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No Meio da Névoa
9- Sentimentos enevoados
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9- Sentimentos enevoados

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Estamos em seu quarto agora, e tenho que admitir que por mais que não tenha muitos móveis, é bem bagunçado por aqui. Em um canto, encostada na mesma parede da porta, está uma enorme cama, feita de troncos de árvores grudados uns nos outros, formando assim o suporte para colchão, que parece que está ali há anos.

Há duas velas iluminando o quarto, que não é muito grande e tem quase todo o seu espaço preenchido pela rústica cama. Estou parada próxima a porta do quarto, onde o dono já fechou, ele olha para mim, com seu semblante sério.

- Não vai dormir?

Sua pergunta soou mais como uma ordem, mas sem querer transtornos, vou em direção da enorme cama no canto e me sento nela para tirar as botas.

- O que está fazendo? - Níthy esbraveja, fazendo-me pular de susto, então me levanto e o encaro assustada e confusa. - Você vai dormir lá!

Ele aponta para um canto do lado oposto da cama dele, onde se encontra - o que até o momento eu não havia percebido -, um colchão tão surrado e sujo quanto aquele em que eu dormi no outro quarto. É claro que ele queria que eu adivinhasse onde iria dormir, não é?

Eu apenas concordo com a cabeça, ainda encarando o colchão assustadoramente feio. A vontade que tenho neste momento é de chorar, chorar muito, mas seguro essa vontade, porém não ouso olhar na direção dele e não abaixo a cabeça também, apesar de me sentir humilhada, apenas vou para o colchão.

Abaixo-me para bater no colchão e tirar o máximo de poeira possível, em seguida, tiro minhas botas e as deixo juntas à parede, só então me deito de costas para Níthy, que acredito que estava me observando o tempo todo até eu me deitar.

Logo percebi as velas sendo apagadas de repente, o quarto ficando em uma escuridão total. Começo a sentir frio, abraço meu corpo, então a vontade de chorar volta com mais intensidade e não consigo segurar, assim, cubro minha boca com uma das mãos e as lágrimas escorrem no meu rosto, enquanto tento silenciar os soluços.

Assim, choro por mais alguns instantes, até que consigo me controlar e os soluços cessam de vez. Após respirar fundo, e com o rosto ainda molhado pelas lágrimas, forço-me a dormir, e quando finalmente consigo, tenho um sonho, apesar do dia não muito agradável, o sonho não um pesadelo, mas muito confuso:

Estou deitada no que parece ser a grama do lado de fora. Tudo está coberto pela névoa, então algo cobre todo o meu corpo, como um cobertor. Incrivelmente consigo sentir a maciez e o calor desse cobertor, então ouço uma voz calma e masculina falar atrás de mim:

- Vai ficar tudo bem, não chore.

Não sei quem estava falando, tento virar meu rosto para ver quem é, mas não consigo me mexer, porém isso não me preocupa, pois me sinto segura e aquecida, então apenas fecho meus olhos e confio na voz que me acalmou.

Eu finalmente acordo, demoro um pouco para perceber onde estou, porém logo me lembro do que aconteceu ontem e onde estou agora. Percebo algo estranho sobre mim, um pouco pesado, mas é quente e reconfortante de certa forma.

Ainda deitada, viro-me para ficar de barriga para cima e pego o que parece ser um cobertor peludo que está sobre meu corpo, os pelos são macios e quentes, então me sento sobre o colchão em que estou deitada, percebendo que o quarto está iluminado com uma vela acessa em cima da pequena mesa próxima à porta do quarto.

Observo aquele misterioso cobertor com curiosidade, perguntando-me como ele foi parar ali. Olho para o lado, em direção à enorme cama, mas não vejo Níthy, o que parece bom para mim. Volto a encarar o cobertor peludo outra vez e me lembro do sonho, mas como pode haver tanta coincidência? Sonhar com algo e quando acordar ver que o sonho se tornou realidade? Penso que depois de tudo que aconteceu ontem, não pode ser ele, entretanto, quem mais seria? E por que?

Resolvo não ficar mais ali pensando nisso, então me levanto do colchão e pego aquele cobertor pesado, arrastando-o até a enorme cama. Finalmente, meus pensamentos ficam mais claros e lembro que isso não se trata de um cobertor peludo, e sim, a capa de pelos de urso que Níthy estava usando na primeira vez que o vi.

Essa capa tão pesada deixava seu corpo assustadoramente grande e tive pesadelos com ele dessa forma. Não sei porque ele me cobriu com sua capa enquanto eu dormia, mas tento não pensar mais nisso e, apesar de que não consigo distinguir se é dia ou noite de dentro de seu quarto, e considerando que Níthy não está aqui, deve ser de dia.

Vou até a porta e ao ver que ela não está trancada, resolvo sair dali com a vela que estava acesa em cima da mesinha do quarto. Pensei que encontraria a pequena cozinha escura, mas a porta da frente estava aberta, e a claridade do lado de fora iluminava - parcialmente, pois, tudo lá fora estava coberto pela névoa densa, e o dia estava nublado como sempre -, o cômodo.

Não vi nenhum vestígio daquele brutamontes ali, o que foi muito bom, percebi, porém, que havia comida em cima da mesa: pães, algumas frutinhas, e água, e como Níthy não estava, resolvi comer um pouco.

Enquanto comia o café da manhã, olhei para fora, para a névoa cinza, e me lembrei da minha vila, que já deve está próxima do verão, e esse será o meu décimo nono verão, ou seja, meu aniversário, porém não terá importância se eu ainda continuar aqui. Lembro do sol, deve está tão lindo, iluminando todas as árvores, a grama, a correnteza que corre por entre o vilarejo próximo a minha vila, isso me faz pensar em meu pai, meus amigos, como será que eles estão? Estão preocupados comigo? O meu pai com certeza está, ele ficou muito protetor após a morte misteriosa da mamãe, ele deve está sozinho agora. Sinto lágrimas nos meus olhos ao pensar nele, ao pensar que talvez nunca mais irei vê-lo.

Termino de comer e me levanto, indo até a porta. Paro por um instante, com receio de que irei ver Níthy e ter que encarar sua peculiar personalidade hoje, entretanto, fico aliviada quando saio e fico na varando quase caindo aos pedaços, e não o encontro. Onde será que ele está? É o que penso, inacreditavelmente. Balanço a cabeça de um lado para o outro para afastar esse pensamento, por que eu iria querer saber onde ele está?

Ele que está causando todo esse sofrimento para mim, é rude, insensível, um monstro. Sinto minhas bochechas queimarem de irritação ao pensar nele, é quando percebo que aquele pavor que eu senti dele diminuiu mais, porém não posso agir impulsivamente na frente dele e enfrentá-lo, para evitar o pior, pelo menos até quando puder.

Não me demoro muito ali na varanda, está frio, então abraço meu corpo e sem intenção de sair da varanda para explorar o que está além da névoa, resolvo voltar para dentro da casa e é quando algo me chama a atenção há alguns metros da cabana. Vejo alguma coisa, talvez o tronco de uma árvore, mas vou lentamente até o final de um dos lados da varanda para ver melhor o que é aquilo que atrai minha atenção.

Então percebo que se trata da silhueta de Níthy, que está parado, virado de costas para a cabana, como se ele estivesse observando alguma coisa além da névoa que está a sua frente. Os meus pés começam a formigar e sinto uma agonia, que mais parece uma ansiedade para ir até lá, ou então é simplesmente meu desejo de morte que está falando mais alto, já que não aguento mais ficar nesse lugar.

Meu coração está acelerado e sinto um frio na barriga, isso parece tão estranho, eu quero muito me esconder dele, mas o meu corpo está querendo ir até lá, para quê? Por que estou me sentindo assim? Começo a me lembrar de sua rudeza comigo ontem à noite, e do que me fez sentir, mas pareço uma completa idiota que está buscando mais do sofrimento. Suspiro com frustração devido a decisão que acabei de tomar: irei até ele apenas para perguntar o que fará comigo a partir de agora. Desço da varanda, indo devagar em sua direção, o coração acelerando mais a cada passo sobre a grama.

Quando finalmente me aproximo, é possível ver o que a névoa ao longe escondia: Níthy está de pé em cima de uma espécie de ponte de tábuas que só vai até uma parte de um lago que está completamente parado, suas águas cinzas como a névoa, e reflete perfeitamente o céu nublado, como um espelho.


Fico admirada com o que vejo, pois da varando não dava para ver nada disso, devido a névoa densa, logo volto a focar em Níthy, que continua de costas para mim e que ainda não notou minha presença. Só agora eu percebo que não disse seu nome, nunca o chamei pelo nome, por receio, medo, mas apesar do nervosismo, ainda sim estou aqui para falar com ele. Abro a minha boca, mas antes que seu nome seja pronunciado por mim, ouço sua voz ecoar.

- O que faz o seu coração acelerar tanto assim? - ele pergunta, seu tom continua como sempre, sério e arrepiante. Ele, porém, continua de costas.

- Eu... preciso lhe falar uma coisa - digo, sentindo a respiração acelerada. - Já que não pretende me matar, deixe-me ir embora daqui, por favor?

Abraço meu corpo novamente devido ao frio que fazia, enquanto espero ansiosamente a resposta, mas ele não se vira para mim, com isso, acabo me arrependendo de ter vindo falar com ele sobre algo que sinto ser inútil. Olho ao redor, vendo toda aquela névoa, ele sabe que tenho medo de me arriscar nela, por isso que deixou a porta aberta, então? Está zombando de mim?

- É melhor você voltar - ele diz apenas isso, sem me encarar, sem se virar.

Eu não digo mais nada, acho que meu fim é esse: viver para sempre nesse lugar sem luz. Suspiro, sentindo-me derrotada, triste, sem esperança. Antes de me virar para voltar para a cabana, percebi uma leve ondulação na superfície do lago, bem próximo a mim, olho para Níthy e parece que ele não percebeu essa mudança na água. A leve ondulação voltou de novo, chamando mais minha atenção para ela, então me aproximo da margem do lago cinza, suas águas me atraem de certa forma, o que é estranho, pois não sei nadar, nunca me aventurei em águas profundas de rios e lagos quando estava na vila.

Eu me abaixo próximo ao lago, suas águas cinzas refletem minha imagem como se fosse um espelho tão limpo que me tira o fôlego, e me atrai cada vez mais.

Níthy. Será que ele está vendo? É ele quem está fazendo isso comigo? Antes que eu possa pensar em algo mais, alguma coisa se enrola em meu pulso, mas eu não consigo perceber o que é, pois estou concentrada na água, então ouço uma voz abafada, como se meus ouvidos estivessem perdendo a audição.

- O que está fazendo? - essa voz parece... desesperada, como se não quisesse que eu estivesse ali. Acho que sei de qual direção vem, mas não consigo levantar minha cabeça para ver. - Não!

Seu protesto - seja lá de quem for -, é inútil para impedir o que acontece em seguida: sou rapidamente puxada para o fundo do lago por aquilo que havia se enrolado no meu pulso, e não tenho tempo para reagir, só então eu acordo do transe em que estava, mas já estou debaixo das águas cinzas do lago. Debato-me para tentar ir até a superfície, mas alguma coisa insiste em me manter presa, tento ver o que é, e o que vejo é horrível, pois se trata de um monstro enorme, parecido com uma água-viva (criatura com tentáculos e que podem até queimar quem as tocar), que vi nas ilustrações em um dos livros que li na vila. Entretanto, esse ser aqui é muito horrendo, muito assustador, e tem tentáculos tão longos que desaparecem na escuridão profunda do lago.


Eu tento me soltar dele, mas é em vão, essa criatura é muito forte e está me levando até o fundo, logo só haverá escuridão e me desespero para me soltar desse monstro. De repente, algo passa rapidamente por mim, cortando a água e perfurando a cabeça da grande água-viva monstruosa, ela então me solta e afunda sozinha na escuridão do lago. Estou tão assustada e quase completamente sem ar, tentando desesperadamente subir, mas não consigo, então Níthy aparece, e segura minha mão me levando com ele até a superfície do lago. Então ele veio me salvar, de novo. É a primeira vez que me sinto próxima a um sentimento de felicidade quando ele chega perto de mim, sei que eu preferiria qualquer coisa (até mesmo a morte) do que ter que ficar em um lugar como esse, escuro e coberto pela névoa, mas com certeza não é nesse lago que eu gostaria de morrer.

Sinto os braços dele ao redor de mim antes de atravessar água, e quando o ar da superfície finalmente me atinge, sinto-o tão rápido que me engasgo e começo a tossir, então o meu peito começa a subir e descer com a respiração desesperada, até normalizar mais. Em todo esse tempo, Níthy estava me segurando em seus braços, e ainda estava com os joelhos submersos nas águas.

- Você... está bem? - ouço sua voz, é a primeira vez que ele fala tão suave para mim.

Ainda assustada, e com a respiração quase se acalmando por completo, apenas aceno com a cabeça, e olho por cima de seu ombro para o lago, penso que nunca senti tanto medo na minha vida, nem mesmo com Níthy, a água sempre me assustou bem mais do que qualquer pesadelo. Sinto meu corpo inteiro tremer, mas não sei se é pelo frio ou pelo medo, talvez os dois. Abaixo minha cabeça e a encosto no ombro de Níthy, logo as lágrimas vêm e não consigo conter.

- Ní... Níthy... eu não sou Aruna... o que eu tenho que fazer para você acreditar em mim? Por favor, eu faço qualquer coisa para isso acabar - digo, com a voz trêmula em meio às lágrimas.

- Vamos voltar, menina.

É a única coisa que ele diz, em seguida, ele me segura um pouco mais apertado, não para me machucar, mas para me confortar, é o que parece, então eu fecho os olhos enquanto vamos até a cabana, e percebo que a maneira como ele me segura em seu colo passa, além de conforto, segurança. Muita segurança. Nem sei se devo me sentir assim, mas não me importo, eu só quero sentir a segurança que ele me trás nesse momento.

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