Tinha passado muito tempo desde que fiz aquilo, sim, ainda mais por ser algo que me acalmava tanto, em uma cavalgada com Zorro, ia direto a um dos pontos do mar azul perto do reino Sapien, tinham grandes redes ao redor do mar, redes que deixava os monstros perigosos fora, e num porto perto, segurando uma vara de pescar e ostentando seu pêlo bem cuidado e rosto longo de lobo, Brutus estava me esperando junto da “amiguinha” que ele fez na sala de reabilitação.
Nossa, sabia que era falta de educação, mas eu olhei com cuidado pra ela, estava bem curioso para saber o que exatamente era a maldição dela, ou se ela tinha maldição mesmo, pois quando descoberto a tempo, não era preciso ser amaldiçoado para entrar naquela casa, então eu vi, ela tinha uma cadeira de rodas e pernas feitas de madeira, claro, a maldição do boneco, simples e ainda fatal em muitos lugares.
Ela usava uma bermuda normal, então ela não tinha vergonha de suas pernas de madeira, mas tentei agir da forma mais normal possível, não focando nas pernas, o que eu me acostumei a fazer mais vezes do que pensei ser possivel e consegui falar com o Brutus sem muitos problemas.
Focando em meu amigo, apertei com força a mão nele, uuuuh, senti firmeza, ele não amoleceu um único momento.
Antonio: e ai Bro
Brutus: oi Tony, essa aqui é a Nala, Nala, Antonio
Antônio: por favor, me chame so de Tony
Nala: é um prazer conhecê-lo Antonio.
Apertei a mão dela com cuidado, vendo que ela tinha uma boa força nas mãos também, sorri num desafio pra ela, e nós dois trocamos o aperto de mão para uma lutinha de apertos e forças diferentes, depois de um tempo, Nala ficou sem força e acabou cedendo, bufando ela largou minha mão e falou.
Nala: ah, esquece
Antonio: ganhei.
Feliz de ter ganhado, olhei novamente para a Nala, ela tinha um rosto bonito e com um bronzezinho de sol, junto de um cortezinho na bochecha, mas…ela parecia tão completa, não parecia ter dúvida nos olhos dela, mano, já sentia inveja e nem a conhecia direito, pra impedir de começar um silêncio constrangedor, perguntei.
Antonio: você…já pescou antes?
Nala: já ouvi falar, acho que posso pegar o jeito
Antonio: isso eu não sei, pescar não é pra qualquer um
Nala: (sorri) está me desafiando?
Antonio: estou te alertando, está pronta pro desafio?
Eu estava animado, animado demais, tanto que me aproximei muito da Nala, mais um pouquinho e poderia acabar beijando ela sem querer, não sei por que me sentia tão confortável perto dela, e Brutus só observava como se amasse o showzinho que estávamos fazendo, até que eu olhei o sol e comecei a me desesperar.
Antonio: meu deus, agente vai se atrasar, vamos vamos, está quase na ora.
Estava com medo da cadeira de rodas ser problema, mas o Brutus a pôs nos braços como uma princesa e a colocou no barco com pouquíssimo esforço, o Brutus entrou depois, e eu entrei por último, o barco balançou um pouco, mas conseguimos nos equilibrar antes de começarmos a remar, quem diria, aquela garota sabia remar também, já tava começando a entender por que o Brutus gostou tanto dela, e olha que eu nem tinha falado direito com ela.
Nós navegamos bem devagar no meio do mar azul, sentir o cheiro salgado do mar e o vento no rosto sempre me acalmava, depois de remar bastante, chegamos em um lugar bom, abrimos o balde de iscas cheio de minhocas, colocamos ganchos no final das linhas e num arremesso, nos três jogamos nossos anzóis no mar.
O resto se tornou apenas aproveitar o silêncio, um momento simples em que eu entendia os peixes, se ficássemos falando ou fazendo barulho, nenhum peixe iria até nós, então iremos ficar o mais quietos possíveis, e olhando pro lado, gostei que a Nala entendeu o que eu disse sobre desafio.
Eu, o Brutus, a própria Nala pelo que eu estava vendo, todos nós amávamos falar, mas agora, nós apenas ficamos quietos, ouvindo o som das ondas do mar azul, respirando fundo e tendo muita calma para não afastar os peixinhos, cara, aqueles momentos eram perfeitos para apenas refletir um pouco, pensar em um mundo que tentava ser barulhento o tempo todo, um mundo que não parecia mais existir tempo de pensar ou ficar calmo, toda a criança que eu já encontrei é tão agitada, todo adolescente que já encontrei queria se drogar, perder a virgindade ou se envolver com criminosos, pensando que isso o deixaria adulto, sendo que aquilo só mostrava o quanto infantil ele era de verdade.
Por muito tempo eu pensei que eu era o estranho, eu vivia num mundo onde o normal era ser uma criança imatura por toda a vida, muitos colegas meus de escolas antigas viveram como crianças, e alguns morreram como crianças, e os que viveram foram ensinados pelo mundo, e o que eu vi sobre o mundo ensinando aquelas crianças que se recusaram a crescer, me fes entender que o mundo é um lugar ruim…e não só por causa do ser humano, animais, a floresta, até em lugares inabitados onde apenas uma pessoa estaria, meus colegas não conseguiriam sobreviver em nenhum deles.
O mundo rejeitava pessoas que não sabem se cuidar, por isso filhotes eram cuidados pelos pais, eu, o Brutus, até a Nala. Eu não conhecia a garota, mas eu conseguia ver que ela era cuidada e muito bem amada pelos pais, nossa, quando foi que ser rebelde, rejeitar alguem que te ama e ir atrás de alguém que vai te machucar de formas inimagináveis se tornou padrão?
Tanta criança por aí rejeitando país que a amavam tanto…enquanto tinha a Dandara, uma garota que não era nada além de um objeto pra própria família, esse descaso fazia meu sangue ferver, mas quanto mais pensava sobre isso, mais conseguia me acalmar, até eu conseguir me acalmar por completo, eu não precisava gastar minha raiva por eles, nem sujar minhas mãos os espancando, o mundo iria ensiná-los, e apesar de ser assustador e muito rígido, o mundo era um ótimo professor.
Ora, eu peguei um peixe, puxei com força, mas ele resistiu bastante, uuuuuh, ele puxava a linha com força, mas ele cansou bem rápido, e com um puxão final, tirei o carinha da água, oh, coitadinho, ele tava com muita dor, então com um prego simples, perfurei a cabeça dele, o matando na hora.
Nala: perfurar a cabeça era realmente necessário?
Antonio: se você gostasse de peixes tanto quanto eu você iria gostar que eles morressem sem dor.
Continuamos pescando, eu peguei 5 peixes, Brutus pegou 3 e a Nala pegou 1, mas considerando que o peixe a puxou com força e quase a jogou no mar, a gente considerou aquele peixe valendo por 3. Com o barco cheio, voltamos remando para a terra firme e depois andamos algum tempo até uma fogueirinha pra assar os peixes que a gente sempre usava, tinha até uns toquinhos derrubados pra gente sentar.
Antonio: impressionante, não é qualquer um que consegue pegar um peixe de primeira
Nala: não é tão difícil quando você pega o jeito, apenas jogue a linha, fique o mais quieto possível o mesmo tempo que fica atenta a linha e sempre brigar com o peixe quando ele morde a isca
Antonio: boa, você entendeu.
Eu tava bem curioso sobre as pernas de madeira, mas eu fui paciente e só me sentei e coloquei os peixes em espetinhos enquanto Brutus ascendia o fogo.
Nala: não seria mais fácil só acender com magia?
Brutus: é que é minha vez de acender o fogo.
Com os espetinhos prontos e o fogo aceso, nós três sentamos e esperamos os peixes ficarem prontos, aproveitando o fogo quentinho naquele lago frio, olhei a dança das chamas, era uma dança linda mas que precisava ser contida constantemente ou iria consumir tudo, mas a sua dança era hipnotizante, cada fio de fogo era livre para dançar de forma aleatória até sua mísera vida terminar e se apagar no topo do fogo, sorrindo virei o peixe de lugar e ganhei coragem pra falar.
Antônio: então, por que você estava no centro de recuperação?
Brutus: Antônio…
Nala: não, tudo bem Brutus. Bom, apesar de não ter muitos problemas emocionais, eu estava usando posturas erradas na cadeira e pegando as rodas de forma errada, machucando bastante meu corpo, então me mandaram lá pra eu aprender a andar direito
Antônio: espera, então por que você estava na terapia?
Nala: é obrigatório ir na terapia, querer participar aí já é outra história, tudo que já precisei falar, discuti muito com minha psicomaga, então eu ia lá mais pra reafirmar mais coisas e conhecer outros Singulares como eu.
Antonio: maneiro, e me fala, eles eram…parecidos com você?
Nala: parecidos comigo?
Antonio: eu to tentando há um bom tempo encontrar pessoas que são parecidas comigo, mas está sendo bem mais complicado que deveria, entende?
Nala então olhou pra mim, olhou pro Brutus e em segundos, ela falou.
Nal: parece que você já tem sua gente
Antonio: Nem tanto, eles me entendem e são meus amigos, mas eles não são como eu.
O Brutus não pareceu ofendido por isso, pois eu não falei uma única mentira ali, vi a Nala olhando pra mim com bastante calma, cima pra baixo, até falar.
Nala: eu…entendo sua fixação, eu nasci amaldiçoada com essas pernas de boneco, e por muito tempo quis ter amigos idênticos a mim, mas acredite em mim Antonio, ter alguém exatamente igual a você é burrice, pois não tem garantia nenhuma que a pessoa irá gostar de você…é melhor você procurar os amigos que te amam e que vão tentar entender todas as suas singularidades.
Nala falou aquela última parte segurando a mão do Brutus, sim, o brutus, não o Davi, o Brutus, eu entendi o que ela falou, mas ainda queria encontrar alguem como eu alguma hora, hummmmm, mas no fim, algo bem diferente ganhou a atenção de minha boca.
Antonio: você nasceu assim, você diz?
Nala: isso aí
Antônio: então seus pais tinham um pouco dessa maldição neles, mas ela estava adormecida, mas unindo as duas maldições em voce, ela ficou forte o bastante para se manifestar
E com um rosto mais triste, ela falou.
Nala: sim
Antonio: que porcaria ein
Nala: nem me fala
Antônio: mas aí, como conheceu esse doido? (aponta pro Brutus)
Nala: você não ouviu a história, eu conversei com todo mundo na sessão de terapia em grupo, sempre achei o Davi chato, mas o Brutus sempre foi um cara divertido, a gente só conversou, e com permissão dos médicos, a gente olhou as estrelas e até dançamos juntos, claro que foi difícil, mas agente se deu bem, rapidinho
Antônio: é, o Brutus sempre foi mais fácil de papo…pera aí, você dança!?
Nala: danço sim, quer uma demonstração?
Uma cadeirante dançando, não, isso eu tinha que ver.
Antônio: sim
Brutus: não sei não Nala
Nala: qual o problema? Ele é seu amigo, não é?
Brutus parecia envergonhado, o que me deixou ainda mais curioso, aquele cara quase nunca demonstrava vergonha nem com uma roupa curta daquelas naquele frio.
Nala então ajustou sua cadeira de rodas para ela rodar e se mover quase sem controle, então eu vi, eles se colocaram de forma teatral perto do fogo e fizeram comprimento um pro outro, e…começou.
Nala se aproximou em um ritmo calmo, controlando de forma bem sutil as rodas da sua cadeira enquanto fazia movimentos de onda com a mão. E Brutus a acompanhou batendo suas mãos e raspando de leve seus pés no ritmo dela.
Quando eles se tocaram, um giro aconteceu e Nala foi abraçada num movimento e depois estendida num movimento que deveria ser impossível pra cadeirantes, mas não pra ela, então, em um ritmo mais lento, eles apenas trocavam movimentos.
Com as duas mãos conectadas, Nala ajudou Brutus pela conexão a conduzir a cadeira de rodas, criando movimentos como se as rodas de Nala e os pés de Brutus fizessem o desenho de várias rosquinhas no chão, movimentos que me hipnotizaram tanto quanto as chamas que ainda dançavam no fogo.
No último movimento, Brutus pegou Nala pela cintura e a rodopiou no ar com força e velocidade o bastante para os pés dela ficarem retos durante o movimento, até o corpo de Nala ser jogado no ar por segundos e depois pego e colocado novamente na cadeira de rodas, então ela girou e girou até forçar a parada da cadeira de rodas com uma das mãos e terminou tudo com uma simples pose.
Brutus e Nala estavam ofegantes, mas felizes, eu tinha muitas coisas na cabeça, e vendo os dois sorrindo, a primeira coisa que consegui pensar foi
Antônio: por quanto tempo vocês treinaram isso?
Nala: por um loooooooooooongo tempo
Antonio: a sua família deve estar muito orgulhosa
Nala: vou te dizer, quando eu contei pra minha mãe sobre o meu sonho, eu não fazia ideia que ela iria encontrar uma forma de me fazer dançar
Antonio: ora, mas é claro que ela iria encontrar, esse mundo é muito grande e muito velho pra não ter tido nunca uma cadeirante aspirante a dançarina como você, você só precisa procurar no lugar certo
Nala: ahn, obrigada?
Antonio: você quer virar uma dançarina profissional?
Nala: não só dançarina, quero virar uma atleta, eu vou concorrer nas olimpíadas e conseguir um colar bem mais lindo que o de girassóis
Antônio: por favor, não desmereça o colar de girassóis.
E a gente continuou o papo, até que os peixes ficaram prontos, não era a melhor maravilha do mundo, era um peixe salgado no espeto feito com a lenha de pimenta, mas comer um peixe que você mesmo pescou tinha um gosto muito especial.

