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Não é uma Maldição 1🌻
Os dois espelhos
2577 palavras • 14486 caracteres • ⏱ 10 min 18 s

Os dois espelhos

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Maaaaaano, quando o stress do estudo chegou, eu nem sei como cheguei em casa, só sei que eu dormi como uma pedra assim que cheguei, mas minha vida virou de ponta cabeça assim que eu acordei, eu estava péssimo, meu corpo inteiro doía, ao mesmo tempo que ele não tinha energia para se mover, junto de um grande cansaço mental, mesmo que eu tivesse acabado de acordar. 


 Eu estava passando por muita coisa, mas no meio disso tudo, havia algo mais forte que qualquer fadiga que eu tivesse na hora: meu pensamento de dever. Eu fiz uma promessa pra Dandara, e não era apenas meu amor, minha ansiedade, meu cérebro, até a minha própria magia conspiraram contra mim e fizeram eu me levantar, me arrumar e fazer meu corpo ir até a casa de recuperação, a dor de cansaço era horrível, mas nada era pior que o stress de quebrar minha promessa, minha ansiedade, meu coração acelerado, mesmo cansado meu corpo só se acalmou novamente quando cheguei onde Dandara estava, e com a tarefa cumprida, meu corpo desmoronou em cansado de novo, deixando apenas a minha alma forte em um corpo em frangalhos.


Respirando fundo, me vi na sala de visitas, pelo que eu via, era uma sala com uma porta blindada onde os convidados entravam, e uma um pouco mais blindada onde os pacientes entravam.


Olhando as mesas, vi alguns Singulares com maldições físicas, alguns com maldições mais mentais, e alguns que pareciam estar se recuperando com a família, cada um estava mal, mas melhorando de seu jeitinho, o que me deixava bem feliz. 


Tive que arrastar meus pés pela sala por um tempo, até que eu vi, o grande cabelo vermelho finalmente solto, junto com seu corpo bem mais cheio e uma roupa de paciente que parecia radiante quando usada por ela e um rosto que mostrava um sorriso que carregava cicatrizes que poucos podiam ver. 


Ela batia na mesa num ritmo de música, com uma alegria que…eu nunca a vi antes. 


Ver aquela garota fez meu corpo ganhar energia novamente, e quando ela me notou, ela levantou da cadeira bem empolgada pra me abraçar, mas ela se segurou. Haha. Sabia por que ela parou, normalmente, pessoas com super sentidos são bem sensíveis a toques, bom, dando ela a chance, levantei as mãos e a abracei com força.


Entendendo a confirmação, ela me deu um aperto bem forte, ela ainda estava fria, mas eu amava o abraço dela. 


Depois disso, agente se sentou na cadeira novamente, com ela estando bem até demais.


Antônio: oi Dará


Dandara: oi Melzinho


Antônio: e aí, como tá aqui dentro?


Dandara: difícil…eu tentei falar o que você falou, mas eu ainda não consigo confiar neles…e a minha voz interior não tá ajudando


Antônio: paciência Dará, você só tá aí a uma semana, essas coisas levam tempo


Dandara: você vive me falando isso, mas eu quero algum resultado agora, não tem nada que eu possa conseguir agora?


Antônio: infelizmente não Dará, não existe algo tão lindo quanto uma fórmula pra fazer você ficar melhor, seu corpo é como um espelho quebrado, você está no chão, ajoelhada, e coletando os pedaços, tentando o concertar…mas…esse é o ponto, você não pode fazer um espelho quebrado ser da forma que ele já foi, como um grande sábio já disse “você não se pode banhar no mesmo rio duas vezes, pois na segunda vez, o rio não será o mesmo e você não será o mesmo”


Dandara: quem falou isso?


Antônio: isso não é importante agora, o que eu quero dizer é: você só pode pegar os pedaços, e tentar criar algo novo, e no fim, você pode acabar não gostando do que montou, e ter que montar de novo, e de novo e de novo, até criar algo que você realmente possa gostar, não o espelho puro e limpo de quando sua inocência existia, mas um espelho quebrado, depois de você se machucar tanto, mas conseguir criar algo novo…e lindo com o que restou.


Eu pensei bastante no que falei, e olhei minhas próprias mãos, elas estavam limpas, mas eu via bem os cortes metafóricos que minhas mãos tinham por tentar tantas vezes criar um espelho bom pra mim e ele ainda não estava completo.


Dandara: bom, eu não me contento com um único espelho, eu quero vários espelhos e várias formas e vários jeitos de ver a mim mesma


Antônio: que coincidência, eu também…meu coração não pode ser definido só com um espelho, eu preciso de vários para eu me ver, um espelho pessimista pra me fazer estudar e me esforçar e um otimista para me encorajar nas horas certas. A diferença é que os espelhos são dois lados da mesma moeda, uma pessoa otimista demais é preguiçosa, suicida, ou até inconsequente, pois nunca ver o lado ruim das coisas faz você perder a noção das coisas, pois “não tem como nada dar errado”


Dandara: e quando você olha muito para o lado pessimista das coisas, você não confia em ninguém, você não tem vontade de viver no mundo por ele ser horrível demais para você, e você se odeia, por que não importa o que você faça…(chorar) não tem nada que faça você se sentir melhor, e você só consegue chorar, pois chorar é a única coisa que faz você sentir algo nesse mundo…


Deixei a Dandara chorar, eu quase chorei, mas antes de qualquer lágrima cair, meus olhos secaram…droga, droga, por que eu não consigo chorar?…isso me irritava tanto. Quando me acalmei um pouco, olhei a Dandara, mesmo não chorando, segurei a mão dela de forma carinhosa, ela se acalmou também, mas ainda estava triste e chorando. Quando ela me olhou de novo com os olhos vermelhos, respondi.


Antônio: não é apenas o seu espelho otimista que precisa ser refeito, seu espelho pessimista está todo errado, você tem que desfazer ele devagar e se cortar mais pra reconstruir-lo de forma mais saudável


Dandara: o que o seu espelho pessimista fala pra você?


Antônio: meu espelho pessimista diz que eu preciso ser melhor, por que eu sou inteligente e ele me avisa quando eu já fiz o suficiente, e que eu posso parar por que tentar fazer mais apenas iria me machucar. 


O olhar de Dandara era tão…estranho, ela me olhava como se não pudesse imaginar meu espelho pessimista sendo tão bonzinho assim.


Antônio: mas isso é o que funciona pra mim, pode não ser desse jeito pra você, então você tem que ir com…


Dandara: e o que ele te fala sobre seu pai?


Antônio: o mesmo que ele fala sobre todas as pessoas ruins que eu já vi “mantenha distância, fale o mínimo possível e se possível, não se relacione com esse cara”. Mas eu não sou muito bom em entender essa última parte normalmente, sou péssimo pra saber quando alguém é perigoso ou não, mas quando eu descubro, mantenho essa pessoa o mais longe possível.


A Dandara ficou quieta de novo, só absorvendo o que eu falei…droga, eu me sentia um segundo terapeuta nessa conversa, eu queria conversar mais com ela.


Antônio: então, o que você  aprendeu sobre si mesma?


Dandara: não quero falar disso, podemos falar sobre algo que voce gosta?


Antonio: bom, eu gosto bastante das historias de principes resgatando princesas, viajando pelo mundo e descobrindo bem mais sobre si mesmos, minha historia favorita é sobre um principe que tinha um sonho de encontrar um lugar onde ovelhas lendarias com las feitas de nuvens existiam, la diziam que elas podiam criar o tecido mais lindo do mundo, e pra isso, ele viajou por terra, velejou pelos mares, ajudou todo mundo que ele achou pelo caminho até criar uma pequena tripulaçao, ate ele fazer amisade com um pequeno pastoreiro de vacas e ele acabou desviando o caminho para ajudar o pastoreio a levar as vacas a um lugar seguro, o livrando de caçadoes, e o pequeno pastoreiro acabou lhe dando um mapa para chegar a algo que podia ajuda-lo, e no fim do mapa, o pequeno principe encontrou uma bussola que o guiou no meio de mares tormentosos e perigosos, mas seguindo o som de varias vozes de sereias, o principe guiou o barco para um lugar seguro, e no meio de grandes pedregulhos, aguas escuras e densas, o principe encontrou o lugar que ele tanto quis…mas ele não quis ir embora, ele apenas quis apoveitar tudo o que fez ate ali, ele correu com as ovelhinhas, dormiu com elas, e ate fez carinho. Ele desejou aquele lugar por muito tempo, tentando o segurar por bastante tempo, até ele entender que ele teria que voltar pra casa, lá ele encontrou o melhor tecido do mundo, mas o que ele realmente buscou, ele não sabia ainda se iria conseguir…o amor de sua família, pois apesar de tudo, o príncipe não era o mais forte, nem o mais inteligente de seus irmãos…o pai dele já o amava, mas o príncipe queria provar, ele queria provar para seu pai, sua mãe, seus irmãos, pra ele mesmo, que mesmo sem ser o mais forte, nem o mais inteligente, ele ainda era alguma coisa, e com as grandes ovelhas à sua frente, o príncipe entendeu que ele era sim alguma coisa, voltando pra casa, com apenas duas ovelhinhas e uma grande verdade, seus pais sempre o amaram, e ele podia ser um costureiro e ninguém iria ligar pra isso…claro que muitos não precisam passar por uma jornada épica para descobrir isso, mas pra uma criança, isso é uma forma de mostrar como elas podem fazer isso


Dandara: (risada) sinceramente, passar uma jornada épica com muitas chances de morrer seria mais fácil pra mim do que responder minha família…então entendo o que esse príncipe fez


António: justo


Dandara: me fala mais dessa história


Antonio: eita, eu tava me segurando, mas já que é assim…


E pelo resto da tarde eu falei do livro por várias horas, falando detalhe por detalhe tudo que descobri sobre a história, e a Dandara apenas me olhava, como se eu fosse a criatura mais interessante do mundo, eu falei tanto que precisei pegar água pra minha garganta dolorida, e ela só ficava me olhando de forma apaixonada, e eu amei cada segundo daquilo.


Antonio: acho que o pastoreio é o que essas histórias chamam de “encontro com o mentor” pois ele aparece na hora certa para mostrar e ensinar o protagonista o que ele precisa pra continuar a própria jornada, além dele ser um grande envolvimento de inocência, por ele ser tão jovem não tem forma dele conhecer a dor de se sentir inútil como o príncipe, que é o lembrete do que ele deveria ser, um garoto que no final devia só levar a vida simples e não pensar muito e enquanto o príncipe encontrou o pastoreiro, ele também encontrou um conquistador, assim como ele o conquistador  queria acima de tudo, se provar, se tornar uma grande pessoa para a família que o rejeitou, mas ele não se importava em destruir tudo em seu caminho para conseguir, e no fim esse foco todo que o fez chegar tão longe na história e quase chegar no lar das ovelhas, mas ao mesmo tempo, quando as grandes ondas chegaram nas aguas turbulentas, muitos subordinados dele abandonaram o navio e se jogaram no mar (risada histerica) ver o conquistador se batendo com tudo nas pedras foi uma das minhas partes favoritas do livro. Acho que foi nessa parte que o protagonista entendeu que não podia passar certos limites, pois ele iria ser abandonado e morto pelas pessoas que deveria comandar se fizesse o que o conquistados fez, mas diferente dos subordinados do conquistador, o pequeno bando que o príncipe fez nunca o abandonou, e juntos, o bando do príncipe chegou no lugar que queria, e lá dentro, ele se encontrou com o pastorzinho, ele ficou surpreso em ver o pastorzinho já que mesmo se ele soubesse como chegar lá, era muito perigoso até pra um bando inteiro ir lá, então como um garotinho tão fraco conseguiu chegar tão longe? Até que o príncipe perguntou quem o pastorzinho era, e ele falou, “as pessoas me chamam de negrinho do pastoreio” cara, aquilo foi lindo, e eles começaram a conversar sobre a vida, sobre as dificuldades, e como a família do príncipe deveria estar preocupada com ele, e mesmo assim, o príncipe ainda agradeceu cada amigo que fez o caminho, e assim como ele entrou, sua tripulação o ajudou a sair do grande mar escuro e trevoso, com apenas duas ovelhas, a tripulação e o príncipe conseguiram voltar pra casa, diferentes sim, mas completos, completos o bastante para criarem roupas como o capitão sempre quis…


Continuei falando detalhe por detalhe sobre o livro, com Dandara escutando tudo sem perder nada, e quando eu terminei, pensei em deixar ela falar.


Dandara: (risadinha) nossa, tudo isso apenas para fazer roupas?


Antônio: fazer o quê? Às vezes a jornada épica é o que uma pessoa precisa para se encontrar


Dandara: hunnn, eu queria ter tanto uma jornada épica


Antônio: um dia Dandara, lá fora o mundo não é gentil como nos livros, essas histórias são ótimas para para nos inspirarem, mas se você quer se aventurar lá fora, você não pode estar incompleta, aventuras no mundo real é coisa de adulto


Dandara: (chorando) é, acho que você tem razão (risada sem graça) se eu tivesse tentado ir numa jornada épica, acho que não sairia da primeira aventura, isso só falando do mundo gentil do livro.


Não tinha contra argumento pra isso, então só acariciei a cabeça dela.


Antônio: não se preocupe Dandara, um dia você vai conseguir sua jornada épica, só não fica chateada quando eu ir na frente


Dandara: (risada) é claro, eu vou atrás de você quando eu conseguir


Antônio: claro, vou estar te esperando.


A Dandara então parou de falar por um tempo, só…me olhando de forma linda, nossa, isso era…eu nem sei o que era, mas eu me sentia queimando por dentro, eu…tava cheio de amor, eu tava queimando de amor, mas ainda não, ainda não estava na hora, mas…só olhar um pro outro daquele jeito não tinha problema, quando ela falou de novo, a voz dela parecia quase de mel.


Dandara: voce…pode falar mais?


E rindo, falei de mais livros, ou melhor, dois livros, pois com a forma extensa que falei apenas de 2 livros foi o bastante pro tempo da sessão de visitas acabar. 


Antes de nós sermos separados novamente, dei um abraço bem forte nela, e ela retribuiu, ela estava feliz e sorrindo, mesmo sem olhar, eu sentia isso. 


Dandara: obrigada Antonio, acho que agora eu entendi


Antônio: que nada, mas se me der permissão, vou falar mais no próximo domingo


Dandara: por favor, sim, eu amo ouvir sua voz.


Ri enquanto agente se separava, eu estava feliz e quentinho perto dela, mas quando nos afastamos, comecei a me sentir frio de novo, mas tentei me acalmar pois “eu só poderia ser completo com alguém quando aprendesse a ser completo sozinho” eu nem lembrava de qual palestra eu ouvi aquilo, talvez eu até tivesse lido em um livro, quem sabe? Mas foi importante o bastante pra eu lembrar, então seja lá onde eu ouvi, foi um lugar bom.


Quando saí da casa de recuperação, me senti mais leve do que nunca, apesar de tudo que já passei, nem parecia que eu estava quase um zumbi de manhã, e agora que eu acordei o resto do dia ia ser moleza.


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