Agora eu tinha que praticar a paciência por mais algum tempo, pois a aula de montagem de golens iria ser apenas semana que vem, bom, eu tinha bastante coisa pra me distrair.
Passeando ao lado de Davi, fiquei feliz em ver que ele estava ótimo hoje, mas podia ver que ele estava nervoso por mim, o Brutus estava dormindo, mas dessa vez, eu estava indo pra casa dele, e nós dois sabíamos como eu tinha problemas com aquela casa.
Davi: Antônio, você não…
Antônio: Davi, faz um tempo que não falo com sua família, tô com saudade deles, e qualquer coisa a gente só vai pro seu quarto.
A gente não falou muito, mas tava tudo bem, era melhor manter a maior quantidade de silêncio possível antes de chegarmos lá.
A casa do Davi era bem grandinha, ficava num lugar seguro, perto de uma sede de cavaleiros, e tinha paredes grossas, o Davi não bateu na porta, só a destrancou e gritou que tinha chegado, sua irmã mais nova veio correndo e o abraçou com muita força, e naquele simples instante de abraço, vi o Sapien ficando cheio de raiva e afastar sua irmã.
Davi: Maria, quantas vezes eu tenho que te falar pra não me abraçar assim do nada?
Maria: já perdi a conta
Davi: exatamente, cadê a Alice?
Maria: tá lá no quarto
Davi: avisa pra ela que o Antonio tá aqui, ele quer falar com vocês.
E de forma simples, ele saiu, deixando a Maria ali, sem falar nada…cara, é bem difícil ver aquilo, mas sabendo o que ele passou era difícil saber o que fazer, então só me sentei com a Maria, e depois de um tempo, a Alice chegou, a gente conversou um pouco e depois brinquei de bonecas com elas, (porque eu fazia isso enquanto o Davi nunca fez com elas) e ainda as ajudei com alguns problemas de matemática, mesmo elas se preparando para uma delas herdaram a casa, magos e herdeiros em questão de matemática não eram muito diferentes, quando tudo acabou, elas continuaram ali, falando tão alto que meus ouvidos começaram a doer depois de algum tempo, meus ouvidos doeram, o suor de stress começou a descer, e antes das coisas piorarem, decido ir até o Davi de novo.
Alice: Ah, Antônio, não vá embora ainda
Antônio: desculpa meninas, mas preciso ver o irmão de vocês.
Não estava com clima pra conversar, então só continuei andando, com minha respiração ficando melhor quando as vozes das duas diminuíram, respirei fundo e naquele momento, meus ouvidos estavam tão sensíveis que os sons dos pássaros, o ranger das tábuas, até o vento me irritava mais, a não, tava piorando.
Eu aguentei mais, até eu chegar no quarto do Davi, ele não me perguntou nada, só me colocou numa cadeira e apagou a luz…sim, o quarto dele era bem quente, mas também era muito escuro, respirando fundo, deixei meu rosto se distorcer em uma careta, e forçando bastante, deixei o stress sair pelas lágrimas, ali, no escuro, ninguém podia me ver chorando, nem meu melhor amigo, então tava tudo bem, me acalmei bem devagar, e Davi não apressou nada, ele só esperou até eu falar primeiro.
Antônio: desculpa por isso
Davi: desculpa por que? Você é a única coisa que deixa essas praguinhas calmas
Antônio: não fala desse jeito, elas são suas irmãs, e elas são loucas por você.
O Davi não falou nada, mesmo estando de acordo com o Brutus, ele tinha problemas pra falar aquilo.
Davi: eu também amo elas, mas…eu ainda tenho raiva, raiva que parece que não importa o que eu faça, nunca é o suficiente
Antônio: acho que não ter muita coisa sua não ajuda também.
Limpei minhas lágrimas rápido e liguei a luz do quarto, o quarto do Davi era modesto, mas um modesto forçado, não proposital, ele não tinha muitos brinquedos além de espadas de madeira, o quarto dele parecia muito simples, a coisa mais linda do quarto era uma pintura azul que estava inacabada e alguns cadernos um pouco mais bonitos que pareciam cheios de diferentes anotações.
Antônio: ver seu quarto sempre me deixa com a barriga ruim, mas ficou feliz que seus pais estejam aprendendo
Davi: (risada sem graça) pois é, mas eu ainda não consigo ficar muito tempo com a minhas irmãs, eu…ainda tenho muita raiva do luxo que elas tiveram quando eu não tinha nada
Antônio: não consigo entender o que você passou, já que sou o mais novo, mas suas irmãs não tem culpa nisso, se quer culpar alguém, culpe seus pais
Davi: eu culpo, mas ainda sinto raiva delas, elas não fazem quase nada e recebem coisas que eu tive que ralar muito pra ter, é frustrante
Antônio: de tempo a sua raiva, ela vai sumir com um tempo
Davi: (risada) claro
Não tava no clima pra sair naquele dia, então só me deitei na cama do Davi, enquanto ele continuou na cadeira e ele desligou a luz de novo, quase dormindo, mas não, não dormi de novo ainda.
Antônio: aí Davi, o que você acha que é o destino?
Davi: pra mim é desculpa dos fracos e miseráveis para sua própria incompetência, nada é escrito na pedra, nem profecias, essas histórias de livros que você lê, odeio esses protagonistas destinados a ser algo grandioso sem fazer nada…ao mesmo tempo gosto quando a profecia é mais um título que um mérito, e o protagonista tem que ir atrás pra ser o que a profecia é, e não apenas ser aquilo logo de cara, de mão beijada
Antônio: bom, tudo tem a ver com a execução, mas isso até que é verdade, apesar de tudo que passamos, destino não existe, no fim de tudo, nós sempre temos escolha do que podemos fazer, e se você não tem mais nenhuma escolha, é por que ou A: você fez uma escolha tão ruim antes que te deixou sem saída. Ou B: você não tem coragem pra aguentar as consequências da outra escolha, e arranja a desculpa que você não tem escolha, ou tá sem saída
Davi: é fácil falar que a pessoa arranja desculpa de que a escolha é difícil, mas poucas pessoas tem força de escolher as escolha difícil, principalmente crianças
Antônio: pois é, a escolha difícil é cruel, ela dói, e é basicamente uma entrada pra um mundo novo que você não faz ideia se vai valer a pena ou não, mas todo esse sacrifício é o que faz tudo valer a pena, mesmo que você acabe escolhendo a coisa errada, ou o que você escolheu não sendo tão bom quanto você queria, no fim você teve a coragem para se arriscar, e você deve estar pronto pra se arriscar de novo, até finalmente fazer a escolha certa, e é claro, sempre aprendendo com seus erros e acertos, esse é o ponto mais importante, mais importante que a própria coragem que você encontra, entende?
Davi não respondeu, não sabia o que ele estava fazendo, mas sabia que ele não estava fazendo nada demais, até que o escuro respondeu, mas com a voz do Davi.
Davi: Antônio, as vezes eu acho que você tá a um palmo de ser um monge
Antônio: nem tanto, eu apenas tô tentando me entender melhor, talvez essa seja a consequência que essa maldição trás
Davi: não, eu já vi muitos amaldiçoados de super sentidos, e isso…
Senti ele cutucando meu peito, mas não liguei.
Davi: isso não é algo que todo amaldiçoado pode ter, você é um garoto muito inteligente Antônio, não pela maldição, mas por sua gula, gula por entendimento, gula por entender o que você e os outros sentem, você é esperto por ser Antônio Carvalho, não pelos super sentidos.
Ouvir aquilo me deixou bem feliz, às vezes me esquecia que apesar de não ignorar mais meus super sentidos, não posso me definir apenas com eles, eu era além de uma maldição, era parte de mim, mas não tudo.
Antônio: (risada fraca) mas ainda não sei o que é ser Antônio Carvalho
Davi: e eu ainda tento entender o que significa ser ser Davi Galilei
Antônio: isso não é uma pergunta fácil, nunca é.
E lá, cansados, mas respirando bem devagar, ficamos apenas respirando no escuro, pensando, e se recuperando para as batalhas que teríamos quando saíssemos daquele quarto, não estávamos dormindo, estávamos meditando, não pensando em nada além de nos recuperarmos.
E quando ficamos prontos, nos levantamos, ligamos a luz e voltamos pra sala, e olha, os pais de Davi estavam lá, mas pela cara do Sapien tava na cara que ele não queria falar com eles.
Pai: oi filho, como foi seu dia?
Davi: Ah, foi bom pai, mas eu vou dar uma cavalgada com o Antônio se não se importa
Pai: claro filho, mas você não…
O pai de Davi nem conseguiu terminar a frase, ele me empurrou pra fora da porta, e entendendo a deixa, subi em cima do Zorro e comecei a cavalgar bastante, sentindo a rua nos cascos de Zorro, me guiei de forma inconsciente para uma rua deserta para cavalgadas aéreas, e comecei a correr muito.
Joguei a língua pra fora e deixei meu rosto inteiro ficar seco de tanto ficar no vento, enquanto eu ria pra caramba.
Logo atrás de mim, e usando a aura no lugar, Davi me acompanhou por trás com o pônei dele, e apesar das perninhas que o pônei tinha, Davi me alcançou rapidinho, ah não, meu espírito competitivo ascendeu e comecei a correr muito, corri, corri e corri ainda mais, comecei a suar de novo, mas no bom sentido, eu tava tão feliz, que eu não sabia pra onde eu tava indo, só consegui me manter na corrida por que o caminho de corrida que agente pegava era sempre deserto, e apenas depois do Zorro pedir arrego que decidi parar.
O Zorro estava exausto e minha bunda já tava dolorida de tanto quicar na cela, mas eu tava pronto pra mais. Enquanto o Davi tava de boas em cima do pônei dele, é, eu dei mole ali.
Davi: quer uma carona lesminha?
Antônio: não vão cantando vitória ainda não.
Pra me provocar, o Davi fez mais 40 voltas por nosso tráfego antes do Zorro ficar pronto pra mais uma corrida, e com uma grande motivação e energia acumulada, eu corri, corri e corri até o Zorro ficar todo cansado de novo, depois de repetir isso a ponto do Zorro quase me derrubar no chão, sabia que era hora de parar.
Mas pelo menos eu dei uma surra no Davi, que tinha parado de me seguir desde a quarta volta.
Antônio: quem precisa de carona agora?
Davi: você.
Ele falou isso e então o Zorro deitou no chão e não levantou mais. Eu esperei e esperei, e o corcel não levantou, quando olhei pro Davi de novo, o pônei dele já se recuperou.
Davi: nunca subestime o cavalo de um cavaleiro.
E com a cara mais séria do mundo, fiz o Zorro flutuar com meu bastão, e logo, eu também.
Davi não tava nem um pouco surpreso com o que eu fiz, parecia bem feliz pra falar a verdade.
Antônio: pra que cavalos quando você pode voaaaaaaaaaaar!
E com isso me disparei pro céu, novamente, nadando no ar igual a pinguins, Davi apenas riu e me seguiu nos céus, saltando e rodopiando com sua aura igual a um macaco, haha, e numa dança peculiar onde agente continuou correndo bastante, e na grande mistura com a aura e magia, criamos uma pequena imagem na grande corrida, de um pinguim fazendo amizade com um macaquinho.
Depois de corrermos a ponto daquela pintura ficar no céu por várias e várias horas, terminamos o dia, terminamos o dia exalando pra fora o fim da disposição que nós tínhamos.
Há, há, há. Quase desmaiei de tanta emoção, mas parei na hora e fui pro chão, só pensando que agora já tive o bastante.
Antônio: prontinho, tá melhor agora?
Davi: ahhhhh, obrigado Antônio, voce sempre sabe alegrar meu dia
Antônio: precisando, sabe onde me encontrar, mas ligue primeiro.
Flutuando para longe com o Zorro, voei pra casa, mal conseguindo esperar para conseguir tomar um banho bem demorado.

