logo do projeto lunar

Capa
Não é uma Maldição 1🌻
Kael e os Singulares
2667 palavras • 15725 caracteres • ⏱ 10 min 40 s

Kael e os Singulares

0
0
0

Tentei parar de me focar na Dandara, então eu dei um maior foco em meus problemas, mas foi dificil, de forma estranha, não importa o que eu tentei, ela focava em todos meus pensamentos, mas mesmo com muita dor, consegui me focar ficando na minha grande paixão da escola, a grande biblioteca.


Lá dentro, podia ler de tudo e mais um pouco, existiam muitas coisas com símbolos e ideias novas, tinham alguns livros que foram imprimidos tão recentemente que ainda cheiravam a tinta, mas o que eu pedi ao bibliotecário era um livro tão antigo quanto bem tratado, quando o livro foi posto em minha frente, sua capa de couro estava bem desgastada, mas preservada ao limite, e as páginas estavam tão amarelas que parecia que elas desmanchariam com o toque errado nelas, isso tudo sem contar o peso não apenas do livro, mas de todo o peso da história que ele carregava. Era uma cópia, obvio, mas mesmo assim era bem antigo.


Muito animado, coloquei o livro na mesa, assoprei a poeira pra fora, e comecei a ler. Uhhhhhhhh, já começou bem, no primeiro capítulo, foi dito que antes de toda a magia ir para o mundo os sapiens estavam no auge de algo chamado de "filosofia" que segundo o livro, era a arte de questionar a tudo e todos, tentar entender tanto o mundo inteiro a volta deles quanto os seus próprios corpos. 


E nesse momento, onde os sapiens pareciam estar bem mais dispostos a aceitar mudanças, a magia surgiu, assim do nada, muitos "filósofos" da época aguentaram esse poder e se tornaram grandes magos poderosos, mas eles não usaram os poderes para dominar ou destruir os reis, no lugar disso, eles usaram os estranhos poderes da magia para melhorarem suas próprias pesquisas, conseguindo chegar nos resultados bons muito mais rápido do que esperavam, adotando o nome de filó-arcanos ao invés do simples "mago".


O que eles não esperavam era que a magia que os ajudou criaria grandes "monstros" como diziam na época, pois enquanto os mais fortes mentalmente e fisicamente ganharam o poder de controlar a magia, os mais fracos foram consumidos por ela e foram deformados de várias formas, mas o estranho era que a maioria das deformações não eram monstruosas ou perigosas, no lugar disso, elas eram apenas irritantes. 


O livro até tinha o registro de algumas pessoas, muitas "alergias" foram mudadas pra pessoa literalmente explodir e depois se reconstruir devagar sempre que comia muito do que era alérgico, outros tinham deformações mais específicas, como pessoas que se transformaram em animais quando condições certas acontecem, o livro até deu um exemplo disso dizendo sobre uma princesa que se transformava numa aranha gigante sempre que menstruava, a vida daquela princesa devia ter sido bem difícil.


Em mais registros, dizia que os deformados ganharam o nome de "amaldiçoados". Precisei parar de ler um pouco pra continuar. 


Antonio: vamos, foi isso que você queria, você só precisa aguentar um pouco mais. 


Lendo mais, vi que muitos amaldiçoados foram perseguidos e até atacados por leigos e muitos lugares até impedem eles de entrar. Apenas com os filó-arcanos se impondo, não só pelos direitos deles mas para estudá-los e entender bem o que aquelas maldições significavam, mais fascinados com as maldições dos jovens do que qualquer medo que poderiam ter.


Então, dois nomes chegaram na história, Alaric, um amaldiçoado com a maldição da risada de fogo, ele não podia sentir nenhuma felicidade sem cuspir chamas descontrolavelmente e ele liderou os amaldiçoados sozinho por bastante tempo, fazendo o possível para ajuda-los, mas não conseguindo sequer lidar com a própria maldição na época, ele não conseguia fazer muito além de ser o assistente de pesquisa de muitos filo-arcanos, os ajudando a criar poções que ao menos acalmassem as maldições e criando ajudas psicológicas com maldições incuráveis.


Apesar de sua ajuda gigantesca nas pesquisas, Alaric pensou por muito tempo estar andando em círculos nesses projetos, isso até ele conhecer e ficar bem próximo de Kael, "o homem mais inteligente vivo". Segundo os registros do livro, ele tinha esse título por questionar tudo, não importa quem ele machucasse ou irritasse com isso, nunca aceitando a explicação porca de "sempre foi assim".


Já tinha ouvido essa história de outros Singulares, mas ouvir de terceiros e ler de forma bem mais explicada era totalmente diferente, eu me sentia...ali, sentindo o que eles sentiram, entendendo a dor de meus..."irmãos" e ficando orgulhoso do que eles fizeram por mim, e por todo mundo, todo esse legado, não só pra Singulares, mas para pessoas perdidas, me deixava muito feliz, e depois fiquei triste que...tantas pessoas sequer sabiam de tudo isso, era algo para se chorar.


Kael foi o maior professor de Alaric, tinha registros no livro que até diziam que o Kael parecia "entender o Alaric melhor que ele próprio", mas isso não me surpreendia, pelo registro do livro, conseguia ver como Kael, pela sua natureza estranha, deveria ver todas as partes feias de Alaric que ele proprio se recusava a ver, isso era tão empolgante.


Felizmente, Alaric ficou muito famoso como um benfeitor, pois com tantas pessoas diferentes no meio de pessoas não amaldiçoadas, muitas ideias inusitadas e únicas fizeram o reino prosperar, pois estudar a mente dos amaldiçoados, permitiu os magos entenderem algo da magia que eles não entendiam e faziam as pessoas entender coisas que só vendo pelos olhos dos amaldiçoados eles podiam entender...


O último trecho me deixou pensativo, "o mundo pelos olhos de um Singular", nunca pensei dessa forma, quase tudo que fiz era apenas para ficar calmo, mas, essa frase me fez pensar, em como eu via o mundo, mas antes de tudo, voltei a ler, pois eu queria terminar aquilo hoje.


Continuei lendo, ficando triste que no final, a maioria dessas coisas foram apenas descobertas por causa de Kael, e mesmo assim, ele irritou tantas pessoas que acabou sendo acusado de assassinato de um dos ancioes, a prova, as testemunhas, ate o defensor, tudo foi fabricado.


Os anciãos ainda tentaram usar Kael como um peão para condenar todos os amaldiçoados, criando um grande esquema sobre como os amaldiçoados queriam dominar o reino e destruir todas as pessoas normais, e pra garantir isso, eles deram uma poção de "silêncio absoluto" para o Kael junto de vários feitiços extras para garantir que ele não arruinaria o plano.


Mas era de Kael, aquele que "era tão inteligente que entendia o quanto era ignorante", recuperar sua voz e quebrar cada feitiço de contenção dos anciãos era brincadeira de criança pra ele. 


Kael podia ter fugido se quisesse, mas não, no lugar disso, ele deu sua última palestra, sobre tudo que ele aprendeu com os jovens rapazes, as moças inteligentes e os anciãos pacíficos, nunca se referindo aos amaldiçoados como amaldiçoados em nenhum momento, eu tentei manter minha boca fechada, mas ouvindo as próximas palavras de Kael, nao consegui.


Antônio: "que decepção, não viram toda a alegria que tantos diferentes jovens deram ao reino? a decisão de vocês não é sabia, nem em questão de fartarem a si próprios de prazeres ela faz sentido, vocês são apenas tolos ignorantes, que pensam ser intocáveis" 


Aquela última frase, condenou Kael para beber um copo de veneno potente, um veneno fácil para ele beber e ficar vivo, mas pondo o veneno em suas mãos, ele aceitou a própria morte, mas antes, ele deu suas últimas palavras.


Antônio: "se tem algo que me arrependo é que partirei desse mundo ainda sendo um tolo"


Kael morreu pelo veneno, não demonstrando nenhuma dor pelo veneno em nenhum segundo, os líderes da época pensaram que com a morte de Kael, a chama dos amaldiçoados apagaria, mas foi o contrário, matá-lo apenas acendeu ainda mais fundo a raiva dos amaldiçoados, mas ao invés de um golpe de estado, os amaldiçoados fizeram uma limpeza de forma...peculiar.


Eles não podiam só matar os poderosos, pois outros poderosos idiotas ficariam no lugar deles, então eles educaram aos poucos a nova geração, não importava quantas guerras sem sentido, golpes de estado ou incriminações falsificadas fossem jogadas neles, os amaldiçoados resistiram, e um dia, eles só, conseguiram, e os poderosos tinham o coração limpo para o pensamento cultivado por Kael nunca morrer.


E no meio de tudo aquilo, Alaric se tornou o maior embaixador dos amaldiçoados, encontrando poções e uma filosofia para lidar com o que restou de sua maldição da risada de fogo, se tornando o primeiro filo-arcano amaldiçoado, descobrindo muitos mistérios da mente e truques para descobrir se uma criança nasceria amaldiçoada.


Registrava ali, como ele morreu com mais de 100 anos, em uma cama, cercado por seus filhos, netos e seus "irmãos" mais próximos, que aguentaram até ali com ele, o final de Alaric me fez derramar lágrimas que quase caíram no livro, mas tomei cuidado pra isso nao acontecer.


Mesmo em sua morte, ele nunca parou de se importar com os outros, e logo, ele se lembrou quando criou o nome dos Singulares, ele pensou bastante naquela epoca, nao era apenas um nome novo, era um título, o nome "maldição" fez e ainda faria muitos estragos, e ele queria um nome que ao menos diminuísse o estrago, então, ele pensou no nome Singulares depois de muita reflexão, as falas ainda registradas de Alaric saíram de minha boca, como se o próprio Alaric tivesse pegado minha boca emprestada pra falar.


Antônio: "não somos amaldiçoados, nossas fraquezas e nossas disposições desde o nascimento foram o terreno para a magia crescer, mesmo os mais semelhantes de nós são diferentes em tudo, não, eu e todos meus irmãos somos Singulares, aqueles que demonstram um lado singular da magia"


"Aqueles que mostram um lado singular da magia", aquela frase reverberou em minha mente por um bom tempo, e pensando bastante, vasculhei meu bolso e tirei meu colar de girassóis de dentro dele, olhei o colar por bastante tempo, então, uma voz nova falou em minha cabeça, por segundos pensei que era a voz otimista, mas era óbvio que era uma voz nova. 


Antonio: eu sou..único? 


A voz pessimista ainda falava que "eu não queria ser único" , mas enquanto a pessimista era barulhenta e muito irritante, a calmaria e certeza da voz nova em minha cabeça continuou falando. "o que me torna único?" e me senti tentado a perguntar a mim mesmo enquanto ainda encarava o colar, até que alguém chamou minha atenção, mais um golem.


Golem: lamento, senhor, mas, a, escola, irá, fechar, agora.


Ah, já estava anoitecendo, eu tinha que voltar pra casa rápido, era um verdadeiro pesadelo tentar voltar em casa já de noite. Corri pelos corredores da escola e até esbarrei em um aluno, tinha certeza que esbarrei num aluno, mas não fiquei para ver quem era, pois meus pensamentos estavam tão fortes em minha cabeça que eu cheguei no Zorro em instantes e fiz ele dar a cavalgada mais pesada que ele fez em muito tempo, mas o Zorro não ligou, ele pareceu até estar feliz em fazer aquilo, eu estava tão rápido que um cavaleiro chegou até a me parar.


Cara, meu deus, meu deus, meu deus, eu não era um criminoso, mas pra falar com estranhos eu era um mudo, ainda em cima de seu cavalo, o cavaleiro se aproximou de forma dura, mas a dureza que ele estava prestes a falar pareceu diminuir quando ele chegou perto o bastante e ver o colar na minha mão.


Cavaleiro: jovem, você sabe em que velocidade estava?


Demorei pra responder, mas obviamente sendo bem mais paciente do que seria normalmente, o guarda esperou até eu ter força pra falar.


Antonio: muito, rápido


Cavaleiro: exatamente, diminua um pouco o ritmo e não faça isso de novo, tá bom?


Demorei menos pra responder dessa vez, e apenas falei.


Antonio: ta bom.


Olhando as placas, fiz o possível pra ficar 3 dígitos do limite de velocidade, que apesar de ser bem difícil, me garantiu chegar em casa bem a tempo.


Eu tava com muita coisa na minha cabeça, mas pelo menos eu não estava pensando "naquela que não podia ser nomeada", eu queria muito pensar um pouco agora, então acabei ignorando todo mundo, dizendo que eu tava sem fome pra jantar e fui direto pro meu quarto, e...relaxei, junto do frio e da felicidade de estar "seguro" e novamente coberto pela escuridão do meu quarto, me senti calmo o bastante para deitar no chão, não ligava de estar sujo e suado, o que eu queria conversar comigo mesmo, não era algo que podia esperar, então...comecei.


Antonio: eu...sou...único...mas por que? O que tem de único em mim...eu sei entender personagens de livros como ninguém, eu odeio lugares barulhentos, e...tenho uma calmaria que atrai pessoas com vidas estressantes, Brutus, possivelmente Saytus, animais em geral, eu sou tão, confortável de se ter por perto, mas, sinto que falta algo, o que tem de único em mim?


Perguntei isso à escuridão, e ela novamente não me respondeu, mas me deu paz e sossego o bastante para eu pensar mais, o que eu sou único? o que eu sou único? o que eu sou único...


Antônio: ah é...eu gosto muito de ler, muito, muito mesmo...eu tenho um foco que...ninguém da minha idade tem, tem muitas crianças da minha idade sem sonho nenhum, e tem muitos que perderam seus sonhos por terem filhos muito cedo, ou só ficam felizes com o fracasso até o proprio amigo, e eu sou só um garotinho que obedece os pais e faz tudo que eles mandam...é...eu sou um bom filho...mas...isso ainda não basta pra mim, eu quero mais, eu quero...mais.


Eu...aprendi tanto sobre mim, e ainda não era o bastante, mesmo com tudo isso, parecia que eu estava...ignorando algo, mas o qu...............é claro.


Antonio: eu...odeio barulho, eu odeio roupas pinicantes, quentes e de tecidos estranhos, eu amo orquestras, eu amo teorizar coisas com meu irmãozinho, eu amo que me abraçem, mas tem que ser de frente e eu preciso ver, eu amo tomar banho, eu amo doces, amo demais, eu odeio multidões, odeio vozes altas e estridentes, amo vozes doces e tranquilas, amo lugares calmos, amo carinho, amo construir coisas, amo constructos, amo golens, amo pedras, amo prédios, amo arquitetura, odeio prédios feios, odeio prédios meia boca...


De alguma forma, aquilo me deixou bem feliz, mesmo não sabendo bem quando aquelas falas iriam parar, eu abracei cada uma delas, apesar de não falar com ninguém diretamente tudo aquilo, reconhecer essas partes da minha sombra às falando em voz alta me davam uma felicidade que nem mesmo eu entendia totalmente.


Lágrimas de felicidade começaram a cair no meu rosto, muitas partes minhas estavam tão bem escondidas que eu nem percebi que estavam escondidas, eu chorei de tanta alegria, de ter tantas coisas sobre mim descobertas, tinham coisas desde que eu era criança naquele papo, coisas que finalmente fizeram eu me sentir satisfeito por "o que eu tinha de especial?".


Até considerei que a pergunta "o que eu sou?" estava quase respondida, mas decidi deixar isso pra depois, se não saísse do quarto agora, talvez não conseguisse jantar, mas quando me sentei no chão, uma última palavra me fez ficar paralizado por alguns segundos.


Antonio: ...EU ODEIO O MEU PAI.


Eu ainda estava feliz, muito feliz, mas essa ultima parte me fez ficar ali, sentado no chão, paralizado, precisei de muito, mas muito tempo pra processar aquilo, a ponto de eu perder a noção do tempo, só ficando ali, no escuro, pensando no que disse por último, até o Pedro abrir a porta e me perguntar.


Pedro: maninho, você ainda vai tomar banho?


Antonio: sim, eu já to indo.


E depois de um banho bem demorado e um sono bem difícil de começar, dormi, ainda não processando totalmente o fato de eu...odiar meu pai. Eu cheguei nesse ponto de, "eu tenho raiva do meu pai" e "eu não podia perdoar ele" mas eu nunca falei que eu odiava ele, e a minha voz, aquela era mesmo a minha voz? Cara, ainda bem que eu ia sair com o Davi amanhã, eu precisava muito da sabedoria dos gigantes agora. 


Comentários (0)

Seja o primeiro a comentar ❤️

Seja respeitoso. Comentários são públicos e não podem ser apagados.