Consegui descer sozinho da grande escadaria dos gigantes, mas não chamei o Zorro ainda, eu me agarrei a Dandara na vassoura de novo, e diferente de antes, ela foi bem devagar dessa vez, ela não falou por um bom tempo, isso foi bom, eu não queria falar…ainda.
E na calmaria daquela volta, o cheiro de Dandara e meu cansaço depois do segundo ataque de stress, descansei um pouco atrás dela, e ela apenas segurou bem forte os meus braços pra eu não cair.
Quando abri os olhos, vi que tínhamos chegado, o clube de música, hehe, desci da vassoura, novamente fraco, mas mantive a postura a ponto da Dandara não pensar que eu precisava de ajuda.
Lá dentro, existia várias salas de música, tanto pra fazer quanto para cantar nas máquinas. A Dandara alugou uma das salas e nós dois entramos, me sentei no sofá imenso do lugar e esperei um pouco. É, ela estava bem nervosa, mas mesmo assim, criou um microfone e vários instrumentos, tirando dois papéis do bolso, uma letra e uma partitura, ela olhou bem devagar pra cada uma e depois falou.
Dandara: olha, não é o produto final, então não fica muito inclinado a dizer que odiou, tá bom?
Antônio: tá bom.
Eu tava muito curioso pra saber o que ela iria cantar, sabia que ela faria algo incrível, pois tudo que ela fazia era incrível, até essa timidez que ela tinha em cada movimento era incrível, então, começou o ritmo.
A música era tranquila, e feliz, a ponto de parecer o início de um grande conto, então ela começou.
Muitos me viam, mas nunca me ouviam. Minha beleza era só o que percebiam
Meu canto foi calado por gritos de horror. Máscaras iradas me infringiram grande dor
Minha gaiola brilhava em dourado, aproveitava o mais único e procurado.
O escuro escondia monstros e aberrações, como as máscaras contavam em canções.
A porta só abria para comidas e passeios, e fora da gaiola eu limpava meus anseios.
Tentaram me ensinar a voar, e só aprendi por não ter que pensar.
Mas meu canto começou a sumir, para as máscaras eu conseguia apenas sorrir.
O ritmo da música era dominado por violinos junto com batidas sublimes de bateria, tudo junto com um simples dedilhar de um lindo pianinho em teclas finas.
O escuro se enfeitava de olhos sem máscaras.
Contorcida de medo, abracei minhas amarras.
A cama abraçava e sufocava.
A comida alimentava e viciava.
( baile de máscaras.)
com alegria e riqueza.
( baile de máscaras)
Realizando desejos.
( baile de máscaras)
Tudo é cinza e tudo é falso.
( baile de máscaras)
Falsos sorrisos para uma verdadeira gênia.
Então, a música entrou num solo de instrumental, onde ela recuperou o fôlego, e depois da música cozinhar bem a melancolia por um bom tempo em cada nota, Dandara continuou.
Muuuuuuito-o-ooos monstroooooooos visitara-am, minha gaiola, mas eles naaaaaaão se escondera-aaaam.
Feitos e burros, bagunçaram minha gaiola e me emprurravam pro escuro.
Até um monstro no escuro me dar uma cantada, me convidando a sua morada.
Assustada, me encolhi e gritei para afastá-lo.
O monstrinho partiu e eu lembrei, lembrei e lembreeeeeeeeei
Gostei do pequeno solo mais alegre que veio depois, um solo simples apenas com baixos, com alguns toques de teclado mais algum tempo depois, junto de uma pequeno ritmo de outro instrumento que não sabia dizer junto a mistura alegre.
Do cinzaaaaaa, a gaiola perdeu sua cor, e as comidaaaaas perderam o gosto e eu perdi minha voz.
Sem meu brilhooooo, as máscaras se amontoaram, me enchendo de medo.
Em risos, as máaaaaascaras foram gentis com as outras, mas não comigo.
O meeeeedo, alimentou meus gritos, que não incomodou os gigantes distraídos.
Joooogada, descartada, esgotada.
sabendo que ninguém ia me escutar, me encolhi em minha cama tentando me acalmar.
Na luz, o mais horrendo som foi dado, e das sombras, o mais lindo cantar respondeu
A vooooooou horrível não vacilou, e perguntou o que a linda voz desejou?
O único desejo das sombras, foi poder entrar, e num grande choro, a luz abriu seu mundo para o escuro
A grande música melancólica mudou totalmente e virou uma música alegre depois de muito tempo.
Um passarinho pequeno entrou, e com seu canto, o cinza da gaiola ganhou novamente o dourado de antes.
Pra mim, o passarinho cantou, com grande amor, nunca me abandonou.
O passarinho voou pra casa, me convidando para sua morada.
Mas não pude ir em sua moradia, pois tinha medo do que o escuro escondia.
O passarinho prometeu entrar pela porta aberta, dizendo que amou pintar meu mundo sem cor…numa paixão certa.
E com um último ritmo bem feito, Dandara colocou um ritmo final, com ela colocando toda a emoção de alegria e esperança bem no finalzinho, com cada instrumento criando um ritmo de “luz no fim do túnel”, antes dela diminuir o ritmo o suficiente para conseguir parar os instrumentos.
Hehe, ela dizia que era um passatempo, mas aquilo não era o nível de um simples “passatempo”. Fiquei observando e analisando cada nota da música, e quando a música parou, com ela toda suada, ofegante, e pelo que eu via, uma garganta bem dolorida, me pus de pé e comecei a aplaudir, ela ainda tinha muito que aprender, mas não podia negar que ela tinha uma voz linda de morrer e uma sincronia incrível com os instrumentos que me deixou chocado, eu não podia parar de aplaudir, isso tava muito bom.
Antônio: bravo, bravo, incrível, não sabia que você tinha evoluído tanto
Dandara: hehe, bom, é uma melhora bem grande desde alguém que não conseguia sequer falar direito coisas que não eram parte do cronograma.
Oooooh, ela estava toda envergonhada, eu queria a apertar bem fundo, mas então ela falou.
Dandara: algum comentário?
Antônio: bom, sinceramente o ritmo e sua voz tá no ponto, o problema é a letra, ela tá boa, mas com certeza tá fora de ritmo várias vezes por que ele tenta acompanhar as mudanças de sua canção, além da história que você quer contar em sua música está um pouco incerta
Dandara: você desistiu tudo isso numa única música?
Antônio: bom, sim
Dandara: qual o problema da letra em si?
Antônio: bom, é que parece que existem 3 musicas diferentes na letra que são diferentes demais um do outro para se conectarem, entende?
A Dandara então se sentiu um pouco e começou a pensar, ela pareceu ter ligado os pontos, até falar.
Dandara: aaaaaaah, entendi.
Ela então começou a anotar algo em um caderninho, mas depois o guardou em segundos.
Dandara: voce nao ta sendo mais gentil por que você me ama, ne?
Antonio: Dará, acredite. Quando o assunto é música e som, eu não consigo fingir, nem que eu queira.
Ela riu da minha piada ruim, e eu quase ri também, até ela falar.
Dandara: então…quer cantar uma música mais…oficial?
Antônio: desde que você não me faça cantar nada idiota, unidomencional e que precise de sacanajem e palavrões pra se vender, pode contar comigo.
O sorriso que Dandara deu quando eu falei aquilo me pegou, era enigmático, mas curioso também.
E novamente, ela cantou pra mim, uma música de ritmo calminha, pensando que não aguentaria uma de rock pesado.
E quando chegou minha vez, dei uma risadinha e coloquei a “minha” música de rock mais pesada que tinha.
Foi a ponto do lugar tremer pelo quão pesada ela estava, a Dandara ficou surpresa mas ficou bem feliz.
Dandara: pensei que você não aguentasse musicas altas
Antônio: é um pouco mais complicado que isso, se eu gostar da música e “decidir” tocar a música, consigo aguentar ela um bom tempo, mas isso também tem um limite, então esteja preparada pra quando o limite passar também
Dando uma risadinha, agente passou o resto da tarde numa seção grande de rock pesado, a gente ficou suado pra caramba de tanto que a gente dançou, gritou e jogou a cabeça pra trás, e nossas vozes ficaram roucas quando ela se sentou no sofá novamente, bem do meu lado.
Antonio: quer uma trégua e tentar ouvir algo tranquilo?
Dandara: quero.
Demos uma pausa de 10 minutos para nos recuperarmos, e colocamos uma playlist de músicas bem calmas e tranquilas pra relaxar, e depois de gastar nossas energias no rock pesado, agente quase dormiu no camarim, mas conseguimos manter o mínimo de decência pra não dormirmos na cabine totalmente suados.
No meio da seção, expliquei melhor pra Dandara como o lance de “barulhos altos” funcionava pra mim, e como até os sons que eu gostava tinham um limite do quanto eu gostava de ouvir eles, e os sons que não eram meus tinham um prazo de tolerância ainda menor.
No fim, saímos do camarim bem tranquilos, e com o Zorro comigo dessa vez, acompanhei a maga em outro lugar que ela queria muito me levar.
Viajamos juntos alguns segundos até chegarmos em um parquinho cheio de brinquedos, crianças e pais os observando com cuidado, mas quando agente se aproximou, vi que aquele era o parque silencioso, um parque só pra magos pela letalidade do feitiço de anulação de barulho que tinha em cada região dele, mas pro estado em que meus ouvidos estavam naquele momento, aquele seria o melhor lugar pra ir, olhando mais de perto, vi que estávamos indo especificamente para uma mesa com senhorzinhos jogando xadrez, ooooohohojo, isso seria legal e Dandara desenhou com seu quase cajado no ar.
Dandara: (você sabe jogar?)
Antônio: (saber eu sei, mas ser bom, aí já é outra história).
A Dandara duvidava bastante que eu conseguia ser ruim em alguma coisa, e quando nós chegamos na fila pro jogo de xadrez, ela entendeu melhor o que eu tava falando, eu sabia jogar, mas não era muito bom, conseguia vencer um jogador desavisado, mas muitas vezes eu era pego desavisado, e eu não consegui vencer nenhum velhinho, cara, eu dançava na palma dos idosos desde que a partida começava, mas pelo menos eu tinha algo mais equilibrado com as pessoas da minha idade, e até gente mais jovem que eu, perdi a noção do tempo bem rápido, assim como os livros, aquele jogo de estratégia simples e divertido arrancou um bom tempo do meu dia, apenas parei de jogar quando já estava anoitecendo e vi que tinha derrotado a Dandara no jogo, ela estava rindo de forma silenciosa, mas o rosto já mostrava o quanto ela estava fervendo por dentro por uma revanche e eu queria dar pra ela, mas antes, precisávamos de recargas.
Andando para o parque, e sentindo que meus ouvidos estavam finalmente normais de novo, comprei dois espetinhos de coração de galinha e dei um pra Dandara.
Logo depois saímos do parque caminhando de mãos dadas e segurando o espetinho com as mãos livres, agente brincava de dar um espetinho na boca do outro enquanto todo mundo olhava estranho pra gente, mas eu não ligava mais pra isso, e por mais incomodada que a Dandara estivesse, era claro que ela tentou não ligar também.
Antônio: quer ir pra um lugar mais vazio?
Dandara: não, tá tranquilo aqui.
Quando terminamos nossos espetinhos, jogamos o espeto no lixo e andamos de volta bem devagar para o Zorro e para a estrelinha, mas nós demoramos pra chegar lá, agente caminhou bem devagar, ficando bem agarradinhos um com o outro.
Quando chegamos no Zorro e na estrelinha viajamos bem devagar pro próximo lugar.
Dandara: e aí, já tá se sentindo melhor?
Antônio: sim, nem me lembro mais por que eu estava triste
Dandara: ótimo.
Tinha uma última parada, que precisava da minha calmaria total para conseguir ir, um pequeno show de fantoches em uma esquina que mostrava a história de vários bonequinhos de papel com a ajuda da magia.
Apesar do quão barato tudo parecia, a história foi divertida, comendo um pouco mais de lanches no meio do show de quase 6 atos, saímos da apresentação satisfeitos, a Dandara ainda estava bem preocupada, mas sentia que tudo ia ficar bem.
Dandara: Tem certeza que vai ficar tudo bem voltando sozinho pra casa?
Antônio: não, não acho, mas vou ter que enfrentar isso alguma hora, já ignorei esse assunto tempo demais. Só preciso de mais um tempinho, tudo bem?
Dandara: tá, eu entendi.
Sorri e dei um beijo na Dandara, antes de sair de lá com o Zorro, indo direto pra casa, e apesar de ainda estar com medo, stress e muito mais coisas que anularam quase totalmente o que o meu pai já fez de bom pra mim um dia, tentava me convencer que estava pronto para enfrentar meu pai quando entrasse, entendendo rápido que era uma mentira deslavada, mas seja lá o que eu falasse ou o que acontecesse, eu iria aguentar as consequências, e não iria recuar, eu já recusei por tempo demais.
Entrei em casa já esperando uma briga verbal que poderia escalar pra uma briga física, mas quando abri a porta, não havia ninguém além dos empregados. Andei pelos corredores até o meu quarto e cumprimentei todo mundo, não estava empolgado pra conversar com ninguém agora, eu estava exausto de mais de uma forma agora e até cumprimentar os empregados era difícil pra mim.
tomei banho e senti como se todo o stress do meu dia tivesse acabado, até que eu voltei pro meu quarto e vi minha mesinha, nao tinha nada de especial nela, nada além de algo que escondi em minha gaveta, algo que eu decidi manter comigo ao invés de destruir.
Abrindo a gaveta, tirei uma carta presa no teto dela, uma carta para o meu pai que escrevi e pensei em destruir logo em seguida, eu não queimei a carta por motivos que ainda não entendia, e por esses mesmos motivos que não entendia, decidi ir até o quarto da minha mãe.
Ela estava sozinha, com meu pai provavelmente dormindo em outro lugar. E sinceramente, estava surpreso de não ter nenhum papel ao redor da minha mãe, mas tentei a acordar da forma mais gentil que conseguia, não queria a assustar.
Antônio: mãe…mãe!?
Ela abriu os olhos devagar, ainda bem sonolenta, ela parecia ter dormido só por 10 minutos, mas aí, eu entreguei a carta direto pra mão dela, e ela continuava confusa.
Antônio: por favor, leia a carta quando der tempo
Mãe: carta? Pra quem?
Antônio: por favor, leia a carta, ela é muito importante pra mim.
Sai do quarto, deixando minha mãe nada além de conduza, não sabia se ela leu a carta ou não, mas pro que eu ainda iria fazer, isso pouco importava ainda, eu apenas seguia sentimentos que ainda não entendia, aquilo podia melhorar ou piorar minha situação, mas eu não ligava, eu só queria que toda a dor que sentia passasse rápido, e só talvez amanhã eu saberia se realmente conseguiria ou não.
Entrando em meu quarto de novo, senti meu peito querendo falar algumas coisas, eu queria falar mais coisas, mas não ia conseguir, se eu falasse, mesmo que uma única palavra em relação a aquele assunto, minha ferida iria abrir de novo e eu com certeza seria jogado na casa de reabilitação se alguém descobrisse isso, e eu não posso ser mandado pra lá, não agora, não agora que eu tô tão perto.
No fim o que eu acabei falando foi para mim mesmo ao invés da escuridão, quando eu me formasse eu poderia resolver isso sem problemas, eu só precisava de mais algum tempo, “vamos lá? Você aguentou por 15 anos, não vai fazer diferença de aguentar por mais 1”, pelo menos até resolver o problema no coração, não vai ser tão difícil assim. Pensei em cada uma dessas coisas no escuro, enquanto em palavras tudo que consegui falar foi.
Antônio: aguenta mais um pouco.

