Não vi meu pai de novo de manhã, nem minha mãe, hump, que estranho, bom, de qualquer forma, me arrumei e fui pra escola usando o Zorro da mesma forma fiz todos os dias desde que eu entrei lá.
Pensei que as coisas iam acabar dando certo, mas antes de entrar, ouvi uma voz que fez a ferida em meu coração arder profundamente, ela nem doeu, ela ardeu logo direto.
Pai: Antônio?
Não consegui falar, não consegui raciocinar por que ele estava aqui, só o que conseguia sentir era vergonha, vergonha por não conseguir entender o turbilhão de sentimentos que estava na minha cabeça, eu tava sentindo tanta coisa diferente ao mesmo tempo que a ardência no meu coração apenas aumentou mais e mais, até que eu entendi, não era uma ferida, era veneno, meu ódio cultivou palavras pra eu falar pro meu pai e ele só se aliviaria quando eu falasse pra ele.
Ouvi a voz dele falando meu nome de novo, de novo e de novo, até que consegui me concentrar o bastante para falar.
Antônio: NÃO CHEGA PERTO DE MIM!
Pai: OLHA COMO…
Antônio: VOCE NÃO É O MEU PAI, NUNCA FOI, EU TE ODEIO, E SEMPRE VOU TE ODIAR, SOME DAQUI E NUNCA MAIS APAREÇA NA MINHA FRENTE…
Eeeeeeee, foi isso, a ferida no meu peito se fechou depois disso, e sinceramente, me senti aliviado de forma que eu não achei que ficaria, numa única palavra, o ódio foi embora, meu peito parou de doer e por um simples momento, senti que nao sentia que iria falar algo sem pensar.
Meu pai não parecia ter entendido de cara o que acabou de acontecer, deve ter pensado que ele ouviu algo errado e continuou se aproximando, e apesar de eu estar mais calmo, ainda não queria que ele me tocasse, na verdade, o veneno em meu coração parecia estar se recarregando quanto mais ele se aproximava.
Pai: filho…
Antônio: fica longe
Pai: filho…
Antônio: eu falei ficar longe!
Pai: FILHO DEIXA EU…
Mas antes de meu pai chegar perto de mim, a Diretora apareceu em minha frente, eu não sabia se era a verdadeira ou uma espécie de clone robô (é, a diretora consegue fazer isso), mas foi bem vinda na ajuda de qualquer jeito.
Diretora: Bom dia senhor Carvalho, ou deveria chamá-lo apenas de senhor agora?
Antonio: apenas senhor? Como assim?
Pai: é isso que eu…
Mas o meu pai não conseguiu terminar a conversa, pois a diretora liberou uma pequena quantidade de poder, paralisando e até jogando meu pai pra trás. Meu pai era um grande cavaleiro, um general, mas frente a diretora, ele caiu como um simples civil.
Diretora: senhor, entendo que queira conversar com seu filho, mas dentro da escola, você não tem autoridade o bastante pra entrar a menos que seja pra ver um membro de sua família e esse membro te deixe entrar.
E com um olhar mais gentil e tranquilo, a Diretora olhou pra mim pedindo uma confirmação, mas eu apenas acenei minha cabeça em negação, e olhando de novo pro meu pai com um rosto gélido a ponto de criar gelo no rosto dele, ela falou.
Diretora: temos a nossa resposta, seja lá o que queira falar com o senhor Carvalho, terá que esperar até o fim da aula pra contar
Pai: tá bom, eu espero.
E assim mesmo, de forma simples, meu pai se sentou no chão, pronto pra me esperar na porta da escola assim que minha aula acabasse, mas a Diretora não aceitou isso.
Diretora: lamento senhor, mas se quer esperar seu filho, terá que fazer isso um pouco mais longe.
E com um leve feitiço sem sequer usar um cajado, a Diretora jogou meu pai pra longe, noooooooossa, ele voou longe, a ponto de voar aos céus, desaparecer no meio das nuvens e criar uma grande cratera aonde ele caiu…nooooooosa, se ele não fosse um cavaleiro, teria morrido na hora, mas eu sabia que ele tinha sobrevivido, e com aquele início de dia, que ainda não decidi se era um dia bom ou não, ouvi a Diretora me chamando.
Diretora: senhor Carvalho, saiba que se tiver qualquer necessidade, a escola fará o possível para atendê-la
Antônio: é, eu sei disso, obrigado professora.
Me afastei da diretora bem devagar, não fingi o sorriso quando a encarei, mas enquanto chegava cada vez mais perto da minha sala, mais sentia uma tristeza profunda no peito, agora não doía mais, mas ainda me enchia de tristeza o fato de não poder contar com meu pai…hahhhhh, fazer o que, ainda bem que eu comprei um montão de chocolate antes de ir pra aula, eu havia chegado um pouco mais cedo então eu tinha tempo antes do professor nos chamar.
Eu queria ler, ou escutar alguma orquestra em meus feitiços, mas tudo que consegui fazer foi me debruçar na cadeira e…pensar nas coisas que já passei, os presentes que ele me deu, todos os abraços, todos os avisos para eu me tornar um bom homem no futuro, nada daquilo era falso, mas mesmo assim, foi o bastante? Todas as coisas boas que ele fez comigo anularam todas as coisas ruins que ele fez comigo?
Antônio: não.
Minha mente estava confusa, mas meu corpo tinha a resposta pronta, hummm, ele já me escutou alguma vez? Também não, ele so me entendia de verdade quando eu gritava, chorava, e batia em tudo na minha frente, ou quando eu “bancava o maluco” como gostava de dizer…nossa, hehe, isso chegava a ser engraçado, ele me dizia que eu “não era maluco” mas as pessoas só me escutam quando eu bancava o maluco, principalmente ele…droga, meu coração estava se carregando de veneno de novo, e eu estava me preparando pra disparar,.
Respirei fundo, mas aquilo só fez meu peito doer mais, até eu comer um pedaço de chocolate acalmou meu coração, sim, enquanto saboreava cada pedaço do chocolate, ficava feliz enquanto o veneno em meu coração se acalmava.
Meus pensamentos se fortaleceram novamente, eu queria que ele sofresse, em minha balança mental, tudo de bom que ele me fez não se comparava ao que ele me fez de mal, eu queria machucá-lo, muito, mais um pedaço de chocolate, e outro, e outro, e no meio disso, conseguia pensar bem o quanto eu precisava evitá-lo, eu queria machuca-lo, mas por enquanto, eu iria me machucar bem mais do que ele, sim, evitar um ao outro seria o melhor agora, e quando pensei nisso, fiquei triste.

