Quando o dia da minha admissão começou, pensei que seria algo bem simples, mas eu não podia estar mais errado, depois do meu cafe da manha, vi que alguém deixou um holo cristal bem onde sempre deixava o prato quando decidia comer, eu sabia o que era aquilo, e mesmo assim fui pro meu quarto e ativei o cristal com muita calma.
No escuro do meu quarto, o holograma criado pelo cristal mostrou uma pequena tela que mostrava a sala da diretora da escola, uma velhinha bem magra, de sobrancelhas grandes, olhos pequenos e roupas pretas, leigos a chamariam de bruxa, mas pra mim, ela parecia uma velhinha simpática que facilmente seria amiga da minha avó.
Diretora: ola senhor Antônio, você deve saber por que foi chamado, mas mesmo assim, queremos dizer que ficamos impressionados com suas notas, não são muitos magos capazes de entender e anular golens sem os destruir, então venha senhor Antonio, e cresça abaixo de nossas asas.
Era…apenas a imagem da diretora, mas…aquilo me deixou emocionado de forma inexplicável, passei mal tantas vezes, remoendo todos os erros que eu fiz, o teste para a minha escola dos sonhos.
Pensei por alguns segundos que tudo não passava de sorte, dei sorte de passar e minha alegria não passasse de ilusão, e agora eu tinha a prova viva de que eu não era ruim, e a própria diretora esperava grandes coisas de mim, tudo junto de uma pequena marca mágica nas costas da minha mão, com um símbolo de um coração com um relógio dentro dela
Mais alegre do que nunca, me preparei para sair com a melhor roupa que tinha e saí de casa cavalgando o Zorro na maior velocidade que conseguia, quase atropelei várias pessoas, mas consegui desviar todas as vezes, no fim, cheguei numa portinha pequena por causa dos meus próprios atalhos, mas antes do meu cavalo derrubar a porta (que segundo minha marca de aluno, dizia que era uma entrada da escola), um golem funcionário foi invocado lá e falou com uma voz robótica e pausada.
Golem: aluno, essa, área, é, só, para, alunos, a, pé, a, entrada, para, cavalos, é, para, a, direita.
Não querendo quebrar as regras no meu primeiro dia, segui o caminho que o golem falou, e andando só um pouco já vi os grandes portões da entrada de cavaleiros da escola, tinham alguns alunos lá, alguns sapiens, algumas fadas e alguns gigantes jovens, hunnnnn, senti algo naqueles alunos, no bom sentido.
Tentando não pensar nisso, tentei me misturar na multidão e entrei um pequeno mar de cavalos onde todo mundo respeitava seu próprio espaço, bom, bom, mas o som dos cascos batendo na ponte, as conversas paralelas, e os relinchos dos cavalos fizeram eu ligar meu feitiço do som novamente.
E apesar de tudo, me senti seguro para fechar meus olhos alguns segundos, quando abri eles novamente vi meus colegas, animado por pensar as aventuras que eu teria com eles, até olhar pra cima e ver os grandes portões de ferro da escola, abertos para todos, mas assim que passei por eles, senti o fio inconfundível de uma barreira invisível, que eu consegui passar por ter a marca da escola.
Olhando pra trás e ao meu redor, vi grandes muralhas feitas de tijolos grossos, fortalecidos com magia e um portão de ferro com a grossura de duas cinturas minhas, junto de um feitiço que devolvia qualquer dano a quem tentasse entrar a força. Eu não sabia se a escola tinha tanto cuidado com seus alunos ou se tinha algo dentro dela que eles queriam que ninguém pegasse, mas eu sentia que aquilo era muita proteção apenas para uma escola.
Enfim, continuei andando, um pouco ansioso por não ter meu único amigo ali comigo, até eu ver bem na entrada a estátua de alguém muito especial. Estátuas desse cara estavam espalhadas por todo o reino apenas como uma fração da homenagem que ele merece, já tendo muitos alunos prestando suas homenagens a ele, e conseguindo meu cantinho, pus minha mão no peito e agradeci a ele por tudo que me fez.
Alaric, não o primeiro, definitivamente não o último, mas talvez o mais importante amaldiçoado que já existiu, rejeitado assim que sua maldição de risada de fogo se manifestou, ele se afastou de tudo, fazendo o possível para salvar o máximo de amaldiçoados que conseguia em uma época em que eles eram caçados igual monstros ou pragas, até ele conhecer o sábio Kael e se tornar seu discípulo mais fiel.
O nível de contribuição que Alaric fez para a causa dos amaldiçoados foram postas em 10 livros, e a contribuição de seus discípulos levou a esse mundo incrível, onde os gigantes podiam confiar em nós, as vezes eu sentia que jamais poderia agradecer o bastante a tudo que esse homem fez, a tudo que meu “irmão mais velho” como ele era referido em muitos livros, fez.
Antonio: obrigado.
Algumas lágrimas caíram, mas as limpei bem a tempo antes de continuar meu caminho, não fazia ideia de como seria a entrada de admissão mas apenas continuei me guiando pela marca nas costas da minha mão esquerda, primeiro ela me guiou a um estábulo para deixar o Zorro preso, e com um carinho simples, me despedi de Zorro por enquanto.
Depois daquilo, o puxão da marca me levou a uma das salas de aula, lá dentro, pelo que parecia, eu era um dos primeiros a chegar, havia 7 alunos, nenhum deles parecia pronto pra falar comigo, mas tava tudo bem, eu não tinha ido lá pra fazer amigos, e como a aula não tinha começado, apenas fui pra cadeira mais distante de todo mundo, e só li, li, e li mais, até a aula começar.
Era tão estranho que…a aula não era problema para mim, com o passar dos dias, na verdade, alguns alunos começaram a ir até mim, pedindo dicas e as vezes quando não tinha nada o que fazer e não podia ir pra casa, eu andava nos corredores, mapeando toda a escola e encontrando os melhores lugares para me esconder caso tivesse um “episódio de raiva”, algo que não acontecia há muito tempo mas era sempre bom estar preparado, pois os meus colegas em geral, eram bem mais tranquilos que de todos os lugares que já fui, e apesar de não ter ninguém do nível do Davi ainda, eu tinha amigos lá.
Mas no meio de tudo aquilo, uma aluna em particular pegou minha atenção, seja enquanto lia, fosse enquanto estudava, seja enquanto explicava a matéria pros outros. Sempre que ela passava perto de mim eu sentia uma estranha curiosidade nela, a maioria das alunas usava roupas mais soltas, mas ela tinha um uniforme perfeito, quase como uma camisa de força, desconfortável demais até pra alguém não amaldiçoado aguentar.
Seu cabelo vermelho e ondulado igual fogo era todo preso por um estranho penteado, seu corpo era magro demais, até para um mago e sua pele branca junto de seus lábios cheios só não chamavam mais atenção que seus olhos pequenos e desbotados quase como um zumbi.
Por muitas vezes, eu apenas olhei ela e virava o olhar de novo quando ela percebia que eu estava olhando, eu não era covarde, mas não era hora de eu falar com ela, a matéria não é difícil, mas eu não podia me descuidar muito, eu cuidava do meu grupo e os outros cuidavam dos deles, quando pensei que as coisas estavam melhorando depois do primeiro teste do semestre, eu descobri que muitos não gostavam de mim na pior maneira possível.
Em um dia qualquer, eu tava na escola, tranquilo, cuidando da minha vida, quando um luva caiu embaixo de mim, não, não era uma luva, era uma pele trocada de uma fada, olhando pra cima, eu vi uma fada de 4 braços, 8 olhos, 4 pernas e um exoesqueleto digno de um inseto, eu não lembrava dele, mas estava preparado pra minha primeira batalha com uma fada, mesmo sendo um duelo.
Fada: eu te desafio pra um duelo
Antonio: desafio aceito.
E depois da aula, eu e a fada fomos para a arena, nenhum de nós carregava um cajado, para magos iniciantes como nós, uma simples varinha era tudo que conseguimos, eu só tinha uma enquanto a fada tinha duas, defesa e ataque, é claro.
Agora estávamos na grande arena de duelos da escola, que tinha até um palco para os alunos verem, mas eu estava tranquilo, pois perto dali, os professores observavam tudo bem tranquilamente.
Nessa hora, eu e a Fada nos colocamos de costas um pro outro, com nossas varinhas apontadas pra cima, nós demos 10 passos pra frente, contando ao mesmo tempo, e quanto o número 10 foi dito, a fada se virou o mais rápido possível, mas atirando por baixo de meu suvaco sem me virar, atingiu de raspão a fada enquanto ela me errou por vários metros.
Me virei para frente e continuei disparando bolas de água, com as bolas de pedra de meu inimigo indo em minha direção, mas depois do ataque inicial, nós dois não conseguimos acertar um ao outro, bom, pelo menos até usarmos as técnicas de aula em prática.
Com uma dansa possível apenas por suas pernas e braços extras, a Fada conseguiu criar um míssil de pura pedra, enquanto eu recitei um canto ancestral sobre “o caminho da justiça” que aguentou o míssil da fada e refletiu o dano bem no peito dela, mas ela estava longe de se machucar de verdade com seu próprio golpe.
Com uma segunda dansa, a Fada criou um rolo compressor cheio de espinhos na minha frente e usou a gravidade aumentava para eu não conseguir fugir, e agora, um cântico sobre o “a resistência da mente” me permitiu criar uma rampa que mandou voando o rolo de meu inimigo.
Como retaliação, criei um canhão de pedra rudimentar e disparei nele várias vezes, a Fada resistiu, ainda disparando enquanto mantinha sua defesa fechada com seus dois outros braços, e no momento sublime daquilo, ele conectou meus músculos com meu canhão, e num disparo destinado a destruir o canhão, meu braço dominante foi rasgado a ponto do branco de meus ossos ser exposto, mas eu aguentei mesmo com um rasgo profundo como esse.
Os alunos sentiram minha dor, mas eu me concentrei o bastante para terminar o último cântico sobre “foco em meio a dor” e conseguir disparar uma bala de canhão de pedra capaz de quebrar a defesa da fada.
Vendo a Fada tonta, a atingir com um jato de água com tanta pressão que ela perdeu os braços, e mesmo numa situação assim, a fada ainda fez estalagmites de pedir para me espetar, mas eu apenas desviei dos espinhos indo para trás.
Então nós paramos, recuperando o fôlego e regenerando os ferimentos menores, me perguntei se meu colega ia desistir ou não, pois estava usando qualquer distração para eu não me focar no meu braço rasgado, então, a fada largou a única varinha que ainda tinha em sua mão e falou.
Fada: ok, eu admito, você venceu
Antônio: foi um ótimo duelo.
Eu ajudei o aluno Fada levantar e como podíamos andar, fomos juntos a enfermaria nos apoiando um ao outro.
Fada: eu senti que você era forte, mas não achei que era tanto assim
Antonio: pois é, mas pras coisas que ainda vou fazer, ainda não é o bastante
Fada: ohhh, você se segurou também?
Antonio: isso também, mas é que…eu sinto que eu não to pronto pra imundez do mundo, sinto que ainda estou na posição em que eu luto tranquilo e sem me preocupar por que tem regras pra me proteger, eu, não faço ideia se eu poderia matar alguém se realmente precisasse
Fada: vai por mim colega, esse tipo de coisa você aprende com o tempo, não precisa apressar as coisas, depois do que você fez hoje, duvido que você vai ser deixado em paz
Antonio: escuta senhooooooooor…
Fada: Saytus
Antonio: e você é uma garota ou garoto?
Saytus: garota, sou uma garota.
Então eu olhei bem pra Saytus, de cima pra baixo, não encontrando nada que entregasse que ela era uma garota, e isso era muito legal e assustador ao mesmo tempo, hunnnnnn.
Antonio: anatomia de fadas ser complicada, claro, por que não
Saytus: pode ficar tranquilo que você não é meu tipo
Antonio: vou levar isso como um elogio.
Infelizmente a senhora Saytus estava certa, desde aquele dia, eu fui desafiada a tantos duelos que comecei a recusar vários e me esconder na biblioteca nos horarios vagos, tirando um tempo especial para eu pesquisar sobre os lugares que eu queria visitar.
Por exemplo, o geiser inverso, um gêiser do tamanho de um pequeno vulcão que ficava bem acima de um imenso mar de cabeça pra baixo fervente, e ao invés de expelir a água, o geiser sugava tudo que conseguia. Outro era o ninho das borboletas, que era o lugar, onde lagartas arco íris lindas iam para fazer suas metamorfoses e criavam verdadeiros arco íris onde passavam. Outro era um grande monumento em forma de cubo que as fadas ancestrais usavam para guerras, mas é tão ultrapassado e bem conservado que se tornou um ponto turístico. Outro era a grande árvore do mundo, que diziam ter o registro de tudo que já aconteceu no mundo. Mas nada me chamava mais atenção que as grandes montanhas açucaradas que registravam conter quase 1000 gostos diferentes de doces.
Rindo, eu pensava como poderia chegar lá, não pensando muito depois disso pois eu só tinha que melhorar minha magia, o que não estava sendo um problema até agora.
A Saytus, apesar de ser bem intensa nas batalhas, era uma garota honesta e confiável, eu respeitava isso, eu tambem fiz um amigo de lanches, um gigante que gostava de silêncio tanto quanto eu e comia afastado de todo mundo, nós nunca trocamos uma palavra, mas de certa forma, eu sentia que éramos amigos.
Mas a ruiva ainda tirava meu fôlego por muitas noites, noites em que eu devia estar refletindo sobre mim, começava a pensar bem mais sobre a ruiva, ela não era apenas bonita, mas…ela lembrava muito de mim mesmo, o jeito que ela mexia as mãos, as roupas super fechadas e desconfortáveis quase como uma camisa de força, e o rosto que parecia guardar muitos sentimentos mas deixava tudo transbordar pelos olhos, contando minhas observações no escuro sem ele responder, notava que eu precisava acabar com essa minha curiosidade, ou eu poderia desenvolver algo doentio, ahhhhh, ainda bem que eu aprendi a não brigar comigo mesmo.
No dia seguinte, chamei a ruiva para um canto, e ela parecia bem inclinada a falar comigo, não era uma confissão, eu só queria conversar, então só levei ela para uma sala vazia, mas antes de eu conseguir falar qualquer coisa, ela levantou a mão em respeito e pediu pra eu esperar.
ruiva: espera, deixa eu falar primeiro
Antônio: é claro.
Então vi, ela parecia estar bem nervosa, com todos os sentimentos que ela reprimiu por tanto tempo saindo todos de uma vez, tentei não ficar empolgado com isso, mas era quase inevitável aquela altura, mas quando ela falou, me agradeci por não me empolgar demais.
ruiva: voce atrapalha meus estudos, você pode parar de me olhar e falar comigo?
Antonio: por que eu te atrapalho?
ruiva: eu não sei, todo mundo que eu conheci parece esconder alguma coisa, mas você parece honesto até demais
Antonio: esse sou eu, mas você não respondeu minha pergunta
ruiva: essa honestidade sua…me deixa vulneravel
Antonio: por que?
ruiva: eu…aprendi a guardar o que eu sinto muito nova, pra ser uma “pessoa de valor”, e por 15 anos eu consegui, mas você parece diferente, tudo que eu aprendi sobre me segurar e aguentar parece…sumir quando eu olho pra você
Antonio: nossa, obrigado, eu acho
ruiva: por isso eu quero que você pare de olhar pra mim, você me distrai muito e eu preciso me focar agora
Antonio: ta bom, pode pelo menos me dizer seu nome?
ruiva: voce primeiro
Antonio: eu sou Antonio Oliveira
ruiva: bom, eu sou Dandara Galdio
Antonio: Dandara? que nome legal
Dandara: me prometa que você não vai mais olhar pra mim, por favor
Antonio: ta bom, eu prometo.
Eu não pensei muito naquela conversa, meus pais diziam constantemente que eu pensava demais, mas ali, tudo que saiu da minha boca era instantâneo, aquilo nunca havia acontecido com ninguém, o que me deixou ainda mais interessado na Dandara, mas cumpri minha promessa e comecei a evitá-la, e graças a meu conhecimento da escola, consegui até sair do campo de visão dela, e a ruiva apenas voltou a se preparar para as aulas, e eu fiz o mesmo, às vezes eu pensava em Dandara, muito curioso pra saber o que significava ser uma “pessoa de valor” como ela falou, até que eu vi ela participando de um duelo em duplas com ela e uma giganta contra dois sapiens.
Eu sequer lembrava o contexto daquela batalha começar, mas quando ela começou, a giganta que deveria ajudar Dandara deu alguns passos para trás, e enquanto a maga da esquerda preparava grandes quantidades de veneno, a maga da direita criava um frio tão intenso que o gelo que criou gigantescas estacas de gelo envenenado, e num único disparo, milhares de estacas de gelo se ergueram em instantes.
Dandara sequer saiu do lugar, ela levantou os braços algumas vezes, e performou simples cânticos para criar uma bola de fogo com a aparência de um gigantesco leão, a única bola de fogo passou pelos cacos de gelo envenenado, os evaporando instantaneamente e queimando as magas logo em seguida de forma tão rápida que apenas os professores e alguns alunos entenderam o que aconteceu.
Dandara: patético
Aluno1: patético? nós somos do primeiro ano, você que não passa de uma aberração!
Dandara: desculpas de perdedor não entram em meus ouvidos, se vocês não querem manchar a reputação da escola, se dediquem mais em aprender.
E com seu primeiro duelo Dandara havia se tornado a maior inimiga de 80% da turma, os outros 20% como eu, pensavam que no fim ela tinha um ponto, sem contar a reputação, ser derrotado num golpe já era sinal de que você precisava melhorar, de forma fácil ou na marra.
No passar dos dias, vi Dandara duelando e vencendo todo mundo que ousava enfrentá-la, com o maior recorde sendo o cara que aguentou 30 ataques mágicos dela, ganhando o segundo lugar de força na nossa turma, mas o que mais me impressionava era a forma em que ela lutava, era uma forma perfeitamente fiel aos livros, não havia vontade ou sentimentos nenhum nos feitiços, era como se um cadáver sem alma ou cérebro estivesse lutando, apenas seguindo ordens básicas sem nenhum pingo de personalidade ou do estranho “calor” que senti quando conversei com ela. Com o passar dos dias, os alunos também notaram isso e lhe deram o apelido de “golem de carne” que maldade, mas não tinha nada que eu pudesse fazer.

