Eu tava bem empolgado, pois hoje a Dandara finalmente iria pra casa, eu estava com uma roupa bem chique, algo que eu usava só em ocasiões especiais, e acompanhado comigo estava o novo pai de Dandara, agora que eu reparei, nunca conheci a fundo a família dela, apenas ouvi falar, mas não vi necessidade disso, não ainda.
Eu tava transbordando de ansiedade, eu queria vê-la, tocá-la, e fazer muitas coisas que eu nem podia descrever em palavras, droga, a minha lógica tentou lutar com aquele amor, mas era totalmente inútil.
Quando entramos de novo na casa de recuperação, demoramos pouco tempo pra chegarmos na sala onde os pacientes iam pra casa.
Quando olhei o lugar, vi que parecia uma sala de visitas, com a leve diferença que os pacientes estavam com roupas normais e pareciam bem mais equilibrados da cabeça que pacientes normais.
Eu levei 5 segundos para encontrar a Dandara, mas não fez diferença, pois a ruiva me viu primeiro, e como eu sabia disso? Porque ela pulou nos meus braços como se eu fosse um bote salva vidas, eu tentei a segurar como uma princesa, mas fui pego de surpresa e a gente acabou caindo no chão.
Minha bunda tava doendo muito, mas meu amor me fez ignorar aquilo e eu só comecei a abraçar ela ainda mais forte, eu desejava a abraçar e nunca mais soltá-la, estava acostumado a ter sentimentos bem intensos de uma vez só, mas agora era diferente, eles não estavam inchando e explodindo em mim, eles estavam…transbordando, eu não conseguia parar de sentir amor por ela, eu me sentia cheios cheio a ponto de não conseguir pensar direito, ao mesmo tempo que eu sentia tanto que o sentimento exalava pra cada parte de meu corpo, como se eu tivesse esquecido como segurar meus sentimentos, sendo que eu não conseguia aceitar isso, não, eu não podia aceitar isso.
Mas meu coração ignorou por completo minha mente e apenas sentiu o cabelo dela em minhas mãos, o cheiro dela, a maciez da sua pele, eu queria sentir tudo, eu queria saber cada pedaço e cada parte dela.
Só consegui ficar “calmo” algum tempo porque ela parecia tão desesperada por me conhecer como eu, mas logo a pesquisa conjunta que eu e ela estávamos fazendo parou, nós dois chegamos na mesma conclusão, “não, não aqui, não agora, longe daqui”.
De forma tão rápida quanto começou, Dandara se levantou e depois me ajudou a levantar, não nos mexemos algum tempo para nos recuperarmos do choque e ficamos em silêncio quando começamos a andar, não por não termos nada pra falar, mas por que tínhamos tanta coisa íntima a dizer, que não podíamos falar perto dos pacientes.
Nossa, cada vez que eu a via ela tava mais linda, ela parecia ter ganhado quase 20 quilos e agora tinha carne em seus ossos ao invés de só pele, seu cabelo recuperou o brilho e a cor, e apesar de seu rosto possuir rugas do stress que ela permitiu sair, a calmaria em seu olhar carregava uma jornada bem grande e árdua.
Seus olhos estavam quase fechados de calmaria e tranquilidade, sua boca tinha um sorriso leve e seu corpo inteiro tinha relaxado, perdido o movimento controlado e robótico que ela antes parecia ter em cada passo.
Não me arrependi dela me olhar demais, nem quando ela me olhou com um sorriso travesso e se aproximou devagar de mim. Novamente, apenas um beijo de criança, mas que me deixava tão quente por dentro que quando o beijo acabou, tive que checar pra ter certeza que não disparei um feitiço de fogo sem querer.
Pai: por favor, arranjem um quarto vocês dois
Antônio: não se preocupe, nós vamos.
O pai de Dandara não deu uma única reação quando falei aquilo, não era a primeira vez que eu fazia aquilo com ela, o que era um alívio pro pai e pra própria Dandara, mesmo assim, apesar de tudo, ela ainda parecia bem disposta a fazer outra coisa além do que iríamos fazer.
Quando chegamos na porta, um psicomago esperava nos esperava, e assim como Davi, o psicomago se aproximou de Dandara e apertou a mão dela, e pela intensidade que Dandara apertou a mão dele (ela apertou a mão do mago com as duas mãos e nem rápido) dava pra ver o quanto aquele psicomago a marcou.
Dandara: senhor Gabriel, obrigada por tudo que fez por mim desde que eu entrei, e eu espero nunca mais ver você ou entrar aqui novamente
Psicomago: foi um prazer conhecê-la senhorita Dandara, eu te digo o mesmo.
O pai de Dandara ficou meio confuso com o que falamos, mas era normal, mesmo não sabendo como era lá dentro, eu sabia o que significava ver um doutor ou psicomago novamente dentro daquele lugar, voltar significa que eles falharam e precisavam de novo de ajuda. “Eu espero nunca mais te ver” era simplesmente “eu espero nunca mais precisar de sua ajuda” ela acharia outro psicomago, mas um bem mais leve que o próprio psicomago.
Enquanto pensava nisso, vi que havíamos chegado em casa, depois de cumprimentar minha família, levei Dandara direto pro meu quarto. Minha luxúria pensou bobagens por causa do quanto eu e ela tínhamos crescido, mas me acalmei olhando o quadro de meu bisavô no meio do caminho, olhei o quadro por um tempo bem maior do que eu pensava, até que a Dandara falou.
Dandara: ainda tá pensando no seu bisavô?
Antônio: sim, antes eu apenas presumia, mas depois de ouvir as histórias dos meus pais, eu sei que ele era parecido comigo…agora só sinto tristeza pelo que meu avô passou…bom, uma conversa que merece ir a luz, mas melhor irmos logo, eu tenho muitas coisas pra te perguntar
Dandara: e eu tô pronta pra responder.
Não hesitei em levar a ruiva pro meu quarto, eu tava tão empolgado, e mesmo assim, pedi pra ela se sentar primeiro, aquilo precisava de tempo pra ser feito do jeito certo, então, eu apaguei a luz.
Levei alguns segundos pra me adaptar à escuridão, e sem usar uma lanterna, passei pro outro lado da cama e me sentei na cama para ficar de costas para ela.
Nós dois deixamos o escuro nos acalmar, esperamos um bom tempo e transbordando de felicidade quando eu perguntei.
Antônio: então, você já pensou por que exatamente você gosta de mim?
Dandara: bom, além do fato de você ter me salvado de uma vida de vazio completo, me ajudado a ir pra uma família boa e ter me ajudado a lidar com minha própria maldição, você é alguém muito bom de conversar, você gosta bastante de falar, você é muito fofo, fofo demais, não tem problema com dar abraços, algo que muitos garotos tem problemas, tem uma voz linda e tranquila, é um viciado em livros que pode descrever um livro inteiro numa única conversa, você gosta de me ouvir contar sobre minhas músicas, me ajudou a encontrar meu verdadeiro sonho, você ama quase todo tipo de comida, ama lutar, você ama sua família mais do que tudo e apesar de ser um singular dos super sentidos, você gosta muito de toques e beijos…hehehe, quer que eu continue?
Antônio: não não, agora é minha vez, eu te amo por que você é tranquila e calminha, antes achei que você era calma pela maldição do Vazio, mas não, você é tranquila e calma naturalmente, você não grita ou me repreende sempre que eu falo uma frase, não me interrompe, não tenta encontrar problemas onde não existe, você é sempre a mais direta possível quando você tá chateada com algo, você ama doces mais que qualquer coisa, você ama voar como uma doida mais que qualquer um que eu conheço, você ama vários tipos de peças, seja fantasia, tragédia, comédia ou musical, você ama todas. O seu sonho é lindo, apesar de você ainda está desenvolvendo ele, e você com certeza é a tem a voz mais doce que eu já conheci.
Não olhamos pro rosto um do outro, continuamos virados, apesar de tudo que passamos, aquilo era uma coisa que ainda tínhamos vergonha de falar, mas a escuridão escondia nossos rostos e apenas nossas vozes cheias de sentimento, amor, paixão e fraqueza eram carregadas e mandadas para o outro, rimos de nossa ingênua fala, até continuarmos a falar.
Dandara: nos continuamos sendo estranhos?
Antônio: nunca fomos, eu só tinha que ter certeza, já perdi a conta quantas histórias que li acabaram em um final ruim por que os protagonistas pensavam que se amavam, mas apenas ensinaram a qualquer leitor que “amor à primeira vista” não existe, você precisa conhecer de forma profunda a pessoa pra dizer que realmente a ama
Dandara: hihihi, tipo a “curiosidade” que você teve quando me viu pela primeira vez?
Antônio: tanto quanto a “repulsa” que você teve quando me viu pela primeira vez.
Trocamos risadas de novo, depois, falei mais.
Antônio: e sabe, eu meio que tô começando a entender por que você sentia repulsa de mim
Dandara: por que?
Antonio: apesar de tudo que falei, todos os motivos para eu gostar de você logicamente, ainda não consegui entender o que o meu amor por você significa
Dandara: e por que isso é ruim pra você?
Eu…demorei um pouco pra falar, as palavras que eu disse tinham tantos sentimentos acumulados que cheguei a pensar que eu ia vomitar, cara, eu tava guardando tanta coisa assim?
Antônio: quando eu virei adolescente, e tive “a conversa” com meu pai, meus sentimentos ainda me atormentavam, mas estando mais maduro, notei que aquilo não era apenas uma birra de criança, então depois de algumas pesquisas, acabei encontrando uma forma de chegar as palestras do reino dos gigantes e dediquei uma boa parte da minha adolescência a entender meus próprios sentimentos, entender sentimentos em si, foi uma jornada árdua, que sinto que até hoje ainda não completei, e talvez a jornada nunca tenha fim, mas eu vejo uma mudança muito boa de onde eu comecei e onde eu cheguei. Hoje, eu sinto que consigo ver e sentir cada sentimento meu, analisá-lo e dizer o que significa, menos um.
Dandara sorriu, eu não conseguia ver nada, mas sem barulho, podia sentir que ela tava sorrindo de satisfação, a voz apaixonada dela perguntando, entregou isso também.
Dandara: e qual é?
Antônio: amor, ou melhor, o amor que eu sinto por você, e isso me irrita, eu passei tanto tempo pensando, lutando, acalmando, compreendendo, e lutando contra meus demônios internos, entendendo que eu não podia vencer deles, apenas os acalmar e deixar eles mais dóceis. Impedir que meus sentimentos saíssem todos de uma vez, e meu corpo e magia explodissem de uma vez só, mas o amor que eu sinto por você é diferente, ele não explode ou acumula dentro de mim, ele transborda, toda vez que sinto meu amor por você, sinto como se eu estivesse cheio a ponto de meus sentimentos não tivessem escolha além de ir pra fora, ao mesmo tempo, me sinto vulnerável a ponto de conseguir ser atacado com um soco na cara óbvio como um X no rosto, e mesmo assim, não consigo entender por completo esse sentimento no meu peito, meu coração e minha alma lutam constantemente com minha mente, que diz que eu não posso apenas “amar você por que sim” isso é contra tudo que eu aprendi pra me ajudar, tudo que eu aprendi pra ajudar os outros
Dandara: esse é o único motivo?
Antônio: não, o outro motivo, é que eu quero evitar a todo o custo que esse meu amor cego acabe destruindo nós dois, não importa o quanto eu te ame, um dia essa chama intensa que eu tenho quando te olho vai se apagar, e o que vai restar depois? O que você é pra mim sem esse amor intenso? E até eu ter cabeça o bastante pra descobrir a resposta, não sinto que devia me entregar ao amor.
A Dandara não me respondeu, e ela tinha muitos motivos para não responder, mas ela fez sons de pensamento de propósito, até que ela falou com a voz mais tranquila que conseguia.
Dandara: hummmmm, nesse caso, acho que você já pode se entregar pra esse amor
Antônio: o que?
Dandara: Antônio, sem nem considerar tudo que você fez por mim, desde o momento em que você me viu pela primeira vez, e só considerando o que você me falou agora mesmo, posso dizer que você não me ama “apenas por que sim”, muito pelo contrário, você se importa comigo, você não me vê como um objeto, e cada ação sua desde que você começou a ter amor por mim é para garantir que nem eu e nem você iríamos nos machucar nessa relação, você não vê? Você nunca foi cego pelo amor, muito pelo contrário, o amor só te fez ver mais como nós dois precisávamos de mais que um ao outro, os próprios sonhos, os próprios robes e próprios doces, ao mesmo tempo que mostrou como juntos, somos as pessoas mais felizes do mundo, como você me falou outro dia, sinto minhas melhores partes aparecendo quando estou perto de voce, e voce sente o mesmo não é?
Deixei aquelas palavras irem bem fundo em minha alma, aquelas palavras me fizeram sentir algo que nem mesmo a Kauane conseguiria me fazer sentir, eu demorei pra falar de novo, mas Dandara não falou nada, havia muito no silêncio, a ponto que a escuridão de meu quarto não bastou e eu precisei fechar meus próprios olhos para entrar num estado ainda mais profundo de concentração.
Dandara: não ligo se a gente acaba não conseguindo manter o namoro, mas agente poderia continuar sendo amigos mesmo se isso acontecer? Eu amo minha nova família, mas quando eu to com você…eu me sinto em casa.
Ai, só…AI, aquela foi bem no coração, e meu amor floresceu e transbordou, e dessa vez, não tentei lutar com ele, deixei ele florescer, aquele amor era apenas uma chamada, um combustível, eu já havia feito muito para chamá-lo de “amor à primeira vista” hehe, chegando nessa conclusão, e tendo um peso grande tirado de meu peito, falei sem remorso.
Antônio: eu te amo
Dandara: eu também.
Abri meus olhos por alguns segundos, e o escuro parecia pintado de rosa, meu quarto parecia mais perfumado, até o gosto do ar parecia mais doce perto dela, incapaz de ver o rosto um do outro, apenas imaginamos o rosto bobinho que o outro parceiro estava fazendo, e assim ficamos até Dandara falar de novo.
Dandara: Antônio, me fala a verdade…você sabe de onde vem minha maldição?
Antônio: é bem óbvio quando ouço as histórias de seus pais, olha Dandara, existem dois tipos de maldições, as maldições herdadas como a minha, onde meu corpo era fraco demais, ou forte demais desde o nascimento, e por causa disso a magia aumentou ainda mais esses meus lados para criar a maldição dos super sentidos, e existem casos como o seu…
Não sei por que, mas demorei pra falar, curioso.
Antônio: …os filó-arcanos falavam dessa forma, que “a magia conta o que a mente não quer contar”. Toda a dor, toda a tristeza e a infelicidade que você sentiu todos esses anos, assim como o ódio profundo por seus próprios sentimentos, você não falou nada disso pra ninguém, então a magia te deu o favor de manifestar tudo em seu corpo e sua magia, por isso que quanto mais você crescia, você começou a perder seus sentimentos, deixando nada além de profunda tristeza, e no fim, a própria tristeza se perdeu, não deixando nada, quase te tornando uma casca, e agora eu preciso perguntar, você conseguiu seus sentimentos de volta?
Dandara: hihi, ainda é um processo, mas eu garanto Antonio, eu to sentindo muito mais coisas do que antes, o mundo cinza que eu via parece tão colorido agora, ainda to tentando recuperar minhas emoções enquanto ainda tento lidar com as emoções que já recuperei, mas sei que enquanto minha família estiver comigo, vai ficar tudo bem…
Ela demorou pra falar assim como eu, mas eu senti uma grande alegria nela, uma felicidade que senti quando ela tocou minha mão no escuro, era alívio, medo e gratidão, terminando tudo em duas palavras que marcariam a mim pra sempre.
Dandara: Antônio, obrigada.
Aquele simples obrigado carregava tantos sentimentos, que levei algum tempo pra responder, ainda estava escuro, mas limpei as lágrimas que sabia que Dandara estava derramando e falei.
Antonio: de nada.
A Gente não falou mais nada, não precisávamos mais falar, agora só tínhamos um ao outro, e isso bastava, então a Dandara se levantou e sentou do meu lado, no escuro, em um lugar que não deveria ter nada além do escuro em si, ela entrelaçou os dedos nos meus, e novamente me senti quente a ponto de queimar por dentro, e ficamos assim, só, de mãos dadas, não querendo falar mais nada um com o outro.

