Era a primeira vez que a Dandara saia de casa depois de muito tempo, achei que ela ia ficar chateada por eu arrastar ela pra uma celebração, mas foi o contrário, ela estava bem empolgada de forma que eu nunca a vi, ver ela tão feliz me deixou feliz também. Enquanto eu cavalgava com Zorro, ela voava com sua vassoura de bruxa, e nos disputavam corrida, provavelmente iríamos chegar suados lá, mas a gente não ligava.
Corremos até que um guarda chamou nossa atenção para descermos de nossas montarias. Havia uma grande festa bem à nossa frente, mas meu estresse aumentava enquanto conseguia apenas enxergar o grande mar de pessoas na multidão.
Tentei passar por cada um, toque não era um problema pra mim, mas pessoas eram, então me espremi no meio de todas elas, e no meio de toda a confusão, conseguir fazer um feitiço pra silenciar todo mundo e apenas escutar a Dandara, porque parecia que ela queria conversar.
Dandara: sobre a conversa de ontem, você disse que, “a magia fala o que a mente tenta esconder”
Antônio: eu não disse isso, foram os psicomagos
Dandara: nesse caso, o que a maldição do Davi é?
Antônio: hohoho, bom, ela é um caso interessante, Dandara, me diz, o que você sabe sobre lobos?
Dandara: que eles são fortes, grandes e são bem maiores do que parecem
Antônio: mas apesar de tudo, eles ainda são uma das raças mais sociáveis do reino animal, e no fim, apesar de todos os sentimentos que o Davi reprimiu, esse foi o desejo mais forte dele todo o tempo “eu quero ser parte da família, mesmo que eu tenha que me machucar para isso”. E quando a magia fortaleceu as emoções reprimidas do Davi pra criar, ou melhor, “soltar” o Brutus, ela deu a ele uma representação física do que ele mais queria
Dandara: deve ter sido complicado
Antônio: você não faz ideia, mas a família do Davi amava ele, então acabou tudo bem, pra uma família feliz e boa, não tem nada mais vergonhoso para os pais que ter um filho tendo a maldição do lobisomem. Pois o lobo é a maior prova de que você é um pai ruim, pois seu filho precisou basicamente fingir ser algo que não era para se adequar a família, você nem imagina o nível de cartas ameaçadoras e visitas dos guardiões das crianças os pais do Davi tiveram, mas no fim deu tudo certo por que, bem, apesar de não terem entendido o que o filho tava passando, eles ainda o amavam, e olha onde ele chegou, acho que no fim deu tudo certo.
A Dandara me olhou de forma curiosa, hehe, somos três amaldiçoados, mas ela ainda me olhava como se eu falasse uma língua diferente da dela, e talvez eu falasse mesmo.
Dandara: quais são os outros?
Antônio: não vou lembrar todos de cabeça, mas as transformações de animais variam muito, quando o pensamento da repressão é “não vou fazer nada, não vou falar nada pra não acabar machucado” a pessoa se transforma normalmente em um animal pequeno, como um rato, um coelho, uma raposa, ou um sapo, esse varia bastante. Se o pensamento for algo como “eu quero muito falar algo, mas não consigo” a outra personalidade vai virar uma variante de pássaros, os casos mais graves até se tornam araras e até um pássaro capaz de copiar qualquer som que eu esqueci o nome. Também se o pensamento for “apenas ignore, ignore e tudo vai passar” então a criança vai se transformar numa variante de réptil ou anfíbio, que são famosos por sua grande paciência. E se o pensamento for algo como “eu não quero companhia, eu quero ficar sozinho” então ele se tornará num predador solitário que caça sozinho, como um tigre, ah e também tem o…
Dandara: não, já chega Antônio, acho que eu já entendi.
Sim, ela entendeu, mas ela não sabia que a maldição não é o fim, muitas vezes, é um novo começo, por exemplo, agora. Conseguimos chegar onde eu queria, e bem na nossa frente, estava uma legião de cavaleiros que apesar de sua grande quantidade, cada um subia num pequeno palco, ficava de joelhos e era abençoado pela rainha.
O cavaleiro mais recente se ajoelhou e entregou sua espada à rainha, e com uma voz firme e ao mesmo tempo doce, a rainha perguntou.
Rainha: senhor Davi, você jura solenemente que de hoje para todo o sempre, você defenderá seus companheiros, seus cidadãos e a família real a continuarem suas vidas pacíficas? Nunca levantara sua espada contra inocentes, ou inimigos rendidos? E nunca esquecer de todos os ensinamentos e lições que o tornaram digno de se por diante da minha presença?
Davi: sim, eu juro
Rainha: nesse caso, eu, Alexandra Cristo, declaro Davi Lopes como um cavaleiro sagrado.
Então, a Rainha tocou os dois ombros de Davi, e depois a cabeça dele, eu já havia pesquisado aquilo, com exceção de seu cônjuge, aquele era o momento mais vulnerável que um cavaleiro deveria estar, era confiança, devoção e lealdade, tudo numa única posição enquanto sua espada era gentilmente devolvida ao seu dono.
Não consegui ver o rosto do Davi, mas eu apostava meu coração que ele estava dando o maior sorriso que conseguia. E eu tava com o coração na boca, fiquei mais feliz e emocionado que pensei e aquele sentimento de transbordação voltou, mas agora era de felicidade, felicidade por meu amigo. Diferente da multidão, apenas bati palmas de forma tão baixa que ninguém conseguia ouvir…caaaaaara…eu tava chorando? Eu sentia que tava chorando, e não ligava nem um pouco, tudo que eu tava sentindo agora, o que tivesse que sair só iria sair mesmo, nada demais.
Davi então reembainhou sua espada, se levantou e estava a caminho de ficar junto de seus companheiros, até ele parar um segundo por me ver, tinha tanto movimento e barulho à minha volta que tinha quase certeza que estava invisível, mas Davi me olhava como se só eu estivesse lá.
As lágrimas pararam de cair, limpei meu rosto e voltei a bater palmas, e de forma sutil dei uma leve reverência ao mais novo cavaleiro, apenas para eu notar que ele fez o mesmo, e novamente eu estava mais feliz que nunca.
A cerimônia continuou, com cada cavaleiro sendo condecorado e recebendo um título junto de uma grande revoada de aplausos. E depois da nomeação de cada cavaleiro, a Rainha Isabely decidiu dar uma última palavra.
Isabely: o aço de uma espada precisa ser aquecido com chamas ardentes e golpeado com um duro martelo a fim de se tornar uma grande arma, cada um de vocês passou pelas severas chamas de seus testes e golpeados pelos intensos treinamentos de seus compatriotas, e hoje vocês são as armas mais letais e polidas que podem ser, enquanto os céus ainda forem azuis e enquanto a terra ainda for verde, sempre carreguem o nome de cavaleiro ao lado de vocês.
Levantando suas espadas, cada cavaleiro deu um grito de aprovação ao discurso da Rainha, e eu quase gritei junto, mas me segurei.
Depois daquilo, um grande banquete aconteceu, droga, música muito alta, pessoas falando pra todo alto, mas eu me mantive calmo com as festividades, as brincadeiras e os dançarinos na festa, e é claro, a comida, enquanto tivesse comida e doces, eu poderia aguentar um pouquinho de barulho.
Depois de muita música e muita comida, me sentei numa mesa mais longe de todo mundo pra recuperar o fôlego, Dandara estava junto comigo, mas apesar de não ter minha maldição, estava esgotada igual a mim.
Nós fechamos os olhos e respiramos, respiramos, respiramos e continuamos respirando o máximo possível. Até que eu ouvi passos, passos que pararam ao ver que nós estávamos cansados, e depois de me recuperar o suficiente, abri meus olhos, e vi o Davi na minha frente.
Hehe, ele ainda ficava com aquele corte de cabelo raspado com algumas linhas na cabeça, e ele ganhou algumas cicatrizes na cara, legal, a marca no lábio dava pra ele um ar de durão. E olha só, ele estava com olhos cheios de dor, dor superada, ele não era um coitado, ele era um guerreiro que aguentou a própria provação, ele não cresceu muito, mas ele estava tão musculoso, me fazia imaginar como ele me via agora.
Antonio: e aí, você gostou da sua estrada?
Davi: sinceramente, queria nunca ter que passar por ela, mas não é assim que funciona, não é?
Antonio: hehe, pior que é mesmo
Dandara: estrada?
Antonio: bom, é, por que o caminho de se descobrir e se entender é uma estrada, o que as pessoas não entendem é que cada um tem seu próprio caminho, não posso passar o caminho do Davi por ele, assim como você não pode passar meu caminho por mim. Podemos ajudar um ao outro, mas no fim, só podemos andar com nossas pernas e com a de mais ninguém
Dandara: bom, se é assim, obrigada por me mostrar o caminho certo
Antonio: e o que é o caminho certo pra você?
Dandara: vou virar uma exploradora, quem sabe, talvez eu acabe esbarrando com o Davi alguma hora
Davi: com certeza a gente vai se esbarrar se você virar uma exploradora
Brutus: e eu também
Antonio: nossa, você trouxe o fantoche pra cá?
Davi: “sempre mantenha o fantoche por perto, em qualquer situação”, isso foi parte do acordo
Antonio: sério, você tem que me mostrar esse contrato alguma hora
Davi: um dia cachinhos, um dia
Antonio: cachinhos? nunca ouvi esse ai
Davi: que foi? O Brutus te chama de Tony, e a Dandara te chama de olhos de mel, por que não posso ter um apelido?
Antonio: promete que não vai ficar irritado se eu te chamar de
rebaixado?
Davi: feito.
Davi apertou forte minha mão, e com a força extra eu apertei com mais força, nenhum de nós usou magia ou aura, havia algo maior que só um aperto de mão ali, a ponto de nos todos diminuirmos a força e nos olharmos nos olhos um do outro, e dermos um abraço com a mão livre que tínhamos, eu sabia o que iria acontecer agora, iria levar um tempo antes de eu conseguir ver ele novamente, mas tava tudo bem.
Davi: foi mal cara, eu vou sair na frente
Antonio: eu vou pegar você rapidinho, não se preocupe.
Ele se formou, um ano antes de mim, eu manteria contato, mas por enquanto, eu só queria sentir o que podia ser a última vez que o veria direito por um bom tempo.
Davi: quer que eu deixe o Brutus sair pra falar com você?
Antônio: não quebre o acordo por minha causa, eu vou ficar bem
Davi: já que é o que você quer.
Isso mesmo, não tente me convencer, eu poderia aguentar não ver o Brutus, seria triste, mas era preciso seguir as regras, se ele abrisse uma exceção dessa vez, o que o impedia de abrir de novo e de novo pra situações cada vez mais bobas? Não, certas coisas precisavam se manter inteiras, mesmo com a dor de agora, regras precisavam ser mantidas.
Depois do abraço, Davi foi em direção da Dandara, e só agora eu notei que nunca vi eles falando direito, mas me impressionei com ele a abraçando também, de forma bem mais breve, mas ainda cheia de carinho.
Davi: sei que não nos conhecemos direito, principalmente esse meu “eu” mais completo, mas apesar de não nos encontrarmos pessoalmente, espero poder te conhecer e que você me conheça bem melhor através de cartas, senhorita Dandara
Dandara: já passamos das formalidades de você me chamar de senhorita, só Dandara já tá bom…mas eu digo o mesmo, tanto por você não conhecer direito essa nova “eu” como estar ansiosa pra te mostrar essa parte mais completa de mim, mas eu digo, tome cuidado, pessoas com 5 vezes a sua idade e 10 vezes a sua força já perderam suas vidas nos lugares que você batalhara por bobeira
Davi: não se preocupe Dan, eu não comprei o meu caminho.
A Dandara parou de falar e olhou o corpo gigantesco dele por baixo do terno que ele usava no lugar da armadura cerimonial.
Dandara: dá pra ver, mas de novo, cuidado lá fora
Davi: vou levar isso em consideração.
Nooooooossa, eles pareciam melhores amigos juntos, ou talvez só “parceiros de sofrimento”, a situação, as maldições e personalidade dos dois não podiam ser mais diferentes, mas eles encontraram paz e união em aliviar o sofrimento do outro, e quase como um intruso nessa alegria, me senti feliz por tudo que eles se tornaram, sorrindo cheio de orgulho pra eles. Até que a Dandara olhou pra mim toda nervosa, como se me devesse uma explicação.
Dandara: ahn, bom Antonio, você não era o único que me visitava, o Davi já foi lá me ver várias vezes, espero que não se importe.
O rostinho envergonhado dela me deu vontade de apertar as bochechas dela, no lugar disso, segurei as mãos dos dois e juntei elas com as minhas, e com um sorriso que eu senti vir da criança brincalhona e pura dentro de mim, falei.
Antonio: por que eu me importaria que meus dois melhores amigos estão se dando tão bem juntos? Só to meio chateado que vocês não me contaram, mas não tenho nada contra você fazer mais amigos.
O rosto de total surpresa de Dandara ficou em minha cabeça por um tempo, aquele rosto, eu via que ela estava relembrando de toda a sua infância, pensando em um momento em que algo como o que eu falei já foi dito pra ela, falhando em encontrar qualquer coisa parecida, mas ela não chorou de tristeza, só se recompôs e falou.
Dandara: (tosse) o mundo precisa de mais pessoas como voce Antônio
Davi: concordo, anda, vamos pra festa
Antônio: ah não, podem ir se quiserem, eu to indo nessa
Dandara: mas você só tá aqui a 3 horas
Antônio: exatamente, mais 5 minutos e eu vou desmaiar.
Davi não estava surpreso, mas a Dandara ficou bem surpresa, bom, acho que algumas coisas a gente ainda precisava se conhecer bastante.
Estalando o corpo, apenas fui pra casa, ai, aaaaaaai, aquela festa acabou comigo mais que qualquer debate, luta ou treino que eu tive recentemente. Eu tava cansado, meu corpo inteiro doía e meus pés começaram a se arrastar no chão a ponto de eu ter que sentar em um banquinho no meio do caminho.
Antonio: haaaaaaaaah, porque eu não peguei o Zorro?
Me forcei a andar, mas meu corpo tava piorando cada vez mais, eu deveria parecer um bêbado se não fosse pelo colar, quando cheguei em casa, me sentei no sofá por algum tempo, pus minha mão no rosto, e tentei só descansar os olhos, e descansei mesmo, descansei a ponto de dormir no sofá!

