Tentei conter meu sorriso, mas de forma irônica, eu não conseguia parar de sorrir com o que via, Dandara estava bem diferente do normal, o cabelo dela estava ainda bagunçado, mas ainda preso, a roupa estava mais solta, mas seu corpo ainda não tinha muito espaço para se soltar, e seu rosto, esse ai não precisava de ajuda, ela estava transbordando de sentimentos reprimidos, a maioria raiva.
Depois de tudo que eu passei, senti que podia dar um pouco de mim pra ela, mas olhando em volta, pensei como o resto do pessoal não ia sobreviver o que estava pra acontecer. Todos estavam com medo da imprevisibilidade ambulante que a Dandara parecia, até o meu Amigo, que até agora não foi um cara muito expressivo estava transbordando de medo, e de forma calma, calma demais até para eu mesmo, falei a todos.
Antônio: então pessoal, eu e a senhorita Dandara temos assuntos particulares pra conversar, então porque vocês não vão junto do Brutus comprar um sorvete?
Brutus: você quer um sorvete também mano?
Antonio: sim, eu quero. ah, e pega um especial para a senhorita Dandara, nós vamos precisar.
Os 3 estavam com medo de me deixar sozinho com ela, mas de forma relaxada, deixei bem claro que estava tudo bem, então de forma quase forçada, fiz eles irem embora.
Uma vez sozinhos, a Dandara andou devagar até mim, e a raiva se desmanchou, deixando apenas a tristeza, ela chorou bastante enquanto tentava me alcançar, sua magia se descontrolou a ponto de água começar a inundar a quadra, mas o sistema de segurança da quadra logo deu um jeito nisso.
Então só tive que andar na inundação, algo que era moleza pra minha magia, e eu andei até ela bem devagar, ela começou a correr e acabou tropeçando de cansaço na própria água, mas ainda consegui a segurar e impedir que ela se afogasse, e a apertei forte, o catarro e as lágrimas sujavam minhas roupas, mas decidi aguentar só dessa vez, por ela.
Levei ela ao banquinho que usava pra conversar com o Brutus e quando ela se acalmou o bastante para conseguir se sentar sozinha, ela parou de chorar e tentou limpar minhas roupas sujas de forma atrapalhada, me fazendo ficar feliz por algum motivo.
Antônio: então, quer me falar alguma coisa Dandara?
E ela…me olhou de forma tão fofa que mal consegui me aguentar e a abraçei igual um bebe, a Dandara não pareceu entender por que eu tava daquele jeito, mas talvez fosse esse jeito fofinho que sempre me atraiu nela, o jeito que eu sempre soube que ela teve, ela só precisava aceitá-lo mais, então ela limpou o rosto e respirou fundo, como se falar as próximas palavras necessitassem toda a força e coragem que tinha.
Dandara: Estou pronta pra ouvir seus conselhos.
Eu fiquei feliz, muito feliz de ouvir aquilo, mas não podia falar sem pensar, não agora, era naquela hora que precisava ter muita calma no que falava.
Antonio: por que?
Dandara: eu fui ensinada desde que eu me entendo por gente que existiam dois tipos de pessoa, as pessoas de valor, que sabiam se cuidar, eram inteligentes e davam a honra extrema para sua família, e os inúteis sem valor, que nunca conseguiam sobreviver sozinhos. Minha família me fez sempre dividir tudo entre dois mundos, e tudo que fiz, todas as pessoas que eu machuquei, tudo foi com o intuito de ser uma pessoa de valor…mas quando entrei naquela escola, eu tive que trabalhar ainda mais, eu esqueci de comer e esqueci de dormir várias vezes, mas meu pai não ligou pra isso, ele apenas me motivou, dizendo que eu era uma boa menina e estava indo bem, então, o primeiro grande teste começou e…eu desmaiei em um dos meus estudos, mas a minha família só me tratou e me deu alguns remédios e pediram pra eu continuar estudando, sem nem perguntar se eu estava bem, mas no fim, eu consegui e fui a número um da turma toda, mas não fui a número um de toda a escola, e meu pai odiou isso, dizendo que para nossa família, apenas sendo a melhor de toda a escola que eu valeria alguma coisa, e que…eu estava muito longe de ser alguém de valor pra ele.
Eu…fiquei sem palavras por alguns minutos, eu queria falar alguma coisa, mas não consegui pensar em nada, onde eu deveria começar a confortá-la depois de ouvir tudo aquilo?
Dandara: quando eu ouvi aquilo, fiquei tão triste que quase chorei na frente do meu pai, mas então uma voz na minha cabeça me disse, “pra que? pra que eu choraria? ninguém iria ligar”, até que eu ouvi outra voz na minha cabeça dizer, “o Antonio ligaria”...desculpa por te fazer passar por isso, mas eu só, precisava de alguém pra me escutar, (se levanta) obrigada por me escutar
Antonio: FICA PARADINHA AÍ.
Espera, o que? por que eu falei isso? não consegui uma resposta boa pra mim mesmo antes dela se virar e se perguntar.
Dandara: o que?
Antonio: você vem até mim, fala todas essas coisas traumatizantes, chora no meu peito, quase inunda minha quadra favorita com seus feitiços descontrolados e sai sem nem deixar que eu te fale qualquer coisa? PELO AMOR DE DEUS DANDARA, EU POSSO TE AJUDAR, MAS SÓ SE VOCÊ DECIDIR ME ESCUTAR, PELO MENOS UMA VEZ!
Não fazia ideia de onde estava vindo aquilo, mas gostava, por algum motivo, gostava bastante do que estava falando, hunnnnn. A Dandara acabou se sentando de novo no banco, estando tão confusa e curiosa como eu, e tentando não pensar muito, já que notei que era em vão pensar muito com aquela garota, falei.
Antonio: primeiro, pare de tentar conseguir aprovação de seus pais, meu pai não é nem perto parecido com o seu, mas eu entendo as coisas o bastante pra saber que essa tal “pessoa de valor” que ele tanto fala, nunca existiu, era só alguém imaginário que talvez nem seu pai tenha certeza absoluta de como chegar nesse ponto, ele só quer que você fique ainda melhor pra ter mais “valor” pra pessoa que ele provavelmente vai te obrigar a se casar.
Queria ter uma forma mais fácil de falar aquilo, mas por mais que doesse, eu precisava ser o mais duro, cruel e seco possível falando aquelas coisas, a última coisa que eu precisava era a Dandara ter qualquer esperança que poderia se dar bem com seu pai se se esforçasse e se sacrificasse mais, pelo que ela falou e pela forma como ela estava, eu sabia bem que aquilo não podia acontecer de jeito nenhum.
A tristeza no olhar dela mostrava todo o mundo, crenças e fé que ela tinha, sendo destruídas completamente, assim como aconteceu comigo quando eu descobri sobre meu pai, mas pra mim aconteceu de forma um pouco mais calma. Dandara tentou formar palavras, mas ela estava afetada demais para falar qualquer coisa.
Antonio: segundo, tire um tempo, nem mesmo que seja 5 minutos, pra entender melhor quem você é, antes de começar qualquer estratégia, plano de fuga ou retaliação, olhe a si mesma no espelho e pergunte, “quem e voce?”
Dandara: que doideira é essa? eu dou Dandara, Dandara Galdino
Antonio: e o que significa ser Dandara Galdino?
E novamente, ela não tinha resposta, não por ter muito o que falar, mas exatamente por não ter nada a falar sobre si mesma, ela não tinha nenhum conhecimento de si própria, só o que as pessoas diziam que ela era, quem Dandara Galdio era, mas no fim, nem ela sabia o que significava ser Dandara Galdino, e agora, a facada final.
António: sei que pode ser difícil pra você, mas me responda, você gosta de construcção?
Dandara: não
Antonio: por que?
Dandara: se já cheguei a gostar, minha família destruiu toda a alegria e amor que já tive por isso, se dependesse de mim, eu nunca mais ouviria a palavra “constructo” em toda a minha vida
Antônio: tem certeza?
Dandara: sim
Antônio: então fale
Dandara: eu odeio construcçao
Antônio: mais alto
Dandara: eu odeio construcção!
Antônio: MAIS ALTO
Dandara: EU ODEIO CONSTRUCÇAO, EU ODEIO CONSTRUCÇAO, EU ODEIO CONSTRUCÇAO, EU ODEIO CONSTUCÇAO, EU ODEIO CONSTRUCÇAO…
E ela continuou falando aquilo várias e várias vezes, até finalmente parar, recuperar o fôlego bem devagar e parecer bem mais feliz e saudável, apesar de tudo.
Antonio: ai, os outros já devem ter conseguido os sorvetes, quer ir lá ver eles?
Dandara: QUERO(tosse) eu quero sim.
De forma mais calma e solta, Dandara saiu do banquinho, sorrindo dessa vez, eu olhei pra ela e vi alguém totalmente diferente, ela então tentou tirar o coque do próprio cabelo, mas ela estava muito desesperada, fazendo o cabelo só ser arrancado.
Antonio: vai com mais calma Dandara.
E assim ela fez, com bem mais calma, ela tirou o coque da própria cabeça e deixou o cabelo ondulado e vermelho descer até a cintura, uou.
Antonio: você fica mais bonita de cabelo solto
Dandara: eu me sinto melhor de cabelo solto.
Eu falei da gente ir até os outros, mas agente ficou olhando um pro outro um bom tempo, não sei o que Dandara estava vendo em mim, mas o que eu via era…um espelho, a estrada que eu começei a andar a alguns anos estava sendo iniciada pela Dandara, e isso me deixava mais feliz que qualquer coisa.
E sem perceber, agente demorou tanto pra ir até eles, que o trio acabou voltando pra nos, ahhhhhh, sorvete de baunilha, meu favorito.
Brutus: oi Dandara, eu não sabia qual você gostava, então comprei um de chocolate
Dandara: eu não gosto de chocolate.
Nossa, ela ja tava ficando impositiva, bom.
Saytus: você gosta de manga?
Dandara: sim
Saytus: aqui, fica com a minha.
E naquela simples troca de sorvetes, agente se sentou numa mesinha próxima dali, e só aproveitamos o sorvete, as coisas estavam doidas demais para agente se separar agora, eu tinha muito o que pensar, a Dandara tinha muito o que pensar, e com exceção de mim e do Brutus, todo mundo aqui tava se conhecendo pela primeira vez.
Dandara: sou a Dandara
Brutus: eu sou o Brutus
Dandara: desculpa ser insensível, mas, como você conhece o Antonio? Eu conheço a Saytus e o Jay da escola, mas nunca o vi lá, deve ser pelo senhor ser um cavaleiro e não um mago.
OBRIGADO, finalmente sabia o nome do meu amigo Jay, Jay, Jay, Jay, Jay, Jay, Jay Jay, Jay, Jay, Jay, Jay, Jay, Jay. Eu não podia esquecer.
Brutus: agente se conheceu no jardim de infância, ele era mais quieto que as outras crianças então era confortável ficar perto dele, e agente manteve a amizade até hoje
Dandara: vocês são amigos de infância? que legal
Brutus: depois de um tempo, o outro cara começou a me suprimir, até que eu fui engolido por ele por completo, ou…ele pensou que havia me engolido, mas bem no fundo, eu estava afetando ele, o punindo por ter me suprimido daquela forma.
Agora as coisas iam ficar complicadas, eu sempre falei pra ele não falar de forma tão abstrata assim, mas a Dandara, parecia ter entendido.
Dandara: com “outro cara” você quer dizer a sua outra personalidade?
Brutus: sim…demorou, mas eu consegui sair de novo através dos sentimentos variados e reprimidos dele misturados com a magia que o infectou bem devagar, mas tudo levou um preço, (olha as mãos) eu…fiquei desfigurado nessa forma de lobo, e muitas pessoas começaram a me evitar e alguns até me atacaram, mas…o António nunca ligou, antes de eu conseguir sair de casa sem machucar ninguém, e antes de eu me afastar dos falsos que um dia chamei de “melhores amigos” o quarto do Antônio foi o primeiro lugar onde eu me senti calmo o bastante pra me acalmar e não voltar a ser o Davi
Dandara: (risadinha), você tem um ótimo amigo
Brutus: nós temos, todos nós 5.
Mas depois daquela história, a Dandara estava muito triste, não era mais desespero ou dor, sem ela dizer em palavras, dava pra ver que ela não tinha muita esperança depois de tudo aquilo.
Dandara: mas…o que eu faço agora?
António: deixe os adultos darem conta disso
Dandara: foram os adultos que fizeram isso
Antonio: to falando de adultos de verdade, pelo que você me falou, mesmo com tudo que ele fez…o seu pai não é adulto.
Apesar de já entender melhor o que era aquela voz, ainda me assustava muito ouvir ela. Mas assim como eu disse, assim que a gente se separou, fui direto para minha casa, e fui falar com minha mãe.
Já estava de noite, e ate a maioria dos empregados já estava dormindo, só alguns ainda estavam de pé, mas indo ao escritório da minha mãe, vi um grande montinho de papelada, com ela dormindo na mesa, com várias folhas em cima dela e com uma folha assinada pela metade na mão esquerda dela.
Me aproximei devagar dela, e quando a chamei ela gritou e quase ficou em pé num instante.
Mãe: pelo amor de deus Antônio, pare de fazer isso, eu podia estar armada
Antonio: desculpa mãe, você sabe que não é de propósito
Mãe: (suspiro) o que foi?
Antonio: uma amiga minha da escola tá sendo maltratada pela família, você poderia mandar alguém até ela?
Mãe: eu posso fazer uma ligação, mas fica tranquilo filho, deixa que a mamãe resolve isso pra você
Antonio: ta bom mãe.
E de forma simples assim, terminei a conversa com a minha mãe, e tentei ir dormir, e no caminho até o banheiro vi meu pai, e o ódio congelante em meu coração voltou. Mas eu apenas cumprimentei ele sem problema algum, fiquei muito bom em esconder minha raiva, mas também sentia que precisava extravasar-la de alguma forma.
Era bizarro mas, eu ainda era um covarde que não conseguia falar cara a cara o que sentia pro meu pai, no meio do banho e enquanto me arrumava, pensei no que fazer, então descobri algo perfeito para ajudar minha situação, peguei um papel e uma pena, e comecei a escrever.
Para, Pai
Pai, eu nem sei como começar essa carta, então falarei tudo de uma vez, eu odeio você agora, mas não por que parei de te amar, não, na verdade foi todo o amor que eu tive por você por tantos anos que fez eu odiar você ainda mais. Pois era além de amor, quando eu era criança, eu confiei em você mais do que a mamãe, eu confiei em você mais do que eu mesmo, porque eu era uma criança e você foi meu herói por muito tempo.
E quando minha “maldição” ficou mais forte e você me falou que eu não era louco e que eu não era amaldiçoado, eu acreditei nisso, e neguei qualquer um que dizia algo diferente, e eu quase tive minha vida destruída por causa disso, por que você se recusou a aceitar minha condição, você me alimentou, me deu roupas e me protegeu por anos, e ironicamente quase me matou, igual você fez com a Gabriela, e quando eu descobri que você me enganou, todo o amor e confiança que cultivei se tornou dor e ódio pela traição, pois você me traiu de uma forma que eu nunca poderei perdoar.
E sabe algo engraçado? foi você que me deu isso, não a maldição, mas a chance de ser melhor, você, o vovo, o bisavô e todos os nossos ancestrais lutaram por isso, um futuro melhor onde não precisássemos nos preocupar em apenas sobreviver no dia seguinte, um mundo passifico que era possível mais que apenas sobreviver.
A descoberta da minha maldição, os psicomagos, o fato de minha geração inteira se tão “frágil” como você ama falar, é por que vocês nos deram a liberdade de ser mais do que armas ou animais só tentando sobreviver, e depois de tudo, voces não aguentaram o fato de nós termos uma vida melhor, e usaram seus padrões de fim do mundo para nos definir ao invés de nos ajudar.
“Na minha época não tinha isso”. SIM PAI, TINHA SIM, a diferença era que na SUA época, as pessoas estavam preocupadas demais tentando ficar vivas para perceberem, eu sei que o bisavô era como eu, só vendo as pinturas e nunca o conhecido antes, eu sentia que ele era como eu, mas ninguém nunca descobriu, por que na época dele, minha maldição “não existia”, então, eu te odeio por você se recusar a me dar o presente que você e todos os nossos ancestrais se esforçaram tanto pra me dar, e NADA VAI FAZER EU MUDAR DE IDEIA.
Assinado
Antonio.
Não fazia ideia se mostraria essa carta para alguém um dia, mas por enquanto, ela ficaria bem escondida no meu armário, pois ainda tinha um lugar que eu precisava ir.

