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No Meio da Névoa
11- Descobertas enevoadas
2973 palavras • 16387 caracteres • ⏱ 11 min 54 s

11- Descobertas enevoadas

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Mas o que acabou de acontecer? 

Eu e Níthy estamos em frente a lareira que ele acabou de acender, como havia dito. Ele estava tão diferente na varanda, mas eu também estava, talvez estivesse diferente porque ele estava, não sei, só sei que meu coração estava batendo tão rápido, porém teve um momento que eu não estava com tanto medo de está perto dele e me permiti ficar tranquila. 

Acontece que o que ele fez por mim no lago me deixou muito intrigada, e ainda não esqueci da sensação de segurança que ele me fez sentir depois de me salvar, eu não sei o que está acontecendo comigo, não sei porque estou assim.

Encaro o fogo da pequena lareira enquanto esfrego as mãos uma na outra para aquecê-las. Níthy está ao meu lado de novo, estamos sentados no chão agora, mas a uma distância confortável um do outro, em frente a lareira cujo fogo ilumina toda a cozinha pela primeira vez. 

Viro meu rosto devagar em sua direção, percebo que ele continua a olhar para o fogo, seus olhos brilhantes refletindo as chamas, como se seu pensamento estivesse distante nesse momento. Penso no quanto que os últimos acontecimentos tiveram reviravoltas inacreditáveis de repente, mas ainda assim, não sei o que se passa na cabeça de Níthy, e sinto que quanto mais eu pergunto a ele o que pretende fazer comigo, menos respostas eu tenho. 

Aliás, resposta nenhuma eu tenho.

Enquanto o observo, percebo novamente aquela pedra cinza que ele leva consigo, então lembro daquela voz estranha, eu não tive tempo de sequer pensar em pegá-la de Níthy, porque estava tentando sobreviver. 

Será que aquela voz estava me dizendo a verdade quando me prometeu me tirar daqui? O que será que tem nessa pedra para ser tão importante? Com minha concentração na pedra no pescoço de Níthy, não percebi que ele estava me observando pelo canto do olho. Desvio o olhar dele quando percebo seu olhar em mim, ele deve ter notado para onde eu prestava atenção.

– Está de olho nisso? – ele pergunta, com certeza sabendo que sim.

– Eu notei que você nunca tira, é importante? – pergunto, com cuidado.

Ele volta sua atenção para as chamas que dançam na lareira.

– Sim – é a única coisa que ele diz.

Eu apenas aceno voltando a olhar para a lareira também. Parece que a chave para eu sair daqui está em seu pescoço, e ela é um tanto difícil de conseguir, já que não posso simplesmente pedir a ele. 

Também não posso pegar, já que não é meu, isso está fora de cogitação. Eu não sei o que fazer, ou o que pensar no momento. Níthy está me deixando muito confusa, até mesmo sobre sair desse lugar cinza e enevoado, mas é claro que eu quero voltar para minha casa. Entretanto...

– Eu vou sair – ele diz, interrompendo meus pensamentos. – Não vou demorar, só tenho que resolver um problema.

Ele não olha para mim, mas sentiu a necessidade de explicar para mim por algum motivo.

– Se eu puder fazer algo para ajudar...

– Lá fora está muito frio, então fique aqui – ele se vira para mim, eu o encaro por um instante. – Lessie.

Os olhos brilhantes dele, antes assustadores, agora parecem muito chamativos, porém, com receio de que talvez esteja encarando ele demais, eu desvio o meu olhar dele.

– Está bem – olho para minhas mãos sobre meu colo.

Ele se levanta sem aviso prévio e vai em direção ao seu quarto, instantes depois Níthy volta com sua capa de pelos em suas mãos. Não pensei que ele iria sair agora, mas não o questiono por isso. Ele coloca sua capa sobre seus ombros e vai em direção a porta, antes de sair ele olha em minha direção e eu me levanto e me viro para encará-lo também.

– A porta vai ficar fechada enquanto eu estiver fora – ele avisa, com seu tom sério, mas pelo menos ele está calmo.

– Sim – respondo, aceitando sua decisão. Ao menos aqui não estará escuro e frio como antes, isso acaba me confortando.

Antes de fechar atrás de si, ele para e me olha uma última vez antes de sair, me encara por alguns instantes, como se quisesse gravar alguma coisa na sua mente. 

Eu? 

Minhas bochechas começam a arder um pouco e desvio o olhar de novo. Por que não consigo encará-lo por mais tempo? Assim ele vai embora e eu suspiro um pouco aliviada em ficar sozinha com meus pensamentos e entender exatamente o que está acontecendo aqui.

Eu acho que tem muita coisa acontecendo rápido demais e não estou conseguindo acompanhar. 

Sem perceber estou andando para lá e para cá na pequena cozinha refletindo sobre tudo, e pensando que Níthy não trocou de roupa antes de sair. Seus cabelos ainda estavam molhados, além das roupas. Só aquela capa não vai dar para aquecê-lo e está muito frio lá fora. Será que ele vai demorar para voltar? Por que ele agiu diferente comigo? Por que ele me salvou? Por que estava me encarando daquele jeito? Por que...? 

Chega, Alexsandra!

Vou em direção à mesa de madeira que ainda tinha um pouco de comida e água do "café da manhã", coloco minhas duas mãos sobre a mesa e fecho os olhos, suspirando profundamente para tentar acalmar meus pensamentos. 

É quando ouço um barulho atrás de mim, vindo da porta, o mesmo barulho quando Níthy a destranca. Viro-me em direção a porta o coração um pouco acelerado pois irei vê-lo outra vez e talvez não sei o que pensar agora, mas é estranho, pois ele não demorou nada, talvez tenha mudado de ideia.

Então a porta se abre devagar, mas ninguém aparece. Ela está totalmente aberta agora, mas só o que vejo é névoa lá fora.

– Níthy? – o chamo, porém não há resposta.

Tenho a sensação de que alguma coisa está errada, além de todo esse lugar, não sei o que pode ficar mais estranho. 

Ando devagar até a porta aberta, e quando estou na varanda, olho para todas as direções à procura de Níthy, mas nada dele ainda, então começo a pensar que talvez a porta não esteja em boas condições e não trancou direito. Como fico aliviada em pensar que talvez esse possa ser o problema, viro-me para entrar de volta, mas antes de passar pela porta, tenho uma grande surpresa, e algo diz que não é nada boa.

– Parece que você está levando uma vida bem confortável aqui, menina.

Aí meu Deus, essa voz... é ele! 

Aquela voz estranha a qual prometi lhe entregar o colar de Níthy em troca de minha liberdade desse lugar. Não pensei que ele fosse voltar mais, eu já tinha perdido as esperanças, porém agora não sei se posso confiar mais no que ele me disse.

Eu me viro e tento procurá-lo no meio da névoa que é de onde sua voz está vindo, ou talvez seja só coisa da minha cabeça, mas eu acho bem improvável.

– Onde você está? – pergunto, com a voz um pouco desesperada, talvez não para me encontrar com ele, mas porque sinto vontade de que isso realmente seja apenas coisa da minha cabeça.

– Estou aqui – ele diz.

Ouço sua voz vinda de um único lugar agora. No meio da névoa. À minha frente. 

Percebo dois pontos com um brilho violeta, e está se mexendo, como se fosse o dono da voz que acabou de falar comigo. Porém, sua silhueta conforme se aproxima da cabana, fica cada vez mais estranha: sua estatura é imensa, sua cabeça é muito grande, suas orelhas são pontudas acima da cabeça, e suas pernas são fortes e longas. 

A princípio não consigo distinguir o que ele é, só quando ele finalmente para há poucos metros da varanda em que estou, é que me deparo com uma espécie de lobo enorme, com pelos escuros e olhos com o brilho violeta muito assustador.

Meu coração dispara com o que vejo, estou apavorada com essa criatura, e Níthy não está aqui. O que eu faço? Dou um passo para trás na intenção de correr para dentro da cabana e fecha a porta o mais rápido que posso. Entretanto a porta fecha atrás de mim com um baque repentino. Tento abri-la, mas é vão. Meu coração acelera ainda mais.

– Não precisa ficar com medo, Alexsandra -- Essa voz é diferente, trata-se de uma voz feminina. 

Olho em direção ao grande lobo e atrás dele surge outra silhueta, agora de uma pessoa, está usando uma capa e capuz e não consigo distinguir seu rosto. Quando essa pessoa se aproxima mais, observo sua capa vermelha escura com alguns rasgos nela. 


É uma mulher, ela usa botas cano longo, calças claras, um cinto com algumas bolsas e tem até uma pequena adaga presa ali em uma bainha que a molda. Cachos loiros caem sobre seus ombros e vão até a cintura. O que tenho dessa distância é apenas uma visão parcial de seu queixo, pois o capuz não permite ver seu rosto.

– Quem... quem são vocês? O que querem? – digo, assustada olhando para eles.

– Não se preocupe, não vamos te machucar – a mulher com capuz vermelho diz, dando um passo em direção da varando, onde estou.

– Não se aproxime!

– Calma, Alexsandra, só queremos conversar.

A mulher começa a subir os degraus da varanda, enquanto eu me encosto na porta fechada.

– Como sabe meu nome?

– Um dia você vai saber – é o que ela diz depois de ficar à mais ou menos um metro de mim. – Mas posso te dizer meu nome.

– Depois disso vocês vão embora? – digo, duvidando muito que eles tenham vindo só para isso.

– Vai depender um pouco de como você pode nos ajudar, Alexsandra. Essa criatura genial – ela aponta para o grande lobo negro. – é o Lobo, pode chamá-lo assim. Nós estamos aqui porque o dono desse lugar tirou uma coisa muito valiosa para o Lobo. O dono desse lugar, que se denomina "Níthy", leva sempre com ele uma coisa que pertence ao Lobo.

– É a joia cinza, não é? – digo.

– Então ele colocou em uma joia? – o Lobo se pronuncia atrás da mulher. – Que garoto inconsequente.

– Mas o que há nessa jóia para a querer tanto? – pergunto, com a voz trêmula.

Eu sei que Níthy deve guardar alguma coisa muito importante nesse objeto que ele leva consigo e não acredito que o que há nela pertença, de fato, a esse lobo gigantesco.

– Está fazendo muitas perguntas, menina. Eu pensei que você queria sair daqui – o Lobo diz, com aquele mesmo tom de quando ele falou comigo pela primeira vez na escuridão. Porém, agora percebo que não posso confiar nele, sinto que foi um erro ter prometido lhe entregar a jóia em troca da minha liberdade. Que bom que eu não fiz nenhuma loucura. Ele continua. – Ou será que a névoa que está fazendo alguma coisa com você?

– A névoa não está fazendo nada comigo – digo, tentando deixar minha voz menos trêmula.

A mulher misteriosa com capuz vermelho escuro entra na minha frente.

– Talvez não a névoa, Alexsandra – ela diz, como se me acusasse de algo que eu não entendo.

De repente, seus olhos brilham intensamente em um verde esmeralda reluzente, algo que nunca vi antes. Talvez tenha visto. Níthy faz algo parecido com seus olhos, mas o brilho de seus olhos é diferente, como o brilho de vaga-lumes. Antes que eu tenha tempo de reagir, ela pega em meu pulso, que ainda está com a marca roxa daquela criatura do lago, e segura firmemente.


– O que está fazendo? – digo, tentando me soltar de seu aperto.

– Não se preocupe.

É claro que eu vou me preocupar. Os olhos dela estão brilhando assustadoramente e não consigo desviar o olhar, como se eu estivesse hipnotizada, então sinto uma pressão em minha cabeça, e de repente lembranças vêm à minha mente. 

Todas as lembranças com Níthy que tive desde que cheguei aqui: quando o vi pela primeira vez, e quando vi seu rosto, seus olhos brilhantes, quando ouvi sua voz, quando ele me salvou. Porém, não foi apenas isso, eu pude reviver os momentos de medo, terror de quando cheguei a esse lugar, cada sentimento, sensação, tristeza, desesperança de sobreviver, até que tudo isso foi diminuindo, como se meus sentimentos e temores tivesse sofrido uma evolução. 

O medo que eu tinha por Níthy antes era muito forte, que me dava arrepios quando ele estava perto, agora não sinto mais tanto medo assim, apesar de que não consigo encará-lo por muito tempo, mas talvez... isso pode ser resolvido. Agora estou com mais medo desses seres estranhos do que de Níthy, e sei que ele não deixaria eles se aproximarem de sua casa se estivesse aqui. Sinto que estaria segura com ele outra vez.

– Então, é isso o que aconteceu, Alexsandra. Está se acostumando a estar aqui. Está se acostumando com ele. Seus sentimentos por ele mudou. Não tem mais tanto medo e o que está surgindo... ora, você não pode ser tão ingênua – a voz da mulher encapuzada parece está invadindo a minha mente.

Ela está invadindo a minha mente, vendo minhas lembranças, parece que está me manipulando. Sinto vulnerabilidade, não consigo me mexer, não consigo parar de fazer com que ela invada minhas lembranças desse jeito. 

Sinto como se eu fosse inútil para mim mesma, e deixasse que todos pegassem algo de mim, isso me faz sentir raiva, muita raiva. 

Eu não quero que ninguém mais me toque e me machuque assim, nunca mais, penso. 

Desejo. 

Parece que esse pensamento me dar forças suficiente para sair da hipnose, mas alguma coisa me instiga, não a sair correndo como faria em qualquer ocasião assustadora como essa, mas a agarrar o pescoço a mulher, isso porque era a única parte que estava descoberta e livre, mas não sei porque pensei em fazer isso. 

É então, que uma coisa muito estranha acontece: à minha mente vêm lembranças, uma atrás da outra, mas não são minhas dessa vez. São dessa mulher à minha frente. E apesar de não saber como fiz isso, se é que sou eu mesma que está fazendo isso, o que mais me chama a atenção são lembranças que eu vi em um sonho.

Naquele sonho que parecia tão sem sentido, eu vi Aruna, não via o seu rosto com clareza, mas ainda assim era ela. 

E Terence. 

Parece que eles tinham um relacionamento que não era aceito pelo pai de Aruna e seus irmãos mais velhos. Em outras lembranças dessa mulher misteriosa, ela é chamada de Aruna. Será que ela pode ser a mesma Aruna que Níthy pensou que fosse eu? Mas onde ele entra nessa história? 

Em que momento na vida de Aruna ele aparece? A curiosidade acaba tomando conta de mim, e sinto como se estivesse folheando um livro à procura de respostas para o alvo da minha curiosidade. Entretanto sou levada a uma memória em que o pai de Aruna e seus irmãos prendem Terence e o torturam, enquanto Aruna está trancada em seu quarto ouvindo os gritos do rapaz. 

Eu sinto que essa memória é a mais dolorosa dessa mulher perto de mim. De Aruna. Sinto em cada parte do meu corpo a dor, a angústia, o sentimento de fraqueza que ela sentiu, de não poder fazer nada para ajudar a pessoa que ama.

De repente sou arrancada desse estado de transe que fiquei enquanto, por um motivo que não sei, entrei na mente dessa mulher misteriosa e vi suas lembranças, que não são muito boas. 

Porém, era como se eu não estivesse buscando, de fato, por lembranças felizes, era como se eu buscasse algo que a machucasse apenas para ela pudesse me soltar. Eu me encosto na porta fechada atrás de mim e me sinto sem forças, como se aquilo tivesse sugado minhas energias, então eu deslizo me sentando no chão. 

Enquanto isso, a mulher, que agora não é tão desconhecida assim, também parece que teve suas energias sugadas. Ela cai de joelhos sobre o piso de madeira velha da varanda, e ainda de cabeça baixa, ela afasta o capuz de sua cabeça, os olhos não estão mais brilhando como antes quando ela se vira para mim.

– Muito bem... Alexsandra... – ela diz, ofegante. Vejo que seus olhos estão abatidos.

– Você é... Aruna? – minha voz saiu quase sussurrada. Entretanto, a sua aparência é muito semelhante à minha. Agora entendo porque Níthy achou que eu era ela.


– É, eu sou Aruna – ela se levanta, como se tivesse recuperado suas forças rapidamente. – Fiquei surpresa em te ver invadindo as minhas lembranças bem no meio da minha invasão às suas lembranças. Os seus olhos tem um brilho intenso, tanto quanto os meus.

– Mas do que está falando? Você fez aquilo comigo – rebato àquela explicação absurda de Aruna. Porém, reflito um pouco sobre a parte em que eu pude ver as suas lembranças.

– Em breve você vai saber muito mais sobre si mesma. Até lá tente permanecer viva. E confie em mim, Alexsandra – ouço suas palavras. Apesar de que minha visão está começando a embaçar.

– A joia, menina, não se esqueça. Eu não estava mentido sobre tirar você daqui – agora é o Lobo que está falando, mas ouço sua voz na minha cabeça, como quando ele falou comigo na escuridão. Assim, eu fecho os olhos e não ouço mais nada. 





Olá!!! 

Mais um capítulo para vocês! 

Espero muito que gostem. Temos mais uma personagem inesperada!

As imagens foram pegas no Pinterest para ajudar no imaginário de vocês. 

Boa leitura!!


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