No dia seguinte na escola, entrei pelos portões, e ao invés de ir para os estábulos, entrei por um caminho de túneis iluminados por lamparinas, caminhos largos para cavalos de vários tamanhos passarem, hunnnnn, não tinha chegado na exploração daquele lugar ainda, e mesmo assim, era sinistro o bastante pra eu ver que não valia a pena, e que no pior dos casos, eu só iria pra lá quando todos os meus esconderijos estivessem comprometidos, algo que não deveria acontecer tão cedo.
Seguindo o mapa que Saytus me deu a risca, quase dei de cara com a parede numa curva, até descobrir que a curva era falsa, e nesse caminho escondido, acabei entrando numa ala bem diferente da escola, havia três pistas de corrida, uma de areia, uma de concreto e uma de terra, todas banhadas por um grande sol artificial, provavelmente feito por um dos professores, tava longe de ser forte como o original, mas era forte o bastante pra aquecer aquela grande sala.
E então, uma professora parda, velhinha, com uma tatuagem de triângulos enfileirados no rosto e com um sorriso de calmaria e realização, (que eu comecei a ver constantemente no rosto de vários professores aqui), se aproximou de mim e do Zorro.
Zorro era um cavalo desconfiado, assim como eu, mas na a aproximação da professora, ele abaixou a cabeça e deixou ela fazer carinho nele, e a professora logo olhou pra mim e estendeu a mão, agente se cumprimentou e ela sorriu pra mim. Eu senti muitas, muitas coisas quando ela fez isso, a maioria boas, mas antes de me focar no emaranhado de emoções em minha cabeça, a professora falou.
Professora: ola Antonio, eu sou Naiara e sou responsavel pelos alunos com o desejo de terem algo mais sério com seus cavalos
Antonio: bom, eu e o Zorro viemos apenas dar uma olhada, não entramos oficialmente ainda
Naiara: ah, não seja tão sério, os formulários podem ser recebidos depois, por enquanto só participar das atividades com seu cavalo já basta.
Fazendo um sinal com suas mãos, ela guiou a mim e o Zorro pelo lugar, no caminho, vi como vários alunos faziam alguns treinamentos com seus cavalos, enquanto havia algumas cercas que os cavalos pareciam estar só se divertindo um com o outro.
Antonio: de quem são aqueles cavalos?
Naiara: são cavalos abandonados, coitados que foram descartados assim que seus mestres conseguiam suas vassouras
Antônio: que horror
Naiara: nem tanto, eles pelo menos tiveram a decência de enviá-los pra mim, muitos sequer tem a consideração de fazer isso, jogam fora um ser que os serviu por tanto tempo como se fosse só um doce que perdeu o sabor, que desprezível.
O ódio genuíno na voz da professora me pegou de guarda baixa, mas ainda consegui me manter calmo ao menos o bastante para me manter na linha, então chegamos no local de treino dos primeiros cavalos, uma pista de obstáculos simples que o Zorro parecia bem animado para participar.
Naiara: hohoho, esse rapazinho tem bastante personalidade
Antonio: tenho ele desde que era um garotinho, tivemos muito tempo pra cuidar da personalidade dele
Niara: que maravilha, espero grandes coisas de você senhor Antonio
Antonio: (risada abafada) ta bom.
No fim, entrei pra fila das crianças esperando a vez delas para a pista de obstáculos, até que uma criança bem mais na frente olhou pra trás e me viu, e ela fez a coisa mais inacreditável que já vi, ela saiu da fila e decidiu ir para o lugar onde eu estava, na minha frente para ser mais exato.
Saytus: você finalmente veio, já tava achando que você não vinha
Antonio: sério? eu só demorei 1 dia pra vir pra cá
Saytus: você não deu uma impressão que ia aceitar.
Tentei conversar de forma normal com Saytus, mas não pude parar de ver o cavalo dele esfregando a cabeça no meu, era fofinho, mas me distraia várias vezes.
Antonio: o primeiro desafio não parece tão difícil
Saytus: não é um desafio, é só aquecimento.
E falando aquilo, Saytus partiu em retirada quando foi a sua vez e fez uma apresentação perfeita, a rampa que apenas perto notei o quão pequena era comparada a grande parede que tinha que subir, os postes de ziguezague, perigosamente perto um do outro, aneis em chamas que não pareciam sequer esquentar a fada, e finalmente uma corrida simples entre 3 potes, ela correu em cada poste a ponto de desenhar um triângulo com as pegadas de cascos, e terminar a performance batendo o sino que estava no centro do triângulo.
Quando chegou minha vez, não tentei ganhar nenhuma competição e apenas corri bastante e vi os desafios da pista de obstáculos mudando, vi a parede ficando maior pra eu saltar, os postes de zigue zague se aproximando bem mais e as argolas diminuindo bastante e pegando ainda mais fogo, com os últimos postes se aproximando ainda mais, e mesmo assim, consegui um triângulo bem retinho igual ao de Saytus, depois de eu bater no sino, estava tranquilo, depois de todas as aventuras que tive com o Zorro, aquilo não era desafio pra mim.
Sai do caminho para a próxima criança participar, sem estar ofegante ou suado, mas bastante feliz, a cada seguno eu gostava ainda mais daquela escola, vi Saytus bem feliz me esperando, enquanto a professora parecia dar conta dos outros alunos.
Saytus: cara, você foi ótimo
Antônio: que isso, não foi nada
Saytus: na primeira vez que fiz aquele teste, eu caí com o senhor purpurina na muralha e ele caiu em cima de mim
Antônio: (risada) é sério?
Saytus: eu sinto que você tem uma relação muito boa com seu cavalo, não é fácil ter uma relação tão forte com um cavalo assim
Antônio: bom, como eu disse Saytus, esse não é o meu primeiro clube
Saytus: é, eu sei, você pode me apresentar eles?
Antônio: é claro, só deixa eu separar um dia.
Então, fazendo carinho na cabeça do Zorro, Saytus riu e ficou bem feliz.
Saytus: muitas pessoas só vem elas como objetos descartáveis, ou degraus para eles chegarem as vassouras, mas eu sinto o grande amor que esse cavalo tem sobre você
Antônio: quando você não tem dinheiro o bastante pra comprar um novo cavalo, o único que você tem passa a ser bem valioso
Saytus: não, não é apenas isso, sinto que nem se você tivesse muito dinheiro você iria trocá-lo.
Eu não falei em voz alta, mas ela estava certa, desde bem pequeno, eu dei comida, tirei as pragas e escovei ele várias vezes, o Zorro podia ser só um cavalo, mas ele era meu melhor amigo, e um bem antigo.
Antônio: eu…ganhei o Zorro quando eu ganhei um torneio de cavaleiros, e meu pai ficou tão feliz que comprou um cavalo pra mim
Saytus: nossa, seu pai parece um cara bem legal
Antônio: sim, ele é…até ele não ser mais.
Saytus: o que? Como assim?
Eu não respondi, só deixei a raiva sair de meu rosto um pouco, e com um simples olhar, Saytus notou que eu não queria ser muito específico agora.
Logo, a professora estava do nosso lado, cavalgando em seu cavalo, que parecia tão velho quanto ela
Professora: muitos dizem que o melhor amigo do homem são os cães, mas eles se esquecem que por vários anos, os corcéis os ajudaram a conquistar esse mundo, e quando as vassouras chegaram, eles não eram mais necessários
Saytus: bom, voar tem suas vantagens
Professora: hohohoho, se voar é o problema, então isso deixa as coisas mais simples, certo Antônio?
Antonio: bom, nem todo mundo tem paciência pra aprender a fazer esse truque com os cavalos Professora
Professora: como não, isso é o básico se você ao menos quiser sair dessa cidade
Saytus: espera aí, vocês tão falando da…
A Saytus nem terminou de falar, ela apenas conseguiu ver nos dois colocando um pouco de magia nos cascos de nossos corcéis e começando a cavalgar no ar, ela queria nos acompanhar, mas não conseguiu.
Antônio: nossa, achei que a Saytus já sabia fazer isso
Naiara: fazer isso jovem é mais fácil, além disso, o fato dela não ter uma relação boa com o senhor purpurina não ajuda muito também
Antônio: (risada abafada) é tão ruim assim?
Naiara: no primeiro dia dela aqui, ela caiu do próprio cavalo várias vezes e até jogou magias nele constantemente, levou um bom tempo pra eles conseguirem se acertare e se entenderem melhor
Antônio: bom, fazer isso com um cavalo já adulto é sempre difícil, foi o que me ensinaram
Naiara: então você teve um bom professor, sim, é difícil, mas não impossível, olha pra eles agora, já fizemos um grande progresso.
Lá embaixo, eu via Saytus, que apesar de ainda estar aprendendo, parecia estar tranquila com o senhor purpurina, bem longe daquela imagem caótica que a professora acabou de descrever dela.
Antônio: nossa, acho que eu vou gostar desse lugar
Naiara: a Saytus me falou que você já tem um clube de corrida
Antônio: o clube, se desmantelou
Naiara: desmantelou? Por que?
Antônio: por que você acha? O nosso líder parou e ninguém conseguiu manter o lugar aberto, mas tá tudo bem, eu tinha aprendido o suficiente com ele pra continuar fazendo minhas coisas sozinho
Naiara: Antônio, você quer conversar sobre isso?
Antônio: não, eu estou bem tranquilo professora, na verdade queria saber o que mais eu poderia fazer
Naiara: a claro, me acompanhe.
Então, cheguei na primeira pista, uma cheia de terra e lama super perigosa, escorregadia em certos lugares, e que afundavam em outros, e vendo aquilo, eu e Zorro ficamos bem empolgados.
Antônio: (risada) é normal um novato ir em cima de uma pista tão difícil logo de cara?
Naiara: senhor Antônio, você não é um novato, nós dois sabemos disso
Antônio: tuuuuudo bem.
Entrei na pista de terra, andando pelo caminho que parecia seguro, senti os cascos do Zorro pisando na lama e testando o solo, confirmando pra mim que o solo era seguro ali, continuei andando até chegar em outro ponto da linha onde respirei fundo e me deixei correr bastante, e enquanto outros alunos tinham grande dificuldade, eu me divertia, não era o mais veloz, mas eu podia ver tão bem o lugar seguro no meio da lama, onde eu não iria deslizar ou afundar nela, que eu chegava mais cedo nos lugares antes mesmo dos veteranos do terceiro ano. E vendo aquilo, Naiara ficou impressionada, enquanto eu apenas sentia o vento de meus cabelos e abria minha boca pra ela ser deformada pela força do vento que batia na minha cara, não havia magia nenhuma naquilo, era apenas o quão bom eu era cavalgando, depois de completar quase 30 voltas e finalmente ficar com o rosto ofegante, decidi parar e tomar uma água, e de forma estranha, um dos alunos pegou um copo pra mim. A professora Naiara me olhou, em choque, não era só minhas habilidades, tinha algo diferente na forma que ela me olhava.
Naiara: eu vi, você era como um segundo par de olhos para o Zorro, ele confiava onde você o mandava, e ao mesmo tempo, o Zorro era as suas pernas, você percebia sempre que o Zorro notava que você o mandava pra um lugar escorregadio sem querer e corrigia seu erro ao invés de culpá-lo. Em todos os meus anos como educadora, eu nunca vi uma ligaçao tão forte entre um menino e seu corcel.
Tentei não me sentir orgulhoso disso, mas senti bastante orgulho de mim ouvindo aquelas palavras.
Antônio: fazer o quê? Eu conheço esse corcel desde que ele nasceu, seria estranho eu não entender ele depois de passarmos a vida toda juntos
Naiara: nesse caso, se importaria de dar algumas palavras de orientação aos mais jovens?
Antônio: não, não me importo.
Então, fui levado aonde os alunos mais problemáticos estavam, e quem diria, os alunos mais problemáticos eram todos alunos com cavalos adultos ou já evoluídos, aqueles cavalos, em sua maioria já estavam com suas mentes formadas, e seria difícil fazer eles mudarem, e nenhum deles queriam obedecer criancinhas, mas eu não era o professor, eu era só um aluno como eles, que iria dar umas palavras de aviso, isso me acalmou quando a professora me chamou e os alunos começaram a olhar ora mim.
Não consegui olhar pra nenhum deles, então decidi olhar pro céu, mas conseguia sentir todos olhando tão intensamente pros meus olhos, com calma, falei da forma mais tranquila que conseguia.
Antônio: muitos de vocês devem ter recebido seus cavalos já adultos, não digo que isso é um erro, mas antes de quererem que os cavalos obedeçam suas ordens, vocês devem parar de lutar contra eles, os cavalos devem ter sido tirado de suas casas já adultos, estão em um lugar desconhecido, e uma criatura que eles só conseguem enxergar como “filhotes” estão tentando comanda-los, pode ser difícil, mas a primeira coisa que vocês devem fazer, é parar de lutar, mesmo se vocês os domarem forçando seus poderes neles, acabarão com uma ferramenta, não uma montaria, uma ferramenta que irá abandoná-los na primeira oportunidade, o que os deixará numa batalha constante não só contra seus inimigos, mas contra suas próprias montarias, os cavalos são nossos parceiros nas batalhas, nós os trouxemos até aqui, então é natural que o traremos com o respeito que merecem, nunca se esqueçam disso.
Esperei que eles fizessem perguntas, ou me contrariarem pra mim por ter muitos garotos com uma nobreza maior que a minha ali, mas no lugar disso, apenas uma garota levantou a mão.
Antônio: sim?
Aluna1: alguém já falou que uma garota pode se perder nos seus olhos?
Antônio: mais vezes do que eu gostaria.
Essa simples palavra destruiu qualquer cantada que eu receberia…é, de novo, esses olhos amarelos idiotas, eu via, não só as garotas, mas os garotos também, olhando prós meus olhos e…me deixando bem nervoso, parem, parem, PAREM.
Antônio: parem de olhar, por favor.
Com o stress que eu estava aguentando, minha voz não era nada além de um sussurro, graças a deus, a professora entendeu e me deixou ir embora, onde eu procurei um lugar pra me acalmar.
Eu fiquei lá um bom tempo, muitas vezes eu pensei em arrancar meus olhos, eu odiava que as pessoas me olhassem no rosto, mas apesar de tudo, sabia que alguma hora eu teria que me acostumar, o que me deixava mais nervoso ainda no final.
Até que um dos alunos apareceu onde eu tava escondido, e eu o reconheci na hora, era…na verdade eu não sabia o nome dele, mas ele lia muitos livros na biblioteca da escola comigo, eu não sabia o nome dele, mas de certa forma, nos dois entendiam os que éramos amigos, hunnnnn.
Amigo: o que tá fazendo aqui?
Antônio: sabe como é, relaxando
Amigo: tá cansado de ficar lá com os outros também?
Antônio: pois é
Amigo: quer que eu saia?
Antônio: não, tudo bem, pode ficar.
E respeitando meu espaço, meu amigo ficou num canto da caverna enquanto eu fiquei no outro, e agente só ficou ali, passando tempo e recuperando as forças para provações que ainda teríamos.

