Eu tinha medo de comer uma espinha, mas já tinha comido muitos para aquilo ser um problema, e pela cara de pura satisfação e calmaria que Nala fazia, ela havia gostado do peixe, até ela acabar engolindo um espinho sem querer e nos termos que dar um jeito naquela situação rápido.
Depois de muitos gritos, dores e choros de nós três, conseguimos tirar os espinhos, mas a Nala nem parecia ter ligado e começou a comer o peixe de novo, com a causalidade de alguém explorando masmorras, mas comendo.
Brutus comia o peixe junto dos espinhos, mastigando e engolindo todos uma única vez, o que sempre me agonizava, mas enquanto a Nala parecia ainda tentar decifrar a forma certa de comer um peixe recém pescado, Brutus sorriu pra mim e falou.
Brutus: cara, graças a deus que vocês estão se dando tão bem
Antonio: e por que não dariamos?
Brutus: bom, você sabe, você é meio que…instável quando você não gosta de alguém
Antônio: não é minha culpa se seus amigos não aguentam algumas verdades
Brutus: mas quando eles ficam ofendidos a ponto de lutarem com você e romper a amizade comigo logo depois, aí é culpa sua
António: justo.
Não falei mais nada depois, ele não tava errado, só pelo que ele falou, ele tava certo de desconfiar de mim, e depois de todos os dentes e ossos que quebrei, quantas amigas dele eu fiz chorar por fazer eles olharem e pensarem sobre coisas óbvias sobre si próprios, ou apenas fazer eles verem a hipocrisia ambulante que eles representavam, eles se sentiam incomodados demais pra falar comigo a ponto de pararam de falar com o Brutus com medo de me encontrar sem querer. Tinha gente que não aguentava a verdade mesmo, não importa a época.
Levei tudo como uma oportunidade para falar com Nala de forma detalhada que eu era um amaldiçoado também e o que eu tinha feito pra melhorar cada um de meus problemas ao longo do tempo, e quando eu terminei de falar, ela me falou as dificuldades dela, parecia algo estranho pra falar de primeira com a possível namorada de seu melhor amigo, mas a conversa tinha que começar de algum lugar, e depois, começamos a entrar em detalhes das danças dela e do meu amor por músicas até eu chegar até o grande amor por cobras dela. Huuuuuuuuuuh, uma princesa que ama cobras, que incomum, e que interessante ela gostar de cobras tanto.
Antônio: Nala, não quero te ofender, mas sinto que isso será o início de uma grande amizade
Nala: não acredito, você gosta de cobras também? Qual é a sua favorita?
Antônio: a Python amarela
Nala: uuuuuuh uma albina? então você é chegado nas coisas raras
Antônio: é, acho que sim
Nala: bom, também sou culpada, minha cobra favorita é a grande jibóia, ela é imensa, e ainda consegue ser furtiva e silenciosa, ela ainda consegue ser tão lisinha e boa de acariciar e ainda tem aquele veneno que só causa dor por ela se garantir tanto no agarrão, ela é incrível.
E dessa forma, fiquei trocando papo fora com a namorada de meu amigo como se eu a conhecesse toda a vida, hehe, não conseguia parar de sorrir, até nossas gargantas doerem por causa do frio e termos que parar de falar um pouco pra nos recuperar.
No meio do silêncio onde nenhum de nós sentiu a necessidade de falar algo a mais, voltamos a nos focar nos peixes…hehehe, a gente deu lucro na escolhas de peixe hoje, mesmo sendo simples, eles ainda eram saborosos pra caramba, e no meio da calmaria e o som estalado do fogo e o luar lá em cima, olhei para o Brutus, e perguntei a ele com o rosto mais tranquilo e gentil do mundo.
Antonio: ai, quer brigar depois?
Brutus: melhor não, pelo visto o segundo ano dos cavaleiros é o ano dos espancamentos, estão nos dando rações de guerra pra comer, tô tendo que caçar minha própria comida, além de que todos os meus colegas são muito bons, então tenho que trabalhar dobrado pra não ficar pra trás, além de que eu to com tanta raiva acumulada pra gastar nos treinos que eu to até evoluindo minha aura, agora ela é vermelha arroxeada.
E como uma pequena apresentação, ele estalou os dedos e acendeu o dedo como um isqueiro, a cor arroxeada da aura dele era linda mas eu estava bem mais impressionado com o controle que ele tava tendo apenas para manter o dedo aceso, quase como um desafio, ascendi o dedo também.
Olhando nossos dedos, um roxo e um amarelo avermelhado clássico, dançando nas sombras, até que nossos dedos apontaram um pro outro como pistolas e dispararam uma bolinha de fogo simples, e a colisão fez uma explosão digna de um estalinho.
Nossa, tudo isso pelo som de um estalinho, não sabia por que, mas eu e o Brutus achamos aquilo engraçado pra caramba e rimos de forma descontrolada, eu senti a maturidade que eu construí até aquele momento desmoronando por completo nas risadas, e naquela simples interação, percebi que mesmo grande, inteligente, mentalmente, tecnicamente e emocionalmente.
No fundo eu ainda era uma criança, sim…eu era uma criança, uma parte muito importante de mim, sim, não tinha problema em ser criança, como naquele momento de bobagens com meu melhor amigo humano, ser uma criança boba, bagunceira e que ria pro bobagens era legal
Antonio: meu deus agente é tão idiota
Brutus: ser idiota e feliz é melhor que ser esperto e triste
António: palavras sábias Brutus, palavras sábias.
Brutus: então, como eu ia dizendo, ainda tem o esquema de treino contra ataques inimigos, existem soldados escondidos por toda a base, esperando qualquer momento de distração pra me atacar, eu não tenho um único momento de sossego, nem quando eu to comendo, dormindo ou…você me entendeu
Antonio: e você ainda tá dividindo o corpo com o Davi
Brutus: pff, ironicamente aquele magricela ta finalmente virando homem, ele ta ficando bem menos machucado que eu e…
Davi: aprendeu a abrir a porta.
Demorou um tempo para eu entender o que aconteceu, mas quando olhei para baixo, vi outro fantoche, o fantoche do Davi, era um fantoche bem detalhado, principalmente o cabelo raspado com linhas dele.
Davi: pois é, eu não sou mais uma máscara sem sentimentos, eu guardo tudo que eu sinto agora, e com tantos sentimentos, eu consegui abrir a porta, agora eu sou Davi e ele é o Brutus, nós dividimos o corpo agora, não é ele que tem o controle.
Quando o fantoche Davi falou aquilo, a mão controlando o fantoche começou a crescer, até que o fantoche começou a sentir muita dor e quando o Davi pediu por arrego, Brutus falou.
Brutus: não fica convencido demais, você é você e eu sou eu, mas eu ainda tenho 18 anos de sentimentos acumulados, você não passa de uma pedrinha do lado da imensa montanha que você mesmo criou sobre mim, nunca se esqueça disso.
O fantoche de Davi ficou sem falar nada por alguns segundos antes de voltar a falar, não achei que fosse possível, mas o fantoche parecia estar chorando.
Davi: é, eu sei, também sei que se eu ficar forte o bastante, um de nós pode desaparecer
Brutus: só se um de nós ficar muito fraco, e eu te garanto que esse não será eu
Davi: mmmm, eu não devia ter acordado (olha Nala) vai me apresentar sua amiga?
Antonio: ops, pelo jeito essa é a hora que eu deixo vocês sozinhos
Brutus: obrigado mano.
E montando novamente do Zorro, deixei as duas metades se entendendo, satisfeito com o peixe, com a pescaria e a nova parte de mim que o Brutus e o Davi me fizeram enxergar, até me fazendo ver que eu era um amigo também, mas a palavra “amigo” é geral demais, até para coisas específicas como essa, pro Brutus, pro Davi, pra Saytus, e talvez até para Nala agora, eu era um amigo, mas cada um me via de uma forma diferente e única, e tava tudo bem, as pessoas me viam cada uma com um espelho diferente, eu só precisava pensar em que tipo de amigo eu seria pra mim mesmo, hum.
Quando cheguei em casa, tomei banho e me arrumei, fiquei no escuro do meu quarto um bom tempo, tentando ir mais a fundo no meu pensamento mais recente.
Deitado na cama, pensei como seria se eu encontrasse uma pessoa idêntica a mim, mesmos robes, mesmas manias e até mesmos gostos, aquele não era eu, era apenas alguém bem parecido comigo, mas não era eu…hummmm, provavelmente eu deixaria ele em seu canto, mas o ajudaria sempre que ele ligasse pra mim, sempre que ele tivesse em pânico ou super estressado e tentaria o acalmar, mas e quando ele estivesse calmo?
Essa é fácil, eu apenas ia passear com ele, correr a cavalo com ele, ou qualquer coisa que mantivesse a calmaria dele, mas e se ele se apaixonasse…
Bom, era óbvio que eu ia falar pra ele pra ele tirar esse sentimento de dentro, falar o que sente depois de tentar e se aproximar o bastante da garota, ver se ela é mesmo tudo aquilo que pensou para ele não se decepcionar e se ela poderia gostar dele da mesma forma. Nunca esquecer dos próprios sonhos no fim, pois ele podia amar alguém, mas ainda precisava cuidar de si próprio antes de querer cuidar, amar e dividir toda a sua vida com outra pessoa, antes de querer se dois, é necessário aprender a ser um…
E se ele tivesse muita raiva de alguém e não quisesse perdoá-lo? Eu falaria…que ele tinha o direito de estar com raiva, e dependendo dos casos, ele até tinha o direito de machucar a pessoa, mas eu sempre o lembraria que uma hora ou outra, a raiva iria passar, e quando ela passasse…ele teria que lidar com a culpa do que fez, eu não o impediria por que nunca entenderia de verdade a dor dele, por mais empático que tentasse ser, mas iria ter um ombro pra ele quando quebrasse a cara e ficasse com tristeza demais para continuar seu ódio…
Nossa, nessa última observação, senti algo estranho em meu corpo, meu coração parou de bater tão rápido, eu me sentia mais leve, me sentia completo de novo, e então, a voz que sempre fazia questão de me manter acordado pelo menos uma hora antes de dormir se acalmou o bastante pra eu dormir instantaneamente, meu último pensamento foi que eu consegui alguma coisa, mesmo que eu não estivesse com raciocínio pra entender o que era.

