O resto de tempo, tentei pensar em outras coisas para me acalmar, e acabei olhando pro nada com um olhar triste, até que um aluno jovem demais pra ser dessa sala entrou, eu o reconheci, mas não estava no clima pra tentar um sorriso falso, então quando ele me cumprimentou, a tristeza estava quase escrita na minha cara.
Midas: oi Antonio
Antonio: oi midas
Midas: ai mano, voce quer uma ajuda?
Antonio: desculpa cara, mas não acho que você pode me ajudar com isso
Midas: aaaaah, eu discordo amigo, eu conheço esse olhar, você está de coração partido, deixa eu adivinhar, você descobriu algo horrível que seu pai escondeu de você.
Eu não fiquei surpreso dele saber que eu estava de coração partido, mas ele saber de cara que tinha a ver com meu pai arregalou meus olhos, e até me fez quase saltar da cadeira.
Antônio: como você sabe?
Mudar: acredite meu amigo, eu já perdi a conta das vezes que tentei afogar minhas decepções no chocolate. Mas eu descobri uns truques para ajudar nisso, se quiser posso te dar umas dicas
Antonio: bom, ok, podemos fazer isso depois da aula então?
Midas: é claro.
A aula foi tranquila como sempre, cara, fazia um bom tempo que não sentia tão sensível emocionalmente desse jeito, era nostálgico de uma forma ruim, fui para a biblioteca no fim das aulas, onde Midas me esperava na porta.
Midas: oi Tony
Antoni: então, o que você queria falar comigo?
Midas: entendo se você não quiser falar sobre isso, mas descobri que o melhor remédio para soltar a raiva e decepção no seu peito, é com uma boa briga, ou batendo sem parar em um manequim numa parte da escola.
Hummmm, não sabia que a escola tinha algo assim, e pela minha cara de confusão, o Midas apenas sorriu e me levou até ele pra um lugar um pouco mais no subsolo e com uma blindagem bem mais pesada que o resto de tudo.
Midas: tentei seguir o seu conselho sobre “esperar minha vez” à risca, e quanto mais eu tentava controlar meus impulsos nos lugares errados, uma coisa levou a outra, e acabei encontrando aquela sala.
Ele me explicou enquanto me levava até uma porta tao grande e pesada que precisava ser aberta por golens enormes. Lá dentro, dei de cara com algo que parecia uma estação de tiro, com a simples diferença que haviam grandes hologramas, sejam eles golens, monstros ou magos rebeldes, que tentavam avançar e destruir cada mago nas cabines, mas com feitiços prontos pra matar alguém, os magos tinham rostos absurdamente cruéis e distorcidos em raiva, he, ali parecia o lugar perfeito para extravasar a raiva, lá parecia o lugar onde o pior do pior dos alunos se reunia para ser liberado e eu amava aquilo.
Midas: vou ouvir você quando estiver pronto, mas se precisar só extravasar a raiva, esses caras vão estar com você
Antônio: que milagre é esse? Não quer lutar comigo
Midas: haha, eu não sou louco Antônio, minha varinha acabou de crescer pra um bastão, e olha o seu bastão, ele tá quase como um cajado completo.
Humpf, ele falou aquilo pra me elogiar, mas não fiquei feliz, meu cajado já estava no último estágio, ele estava enorme, e diferente de um bastão lizo, ele estava cheio de imperfeições e curvas que apenas um galho natural de um mago teria, como um reflexo desse ser meu último ano da faculdade, mas eu não me sentia um adulto, não, não depois do que passei com meu pai, o que eu fiz, e o que eu ainda iria fazer não podia ser uma atitude de adulto. E o fato de eu não me arrepender do que eu disse, em nenhuma palavra era outra prova forte que eu não era um adulto, não ainda.
Antônio: (suspiro) obrigado Midas, vou pegar meu lugar.
Andei um pouquinho entre as cabines, tentando encontrar um lugar pra usar, até uma cabine exalando poder, letalidade e ódio me atraiu como se eu fosse um inseto sendo atraído para a luz. Quando entrei na cabine, vi vários monstros holográficos me esperando, mas eles pareciam estar esperando eu apertar o botão vermelho no meu lado.
Antes de apertar o botão, tirei alguns segundos apenas para olhar os monstros, eles não eram reais, então eu não precisava me segurar, mas ainda sim, precisei de bastante tempo, eu passei tanto tempo aprendendo a me segurar que me soltar totalmente era algo que precisei de bastante tempo, a magia que exalou de mim ardia, como se ácido tivesse exalando de mim, queimava, mas doía menos deixá-lo sair do que mantê-lo dentro de mim.
E quando apertei o botão, meu rosto se distorceu tanto que tinha quase certeza que ia ficar com o rosto paralizado, eu deixei toda a raiva em meu interior sair, primeiro tentei transformar tudo em bolas de fogo, mas logo tudo foi desfeito e se tornou apenas magia de forma pura, magia viajando em forma de serras, espinhos e martelos de pura energia. Ironicamente, esse tipo de ataque era o mais fraco que existia, mas descarregando toda minha raiva e veneno nesses ataques, até algo fraco se tornou algo capaz de dizimar um exército inteiro que facilmente dava dificuldades pra vários primeiranistas.
Meu ódio me fez destruir muitos monstros, eu nem soube o que eu estava destruindo por quase 1 hora inteira, eu só estava atacando tudo que tava na minha frente e quando me acalmei um pouco pra ver o que estava fazendo, vi que estava decapitando, perfurando e esmagando golens, monstros e magos também, com minha mente, imaginei que do mais lindo dos amigos até o mais feio dos monstros tinha o rosto de meu pai, o que me deixou feliz e alegre o bastante para rir em meio a loucura de minha raiva, raiva e alegria pareciam emoções quase contraditórias, mas simplesmente funcionava pra mim.
Eu atirei, atirei e atirei feitiços simples até que os monstros precisam ser substituídos por coisas bem mais potentes, como golens do tamanho de prédios, hipopótamos com armaduras de tanque de guerra e magos ilegais que pareciam cobaias científicas. Mas nenhum deles conseguiu ganhar de minha raiva, eu apenas aumentei mais minha força, e enquanto meu suor saia, senti bolhas se formando em minha mão até que elas aumentaram e aumentaram até estourarem em minhas palmas, doía, mas só usei aquilo de combustível para continuar.
UUUUUh, aquele equipamento era bom mesmo, aguentou bem meu ataque, a ponto de eu finalmente me acalmar, e com certeza eu me acalmei agora, respirei fundo, enquanto meus feitiço simples voltavam a ser feitiços complexos, até o ponto em que precisei desligar a máquina pra respirar fundo e me recuperar.
Respirei o mais fundo que podia, e depois da minha raiva ser totalmente jogada pra fora de novo, comecei a chorar, bom, eu só derramei algumas lágrimas, sem a raiva para atrapalhar, toda a minha tristeza saiu de uma única vez, mas depois de tudo, e de me sentir mais fraco e cansado do que nunca, enquanto as lágrimas caiam, fui segurado pelo Midas.
Senti que isso tava ficando muito comum as pessoas me pegarem assim e me ajudar a ir pra outro lugar. Todos os alunos estavam impressionados com o que eu fiz, mas eu sequer olhei a cabine novamente, eu já tava aliviado e tranquilo, então não tinha mais nada pra ver ali.
Guiei midas para um lugar mais calmo e tranquilo para a minha situação atual, e agente ficou ali, respirando e ficando tranquilo, ate sentir que eu tava seguro, me permiti deixar o resto sair, e novamente, quando estava no escuro, onde nem meu compatriota podia me ver, mesmo com sombras, via sua preocupação, não tentei limpar, o rosto dele me dizia que não iria me reprimir…haaaaaaaa, aquilo era tão bom, deixar elas caírem sem tentar as reprimir, como eu vivi tanto tempo sem isso? Quando me acalmei, e parei de soluçar, o midas falou.
Midas: dói, não é?
Não respondi, mas já estava me sentindo bem melhor.
Midas: descobrir que a pessoa que você mais admirou e se inspirou por tanto tempo, era um canalha que sequer gostava do verdadeiro você. O você que está debaixo de tudo que você aprendeu e que te ensinam…não vou te dizer que é fácil, mas eu te garanto mano, um dia essa dor vai passar, e você vai achar alguém que te ame tanto quanto você a ama.
Que Papinho inspirador era aquele? Que coisa brega…bom, de qualquer forma, estava ajudando, eu me acalmei um pouco mais até eu conseguir rir um pouquinho, e o Midas parecia satisfeito.
Midas: bom, já fiz boa parte do meu trabalho agora que já fiz você rir, mas sinto que não é só isso que você quer, né?
Olhei pro Midas um tempinho, depois respondi.
Antônio: é, você acertou, quero falar como eu não quero mais me envolver com meu pai.
O Midas me olhou de forma estranha, e depois me olhou bem feliz.
Antônio: antes eu só não queria perdoá-lo, pensei que se eu fosse paciente e desse a ele um tempo de entender tudo, ele poderia entender o que eu sou, mas eu entendi, ele não quer entender, nunca quis, e nunca irá querer, ele se recusa a ver todas as partes de mim, o que eu amo, o que eu odeio, ele apenas escuta o que ele quer escutar…não importa se é o meu pai, não importa se me criou desde pequeno, eu não posso ficar perto de uma pessoa assim, você não acha?
O Midas levou algum tempo pra responder, mas não por dúvida, mas por que ele me olhou nos olhos e viu que não havia dúvidas em meu coração então ele perguntou.
Midas: você está disposto a acreditar nisso mesmo que seu pai morra amanhã?
Antônio: sim, mesmo se ele tivesse uma doença terminal, eu não iria me desculpar com ele, “aí meu deus, meu pai que foi horrível comigo tá morrendo, eu me sinto tão arrependido, vou desculpa-lo por todas as coisas horríveis que ele fez só pra ele morrer em paz”. Não, eu não quero que ele morra em paz, se fosse possível, no leito de morte eu queria olhar ele nos olhos, e dizer uma única vez que eu o odeio apenas para ele entender que eu nunca perdoei ele de verdade.
E novamente, o Midas me olhou nos olhos, novamente sem dúvidas, o dourado que refletia em meus olhos refletia a fúria que habitava em mim, mas que não carregava mais veneno.
Midas: resposta certa, nunca conheci seu pai, mas é nítido que você não tá mentindo pra mim, e eu garanto, pra pessoas como ele, apenas sentir na pele o que você sente todo dia o fará te entender por completo, mas como é ilegal replicar maldiçoes artificialmente, não podemos o fazer entender o seu problema
Antônio: pois é, e aí, quer fazer o que?
Midas: bom, eu só queria saber se…você quer jogar cartas comigo.
Depois de falar isso, o Midas tirou um baralho de cartas do bolso e colocou na minha frente, aaaaah, eu conhecia aquelas cartas, isso ia ser divertido.
Midas: claro, você pode não querer
Antônio: é claro Midas, eu jogo com você.
O Midas pareceu ter ganhado na loteria quando eu falei isso, e assim, eu e ele jogamos um joguinho de cartas, eu sabia o básico, mas as técnicas do Midas eram bem superiores às minhas, e sempre que alguém perdia, uma torta de limão era jogada na cara do perdedor. Hahaha, meu humor finalmente melhorou depois de bastante tempo, e mesmo assim, sentia que faltava algo.

