Estava animado para visitar a Dandara hoje, pois pelo que parecia, uma pessoa especial iria visitá-la hoje, sorri de forma tranquila enquanto via o céu limpo deixando o sol castigar meu rosto descoberto, amando cada segundo daquilo.
Quando cheguei perto da casa de recuperação, vi que ela estava com bem mais cavaleiros e magos que o normal, entrei lá me registrando e até deixando eles tirarem uma foto minha, era um visitante comum lá, então não tinha problemas, mesmo com a segurança extra.
Lá dentro, fui informado que a sala de visitas foi realocada, e agora todos estavam num salão mais interno, foi complicado, mas consegui chegar onde todos estavam sem problema, a sala mais interna era estranhamente limpa demais, tinha cores verdes além do branco, mas tudo era tão bem cuidado que me dava uma sensação estranha. Ahhhhh entendi, era ali onde os pacientes ficavam na maioria do tempo, olhando em volta antes de olhar as pessoas, dei minha marca de aprovação, é, aquilo parecia um lugar onde poderia dizer que eu conseguiria relaxar e me recuperar de boas.
Mas acabei não me focando muito naquilo e apenas olhei para a pessoa rodeada de vários singulares, junto de Dandara.
Ohhhh, ela estava tão linda como sempre, bom, não se era todo dia que via alguém com um vestido quase flutuante, luvas que pareciam não ser vestidas por ninguém, uma maquiagem simples para vermos seu rosto, óculos escuros para não nos assustar pela falta de olhos e um doce que deixava a boca dela colorida por dentro, pois na visita daquele dia, a princeza invisível estava visitando a casa onde Dandara estava.
Antonio: é uma honra revê-la, majestade
Princesa: oh, Antônio, sabia que você viria hoje, a Dandara estava doida pra te rever
Antonio: consigo imaginar por que.
Agente se conhecia desde o tempo em que eu visitava essa casa pra ver o Brutus, de início fiquei com medo de falar qualquer coisa pra ela, mas pelo que parece, ela era mais fácil de falar até do que algumas camponesas que já conheci, não sei se devia ficar feliz ou triste com isso, eu queria por o papo em dia com ela, mas quando a conversa ia ficar boa, alguém segurou meu ombro. Olhei e fiquei aliviado em ver que era a Dandara.
Dandara: com licença princesa, posso pegar esse rapaz emprestado um momento?
Princesa: pode ficar à vontade.
A maquiagem no rosto da Princesa sorriu, e eu não sabia se ela estava feliz ou caçoando de mim, talvez os dois. Um pouco mais longe de multidao e num lugar bem mais calmo, Dandara falou primeiro.
Dandara: eu consegui, eu sei o que eu gosto
Antônio: é sério? e o que é?
Dandara: eu amo quebra cabeças, músicas, vassouras, eu passo a maior parte do meu dia só fazendo quebra cabeças, fiz alguns pedidos a minha psicóloga e eu consegui algumas vassouras e começei a monta-las e desmonta-las a som de WNA. Vassouras me fazem me sentir completamente e feliz de forma que quase mais nada consegue.
Aaaaah, eu amava aquele rosto, eu quase nunca a vi sorrir daquela forma, mas eu já vi aquele sorriso no espelho sempre que eu fazia algo que gostava, era o sorriso de pura satisfação depois de encontrar seu caminho, e eu quis mexer um pouco com ela.
Antônio: então vassouras é o seu lance?
Dandara: é o que parece
Antônio: e o que é a música?
Dandara: um passatempo, tem cantores tão incríveis por aí, XMP, NI bardos, Renzis pop. Não achei que meu gosto podia variar tanto, mas acho que eu tô ouvindo de tudo um pouco, até às músicas de terror
Antônio: nooooooosa, que interessante, todos esses cantores não são bardos caminhantes?
Dandara: são sim
Antônio: sem vergonha do que você gosta, assim mesmo.
Eu tava gostando tanto de ver ela daquele jeito, a voz dela era tão bonita, eu fiquei só ali, olhando pra ela falar sobre as músicas e o quanto ela amava a tonalidade das músicas românticas e como as músicas de amizade tinham um tom alegre mas bom o bastante pra fazer algo de estilo de condão de ninar, até que eu vi ela corando depois de eu olhar ela por muito tempo, e pra impedir que ela ficasse nervosa demais pra falar, puxei outro assunto.
Antonio: E agora, você já sabe quem é?
Dandara parou de corar e pensou um bom tempo antes de responder.
Dandara: bom, eu odeio construcçao de golens com toda minha força, não sou preguiçosa nem perigosa, nem uma atleta, nem uma delinquente, nem feia, nem impulsiva e não gosto de nada amargo…mas eu gosto de música, gosto demais, gosto de montar coisas, gosto de falar com você, gosto de falar em geral, gosto bastante de cantar, gosto bastante de desmontar e montar coisas, gosto bastante de consertar coisas, sejam elas peças grandes ou tecidos de ursinhos, ou coisas complexas como relacionamentos partidos. Mas acima de tudo isso, o que eu mais gosto, o que eu acho que significa ser Dandara Rodrigues…eu…ainda não sei, eu descobri muita coisa mas…ainda não sei o que liga tudo isso, o que resta depois de eu tirar tudo isso e ter apenas o meu eu mais puro e sem sujeiras
Antonio: hehehe, você riria de mim se te contasse que eu também não sei a minha essência?
Dandara: (sorri) não.
Ela não explicou por que eu não saber a resposta não a fazia rir, mas eu apenas pude ficar olhando o corpo dela, ela continuava só usando um camisão de hospital, mas o cabelo dela estava lindo como sempre, a ondulação e a cor estava tão viva, eu queria me afundar naquele cabelo. Depois de tanto tempo, agora o corpo dela parecia normal ao invés da pele e osso que ela tinha antes.
O rosto dela tinha algumas rugas pelo stress que ela passou por tanto tempo, mas os olhos dela transmitiam uma calma que me fez apenas olhar ela cheia de amor e felicidade, e olhar, e olhar, não sabia que rosto estava fazendo, mas pela breve surpresa e relaxamento de Dandara, era um rosto bom, ela começou a piscar pra mim e se aproximar devagar, e aí ela começou a fechar os olhos, oooooou, nossa, agora? Sério!?
Meu cérebro dizia que eu não devia fazer isso, eu ainda…não…a conhecia, isso podia dar muito errado…eu poderia me machucar, ela poderia me machucar. Tudo enquanto nós dois nos aproximamos um do outro bem devagar, o mundo havia ficado embaçado, o pouco som perto de nós se dissipou, só havia ela pra mim e só havia eu pra ela.
Minha mente falou bastante, ela deu milhares de desculpas para não fazer isso, mas no fim, eu beijei a Dandara, um toque de lábios, um beijo de criança, mas todo meu corpo queimou tanto por dentro que fiquei com medo de incendiar a sala inteira sem querer, mas isso não aconteceu.
Não sei quanto tempo o beijo durou, mas quando nos separamos, senti que não foi o bastante.
Dandara: você me chamaria de louca se eu dissesse que eu te amo?
Antonio: depois de tudo que eu fiz com você, o estranho seria você não me amar
Dandara: hehe, pior que é mesmo…é…que eu sinto que a gente é tão diferente, como se você fosse o oposto de mim
Antonio: errado, acho que somos mais complementos
Dandara: por que?
Antonio: opostos não se atraem, eles se repelem, pelo menos em quesito de romance, quando dois opostos completos se unem, eles se anulam e viram nada, o que eu tenho certeza que não é nosso caso. Mas complementos, eles não apenas se atraem, mas também são metade, e ao mesmo tempo inteiros de sua própria forma, sozinhos, eles já são muito bons, mas juntos eles não apenas se somam, eles fazem as melhores partes do outro aumentarem ainda mais
Dandara: nesse caso, você e o Brutus, eu e a Saytus, você e seus pais e eu e meus novos pais, todos nós somos complementos, com algumas pontas de opostos…ninguém é totalmente complemento, ou totalmente oposto, a única diferença é a quantidade, o “oposto” de nós dois é muito mais fraco do que o nosso “complemento”, enquanto o “complemento” que eu tenho com meus pais biológicos é tão fraco que eu só vejo o “oposto”...acho que eu sempre fui oposta deles desde que nasci, eu só me neguei a pensar nisso.
Parei de falar por um tempo, parcialmente por estar impressionado com o raciocínio dela, e parcialmente por pensar que ela queria falar mais, mas com um olhar específico que eu aprendi depois de tantas vezes que a visitei, ela me deu a deixa de continuar falando.
Antonio: parece que alguém fez o dever de casa
Dandara: eu tive uma ajudinha.
Ela falou apontando pro doutor que deveria ser o psicomago dela.
Dandara: no fim, consegui criar um espelho bom pra mim, as vezes ainda ouço as vozes ruins de minha cabeça, mas ignorá-las é bem mais fácil agora…não, ignorar não, eu a escuto quando é algo bom, mas apesar da pequena dor de cabeça que sinto as vezes, me sinto bem melhor do que antes
Antonio: legal, mas me fala, qual a primeira coisa que vai fazer quando sair? Pois pelo que parece, isso ta chegando bem perto
Dandara: vou te dizer o que eu vou fazer, eu vou ir pra casa e comprar o maior pote de sorvete que eu encontrar, colocar tudo que eu tenho e que eu não tenho direito nele e comer sozinha, depois vou pegar minha vassoura e voar com ela por vários dias, e depois vou lutar pra me inscrever em uma escola de construcção de artefatos e depois vou comprar os maiores quebra cabeças que eu encontrar e depois vou tentar acompanhar você no meio das suas explorações, por que depois deu me formar, você já vai ter se formado e estar bem longe de mim
Antônio: não se preocupe, vou manter contato
Dandara: acho…que vou adotar um cãozinho também
Antonio: maneiro, mas porque não um gato
Dandara: amor de gato é muito complicado pra mim, preciso de algo que me ame de forma tão simples e direta quanto você
Antonio: vou encarar isso como um elogio
Dandara: e é
Antonio: agora me fala, o que você sente aumentando quando eu to por perto? eu to interessado no que somos complementos, mesmo que eu tenha uma ideia, é sempre bom colocar em folhas ou em falas, você não faz ideia do tipo de coisa que você pensa quando fala em voz alta
Dandara: antes…eu me sentia feliz, alegre, e solta quando você me olhava por alguma razão, mas eu tinha aprendido que sentir essas coisas são ruins, e que eu não devia sentir pra evitar me machucar, por isso eu falei pra você não ficar mais perto de mim, e quando agente se conheceu, eu entendi que você gosta que eu fale o que eu penso pra você, mesmo que isso acabe te machucando, além de que você não mente pra mim, algo que eu não achei possível acontecer, e você? o que eu faço sair de melhor em você?
Antonio: em primeiro lugar, a sua família biológica parece pior a cada momento que a conheço mais
Dandara: o que, você não soube? minha família foi banida do reino
Antonio: o que? sério
Dandara: é, pelo jeito as coisas que eles faziam comigo e com meus irmãozinhos foi tanto que eles tiveram que ser expulsos
Antonio: nossa…(tosse) ainda bem que tirei você e seus irmãos disso
Dandara: também acho, agora vai, me fala o que você gosta em mim?
Antonio: bom, eu era um garoto bem emocionado quando era novo, mas com o tempo aprendi a ser alguém mais lógico, com a consequência de que eu sempre penso demais nas coisas, então eu sempre vivo estressado por pensar em milhares de cenários diferentes, e a maioria não chegava nem perto de acontecer na realidade, mas eu ainda pensava isso. Eu tinha melhorado com o tempo, mas quando eu converso com você, minha mente da branco, tudo que eu penso, tudo que eu sou, tudo que eu sei, nada disso parece importar quando eu to contigo, com você parece que eu sempre falo a primeira coisa que vem em minha cabeça
Dandara: ou a primeira ação.
Aquela simples frase me fez lembrar do beijo de alguns segundos atrás, era só um beijo, mas me senti tão feliz que toquei minha boca bem envergonhado, mas não no sentido ruim, fiquei com vergonha de olhar ela alguns segundos, até que eu falei.
Antonio: pois é.
Eu tinha preparado algo a mais para falar além daquilo, mas aquele simples frase me calou por completo, e Dandara sorriu, satisfeita e com um rosto que, depois de todo o tratamento, mostrava que a maldição do vazio podia não estar curada, mas agora estava tão fraca que com mais tratamentos, sequer iria aparecer que estava lá.
Dandara: parece que então somos mesmo complementos, príncipe dos olhos de mel
Antonio: tambem acho, princesa dos cabelos de fogo.
A gente riu de forma bobinha, com uma fragilidade e uma vulnerabilidade que lembro apenas mostrar para a minha psicomaga, pelo que parece, eu era um amante, um namorado, um melhor amigo, um romântico e um farol. Descobri que era tudo isso em um único momento, e pela primeira vez decidi apenas escutar meu coração, e ele dizia que aquela era a mulher perfeita, e que deveria parar de lutar, a gente quase se beijou de novo, mas a princesa invisível bateu na mesa de forma discreta e chamou nossa atenção.
Princesa: com licença senhorita, agora posso pegar emprestada esse jovenzinho?
Dandara: Fica à vontade.

