Nossa, as coisas mudaram tanto em tão pouco tempo, e pensar que antes eu não sairia de casa por coisa nenhuma, mas estava me arrumando para ir num encontro com a Dandara para uma palestra dos gigantes, as coisas mudam mesmo.
Me olhando de frente do espelho, ainda não conseguia acreditar que eu estava com um terninho, uma calça azul escura, uma regata branca por baixo de um sobretudo azul levemente mais claro e um cachecol em vez de uma gravata.
Meu rosto havia crescido, mas meus cachinhos castanhos e rebeldes ainda lutavam pra se rebelar de mim mesmo enquanto meu queixo e bochechas pareciam mais duros e firmes, frutos de meu treinamento e de receber muitos socos na cara.
Mas eu ainda amava que, apesar de toda a dor, toda a raiva, e todo o stress que passei graças aos meus pais, eu ainda tinha olhos brilhantes e cheios de vida.
O dourado em meus olhos enormes me deixou hipnotizado comigo mesmo, eu reclamava, odiava, e até mesmo culpava meus pais pela forma que eu tinha ficado, mas eu era grato a eles, e aos meus avós, e aos meus bisavós, o lugar onde eu estava pisando agora, onde minha vida era tão pacífica a ponto de conseguir dar um jeito em minhas próprias maldições é o maior presente que meus ancestrais me deram, as vezes, eu sentia que eles estavam aqui, ao redor de mim, me vigiando, cuidando de mim, as coisas que eu fiz e ainda faria no futuro não eram mérito apenas meu, mas eu faria o impossível de não ser aquele que quebrara esse ciclo.
Depois de refletir ainda mais com meu próprio reflexo, me lembrei por que estava me arrumando e peguei a pequena cesta que preparei pro lanche no reino dos gigantes, enquanto andava pelos corredores, eu estava radiante, meu sorriso era grande o bastante para todos entenderem que hoje seria um ótimo dia.
Ou era isso que eu pensava, até eu ver meu pai me esperando pela porta, e meu sorriso desapareceu da sinceridade e virou algo totalmente falso, mas meu pai não pareceu notar, e meu ódio continuava no mesmo lugar de sempre, ele não aumentou, mas também não tava com clima para falar com ele hoje.
Pai: oi Antonio
Antonio: oi pai
Pai: olha, eu quero falar com você
Antônio: pode ser depois? tô ocupado
Pai: não.
Meu pai bloqueou a porta, e a raiva ousou tentar sair, mas consegui me controlar a tempo.
Antonio: pai, sai da minha frente.
Ok, eu não quis dizer isso, ótimo, minha raiva tava saindo pela minha voz.
Pai: filho, vamos conversar um pouco
Antonio: pra que? você nunca me escuta.
Para, PARA, PARA DE FALAR PRO SEU PRÓPRIO BEM.
Pai: eu te escuto bastante
Antônio: não escuta não, olha, quer conversar? Então que tal um jogo, vamos conversar até você me interromper, e quando você me interromper eu vou arrombar essa porta com uma bola de fogo!
É claro que eu não ia fazer isso, mas do amor ao ódio, eu só estava deixando sair tudo que já pensei, falei aos outros e considerei sobre meu pai, sair em cada frase, eu torci, torci com todas as forças pro meu pai dizer “não” mas novamente, ele me traiu.
Pai: sim, não vou te interromper
Antonio: bom, primeiro, seja sincero comigo pai, você me acha sensível, boiola e mariquinha?
Pai: claro que não
Antonio: e meu eu mais novo? quando eu chorava o tempo todo?
Pai: chorar não resolve nada filho
Antônio: é, nem pedir ajuda, nem gritar quando eu sinto dor, nem me dar o prazer de sentir coisas normais, como minha tristeza ou a minha infelicidade como outra pessoa normal, pois onde eu, um homem, tem o direito de ser qualquer coisa além do cara durão e sem sentimentos?
Pai: ai…
Eu só olhei pro rosto dele, ousando ele a me interromper, ele não conseguiu falar além disso.
Antonio: sabe pai, eu acho que eu já te contei várias vezes o que eu tinha, mas você nunca acreditou em mim
Pai: por que você não é amaldiçoado flho
Antonio: sim eu sou
Pai: não, você não é
Antonio: SIM, EU SOU
Pai: NÃO, VOCÊ NÃO É
Antonio: (suspiro) me sinto discutindo com um criança
Pai: olha como fala comigo rapazinho
Antônio: como você sempre fez? eu sempre te amei, eu confiei em você mais do que eu mesmo por muito tempo…e você usou essa confiança pra me fazer sofrer
Pai: te fazer sofrer? Quando?
Antonio: não sei, talvez quando você nunca respeitou os sentimentos que você não gostava em mim? como meu choro? ou o fato de você nunca entender que eu odiava barulho mais que tudo, ou você nunca entender que EU NAO SOU VOCE, EU NAO SOU UMA CÓPIA SUA PRA CONQUISTAR TUDO AQUILO QUE VOCÊ NÃO CONSEGUIU EM SUA PRÓPRIA VIDA, EU SOU UM SER VIVO, EU TENHO MEUS PRÓPRIOS SONHOS.
Ah nao, nao nao nao nao, eu nem sabia o que eu queria falar na hora, mas definitivamente não era isso. Meu pai ficou me olhando por um bom tempo, ele ficou com vários sentimentos diferentes, sim, agora ele sabia, mas eu não tinha acabado.
Antônio: mas sabe, eu poderia ignorar tudo isso que aconteceu e continuar conversando com você se não fosse o simples fato que você é um babaca doido que não consegue ter uma conversa comigo sem me contrariar quase 20 vezes em uma frase, você não suporta que eu tenha uma opinião diferente da sua, e só quer que eu fique quieto e concordando com você sem opinião própria.
E novamente, o rosto dele mudou bastante, ate se tornar algo bem triste.
pai: você já acabou?
Não iria cair no truque da carinha triste, ou o parente magoado, não mais.
Antônio: também tem o fato de você dizer me amar, mas você só ama algumas partes de mim, as minhas partes que são “normais” mas as partes anormais, como minha maldição, ou meu amor por livros, a ponto de eu nunca fazer essas coisas perto de você. Toda criança, em algum grau respeita o pai, mas eu nao tenho isso, sempre que eu to perto de você, tudo que eu penso é “tenho que tomar cuidado”, as coisas que mostro sem problemas para a maioria dos meus amigos e a minha mãe, eu preciso de muito esforço e reconsideração para sequer falar pra você, antes eu confiava em você, mas agora a minha confiança está quebrada, e nada que você fizer vai fazer essa dor ir…
Pai: E O QUE QUERIA QUE EU FIZESSE, DESCOBRISSE QUE MEU FILHO É UM MALUCO DOIDO E TE TRATASSE COMO UM DOENTE MENTAL PELO RESTO DA VIDA!?
O silêncio se instalou no ar, e pelo rosto do meu pai, era nítido que ele não queria ter falado aquilo, mas não dava pra apagar o que ele disse, ah, mas não dava mesmo.
Nossa, eu sabia que ele não gostava de pensar que eu era amaldiçoado, mas o olhar que ele me deu, o olhar que ele deu ao meu colar, não era de medo, era nojo, ele tinha nojo que eu fosse um amaldiçoado e pretendeu fingir que eu não era assim, ele não fez o teste em mim, ele ignorou todos os sinais que eu dei, nunca ouviu a mim e a minha mãe sempre que eu falava…por que ele não conseguia aguentar que eu fosse isso.
Ele havia realmente me amado, cuidado de mim e me mantido vivo por um bom tempo, mas ele não podia amar minha parte feia, minha parte fria, minha “sombra”.
Eu queria gritar, eu queria gritar na cara dele que “você nunca me amou de verdade” mas não consegui, minha garganta travou, me senti sem voz, algo dentro de mim desmoronou, nossa, as lágrimas estavam quase saindo…hehehe…acho que uma parte de mim ainda confiava em meu pai.
Me segurei pra não chorar e empurrei meu pai pra longe, ele gritou algo que eu nem ouvi, eu não tava raciocinando o bastante sequer para pegar o Zorro e decidi apenas flutuar pelo céu, e as lágrimas caíram enquanto eu voava.
“Meu pai não me ama”, aquela certeza destruiu meu corpo por dentro, minha magia estava vacilando e eu comecei a despencar, droga, isso ia doer, mas acabou nem doendo, um cavaleiro me segurou antes de eu cair no chão usando aura, ele me pôs no chão com a maior calmaria do mundo e falou.
Cavaleiro: tome cuidado jovenzinho, podia ter sido uma queda feia
Antônio: é…(funga) obrigado.
Cavaleiro: jovem, você está bem?
Antonio: sim…eu tô bem, eu tô ótimo.
Talvez nunca tenha mentido mais descaradamente em minha vida, agradeci o cavaleiro e comecei a andar dessa vez, provavelmente iria me atrasar, mas eu não ligava, eu precisava falar com ela, eu precisava a ver, precisava sentir o calor que parecia estar vazando do meu peito e esfriando minha alma…cara, eu me sentia uma criança agora, as lágrimas não paravam, “meu pai não me ama”, aquilo continuava bombardeando em minha cabeça.
Ela não me ligou, apenas esperou, e quando cheguei onde ela estava, a vi em um vestido ciano, usando um chapéu de palha com um lacinho preto, luvinhas pretas e um brinco de diamante apenas em um lado da orelha.
O cabelo ondulado e ruivo dela estava tão lindo quanto eu lembrava, ela tinha olhos pequenos e com olheiras que ela não tentava cobrir e lábios bem finos, junto de uma pele mais rozinha ao invés da palidez fantasmagórica de antes.
Quando ela me viu, deu um sorriso que já me deixou bem melhor, mas as lágrimas não pararam, e antes de eu falar qualquer coisa, ela mudou o rosto pra uma grande preocupação vendo o estado que eu estava, poi minha falta de sono era o menor dos problema ali, perguntando apenas por garantia.
Dandara: você tá bem?
Antonio: (voz de choro) nãaaaaaaaao.
Eu desabei em cima dela, não conseguia me controlar, achei que ela iria me odiar por isso, mas ela apenas pegou minha cabeça e fez carinho em minhas mechas encaracoladas, eu não falei nada, apenas mostrei a ela esse meu lado, algo que pensei apenas poder mostrar a minha mãe, já que nem meu pai era confiável pra saber que esse lado meu existia. Talvez eu tive sorte, pois tinham homens que nem mesmo pra suas mães ou esposas podiam mostrar isso, mas pra Dandara, eu tinha certeza que podia.
Nós não falamos nada por algum tempo, eu apenas chorei e chorei enquanto ela ainda fazia carinho em minha cabeça, quando finalmente me acalmei, me levantei e sentei no banquinho ao lado dela. Limpar a sujeira que eu fiz levou menos de 5 segundos graças as magias de faxina que nós aprendemos no fundamental, respirei um pouco de olhos fechados, até a Dandara perguntar.
Dandara: então, você pode me dizer o que aconteceu?
Antônio: acabei de descobrir que meu pai odeia a minha sombra
Dandara: tem certeza que você não entendeu errado?
Antonio: ele me chamou de “maluco”, chamou minha maldição como “doença mental” e disse explicitamente que sentiria o pior nojo do mundo se descobrisse que eu tinha os super sentidos muito jovem, então…ele pode dizer que me ama, mas ele ama apenas partes de mim e despreza as outras, e não é assim que funciona o amor, não é?
Dandara: não mesmo.
A Dandara não respondeu mais, ela pensou que eu queria desistir do encontro.
Dandara: olha, agente não precisa…
Antônio: ah não, eu já tô me sentindo melhor, (funga) não vou deixar essa briga estragar meu dia, anda, vamos.
A falta de sono e a conversa com meu pai me deixou super sensível, mas estando perto dela, me sentia tranquilo, pelo menos tranquilo o bastante para continuar o encontro. Me levantei sentindo bastante fraqueza e sentei de novo, ah, esgotamento-pos-ataque, mas é claro. E pra completar, ainda não tinha levado o Zorro, mas isso não era um problema com o apito mágico que eu consegui, mas antes de apitar, olhei para a Dandara, que colocou sua vassoura no ar, e perguntou.
Dandara: quer uma carona?
Antonio: claro.
Ainda não entendia por que minha mente ficava tão quieta (no bom sentido) quando estava junto dela, mas isso não importava agora. Andei devagar para a vassoura, vendo agora como ela tinha uma madeira grossa, a ponto de ter o tamanho de um braço, junto de cerdas duras e com aerodinâmica o bastante para serem quase impossíveis de varrer qualquer coisa. O cabo era macio e com magias de cordas invisíveis para ninguém acabar caindo, e com escudos embutidos, nossa, tinha de tudo um pouco naquela vassoura, tava impressionado.
Dandara: lindona, né?
Antônio: é, a belezinha tem um nome?
Dandara: chamo ela de estrelinha, agora vamos, e olha a mão boba ein.
Dandara deu uma risadinha enquanto eu segurava ela pela cintura, eu pensei que ela tava falando sério sobre a mão boba, mas ela disparou numa velocidade ainda mais absurda que a que eu normalmente usava, eu a agarrei com força e pude sentir o perfume dela, era algum tipo de flor, só não sabia qual era…aaaaaaah, o corpo dela era tão macio, e o cabelo dela não parava de bater no meu rosto, se fosse o cabelo qualquer outra pessoa, eu ia odiar isso, mas eu amei cada segundo.
Eu a apertei bem forte, mas não toquei em nenhum lugar estranho, assim como ela pediu, os poucos segundos que agente parava por causa do trânsito aéreo, eu via ela ofegando e sorrindo enquanto chegamos cada vez mais perto da escada que para muitos era o paraíso, fizemos muitas curvas e desvios, às vezes parecia que ela queria que eu a agarrasse, mas não cai nessa e não toquei em nenhum lugar estranho ate chegarmos lá. Ela parecia decepcionada quando chegamos, mas se estava, não falou nada.
Me senti mais forte quando descemos, mas meus joelhos cederam e eu quase cai no chão de tão cansado e fraco que eu estava, mas Dandara me pegou pelo ombro e ficou em baixo do meu braço, nossa, ela era mais forte do que parecia, e o rostinho debochado dela, dizia que ela gostou da minha reação.
Dandara: eu tenho malhado
Antônio: é, eu percebi.
Com metade do meu peso segurado por ela, andei devagar até às escadas, aaaaaaah, mesmo cansado e com o coração sangrando, me senti realizado e calmo quando vi a grande escada novamente, caminhei devagar por ela, a regra era “não podia usar magia para subir” mas não tinha nada contra se apoiar em outras pessoas.
E vendo o quão comum era um visitante ajudar um convidado a subir as escadas (ou o contrário, como era meu caso) não senti vergonha disso. Ver aquelas pessoas me fez ter lembranças boas que me fizeram rir, o ferimento em meu coração ainda doía, mas ainda podia rir perto da pessoa que eu amava.
Dandara: o que é tão engraçado?
Antônio: ah, eu só tava pensando na primeira vez que eu te levei aqui, você ficava perguntando o tempo todo se você morreu e foi pro paraíso
Dandara: você não perguntaria o mesmo se você fosse o convidado no meu lugar?
Antônio: eu nem perguntaria, eu teria certeza e nem falaria nada
Dandara: hihihi, agora você entende.
Estávamos na metade do caminho, o cansaço em minhas pernas apenas não era maior que a queimação de exercício em minhas panturrilhas, mas não parei.
Dandara: acredita que eu te amava desde aquela época?
Antônio: sim, por que eu senti a mesma coisa, eu tive que olhar pra cima constantemente pra não me distrair quando te levei pra cima das escadas
Dandara: e eu fiquei hipnotizada pela forma que a luz do topo daquelas escadas batia em seu rosto, eu até pensei que você foi um anjo enviado a terra
Antônio: hehe, posso estar tentando ser uma pessoa boa, mas eu garanto Dandara, não sou um anjo
Dandara: só um anjo falaria algo assim
Antônio: Dandara, por favor.
Ah, droga, de novo eu quase gritei, mas a Dandara não pareceu ligar, só entendeu que eu não tava pronto pra falar sobre aquilo, ainda.
Dandara: desculpa
Antônio: desculpa também, eu não dormi direito
Dandara: é, eu percebi.
O clima ficou um pouco estranho, sendo preenchido apenas pelo som simples de ritmos que a magia de Dandara fazia agora, reconheci o ritmo e ri.
Antônio: Ranzis pop, o clássico do clássico
Dandara: pois é, mas os atuais tem seu charme também
Antonio: concordo.
Não recuperei a força de meu corpo nem depois de chegarmos no topo, tudo que eu podia fazer era esperar, qualquer outra coisa me deixaria nervoso demais pra passar pelo dia inteiro, Dandara queria que descansaçemos, mas depois daquela escada, eu tinha energia e força mental o suficiente para andar ainda mais um pouco.
Antonio: acredite em mim Dará, se eu sentar agora eu não levanto mais, vamos chegar em alguma palestra primeiro.
Enquanto andávamos, a ferida em meu peito criava outra coisa em mim outra parte de mim, uma parte que eu não sabia se deveria reconhecer ou não, mas depois de tudo que eu vi, tudo que eu senti, tudo que eu descobri, eu podia a colocar junto com coisas bem importantes, como meu amor por calmaria, minha tranquilidade e minhas próprias músicas, minhas lindas e queridas músicas. Eeeeeu, odeeeeio meu pai, e nunca vou perdoá-lo.
Humpf, agora não sentia culpa de pensar isso, mesmo depois de tudo que ele já me deu, talvez falar mais alto me fizesse mudar de ideia.
Antônio: eu odeio meu pai
Dandara: jura? Por que?
Antônio: por que ele nunca me amou, sei que tem muita gente por aí numa situação bem pior que a minha, mas depois de tudo que eu descobri, sei que eu o odeio, e nunca vou perdoá-lo
dandara: jura, por que?
Antônio: por que ele não vai mudar, ele nunca vai entender que o que ele fez foi errado e me machucou, e ainda me trata como se nada tivesse acontecido, ele me trata igual, COMO SE ELE NÃO TIVESSE ME FEITO VIVER QUASE 15 COMO ALGUÉM QUE EU NÃO SOU
Dandara: e o que você queria Antônio?
Antonio: que ele pedisse desculpas, por tudo, por todas as vezes que ele gritou comigo quando eu só tava passando por uma crise, que ele pedisse desculpas por me fazer ter medo dele, ter medo de mostrar as coisas que eu gosto e que eu amo pra ele. Que ele e eu pudéssemos conversar sem que ele discorde de tudo que eu digo e que eu tenha a necessidade de revisar cada afirmação dele. Que ele tente entender a minha condição, e principalmente, QUE ELE ENTENDA O QUE ELE FEZ…essa…é a pior parte, o meu pai ele…não entende o que ele fez comigo e se recusa a entender, ele não me escuta…ele…não…me escuta.
Ok, agora minha ferida tava sangrando, sangrando e sangrando muito, aí, como era possível sentir tanta dor assim? Até que eu comecei a tossir forte, e então, eu tossi sangue, o que? De onde veio isso?
Eu comecei a ficar com medo, uma mistura nem forte de sentimentos apertava meu peito, e a dor emocional começou a se tornar dor física…aí, como era possível, a dor metafórica era igual a física, a diferença é que a física era bem mais intensa.
Dandara: Antônio? O que foi?
Um dos monges se aproximou de mim, cantando alguns cânticos, e com isso, meu coração se acalmou um pouco.
Monge: ola jovem, se incomodaria de me acompanhar?
O monge não era muito diferente dos vários outros monges ali, cabeça raspada, usava roupas simples e um sorriso de calmaria e iluminação incompleta, mas ainda iluminação. Eu nem sabia quem ele era, mas eu só queria que a dor parasse.
Antônio: sim senhor.
Segui o monge para um lugar bem afastado de tudo, não sabia aonde estava indo até ver um lugar do templo que parecia muito uma sala de treinamento. Lá dentro, vi um monte de visitantes se alongando, aula de ioga? Bom, por que não, qualquer coisa que impedisse de minha magia fazer, seja lá o que ela tava fazendo, no resto de meu corpo, seria de grande ajuda.
Me sentei em uma das milhares de lonas ali, a voz do professor era calma, e os alongamentos eram simples, claramente aquela era a sala de amadores, mas pelo menos o alongamento fez meu coração doer menos, eeeeee, pronto, depois de uma aula bem tranquila, acabei saindo da sala, sendo acompanhado por Dandara.
Antônio: desculpa, estraguei o encontro
Dandara: Nah, uma aula de ioga é um bom substituto pra uma palestra.
Meu coração estava estável, mas eu sentia que minha saúde estava andando na corda bamba agora, deus, meu deus, eu tinha que fazer algo, então a Dandara pegou minhas duas mãos e me fez a olhar nos olhos.
Dandara: olha, se acalma, tá legal? Tentar não sentir isso apenas vai deixar pior, porque agente não vai pro outro ponto de encontro que a gente combinou?
Antônio: é…hehe, boa ideia.
Meu coração acelerou de novo, mas por um motivo que me deixava bem tranquilo de certa forma.

