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Não é uma Maldição 1🌻
A fadinha e eu
1971 palavras • 11260 caracteres • ⏱ 7 min 53 s

A fadinha e eu

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No dia seguinte…eu estava cumprindo outro compromisso, ao mesmo tempo que aproveitava minha folga da faculdade. Saytus, minha grande amiga, me fez ter uma crise existencial quando a conheci, depois de todo o rolê que passamos juntos, aprendi que ela não sabia o que era um hambúrguer, milkshake, batatas fritas, refrigerante. Apesar de serem grandes guerreiros, as Fadas não tinham nada daquilo na floresta delas, nossa, ouvindo aquilo eu tive que levar ela pro meu restaurante favorito, era questão de amizade, hospitalidade, e de orgulho, por que se tem algo que me orgulho é da comida do meu país.


Pensando nisso, sai com o Zorro outro dia, e no meio do caminho encontrei a Saytus voando bem perto de mim.


Antônio: ficar voando o tempo todo não cansa?


Saytus: fui treinada pra voar bem mais tempo que isso, voar o reino todo duas vezes pra mim não é nada


Antônio: interessante, olha nós chegamos.


Bem na frente de nós, tinha apenas uma pequena hamburgueria, não era algo super espalhafatoso e único, mas o simples era melhor. 


Fiquei com medo da Saytus fazer alguma coisa estranha por não estarmos na cultura dela, mas além do rosto de admiração e do fascínio que ela tinha naquele lugar brilhante, lindo e super convidativo, ela não fez nada demais. Dei um tapinha na minha cabeça por pensar nisso “é claro, ela já tava vivendo aqui antes de me conhecer”


Antônio: quer que eu pague pra você?


Saytus: não precisa, eu pago, o que você sugere?


Antônio: pra você? Sugiro o laço, ele é chamado assim por que ele da um laço na sua barriga e faz você arrotar, é delicioso, mas não é pra qualquer um


Saytus: (bate no peito) eu aceito o desafio do laço.


Rindo, fui para a fila…ah droga, perdi a hora, a casa tava cheia…tentei me acalmar, mas eu estava ficando nervoso, quando achei que tudo só ia piorar, Saytus pegou meu pulso e me levou a área preferencial, a é, isso existia né? Ela se colocou na frente da caixa e falou.


Saytus: aí, atende o meu amigo primeiro, não tá vendo o colar? Ele é prioridade.


Ela falou aquilo apontando pro meu colar, ah é, eu tava com ele hoje, algum momento ele se tornou algo tão comum pra mim que eu sequer noto mais quando ele está ali. 


A caixa olhou pra mim alguns segundos, e não duvidou um segundo que eu era sim “prioridade” e perguntou qual era meu pedido, depois que eu pedi, só me sentei e esperei um pouco, mas…eu tava meio surpreso pela Saytus saber dessa regra.


Antônio: eu…não achei que você sabia disso


Saytus: os sapiens parecem se importar bastante com esse lance de maldições e regras, então fiz minha pesquisa, não queria acabar ofendendo ninguém à toa


Antônio: (risada) você fala tão bem que eu até sinto vergonha de não ter descoberto isso antes


Saytus: sério que você não sabia que dava pra fazer isso? Quando você descobriu?


Antônio: ano passado


Saytus: e a quanto tempo você descobriu que é um Singular


Antônio: 4 anos atrás, sem contar esse.


Então a Saytus parou de falar, absorvendo tudo que eu falei, me olhou um pouco, com um olhar de pena no rosto do inseto. Comecei a entender melhor que expressão ela fazia e eu me orgulhava bastante disso.


Saytus: deve ter passado por poucas e boas


Antônio: não tanto quanto o que eu passei antes de entender o que eu tinha


Saytus: é sério?


Antônio: não importa o quão forte seu monstro interno seja, no momento em que você sabe o nome dele, tudo fica mais fácil, mesmo que um pouco, e eu meio que lutei bastante com meu monstro antes dele ter um nome, então algo que parecia tão complicado antes, ficou simples como um peixinho pra mim.


Saytus sorriu, satisfeita, e antes dela continuar falando, nosso prato chegou, o meu era o hambúrguer pancada, um hambúrguer com braços de carne que eu tinha que vencer numa luta de braço.


Haahahahahahaha, arregaçando as mangas,  coloquei força no meu muque e fiz o braço de carne do hambúrguer beijar a mesa, depois que o hambúrguer perdeu ele virou um hambúrguer normal de novo, apenas ficando o dobro do tamanho de antes.


Saytus: nossa


Antônio: é e se eu perdesse ele ia diminuir pra metade do tamanho


Saytus: que bom que eu te pedi pra escolher o hambúrguer pra mim.


Saytus falou isso enquanto levava o hambúrguer até a boca e começou a mastigá-lo bem devagar, ela parecia não entender o que aquilo deveria ser, mas quando ela sentiu o hambúrguer, os olhos dela brilharam, ela mastigou como se tivesse passado por uma viagem fantástica, era…lindo, ela quase lacrimejou de alegria, mas conseguiu se controlar bem a tempo, eu ri de forma despreocupada e ela falou.


Saytus: nossa…essa é a coisa mais gostosa que eu já provei, é como se a carne e minha língua estivessem tendo uma conversa e deixaram meu cérebro de fora (morde) mas eu gosto bastante da conversa deles, (morde) sim, conversem mais (pega batata) as batatas também são muito boas de papo


Antonio: bom, toda a aberração da natureza é boa


Satus: aberração da natureza?


António: animais e plantas magicamente modificadas, feitiços de cozimento com um leve toque de veneno e uma leve taxa de poções de sabor extra que são perigosas nas dosagens erradas, tudo misturado com esse ambiente colorido, lindo e amigável que não te faz pensar nisso.


Saytus parou de comer depois disso, ela olhou na minha cara com medo e engoliu com medo.


Saytus: isso…não é perigoso para a gente, né?


Antônio: que nada, desde que agente não coma muito disso vai ficar tudo bem


Saytus: ah, graças a deus, eu sinto que estou me apaixonando por esse hamburguer, meu corpo não pode mais viver sem ele, eu…(morde) ficarei solitária quando der a ultima mordida


Antônio: ha, você acha isso bom? Espera até eu te mostrar o milkshake


Saytus: cuidado pra não me fazer desmaiar.


Rindo, a gente conversou sobre bobagens e de técnicas de cavalgar até a gente acabar o lanche e eu pensar em mostrar o próximo lugar para a fadinha, enquanto a gente tomava milkshakes gêmeos.


Antônio: aí, tá afim de ver uma peça?


Saytus: qual peça?


Antônio: ahhhhh, então peça você conhece.


Estava pronto para levar a Saytus para uma peça que eu já tinha guardado os ingressos, mas quando Saytus provou o milkshake, a fada pareceu estar sendo possuída, os olhos dela viraram, os 4 braços e 4 pernas dela debateram e ela quase começou a voar. 


Ah não, e agora, olhei em volta e fiquei mais calmo vendo que todo mundo tava mais tranquilo com aquilo por alguma razão, depois do pequeno show dela, a Saytus desmaiou, fiz o maximo pra ficar calmo e só deixar ela na cadeira, sentada, se eu sair dali com ela desmaiada, eu com certeza iria ser preso. 


Droga, não achei que ela estava falando sério sobre desmaiar, mas quando tomei meu milkshake, não pude a culpar, a consistência neutra do leite batido de forma perfeita com a densidade e doçura extrema do sorvete, criando uma consistência quase neutra para qualquer acompanhamento entrar, e o escolhido da vez foi o delicioso e amargo chocolate, pois “na dúvida, escolha o chocolate”. Podia tomar o mesmo milkshake sempre e nunca ficar enjoado, jamais.


Quando a fada finalmente acordou, ela estava eufórica, rindo, e quase explodiu o prédio tentando pegar o milkshake como se ele fosse o copo de água no fim de um desgastante deserto, salvei o milkshake de ser esmagado e desperdiçado até toda aquela irrefreável euforia se acalmar, ela brigou e lutou com meus pés como um animal selvagem, mas quando ela se acalmou depois de um bom tempo, entreguei o milkshake pra ela, ela ergueu o simples copo nos céus, como se fosse o santo graal e exclamou com todo o a de seus pulmões.


Saytus: MEU DEUS, ISSO É DEMAIS, SE UM CHEFE DE VILA DESCOBRIR SOBRE ESSE MILKSHAKE ELE VAI INVADIR A CIDADE SÓ PRA ACHAR A RECEITA


Antônio: tem jeitos mais fáceis de conseguir a receita


Saytus: provavelmente, mas fadas não são famosas por pegar as coisas fáceis


Antonio: hehe, nos tambem não, na verdade eu até comprei ingressos para uma peça que mostrava isso (mostra ingressos) ta afim?


Saytus: pensei que sua condiçao não gostasse de barulho


Antonio: não é barulho, tem harmonia nisso


Saytus: me explica no caminho?


Antonio: é claro.


Por mais estranho que parecesse no início da explicação, não tinha muito o que falar, eu tentei explicar o máximo pra Saytus que existiam barulhos que eu gostava, ou não ligava, e tinha barulhos que eu não conseguia aguentar, barulhos estridentes, violentos demais ou apenas esganiçados demais, eu não aguentava barulhos assim, e apesar de só ter entendido metade do que eu falei, ela parecia ter entendido melhor por que eu aguentava ficar em peças.


Quando chegamos no teatro, vi o lugar já todo escuro e apenas iluminando as cortinas, ah, já ia começar, tinha que ir rápido, passando pelas cadeiras com a Saytus, encontrei nossos lugares bem a tempo da peça começar, nossa, estava ansioso por isso. 


A peça era a simples a história de uma garotinha cuidando de uma plantinha no deserto, e com a magia, senti o calor e a areia fazendo tempestades de areia por todo o lado, rindo eu até vi o sol queimando no chão e criando grandes ilusões e miragens, mas no meio das tempestades, uma garotinha carregava com força um balde bem grande, a calmaria depois da tempestade não foi preenchida, a garotinha apenas foi onde eles estavam e molhou a plantinha, assim como ela, a garotinha era uma guerreira, que iria fazer o possível pra ajudar a planta.


A peça continuou, mostrando a garotinha cavando na terra pra conseguir mais água, ou dela caçando animais perigosos pra conseguir carne, e fazendo o possível para achar sombras no deserto, pelo que a peça mostrava, ela era a única restante no deserto, todos os outros morreram, tinha muitas coisas em minha cabeça, mas como a própria garotinha falou, “eu sou teimosa demais para morrer”. Com o tempo da peça, a garotinha e a planta cresceram bastante, até que a garota viu a plantinha se tornando um grande carvalho, forte e durão, e a garotinha virou uma grande moça caçadora do deserto que ficou feliz com a sua amiguinha e decidiu apenas descansar na árvore e dormir junto dos passarinhos, insetos e outros animais que escolheram aquela árvore como sua nova casa no deserto escaldante, e com a última imagem da pequena caçadora dormindo junto dos amigos que ela fez com o novo “lugar seguro” que ela fez em meio de um mundo tão “não seguro”, fiquei alegre quando as cortinas se fecharam


Me levantei para aplaudir a peça, principalmente depois dos atores saírem para receber os aplausos, a garota e a moça eu conhecia, mas as pessoas sendo os pássaros (que eram transmorfos) foi uma surpresa muito boa, e olhando pro lados fiquei feliz em ver Saytus aplaudindo com seus 4 braços, rindo de forma tão espalhafatosa que eu entendi na hora que passamos na avaliação da fadinha.


Saindo da peça, fiquei feliz e tranquilo, enquanto a Saytus chorava pelos 8 olhos do rosto.


Saytus: que peça mais triste


Antonio: acho ela inspiradora, mostra que, não importa o quão difícil as coisas fiquem, as coisas sempre podem melhorar se você tentar o suficiente


Saytus: é, mas precisa saber onde tentar, se a garota tivesse jogado água em qualquer outro lugar, ela só ia desperdiçar a “água” dela


Antonio: ahhhhhhhh, agora você tá entendendo.


Rindo, continuei passeando com a Saytus até ficar tão tarde que a gente apenas foi pra casa.


Antonio: tchau Saytus, até amanhã


Saytus: tchau Antônio, até amanhã.


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