisa investir, você vai precisar plantar, alimentá-la e deixar as pragas bem longe dela, e se voce tiver paciencia e ter cuidado direito da arvore ela lhe dará frutos e ainda lhe dará boas sementes pra você fazer tudo de novo


Antonio: (risada) as possibilidades de interpretação são quase infinitas.


Ri mais, junto de Saytus, mas enquanto cavalgavamos mais, mudando nossa corrida simples pra uma corrida de cavalos aéreos, com direito a pistas de obstáculos, percebi que a fada queria me perguntar alguma coisa.


Antonio: o que foi Saytus?


Saytus: Antonio, eu sou humana?


Antonio: por que essa pergunta assim do nada?


Saytus: tentei não pensar muito no que aquele aluno disse pra mim no passado, mas de vez em quando, aquela frase ainda entrava em minha cabeça, e apesar de saber que eu era humana, e que você deu uma explicação tão boa do por que…eu ainda to tentando entender o que significa ser humano, por muito tempo, a simples frase, “ah, eu sou humana por que sim e tá tudo bem”. e por um tempo, isso bastou, mas isso não basta mais, e para os estudos que os sapiens e gigantes fazem, sei que a simples frase “isso acontece porque sim” não existe…então, você poderia me explicar por que eu sou humana?


Não queria parecer debochado, mas dei uma risadinha que deixou a Saytus irritada.


Saytus: qual é a graça?


Antonio: nada não, é que, eu sempre quis explicar isso pra alguém quando eu descobri, mas nunca tinha uma oportunidade de falar isso. (tosse). entao, ser “humano” significa quebrar a evolução em si, quebrar a regra de “o mais adaptado sobrevive”.


E como eu esperava, a Saytus ficou confusa com o que eu disse, mas não falou em voz alta, só estava com o rosto de alguém que tinha um sinal de interrogação enorme na cabeça.


Antonio: o que eu to tentando dizer é, na natureza, o ser vivo com o melhor corpo pra não ser pego por predadores, doenças ou causas naturais, sobrevive por mais tempo e consegue passar seus genes pra frente. Mas um humano não, nós somos diferentes porque criamos sociedades onde tanto os mais adaptados quanto os menos adaptados conseguem sobreviver e passar seus genes.


A Saytus parecia ter entendido um pouco, mas ainda parecia muito confusa.


Antonio: existem registros bem antigos, que mesmo antes dos Sapiens aprenderem a falar, eles cuidavam dos seus membros machucados e que seriam inuteis em batalhas futuras, além de ter vários registros de toda a história sapiem de singulares sendo protegidos, antes mesmo deles terem a magia da singularidade. Enquanto para a maioria dos animais, ser ferido de forma grave é uma sentença de morte e uma isolação da maioria dos bandos grandes e competitivos, e sempre que um animal “errado” nasce, como um tigre sem garras, ou um pássaro sem penas bem feitas, ele é descartado pela mãe, por saber que ele não sobreviveria muito tempo na natureza.


Saytus estava boquiaberta com o que dizia, era como se o mundo inteiro dela estivesse se abrindo e eu queria o abrir mais.


Saytus: desculpa mas…eu não to te acompanhando


Antonio: vou simplificar um pouco pra você entender, animais agem apenas por instinto, “tenho que caçar, tenho que comer, tenho que me reproduzir” e quando algo ferido ou fraco é posto na frente deles “tenho que destruir”. Animais agem por instinto de que eles devem ter apenas o melhor e o ideal junto deles, apenas espécies com raciocínio e inteligência podem desejar ajudar os outros, mesmo aqueles que, não deveriam existir segundo os instintos deles. Você está entendendo agora Saytus? Ser gentil, se preocupar com os outros e ter compaixão é algo que apenas uma espécie inteligente, ou melhor, um humano pode ter.


A Saytus estava bem emocionada com uma cara de choro bem fofinha sem derramar lágrimas, eram lágrimas que pareciam não estar prontas pra cair, mas eu não tinha terminado.


Antonio: sim, existem pessoas que não tem esses traços que falei, e ironicamente, essas pessoas são bem mais animais do que as pessoas que elas desprezam, mas no fim ficaria tudo bem, pois não importa quanto tempo passe, enquanto a inteligência ainda existir, sempre voltaremos ao estado de compaixão, pois…acho que o momento que uma raça perde ou não tem compaixão, é o momento em que ela não é mais humana, apenas um animal. Pelas histórias que eu vi nos gigantes, e os contos de fadas que eu li, sei que vocês possuem humanidade pra dar e vender, já os Sapiens, (risada sem graça) agente ainda precisa de ajuda, ainda estamos sendo testados sobre merecer sermos humanos ou não, mas por enquanto, acho que estamos indo be…


Eu parei de falar depois daquilo, pois agora eu via a Satus me olhando com tanta emoção que parecia que eu era alguma espécie de salvador, olhei pra baixo e vi muitos alunos nos observando, tinham alguns alunos ali que sequer eram do curso dos cavaleiros, e todos estavam com rostos emocionados assim como a Saytus. A fada então segurou minha mão, com as lágrimas finalmente caindo e falou.


Saytus: você é o sapien mais humano que já conheci até hoje…nunca deixe ninguém te falar o contrário


Antonio: vou manter isso em mente.


Ouvir aquilo da Satus me deixou bem mais feliz do que esperava, eu tava muito feliz, cheio e quentinho por dentro. Mas a minha alegria apenas aumentou quando entramos na volta final e a professora estava esperando nós dois no final da pista.


A professora sequer olhou pra Saytus e foi logo falar comigo, ela ativou um estranho dispositivo e colocou ele no meu rosto.


Professora: desculpa por isso senhor Antônio, mas você poderia repetir o que falou pra Saytus nesse gravador?


Antônio: eu tenho certeza que outro pensador famoso chegou nessa conclusão, mas tudo bem, eu falo.


Depois de falar nas gravações, alguns alunos do primeiro até o terceiro ano falaram comigo, e se eu já estava cansado antes, agora eu estava esgotado e quase dormindo em pé depois de falar com todos, mas consegui ficar em pé para ir até um morrinho de grama só pra ficar lá, relaxando e descansando com a Saytus e tomando água. Descansei os olhos um pouquinho, provavelmente bem mais tempo do que pensava, depois olhei para a Saytus, a vendo tão calma e tranquila quanto eu.


Saytus: ai Antônio, você ligaria de ir pra minha casa?


Antônio: claro que não, só não vai dar pra eu ir hoje, nem amanhã, nem depois de amanhã


Saytus: não se preocupa, agente marca um dia, é que eu só queria ter certeza, quero que você conheça minha família


Antônio: a sua família? É claro Saytus, vou fazer o possível pra abrir um horário pra você, mas essa semana não dá mesmo, mas não se preocupe, eu visito sua casa outro dia.


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