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No Meio da Névoa
12 - Decisões enevoadas
2554 palavras • 13782 caracteres • ⏱ 10 min 13 s

12 - Decisões enevoadas

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Parece que fechei os olhos só por alguns instantes, mas ouço uma voz longe como se eu tivesse perdido a consciência. Quando abro meus olhos, minha visão demora um pouco para focar em Níthy à minha frente, que está sério como sempre, porém é possível ver um resquício de preocupação no fundo de seus olhos quando ele me olha.

- Ei, o que aconteceu? O que está fazendo aqui fora?

Ele está agachado na minha frente, enquanto estou sentada e encostada na porta da frente, com os joelhos próximos ao meu corpo, assim como meus braços, que estão encolhidos bem juntos a mim devido ao frio.

- Níthy? - olho a névoa atrás dele, mas nenhum sinal daquele lobo enorme ou da mulher, Aruna. Era como se eles nunca estivessem ali. Volto a encará-lo. - A porta de repente se abriu e... eu pensei que fosse você. Quando saí, ela se fechou e não consegui abrir...

Olho para o chão enquanto deixo o resto da frase vaga no ar. Tem tanta coisa na minha cabeça, que começa a doer. Como explicar a ele tudo o que aconteceu? Como falar sobre Aruna? E que um lobo, que já havia falado comigo antes, me fez prometer lhe entregar a jóia de Níthy em troca da minha liberdade?

Sem mencionar o que aconteceu enquanto Aruna tentava invadir minha mente, tudo que ela viu na minha mente, e como eu também invadi a dela. Esse detalhe, de invadir a mente de Aruna, é o que mais está me intrigando, pois eu senti que isso não era coisa dela. Porém, como posso explicar isso? Veio de mim? Será que esse lugar estranho está me mudando de alguma forma terrível?

Em pouco tempo já estávamos dentro da cabana, e a porta estava trancada outra vez. A lareira continuava acesa, com o seu brilho e o seu calor me envolvendo. Mal percebi quando Níthy - por mais estranho que pareça - me ajudou a levantar e a entrar na cabana aquecida. Ele foi, de certa forma, paciente. Acho que essa é a palavra para usar no momento. "Gentil" ainda está muito longe de alcançar sua rusticidade.

Ele pega em meu braço, e me direciona para ficar de frente a lareira. Fecho meus olhos por uns instantes e absorvo o calor do fogo.

- Fique aqui - ele fala, e vai em direção ao seu quarto.

Eu o acompanho com o olhar, em seguida, abaixo-me e me sento no piso de madeira, encarando as chamas. Ainda estou pensando sobre o que aconteceu. Reflito um pouco nesse breve tempo em que fico sozinha. Acho que ter que decidir o que fazer me traz um sentimento maior de solidão. Eu sei que estou sozinha aqui, sei que não posso confiar totalmente em Níthy, não é? Eu nunca sei o que ele está pensando, e não sei se sua mudança repentina agora significa algo terrível mais tarde. Entretanto, eu não confio nenhum pouco naquele lobo, e menos ainda em Aruna, só queria saber porque ela se parece tanto comigo e de que forma estamos interligadas a essa floresta, ou melhor (talvez pior), a Níthy.

Níthy me tira dos meus pensamentos quando se aproxima com sua capa de pelos marrom e a coloca sobre meus ombros. Fico surpresa com sua atitude, eu o encaro enquanto ele ajeita a capa como um cobertor para que eu fique confortável. Eu me convenço de uma coisa agora: aquele lobo nunca iria me tirar daqui, e nunca iria se preocupar com minha segurança, mas ainda que eu não sobreviva com Níthy, eu prefiro me deixar levar pela ilusão de segurança que ele está me oferecendo. Vou deixar a Aruna para lá por enquanto e fazer aquilo que eu acho certo.

- Níthy - digo seu nome baixinho e espero ele me encarar de volta. - Tem uma coisa que quero te contar.

Ele parece estar prestando atenção em mim.

- Estou ouvindo.

- Depois que você saiu... a porta se abriu sozinha e eu fui até á varanda para ver o que tinha acontecido... - encaro o chão, enquanto a frase fica incompleta. - Apareceu uma criatura enorme... era uma espécie de lobo, com pelos escuros, eu nunca tinha visto algo assim antes. Eu acho que foi ele quem abriu a porta e a fechou me deixando do lado de fora da casa.

Resumi a história em apenas isso, mas sabia que ele poderia me fazer perguntas. Continuei olhando para baixo quando ouvi sua voz.

- Ele fez alguma coisa com você? - seu tom continuava sério.

- Não - digo.

- Ele disse alguma coisa?

Olho para ele, mas com receio de dizer o que o lobo quer, porém resolvo dizer de uma vez.

- Ele disse que quer algo que você... tomou dele.

- Eu sabia - ele disse, os dentes cerrados, parecia muito irritado. - Eu sei o que ele quer.

Eu levanto o olhar em sua direção. Então ele sabe que aquele lobo quer a sua joia? Mas e Aruna? O que ela quer? Terence! É a única resposta que consigo pensar, entretanto, o que Níthy tem haver com Terence? Será que Níthy está deixando Terence aprisionado em algum lugar? Logo algo vem à minha mente: o dia em que conheci Níthy, em que o vi pela primeira vez, eu estava presa em uma espécie de gaiola com o formato quadrado e havia uma mesa com algumas cabeças em cima dela. E se Níthy matou o pobre Terence e cortou sua cabeça para fazer sabe-se lá o que?

- O que você está pensando? - ele me interrompe de meus pensamentos e eu o encaro.

- Ah... nada - digo com cuidado.

Percebo que ele encara as chamas da lareira, eu estou quase o acompanhando quando de repente olho em direção à porta de seu quarto onde as iniciais A e T estão gravadas lá. A e T! Aruna e Terence? Será que são iniciais de seus nomes? Faz sentido agora, porém, o que não faz sentido é porque essas iniciais estão na cabana de Níthy? Por que os nomes de outras pessoas estão gravados aqui? Eu só tenho perguntas, nunca respostas.

- Então foi apenas isso que aquele lobo maldito veio fazer aqui? - ele diz, virando-se para mim, e eu o encaro de volta

- Eh... sim.

- Mais alguém esteve aqui?

Sua próxima pergunta me pegou totalmente desprevenida, eu não mencionei Aruna. A reação de Níthy quando falei do lobo me fez estremecer totalmente e ainda estou um pouco trêmula, entretanto, falar que Aruna esteve aqui com certeza pode deixar as coisas piores.

- Não... me lembro - minto, tentando manter as batidas de meu coração normais, já que ele pode perceber se estou mentindo só de ouvi-las.

- Ele ainda pode estar por perto, então eu vou vasculhar todo lugar da floresta para procurar por ele. Preciso me livrar dele o mais rápido possível, antes que ele venha incomodar de novo - ele diz, como se estivesse me avisando, de novo. Olho para ele um pouco surpresa e preocupada, pois ele saiu há pouco tempo e aquilo aconteceu, ele vai de novo agora, quando está anoitecendo? - Irei amanhã.

Ele parece perceber o que me aflige no momento. Acontece que agora me sinto um pouco segura com ele, e ficar sozinha aqui é algo que me dá mais medo do que quando Níthy está por perto.

- Níthy, o que pretende fazer comigo agora? - pergunto, mantendo a voz calma.

- Não precisa mais perguntar isso. Não vou mantê-la presa dentro de um quarto, você pode andar pela cabana e ficar perto do fogo, mas se sair pela floresta pode se perder por causa da névoa e não vai conseguir sair.

- Mas você consegue, não é? - pergunto, mesmo que já saiba a resposta.

- Estou bem mais familiarizado com a névoa do que você - ele diz, olhando para o fogo.

- Se eu me perdesse na floresta, você me encontraria? - pergunto, mas isso surpreendeu até a mim, era apenas um pensamento que acabei deixando escapar.

- Encontraria - É a sua única resposta.

Eu pensei que ele iria dizer mais alguma coisa, talvez seja melhor assim. Ultimamente, Níthy está me fazendo sentir coisas muito estranhas, que não sei explicar, mesmo assim, eu sinto a necessidade de insistir em manter uma conversa, em me aproximar, em descobrir mais sobre ele. Entretanto, ainda tem a confiança, eu não confio totalmente nele, confio?

Olho para ele enquanto está distraído encarando a lareira, pergunto-me no que ele está pensando agora, o que ele pretende fazer com o lobo quando o encontrar? Mesmo que o lobo seja uma suposta porta de saída desse lugar, não o acho mais confiável que Níthy. Sei que vou conseguir sair daqui de outra maneira, só preciso descobrir como, se não morrer antes. Quanto a Aruna, o que vou fazer com ela?

- Níthy - ele apenas move os olhos em minha direção sem virar o rosto. Eu suspiro para afastar o nervosismo. - Agora você sabe que eu não sou Aruna, não é? Que de alguma forma sou parecida com ela, mas não sou ela, certo? Então houve um engano e... você não precisa de mim aqui.

Eu desvio o olhar depois de ter dito isso, talvez eu não deveria ter dito, mas a ansiedade tomou conta de mim e penso que se eu não for embora logo, mais coisas estranhas e perigosas podem acontecer comigo. Nesse momento, meu estômago faz um barulho que quebra o silêncio que ficou entre nós, trazendo-me um alerta de que preciso comer, isso não pode ficar mais constrangedor. Níthy não disse nada, mas ele foi até a mesa e pegou um pouco de comida e trouxe até mim.

- Obrigada - digo, sentindo o rosto esquentar um pouco.

Ele continua calado, apenas me observando, eu espero um pouco por alguma resposta, mas nada veio, é como se ele estivesse pensando em algo, ou pelo menos, eu esperava que ele pensasse em algo para me dizer.

- Coma - ele diz, apesar de seu tom, ele foi sutil, para dizer o mínimo. Mais uma vez me deixa sem respostas.

A comida continua boa. Quando a fome já não é mais um problema, eu volto a encarar as chamas da lareira, percebo que elas estão quase no fim, a cozinha de madeira está começando a ficar escura. E agora minha esperança de sair está exatamente como essa lareira quase sem fogo. Eu nunca pensei que o silêncio de alguém pudesse ser tão terrível, ainda mais quando esse silêncio esconde o que vai acontecer com você. Aquela dor de cabeça se intensifica ainda mais, percebo que é melhor ir deitar naquele colchão surrado outra vez.

Níthy se levanta para manter a lareira acesa com alguns pedaços de madeira que estavam ali, eu também me levanto e quando ele se vira para mim, o encaro de volta.

- Será que eu posso voltar para o colchão? - pergunto, mas meu olhar logo é direcionado para o chão enquanto espero sua resposta.

- Por que você não consegue me encarar por mais tempo? - ele diz, dando um passo em minha direção. - Eu sinto que o seu medo está diminuindo - outro passo. - Eu sou tão feio assim? - e outro passo, até que ele fica há poucos centímetros de mim.

Ergo o olhar até ele, sem saber o que dizer exatamente, olho para um lado e para outro, então, suspiro para tentar me acalmar um pouco e volto a encará-lo. Mesmo sentindo as bochechas esquentarem, olho em seus olhos, tento sustentar o olhar sem desviar e mantenho-me firme ali.

A resposta para a sua primeira pergunta talvez seja: que eu só estava sem coragem, de fato estava com medo, mas não dele, e sim do que poderia sentir, do que esse lugar estranho poderia me fazer sentir; quanto a segunda pergunta: ele era um pouco assustador quanto ao estilo, talvez até mesmo sua aparência seja intimidadora, mas olhando de perto, consigo ver melhor sua cicatriz que cobre um lado de seu rosto, seus olhos brilhando como vaga-lumes à noite. Noite! Exatamente, ele é como a noite, com vaga-lumes, e ainda assim misteriosa, mas com sua beleza única. Então, talvez ele não seja tão feio assim.

Enquanto continuava a encarar seus olhos, levanto minha mão devagar e a levo até o rosto dele, no lado da cicatriz. Como ele não protesta e nem me impede, consigo tocar seu rosto, a princípio apenas com as pontas dos dedos, deslizando por aquela marca evidente, que deixa me um pouco curiosa para saber como ele a conseguiu.

Então eu a toco com a palma da mão, seus olhos parecem dizer o que ele está sentindo, satisfação talvez, como se ele nunca tivesse nenhum contato carinhoso antes. Isso é verdade, não estou sendo falsa, eu também sinto algo em meu coração, mas como explicar? Nunca senti isso antes. Estava tão perdida em seu olhar, mas isso não durou muito.

Logo consigo sentir uma sensação, talvez não tão estranha. Foi a mesma que senti quando estava na varanda velha, com Aruna. O olhar de Níthy muda, é como se ele visse algo incomum em mim, como Aruna viu.

- Seus olhos... o que é isso? - ele diz, mas sua voz está tão distante, que mal ouço.

Continuo concentrada em seus olhos, então, acontece de novo. É como se eu fosse levada em uma viagem para dentro da mente de Níthy, mas eu não sei como pode está acontecendo. Entretanto, ter acesso a sua mente é, de certa forma, não tão agradável, não que eu esperasse isso, porém com tudo que consigo ver, descubro algo: Terence está tão presente na mente de Níthy, quanto estava na mente de Aruna, isso porque durante um tempo Terence existiu e depois ele sofreu uma transformação terrível, foi moldado para se tornar o Níthy. Eles são a mesma pessoa!

Devo ter passado algum tempo assim, vendo tudo que podia na mente de Níthy, enquanto ele estava em um estado de hipnose, mas antes que pudesse ter tempo de sair de sua mente por conta própria, sinto que ele mesmo me tirou de lá, pois me arremessa com muita força contra o balcão de madeira atrás de mim e caio no chão.

A parte do meu corpo que sofreu com o forte impacto está com uma dor insuportável como se meu corpo tivesse sido quebrado, não consigo ouvir nada, sinto algo sobre meu corpo, também sinto meu corpo ser virado para que eu fique de barriga para cima, então vejo Níthy.

Está tão diferente das vezes em que tentou me matar, eu nunca o vi tão desperado, quase em pânico, sem saber o que fazer comigo, sem saber como reagir. Eu acho que ele chama por mim, mas eu mal consigo ouvi-lo, fico quieta, com a visão escurecendo, ou talvez será a lareira que está o fogo fraco demias? É bem improvável. Antes de dormir, talvez para sempre, sinto o seu toque, como se ele me abraçasse, acho que essa foi a última coisa que irei lembrar dele.




Finalmente, depois de um século, consegui terminar esse capítulo!

Tive que mudar o final dele várias vezes, pois estava sem ideias, mas deu certo.

Boa leitura!!!

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