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Não é uma Maldição 1🌻
O único verdadeiro
1979 palavras • 11018 caracteres • ⏱ 7 min 55 s

O único verdadeiro

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Hoje seria um dia triste, eu estava segurando a mão de uma garota que tinha certeza que iria ser a minha companheira para toda a minha vida, minha lógica ainda lutava com meu amor, mas eu já estava entregando meu corpo e alma totalmente aquela Sapien.


Eu…amava a Dandara, mas…era isso, eu a amava por sentimento puro, e eu não podia aceitar isso, meu amor queimava, mas uma hora ou outra esse sentimento puro iria diminuir, ele seria uma ótima forma de começar, mas não podia ser apenas isso, eu…precisava de algo sólido além de puro amor, eu falei isso, enquanto sentia a Dandara me segurando mais forte, fazendo meu peito ascender em chamas, de forma literal e metafórica, ela…estava com medo, mas os novos pais dela, minha mae, todos nós estávamos juntos pra acompanhá-la.


Os novos pais de Dandara fizeram ela passar por um teste de maldições parecido com o meu, e eles descobriram que ela tinha uma versão bem leve da maldição do vazio, uma que eu quase tive, se ela não fosse tão comum, seríamos almas gêmeas, mas depois de quase 4 meses a conhecendo sem o título de Galdios, deu pra entender melhor que era óbvio que ela tinha isso: ela dormia muito, não saia muito do quarto, não fazia nada o dia todo e não tinha nenhuma emoção por nada, eu vi, eu já vi ela fazendo carinho num cachorrinho e até tomando um sorvete, e não conseguindo ficar feliz, o vazio dentro dela me deixava com medo de deixá-la sozinha, e os pais dela compartilham desse medo. 


Mas por sorte, uma das poucas emoções que pareciam estar fortes nela era o medo, ela nunca machucou a si mesma, mas depois de descobrir que ela tinha a maldição do Vazio, ela própria estava com muito medo, medo de ficar sozinha, medo de acabar fazendo algo horrível consigo mesma.


Todo o mundo dela estava cinza, menos eu, e por causa disso que eu e os adultos sabíamos que no fim, essa era a melhor opção. 


Nós passamos pelos portões da casa de recuperação, de pouco em pouco, entramos mais fundo antes de chegarmos no ponto de inscrição. Eu queria estar com a Dandara, mas assim que entramos lá, minha Mãe fez carinho em mim, e falou.


Mãe: filho, por que você e a Dandara não ficam lá fora enquanto os adultos conversam?


Não tinha nada naquela conversa que iria importar pra mim, ou pra Dandara, então fiquei lá fora, esperando com ela. 


A ruiva estava tremendo, tremendo muito, mas estava decidida.


Dandara: eu to com medo Antonio


Antonio: isso é bom, mostra que você ainda sente algo


Dandara: acha que…eu estou fazendo a coisa certa?


Antonio: bom…depois do que você descobriu, você mesma me falou “não confio em mim mesma, até eu me sentir confortável comigo, é melhor todos ficarem de olho em mim”


Dandara: mesmo assim, quando eu entrar lá, não vou poder mais sair


Antonio: eu te prometo Dandara, você vai sair, mas você precisa deixar essas pessoas te ajudarem…eu lutei com a ajuda deles por muito tempo, e eu quase fui destruído por causa disso


Dandara: você? depois de tudo que me ensinou?


Antonio: como eu sempre te falei, não sou o melhor exemplo a seguir, eu…me recusei a me abrir com vários psicomagos, pensando que eles só iriam me machucar se eu falasse demais, assim como meu pai, no fim só consegui mais sofrimento ao invés de alívio, eu…só consegui melhorar quando deixei me ajudarem, não cometa o mesmo erro que eu.


Os adultos pareciam ter terminado de falar, e pediram para a Dandara acompanhar um dos médicos, mas antes, ela me deu um abraço bem forte, e eu abracei ela de volta com bastante força, ela estava tão fria, isso não era bom.


Dandara: você vai me visitar?


Antônio: é claro, todo o domingo as 3.


 Ouvi a Dandara dar uma risadinha feliz, ela mudou bastante e queria mudar ainda mais, mas antes dela se afastar, chamei ela pra perto e tirei uma foto dela, essa era a primeira, eu a guardei em um lugar especial e escrevi embaixo, “é você” ficando bem animado com o que eu iria fazer.


Eu e minha mãe iríamos para cantos diferentes, então ela só subiu em seu cavalo, e eu fui para um ponto quase oposto a ela, enquanto cavalgava pelas ruas, não me dei o trabalho de pegar atalhos ou lugares menos povoados, por que hoje era um dia calmo nas ruas. 


Me dei o direito de ouvir os cascos do Zorro nas pedras, o som dos passarinhos e o vento fraquinho em meus cabelos, ahhhhh, isso é que é vida, o stress, a raiva, e a instabilidade, não podia deixar aquelas coisas me impedirem de aproveitar o sol queimando meu rosto. 


TRANSIÇÃO


Como na última vez, havia vários outros Singulares ali, mas eles pareciam controlar um pouco melhor as próprias maldições, sorri para alguns deles, e eles sorriam pra mim da melhor forma que conseguiam. Subir e chegar na sala certa foi bem tranquilo, e quando cheguei, me senti bem mais calmo e vulnerável, pois Kauane estava me esperando, eu esperei muito por aquele momento.


Antonio: ola Kauane


Kauane: ola Antonio, como foi sua semana?


Bom, eu já estava no segundo ano, então, talvez devesse falar um pouco mais com ela agora.


Antonio: péssimo, eu ainda to no modo de sobrevivência, minha mente fica me falando o quanto preciso ser melhor, ser maior, e treinar ainda mais, e isso me deixa mais cansado que o treino em si


Kauane: mas isso não é uma coisa boa?


Antônio: não, você não entendeu, eu fico falando isso pra mim mesmo o tempo todo, mesmo quando estou descansando, comendo, ou quando acabei de estudar, não importa o que eu faça, nada nunca parece o bastante pra mim


Kauane: bom, acho que a forma de pensar nisso é te dar a chance de descansar, tentar entender quando você passou do limite e aceitar que não tem mais o que fazer


Antonio: sim, eu percebo esses momentos, mas normalmente eu não escuto


Kauane: então vamos começar a escutar seu corpo


Antonio: vamos mesmo (risada sem graça) ele fica bem rabugento quando eu não escuto ele


Kauane: mais alguma coisa?


Antonio: bom, eu entrei pro segundo ano da escola, eu to bem perto de completar meu sonho, mas nesse segundo ano as coisas tão mais complicadas do que nunca, (ofega) por isso que…eu to me cobrando tanto, ta tudo tão difícil, tão complicado, a última prova eu tirei um 7


Kauane: mas 7 é uma nota boa, não é?


Antonio: bom, é, mas pro que eu quero não é o bastante…o mundo tá mudando, antigamente, um mago do meu nível seria algo raro, mas agora um mago como eu é comum, as pessoas estão ficando mais espertas, o que deveria se algo bom está dificultando a vida de muita gente, o nível de tudo ficou mais complicado…até os próprios monstros parecem ter se adaptado a isso, me prometeram que depois do ensino médio eu teria tudo garantido, mas é pelo contrário, eu não tenho nada além de um conhecimento que vai embora da minha cabeça por que não a uso no dia a dia


Kauane: bom Antonio, mesmo com esse nível novo de preferência na magia, no fim, o que você precisa fazer não mudou, você precisa estudar bastante, se lembrar do que estudou e respeitar quando você está cansado demais, entende?


Antonio: entendo.


O desconforto que sentia naquele momento diminuiu bastante, já me sentia bem mais confortável perto dela, mas ver os pensamentos mais íntimos da minha cabeça recebendo a luz da manhã me deixava bem nervoso, então continuei.


Antonio: Kauane, você sabe o que eu sou?


Kauane: não entendi a pergunta


Antônio: por muito tempo, antes de eu ser classificado como um Singular, eu notava que eu era diferente de todas as outras crianças e adolescentes da minha idade, eu não era igual nem aos meus pais, e mesmo quando conheci outros Singulares dos super sentidos, fiquei abismado ao descobrir que nem eles eram parecidos comigo, como o próprio título sugere, nós somos “Singulares” e únicos, mas por muito tempo, antes de entender isso direito, eu pensei que eu era a única pessoa do mundo que era real e as outras pessoas eram…falsas


Kauane: como assim falsas? me explica melhor


Antonio: todo mundo ao meu redor era…muito barulhento, agitados demais, eles ficavam irritados por coisas que eu não entendia, eles não viam problema em ficarem parados sem fazer nada, e eles não tinham nenhum sonho, eles só estavam naquela escola pra fazer bagunça e gritar bem alto. Mas isso não era apenas sobre os alunos, todo mundo, desde que eu saia de casa era tão barulhento, tão emocionado e tão calmo ao mesmo tempo, cada pessoa que eu conheci…parecia estar em um mundo diferente do meu, como se eu não fizesse parte desse mundo, eles falavam coisas diferentes de mim, tinham culturas diferentes e até biológicas diferentes, eu e os outros pareciam humanos, mas as semelhanças paravam bem ali…por minhas diferenças, por eu estar sempre focado em como os outros eram diferentes de mim e por eu não saber o que tinha, eu vivi por muito tempo pensando que eu era a única pessoa real de verdade do mundo, afinal, minha mente de criança falou que “como as outras pessoas podem ser reais se elas não são como eu?”


Kauane parou de falar por algum tempo, ela pensou bastante no que eu falei, pensou e pensou, até falar.


Kauane: Antonio, todo Singular é único, principalmente os Singulares dos super sentidos, então você ser diferente de todos é normal, mas mesmo sendo diferente, não significa que você está sozinho, você só precisa encontrar a sua gente, pessoas que gostam de livros e músicas


Antonio: e os desenhos, não esqueça os desenhos


Kauane: sim, e os desenhos também, mas sobre sua pergunta se eu sei quem você é, ainda não entendi a pergunta


Antonio: bom, eu estou há muito tempo tentando entender quem eu sou, mais precisamente, estou tentando entender o que significa ser “Antonio Carvalho”, é um nome? um título? uma identidade? um cartão de visitas? um porto seguro? uma bússola? um aviso? todas as anteriores? eu ainda não sei


Kauane: e…que conclusões você chegou ate agora?


Antonio: bom, eu descobri depois de muita meditação, que no fim eu não sou apenas uma coisa, eu sou um aluno e às vezes um professor, sou um filho, e um irmão, sou um mago e um filósofo, um amigo e um solitário, um amigo do escuro, um amigo da luz, um guerreiro, um leitor, um pintor, e sinto que estou apenas começando com os títulos…


Kauane: e você é tudo isso?


Antonio: sou tudo isso e mais um pouco, mas ainda não é o suficiente pra mim, eu quero mais, eu quero saber algo além de todos esses títulos, eu quero saber o que eu sou sem eles, se eu não for um irmão, um filho, um guerreiro, se tudo for tirado de mim, vai sobrar alguma coisa? O que eu sou sem todos esses títulos, o que eu sou sem os espelhos dos outros pra me guiarem?


Kauane: Antonio…acho que não posso te ajudar nisso, o tipo de perguntas que está se fazendo é algo que só irei atrapalhar se me meter, isso é algo que você precisa pensar sozinho


Antonio: só me da alguma dica de onde eu deveria continuar


Kauane: Antônio, depois de tudo que você me falou, acho que você está indo pelo caminho certo, apenas não se esforce demais e no fim tudo ia dar certo


Antonio: ta bom.


Apesar de ainda estar triste, fiquei feliz com que a Kauane falou, no fim, estava bem mais tranquilo do que quando eu comecei, eu queria mais, mas estava bem satisfeito com o que consegui.


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