Subindo as escadas até as nuvens, pensei que essa transição era bem estranha, o calor do reino pareceu se dissipar enquanto cheguei no frio do grande território, olhando pra trás, o grande reino que eu habitava parecia de brinquedo e as pessoas pareciam formiguinhas, nos meus pés, não existia nada além de uma escada quase transparente até um lugar cheio de nuvens abertas. Não era o paraíso, mas era algo bem parecido.
No meio do caminho encontrei muitos Singulares iguais a mim, todos com colares de girassóis, menos eu, carregando uma magia de som em meus ouvidos e um óculos escuros em meu rosto, estava bem mais calmo que o normal, e pra variar, estava tendo um debate interno comigo mesmo.
Eu só iria para uma palestra, não havia nada demais naquilo, não precisava de meu colar para aquilo.
E como sempre, o templo estava tão calmo que decidi não ligar minha magia de som, meus machucados ainda estavam bem frescos pela confusão, mas a simples calmaria e frio dentro daquele lugar fazia os ferimentos doerem bem menos.
Olhando ao redor, vi muitas palestras, com muitas multidões bem tranquilas conversando, e bem devagar, me aproximei de uma delas, e como sempre, um gigante bem bonito, com um corpo largo e mãos bem grandes, contava a muitas pessoas algo que ele próprio descobriu.
Gigante: muitos de vocês já devem ter dado nomes a suas piores partes, chamar elas de monstros, que eles se alimentam de sua raiva, ou eles são a pior parte de vocês, mas a verdade é que esses monstros no interior de cada um de vocês são suas "sombras" um lado de voces que fica atrás das "máscaras" que vocês usam em cada lugar que vão
Aluno1: mas todo mundo usa máscaras, até o senhor, então por que as sombras são tão complexas?
Gigante: eu estou me referindo a um tipo bem específico de máscara, a maioria das máscaras, você usa apenas quando está no ambiente, uma mascara de trabalho para o trabalho, uma máscara de treino para treino, uma máscara de baile para bailes, todas criam sombras, mas a maioria desaparece depois que a máscara é retirada, mas uma máscara que cria uma sombra é uma máscara que se é 8usada em todas as ocasiões, por medo e até nojo dessa parte sua ser descoberta, uma máscara usada até quando a pessoa está totalmente sozinha
Aluno2: mas a sombra não é uma parte ruim de nós?
Gigante: na maioria das vezes não, sim pode ter coisas ruins em sua sombra, assim como pode ter coisas ruins em sua máscara, máscaras não são um reflexo de coisas boas, são apenas o reflexo do aceitável, e as sombras não são o reflexo do que é ruim, apenas o reflexo do que não é aceitável
Aluno3: como as maldições?
Gigante: exato, como as Singularidades, muitas sombras possuem as Singularidades dentro delas por que elas são vistas como algo ruim...
O palestrante então parou de falar alguns segundos, permitindo que suas próprias palavras entrassem na mente de cada um ali, quando entrou na minha, meu peito doeu demais, fiquei triste vendo o próprio gigante olhar no chão com tristeza.
Gigante: ...mesmo depois de tanto tempo...(tosse) enfim, às sombras guardam seus segredos mais profundos, o sonho de ser um artista, pensamentos e falas reprimidas, raiva, desejo. Amor por um livro, ódio por outro livro, as formas das sombras são infinitas, mas o segredo de entender a si próprio é se aventurar dentro de sua sombra, aceitar as piores partes dela, aprender a lidar com elas, já que elas são parte de você, e aprender a deixar as melhores partes da sombra saírem, pois no fim, todos os desejos e amores que você escondeu em sua sombra ainda estão ali, e por você não saber deles, eles podem te controlar mesmo que você não saiba.
Aluno3: mas e se dentro da sombra a pessoa for racista?
Gigante: como falei, você deve aprender a lidar com a suas partes ruins, para o racismo, você precisa aprender a lidar com o ódio que você sente pelas pessoas diferentes de você, se perguntar de onde vem o ódio, e se perguntar de onde essa parte ruim sua veio, e apenas depois de tudo isso você poderá começar a entender por que você é assim, e isso apenas falando de um pedaço minúsculo da sombra
Aluno2: minúsculo? como assim?
Gigante: jovem, quantos anos você tem?
Aluno2: annnnnnn, 50 anos
Gigante: bom, eu tenho 240 anos e sinto que não explorei totalmente minha própria sombra, é apenas quando você explora sua sombra você entende o quanto de si mesmo você escondeu por tanto tempo.
Ouvindo tudo do meu lado da plateia, eu não falei nada, só pensei em cada palavra dita pelo gigante, olhei em volta e fui em mais uma palestra, depois participei de mais algumas palestras antes de voltar pra casa.
Caminhar naquele templo gigante sempre me deixava impressionado, o lugar era tão simples que era quase impossível acreditar que outra espécie viveu ali, era um simples de "apenas o essencial" não tinha nada extravagante ali, nada de joias ou pinturas, só coisas para ajudá-los em sua iluminação.
Então chegando no começo da escada, respirei fundo e comecei a descer bem devagar, descendo as escadas, me arrependi na hora de ter voltado ao calor absurdo do reino, o barulho gigante da cidade era maior do que um simples barulho, pra mim, o barulho tinha cores, e todas elas machucavam a ponto de meus ouvidos começam a doer, mas nada que um feitiço de orquestra em meus ouvidos não desse um jeito.
Conferindo se meus óculos estavam ainda no lugar, desci mais, entrando num lugar com tanto barulho que nem o feitiço de som conseguia ajudar direito, e estando no meio de milhares de pessoas, vi uma grande cidade, com muitos cavalos por todo lado, enquanto muitos magos usavam vassouras pelo ar.
Não era qualquer um que podia voar numa vassoura, além delas serem bem caras, elas tinham uma licença muito difícil de conseguir, mas eu não precisava disso, enquanto eu tivesse meu cavalinho Zorro, estaria tudo bem.
O Zorro era um cavalo pardo com uma crina preta linda, e com uma linha pequena em seu nariz, fiz carinho nele três vezes antes de montar ele
e cavalgar no meio das pessoas, e mesmo através do calor e do barulho, o vento em meus cabelos acalmou o estresse que o barulho causava. um estresse maior que os ferimentos por baixo das bandagens de minhas mãos e meu tronco, com alguns até em meu rosto.
A cavalgada durou um bom tempo, até eu chegar em minha casa, ela não era grande, mas também não era pequena, colocando o Zorro num estábulo, entrei dentro de casa, gritando que cheguei, e sendo recebido pela minha mãe.
Mãe: oi filho... nossa, você esqueceu o colar de novo
???: eu só fui numa palestra, não precisava do colar
Mãe: o colar não é algo que você usa em certos lugares, você tem que usá-lo o tempo todo
???: entendi.
Eu falei aquilo, mas ainda não havia acreditado na minha mãe, isso contava como mentir? Ás vezes eu me pergunto isso. Mas logo depois, vi o rosto feliz de minha mãe, me perguntando se a carta havia chegado.
???: então, eu consegui?
Mãe: (sorri) sim, você conseguiu.
Então, passando uma carta pra mim, estava escrito, meu nome "Antonio Carvalho" mostrava que meu teste para a grande torre de constructos de golens foi aprovado, eu fiquei tão feliz que abracei minha mãe e ri com ela bastante tempo antes de soltá-la.
Antonio: quando eu começo?
Mãe: daqui a alguns dias, você tem bastante tempo
Antonio: nossa, você não vai acreditar no que eu descobri
Mãe: filho, você pode falar depois, a mamãe tá ocupada
Antônio: ah, claro mãe.
Apesar de estar um pouco triste, entendi por que ela falou aquilo, desde que meu pai foi afastado da posição de patriarca, toda a papelada acabou ficando pra ela, enquanto eu, acabei indo mais fundo na casa, indo direto para meu pequeno santuário.
Eu ainda tinha bastante tempo antes da hora do almoço, então, passei pelos corredores da casa, olhando as peças chiques de segunda mão e quadros que eram ou de um membro da família, ou de uma lenda antiga, e antes de chegar à biblioteca parei em um dos quadros, o quadro de meu bisavô, talvez o artista tivesse capturado coisas demais sobre ele, mas de alguma forma, eu sentia como ele era igual a mim, mas se ele era, nunca descobriram, tocando no quadro que protegia a pintura, senti pena do vovô por talvez, ninguém ter notado aquilo nele antes.
Depois de bastante tempo, cheguei a biblioteca da família, uma biblioteca cheia mais com os livros que eu e meu pai conseguimos, pegando o mesmo livro que comecei a algumas semanas, comecei a lê-lo de forma tranquila, era uma história bem comum sobre um cavaleiro viajando entre reinos para conseguir uma flor para salvar sua mãe, e eu parei no momento em que ele atravessava um pantano cheio de sapos carnívoros, cara, como ele ia escapar dessa?
Fui absorvido pela história, até ficar satisfeito pra tentar começar meus estudos, mas antes deu começar, alguém entrou na biblioteca, e pelo ritmo dos passos, adivinhei quem era. Sorrindo, vi meu irmão mais velho, ele era bem maior que eu, tinha uma pele bem escura, e muitos ângulos duros que ele ganhou sendo um cavaleiro exemplar, junto de olheiras que o faziam parecer esgotado.
Antonio: oi Pedro
Pedro: oi irmão.
E com aquelas simples palavras, Pedro se sentou numa cadeira e ficou ali, parado, apenas descansando a cabeça na mesinha que eu usava pra por os livros, vendo o suor ainda escorrendo da testa, vi que meu irmão acabou de voltar de sua patrulha, mas mesmo assim, ele preferia ficar alguns minutinhos comigo e apenas relaxar, ele era o mais velho, mas ainda estiquei minha mão e fiz carinho na cabeça dele, depois de um tempo, meu irmão levantou e saiu da biblioteca, sorrindo pra mim, como se eu tivesse curado ele de alguma forma, e satisfeito depois do que li, eu até concordava com ele.
A hora do almoço foi logo depois, a essa altura, meu pai já devia ter voltado pra casa, e pensar que eu devia ver ele de novo, depois de tudo que aconteceu, de tudo que eu descobri...não parecia certo, eu estava com raiva, eu queria que ele sentisse uma fração da dor que eu senti em tentar me encaixar num mundo que eu nunca pertenci, só de lembrar de tudo que eu já passei e ninguém levou a sério, me fazia ferver de raiva, não dava nem pra citar uma coisa, minha infância inteira, em todas as situações tinham um momento de injustiça e raiva acumulada.
Antônio: não, não vou começar isso hoje, hoje era um dia para se comemorar, nada de brigas hoje.
E com esses tipos de sentimentos carregados, entrei na sala de jantar, havia apenas 4 cadeiras, antigamente, eu ficava sempre perto de meu pai, mas depois de tudo, tentei sentar o mais longe possível dele, no lado oposto de sua cadeira...droga, olhar pra ele ME IRRITAVA de forma estranha, pois apesar de tudo, ele ainda era meu pai, que eu amava e que me deu tudo que eu podia pedir, e não importa quanta raiva eu tivesse, o amor que eu tive por meu pai não podia sumir assim, mas eu não queria o perdoar, não, eu não podia perdoar ele por isso EU NÃO PODIA.
Pai: oi filho, me fala, como foi seu dia?
Demorei um pouco pra responder, fiquei um tempinho apenas olhando pra minha mãe, e eu vi melhor, o stress, a raiva acumulada. As "maldiçoes" que ela carregou por tanto tempo, tudo por causa dele, maldiçoes que a fizeram ficar tão...mal, tão ferida, tão, fraca...
Não, não, eu não podia fazer isso, não aquiz não agora...respirando fundo, e tentando não deixar minha raiva que começou a crescer muito dentro de mim me dominar, falei com a voz mais normal que eu consegui.
Antônio: foi normal
Pai: foi pra algum lugar?
Antonio: só vi as palestras, como sempre, e li bastante
Pai: você tá ficando cada vez mais pálido, devia sair mais de casa.
Sair de casa? Que piada, ele podia falar aquilo quando foi por causa dele que a minha mãe não tem mais energia pra sair pra lugar nenhum? Ele fala de mim, mas a esposa dele, que tá bem do lado dele tá tão pálida quanto eu...muito pior que eu...e ele não diz nada?
Antônio: eu me exercito quando dá e tento pegar sol, quando você me mostrar outro lugar que eu goste de visitar, então eu vou
Pai: você poderia ir ao baile da...
Antonio: pai, quantas vezes eu tenho que te dizer, eu ODEIO BARULHO
Ah, que maravilha, eu perdi, eu perdi a calma totalmente, mas tentei melhorar.
Pai: agora você odeia barulho? você ficava de boa antes
Mas o meu pai não ajudava a si mesmo, e a minha raiva saiu num grande grito.
Antonio: É, EU FICAVA, POR QUE EU FINGIA NÃO LIGAR.
Ah, pai, por favor, para de falar, para de falar pra eu ficar tranquilo.
Pai: olha como fala comigo jovenzinho.
Bom, muito bom...respirei fundo, bem fundo, não olhei pra minha mãe, olhei pro meu prato e tentei ficar o máximo que eu podia em qualquer coisa que não...envolvesse meu pai e a minha mãe...foi difícil, mas com o tempo, reuni força pra dizer.
Antônio: foi você que começou.
E o papo morreu ali...meu irmão e minha mãe tentaram tirar aquele ar de dor que nos dois emanamos, mas não dava pra desfazer aquilo agora...sim, isso acontecia agora, não importa o quão simples a conversa fosse, meu pai e eu não conseguimos mais conversar sem acabar em briga, então tenho evitado falar com ele pra economizar saliva, mas ele ainda tentava.
Apesar do desconforto, a comida estava muito boa, como sempre, e meu irmão e eu conseguimos uma boa conversa sobre os personagens do livro que li antes, tentando entender a metáfora da flor, da jornada, até o que a doença da mãe significava, um papo bem divertido mesmo.
No fim do jantar, dei uma última olhada nos meus estudos, tirei um tempinho pra falar com o Davi através de cartas e depois conversei com meu irmãozão um pouco mais, enquanto eu e meu irmãozão andávamos no mesmo corredor, ele falou.
Pedro: ainda não acredito que você consegue fazer tudo isso num dia só
Antônio: como não? desde que tudo continue igual, consigo manter o ritmo.
Era simples assim, entrando no quarto, dei boa noite pro meu irmão e fiquei ali, no escuro, deitado por um bom tempo na cama até ter certeza que agora, apenas eu e o escuro estávamos ali, quando eu era bem pequeno, eu tinha medo do escuro, mas agora, eu entendia que o escuro não era totalmente mau, assim como a luz não era totalmente boa.
Muitos diziam que "o escuro esconde muitas coisas" e é verdade, o escuro não esconde só monstros e criminosos, ele esconde e acolhe corpos cansados para eles descansarem para o próximo dia, ele protegia predadores que no fim, só estavam tentando sobreviver como todo mundo, ele escondia casais nos momentos íntimos. E pra mim, era apenas no mais profundo escuro, antes da hora de dormir, que eu me permitia soltar meus pensamentos em voz alta.
Antonio: o que eu sou? eu não sou como meu pai ou minha mãe, ninguém que teve a mesma idade que eu e parecido comigo, eu sou tão...diferente de todo mundo, não tenho ninguém que seja parecido comigo, até aqueles que carregam maldições idênticas a minha tem casos bem mais sérios que eu...não sou normal, e também não me sinto um amaldiçoado...comparar minha situação com pessoas como o Davi parece tão...errado, então...o que eu sou?
Ninguém me respondeu, mas a escuridão fez seu trabalho de absorver e guardar meus segredos enquanto o cansaço me dominava bem devagar, e num escuro onde ninguém podia me ver, tirei a blusa e a bermuda, deixando os ferimentos de meus braços e pernas do acidente da brigada de cavaleiros ficarem expostos.
Os ferimentos arderam depois de ficarem tanto tempo cobertos, mas depois do primeiro contato, se aliviaram da dor depois de serem expostos ao ar, sim, assim como meus ferimentos internos, eu não precisava mais esconder minha maldição, só precisava saber onde liberá-la.
Antes de dormir, comecei a duvidar sobre várias coisas, como "qual o sentido da vida?" e o que a vida significava pra mim? conseguindo resultados bem bacanas, que eu ia amar discutir com Davi quando o visse amanhã, mas no fim, o sono acabou ganhando de minha curiosidade e me apagou de vez.

