"Níthy... eu não sou Aruna... o que eu tenho que fazer para você acreditar em mim? Por favor, eu faço qualquer coisa para isso acabar".
Ouvi-la dizer isso me fez sentir algo que não sei explicar. Não é a primeira vez que ela implora para que eu a solte, mas eu negava com muito prazer em seu sofrimento. Entretanto, sua pergunta: "o que eu tenho que fazer...?", faz algo surgir na minha mente, algo que eu não admiti a ela, a simples resposta para essa pergunta: "você já fez", porque de fato ela já fez mais uma vez algo que comprove que ela não é Aruna, mas eu não posso lhe dizer isso ainda.
Ainda. Talvez nunca diga, mas quanto mais ela fica aqui neste lugar, mais sinto que sua tristeza aumenta e seu medo diminui, logo, ela não irá mais fazer de tudo para sobreviver, mas tentará práticas suicidas, eu sei exatamente como é isso. Os efeitos dessa névoa são fortes para uma pessoa comum, porém o Corvo acredita que ela seja especial de alguma, apesar de que eu não sentir nada vindo dela, nada anormal, como eu pelo menos. Entretanto, o fato de que sua aparência é tão semelhante a de Aruna me intriga demais, é por isso que eu ainda estou a mantendo aqui.
Eu não quero que ela... antes eu queria matá-la, porque me apeguei a sua aparência, para mim ela era a Aruna e eu queria me vingar, então fechei qualquer lado racional da minha mente e comecei a agir como um maldito lobo atrás de um coelho. Mas eu já sabia, desde o início eu sabia que não era a Aruna que havia pego e sim, Ale... Lessie, seu nome é absurdamente horrível para falar, nunca fui bom com algumas palavras e códigos, então "Lessie" é menos mal. Só queria saber porque raios eu estou pensando nisso.
Como se não conseguisse evitar, veio outra coisa em minha mente agora: ela falou meu nome, foi a primeira vez que a ouço dizer meu nome, ela estava tão fraca, eu não quero que ela morra, não ainda. Talvez. Fico observando a névoa enquanto estou sentado em um dos degraus da varanda da minha casa.
Ela, Lessie, está dentro do meu quarto, trocando de roupa, disse a ela que poderia usar umas roupas que eu havia guardado dentro de uma gaveta do móvel do quarto, claro que ficará um pouco grande, mas essa roupa era de quando eu era mais jovem e não tinha tanto... musculos.
Olho para minhas mãos, grandes, cheios de marcas de esforço para pegar madeira, cortar, um hábito que aprendi já que eu quis seguir sendo um lenhador como meu pai foi, mas faço isso apenas para passar o tempo, coisa que não passa muito normal aqui nessa floresta. Porém, eu guardo esse lugar, principalmente de pessoas que queiram se aventurar na Floresta da Névoa, como o último pobre coitado que entrou aqui sozinho e achou mesmo que poderia me enfrentar e sair ileso da minha floresta.
Quanta idiotice! Só veio perder a cabeça. Isso aconteceu um dia antes de eu trazer Lessie para cá. Eu ainda estava muito pensativo sobre essa questão de trazê-la para a floresta, mas com aquele idiota me provocando, só me fez perder a cabeça, aliás, ele perdeu a cabeça.
Deveria me agradecer, fiz com que sua morte fosse rápida, se chegasse nas mãos do maldito Shady, sua morte seria muito pior. Eu não gosto de lidar com humanos porque são inúteis para mim, pois não como sua carne e nem uso sua pele, diferente das grandes bestas típicas da floresta que tem como aproveitar tudo. Matei poucos humanos ao longo dos cinco anos que passei aqui, isso porque o Corvo nunca queria sujar suas mãos, eu o detestava cada vez mais por isso, sempre me usando para seus planos.
A única pessoa que eu queria matar por conta própria era Aruna. Acontece que pouco depois que eu... consegui uma segunda "chance" de viver, ou seja, como estou agora, eu descobri algo que não faz sentido, descobri uma lápide com o nome dela, Aruna, sua morte havia sido três dias antes de eu ir atrás dela, de chegar até ela. Segundo as informações das pessoas da cidade, foi suicídio, ela foi mesmo tão fraca assim?
Mas havia sido fraca quando me traiu, quando não lutou por nós. Será que se recentiu? Que idiota! Mas não faz sentido, acentece que eu não senti que ela estava de fato morta. Isso é uma das coisas que eu não contei ao Corvo, apesar de que ele não precisa fazer muitos esforços para saber.
Mesmo que aquilo pudesse ser verdade, eu não sentia que ela pudesse estar enterrada ali, mas eu não queria ver, então deixei. Poucos dias depois, eu encontrei Lessie e, quando vi sua semelhança com Aruna, aquela raiva, mágoa, voltou a tona, e eu só pensava em matá-la com minhas próprias mãos, eu quase fiz isso quando a deixei presa dentro daquela gaiola improvisada que estava no porão da cabana, mas o Corvo me impediu, ele invadiu minha mente só para que eu o fosse receber na frente da minha casa.
Agora, estou aqui com essa garota tão igual e ao mesmo tempo tão diferente daquela que eu conheci. Ao perceber como ela se debatia na água entendi que ela não sabia nadar, isso me fez lembrar de Aruna mais uma vez, ela sabia nadar muito bem, na verdade foi ela quem me ensinou a nadar.
Não. Não quero pensar nela e nem comparar Lessie à Aruna. Ouço um barulho atrás de mim, viro o rosto para me deparar com Lessie já vestida com as roupas que eu indiquei, ela está segurando suas roupas molhadas e parece um tanto um desconfortável ao me encarar, mas isso não é surpresa para mim.
– Eu não queria deixar essas roupas molhadas no seu quarto...
Ela olha para o chão e faz uma leve careta como se não tivesse a intenção de falar isso, mas acabou saindo.
– Ali – digo, apontando para algumas cordas finas amarradas de uma à outra estaca que sustenta a velha varanda.
Ela olha para onde apontei e vai estender suas roupas. Eu a observo de soslaio e enquanto ela está concentrada no que faz, eu aproveito para observar como a roupa ficou nela também: a camiseta bege de mangas compridas ficou um pouco folgada, a calça verde escura ficou em um tamanho bom, e ela está descalça, suas botas encharcadas estão em um canto da varanda. Seus cabelos loiros ainda estão úmidos, caídos como cascatas em suas costas.
Não. Observá-la assim me faz parecer um idiota, desvio o olhar para a névoa em minha frente, ou seja, para o nada.
– Eh... eu queria agradecer por... me salvar.
Eu a encaro, e vejo que reuniu muita coragem para me agradecer, mas vejo o receio em sua expressão em como irei reagir. Acontece que não sei o que lhe dizer, ou como dizer, posso parecer sério por fora, mas por dentro, quero trabalhar em uma resposta que não seja dura demais e que não a faça... se afastar, mas por que? Ela não consegue sustentar o meu olhar por muito tempo e olha para o chão enquanto une suas mãos, nervosa. Então vejo a marca que a aquela maldita medusa deixou em seu pulso ao ponto de deixá-lo roxo.
– Sua mão não está doendo? – é o que consigo dizer. Ela olha para o próprio pulso e toca a pele roxa delicadamente.
– Aquela criatura não é venenosa, é? – ela volta a me encarar de novo.
– Sim – olho para a névoa novamente e continuo. – Sua mão pode cair em poucos dias.
Ouço ela prender a respiração assustada com o que eu disse. Sinto vontade de rir com sua reação, acho que sua ingenuidade é algo que me deixa mais curioso sobre ela, resolvo dizer a verdade.
– Olha, não falei sério. Aquela medusa só tem o aperto firme, depois de alguns dias sua pele vai voltar ao normal – esclareço a ela, e a vejo suavizar sua expressão.
– Não acredito – ela olha para o pulso de novo. – Não precisava brincar comigo desse jeito.
Percebo sua irritação, isso quase me faz perder a postura séria e rir bastante, mas ainda não.
– Teve sorte que não foi no seu pescoço, eu sei exatamente como é.
Ela me encara por um tempo, mas não está olhando em meus olhos, percebo que está olhando para minha cicatriz, que pega boa parte do meu rosto e pescoço.
– Foi ela que fez isso no seu... rosto? – ela diz suavemente, talvez esperando que meu tom seja parecido.
– Não – digo, novamente me virando para a névoa. Não quero ter que lhe dizer o que aconteceu, principalmente agora que estou achando agradável conversar com ela, se é que isso é uma conversa.
– É 'Níthy', certo? Posso chamá-lo assim? – seu tom continua suave.
Eu ouço o seu coração bater tão rápido, com medo do que possa vir a seguir, mas percebo que ela tem mais coragem do que realmente aparenta. Eu não a encaro, mas sinto seu olhar sobre mim enquanto espera uma resposta, mas sei que se não houver uma ela não irá insistir, parece ser bastante compreensiva, eu gosto disso, porém não posso admitir, não posso admitir nada a ela, ainda que queira lá no fundo confiar nela, não posso. Tenho tanto receio em confiar nela, quanto ela tem medo de mim. Entretanto, ela está sendo tão corajosa em falar comigo, talvez eu possa pegar o exemplo.
– E você é Lessie, não é? – a encaro de novo, seu coração está cada vez mais acelerado.
– É... Alexsandra, na verdade, mas tudo bem em me chamar de Lessie – ela me encara por um breve momento antes de desviar o olhar.
– Tudo bem – é o que consigo dizer. – Sente-se aqui.
Aponto para um degrau da varanda próximo a mim, ela reluta um pouco antes de se aproximar. Por um tempo apenas olhamos para o nada à nossa frente, eu sentia o quanto ela estava tensa, mas eu também sentia alguma coisa, mas não sei o quê. Acho que tê-la tão perto de mim e não sentir o desejo de matá-la me deixa estranho, mas de certa forma tranquilo, não consigo deixar de observá-la mais uma vez sem que ela perceba que estou observando.
Seus cabelos loiros ainda úmidos estão jogados sobre seu ombro direito agora, eles vão até a cintura e são ondulados; suas bochechas estão rosadas deixando evidente o seu nervosismo em está perto de mim, me faz querer saber no que ela está pensando; e seus olhos tem uma tom esverdeado e não azulado como os de Aruna, eu não havia reparado nisso antes. Talvez esteja reparando demais, em muitas coisas.
– Você não está... com frio? – a voz dela interrompe meus pensamentos, deve ter percebido que eu não estou com as roupas molhadas.
– Não sinto muito frio – eu olho para seus pés descalços, ela desliza um sobre o outro, como se quisesse aquecê-los, mas sem sucesso duradouro. – Você está com frio.
– Só um pouco – ela une as mãos para tentar aquecê-las também.
– Tem uma lareira na cozinha, vou acender hoje – não sei porque toquei nesse assunto, eu não acendo a lareira há muito tempo, nunca encontrei motivo para acendê-la de volta. Até hoje.
Ela me lança um olhar de surpresa, eu a encaro por um breve momento, até ela desviar o olhar para as suas mãos.
– Obrigada – ela diz, com uma voz suave.
Eu ouço seu coração voltar a normalizar as batidas. Por quê? O que eu disse a comoveu tão facilmente? Eu não quero assustá-la fazendo perguntas sem sentido, apenas volto a observá-la. Mesmo que sua semelhança com Aruna seja clara, ainda assim, há detalhes diferentes que antes eu não conseguia ver. Por muito tempo Aruna foi uma névoa que envolveu o meu coração, meu corpo, minha alma com raiva, desejo descontrolado de matar e escuridão, como esse lugar. Entretanto, essa garota ao meu lado, em pouco tempo está me fazendo enxergar melhor através desta névoa densa e a tornando não tão densa sobre mim, iluminando essa escuridão, mas isso é o que eu sinto. E o que ela sente?
Não demoro muito ali fora e então entro na pequena cozinha da cabana para acender a lareira e Lessie vem logo atrás de mim.
Olá!!! Mais um capítulo dessa história para vocês. Como podem perceber, esse capítulo está sendo narrado pelo Níthy, para que possam ver os acontecementos pelos olhos dele outra vez. Espero que gostem!!

