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No Meio da Névoa
8 - Intenções enevoadas
1945 palavras • 10634 caracteres • ⏱ 7 min 47 s

8 - Intenções enevoadas

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Saio dos meus pensamentos sobre o sonho estranho, quando ouço um barulho atrás da porta entreaberta do quarto onde me vejo novamente. Sinto uma leve dor de cabeça ao me levantar do colchão sujo e, ao tocar minha cabeça, percebo que está com uma faixa.

 Assim, lembro o que aconteceu na cozinha: tentei fugir, mas cometi o erro de ajudar o Níthy antes; ajudei ele, porém não precisava da minha ajuda; então ele quis me prender de novo nesse quarto, eu tentei me livrar dele e não acabou nada bem no final. 

Estou aqui novamente.

Escuto o barulho outra vez, como sempre sou atraída para ele. Cuidadosamente olho pela abertura na porta do quarto e consigo observar Níthy e o Corvo conversando na pequena cozinha; onde o primeiro está encostado na parede com os braços cruzados olhando para a porta da frente que está aberta, enquanto o outro está segurando sua bengala branca com uma das mãos e gesticulando com a outra enquanto conversa. 

Não dá para ter certeza se o bruto encostado na parede está dando ouvidos ao Corvo, mas não é importante agora, pois acaba de vir à mente o quanto que eu não tenho sorte.

Viro-me para trás assim que percebo que alguém me observava, mas só consigo pensar o quanto fui injusta ao julgar Níthy um ser tão assustadoramente monstruoso. 

Esse que está à minha frente agora é muito difícil de acreditar que seja humano, ele é tão alto quanto Níthy, mas não tem muitos músculos, seu cabelo é bagunçado, e suas roupas também, além de sujas e rasgadas, ele usa uma espécie de óculos com armação grossa e como se fosse de couro, assim como suas luvas que têm pontas afiadas nos dedos, assemelhando-se a garras. Também usa um lenço cobrindo a boca e o nariz, ficando impossível distinguir seu rosto.


— Ai, meu Deus...– digo, enquanto tento não gritar diante dessa coisa, seja lá o que for.

— Que reação interessante – ele ri após isso. – Não conseguiu gritar de medo? Geralmente eu adoro quando gritam de medo. Você é mesmo diferente.

Ele estica a mão para me tocar, mas receio que as garras nas luvas podem me machucar, então dou um passo para trás, percebendo que isso o fez erguer uma sobrancelha.

– Ah, então estou errado – ele olha para baixo por uns segundos, o olhar um pouco perdido. Ele parece quase triste, quase digno de pena, mas de repente ele ergue o olhar em minha direção outra vez, e o que vejo em seus olhos me causa arrepios. Sua pele clara em volta dos olhos se torna escura, e seus olhos com um tom frio de verde, ficam são claros, quase branco com um pontinho quase inexistente da pupila em cada olho, era horrível. – Já que você não é tão especial assim, talvez sua cabeça bonita possa fazer parte da minha coleção de cabeças.

Ele levanta outra vez a mesma mão que queria me tocar, dessa vez mais alto, enquanto olha para meu pescoço, que obviamente é o seu alvo, mas eu me abaixo enquanto suas garras vêm em minha direção. 

Esse monstro atinge a porta, por sorte, tenho a chance de escapar quando ele tenta repetir o mesmo golpe. Nesse momento, rapidamente, abro a porta do quarto, com a ansiedade correndo por minhas veias e o coração acelerado novamente, só para esbarrar em Níthy.

Olho para ele assustada, mas cansada de tudo isso, acredito que ele vai se juntar a esse outro monstro para me matar, então só fecho os olhos e espero pela morte, enquanto ouço o monstro a traz de mim vindo descontroladamente em minha direção para dar o golpe fatal. 

Porém, o barulho estrondoso que ouço em seguida, não tem nada haver comigo, quando abro meus olhos estou encostada em Níthy, enquanto uma espessa poeira se formou atrás de mim, dentro do quarto. Viro-me para ver o que aconteceu exatamente, e quando a poeira diminui, o monstro que estava querendo me matar, está caído perto da parede do outro lado do quarto, como se ele estivesse sido arremessado... mas como?

Ao olhar para Níthy, percebo a fúria dominar seus olhos verdes brilhantes. Assim, sei que foi ele quem arremessou aquele ser horrível contra a parede do quarto. Ele odeia tanto assim esse monstro?, penso, mas não entendo o que Níthy realmente pretende, já que ele quer me matar, por que não deixa esse estranho fazer isso de uma vez? Não vai importar se eu estiver morta, certo? Minha cabeça começa a doer com toda essa agitação, mas deixo para lá.

– Que diabos está fazendo na minha casa, seu maldito? – Níthy rosna, deixando seu desagrado evidente.

O estranho que estava caído no chão do quarto, gargalha audivelmente enquanto se levanta.

– Não vai ao menos me cumprimentar? – ele zomba de Níthy, e sinto que isso não vai acabar nada bem.

– Caros, comportem-se na frente dessa dama assustada – o Corvo que até então estava apenas observando tudo, se pronuncia. – Talvez eu tenha esquecido de avisá-lo, caro Níthy, que Shady havia retornado para a Floresta da Névoa comigo.

– Mas por que ele está na minha casa? Eu não quero esse lixo nojento aqui! – ele continua muito furioso com a presença do estranho que o Corvo acabara de chamar de Shady. – Eu não quero ele na minha casa, e nem perto do que é meu – após a última frase ele olha para mim, em meus olhos, isso me deixa completamente surpresa, então sua atenção volta para  dentro do quarto novamente. – Tira ele daqui, Corvo, se não eu mato.

Depois de dizer isso e deixar o Corvo resolver essa situação, Níthy pega em meu pulso firmemente e me leva até um canto, onde ficamos em frente àquela porta com as iniciais A e T. Ele abre a porta do quarto, e consigo ver a escuridão que está lá, só de pensar que ele vai me deixar presa nesse outro quarto, meu coração começa a acelerar.

– Espera, o que você vai fazer? – digo, quase sem força na voz.

– Você vai ficar aqui, só por um tempo – ele diz, firmemente, olhando para o quarto.

Olho para o chão, pensando que não faz sentido ele prolongar mais esse cativeiro. Isso só está me fazendo enlouquecer a cada dia, e eu não quero isso, apenas aceito que não nunca conseguirei sair daqui com vida.

– Não – dou um passo para trás, sinto minha cabeça doer novamente. – Você quer me matar, certo? Então faça isso logo.

Não consigo olhar para ele, não por medo de sua reação, mas porque estou muito fraca para isso.

– Você vai matá-la? – o Corvo aparece atrás de Níthy, que sinto que está com seus olhos sobre mim.

– Não é da sua conta, Corvo, agora vai embora – seu tom é frio, como sempre.

– Shady foi na frente, mas não terminamos nossa conversa – o tom do Corvo é sempre calmo e com um toque de ironia.

Não vi o tal Shady saindo pela porta, talvez simplesmente evaporou como todo mundo parece fazer aqui. Níthy se vira para o Corvo, dando as costas para mim.

– Não tenho nada para conversar com você.

– Ah, sei que está ocupado, decidindo se vai ou não matar a cara mocinha, mas já que você não quer conversar agora, ao menos podemos todos juntos nos reunirmos para um simples jantar, o que acha?

Percebo que a pequena mesa, que antes estava empoeirada, agora está milagrosamente com alguns pratos recheados com comidas que parecem me chamar para degustação. 


Meus olhos são atraídos para a mesa e acho que Níthy percebe isso, o que o faz (aparentemente pela primeira vez) concordar com o Corvo. Níthy se vira para mim e eu o encaro, sem saber no que ele está pensando, e claramente sem querer saber, pois a única coisa que eu quero é comer alguma coisa, com certeza é isso que meus olhos estão dizendo a ele.

– Inferno – ele murmura – vem.

Ele pega em meu pulso e me leva até a mesa, onde me deixa sentar na cadeira de madeira, de onde eu fico hipnotizada olhando para aquela comida que cheira tão bem. Níthy vai para perto da porta que continua aberta, revelando que a espessa névoa lá fora está começando a escurecer, como se estivesse anoitecendo. Níthy, apenas encosta na parede e vira o rosto em direção a porta aberta, deixando-me ansiosa se posso ou não comer alguma coisa daquela mesa.

– Eu... posso comer? – pergunto a ele, meu rosto virado um pouco na direção dele e minha voz quase falhando de tão fraca que estou.

– Só anda logo com isso – foi a resposta brusca dele, sem nem olhar para mim.

– Não seja tão rude com uma dama faminta, caro Níthy – o Corvo se aproxima de Níthy e logo começa a falar com ele.

Enquanto eles dois iniciam uma conversa que eu resolvi não prestar mais atenção, começo o ataque à mesa cheia de comidas saborosas. Experimento um pouco de cada prato, observando as bandejas douradas como se fossem de uma mansão muito rica; os copos não ficam atrás, também têm detalhes dourados neles. 

Em algumas bandejas, eu quase não deixei nada e tenho que confessar, que a bebida do copo, um tipo de suco de frutas vermelhas, está muito saborosa, tudo isso me fez me sentir satisfeita pela primeira vez naquele lugar.

Parece que fiquei em transe enquanto me deliciava com aquela comida, até que a realidade me traz de volta ao normal e percebo que esse breve momento de êxtase com o banquete, foi só para me preparar para os terríveis momentos que Níthy irá me providenciar. 

Levanto-me da mesa devagar, e me viro para observar os dois homens que estão conversando perto da porta, mas eles estão virados de costas para mim. Nesse momento, o Corvo diz alguma coisa próximo ao ouvido de Níthy e simplesmente, sem dizer mais nada, ou sem se virar para mim, ele vai embora, com Níthy o acompanhando com o olhar, até o visitante desaparecer na névoa escura.

– Agora que já comeu, se sente melhor?

Fico completamente surpresa ao ouvir Níthy dizer isso. Ele continua olhando para a porta aberta, talvez seja bom ele não ver o meu rosto transparecendo confusão com suas palavras.

– Sim... obrigada – digo, ainda confusa.

– Não pense que isso foi por bondade – ele faz questão de explicar.

– Tudo bem – digo por fim.

Não sei o que passa em sua mente, mas depois de um breve tempo, ele finalmente vai até a porta e fecha, travando-a com um forte baque. Então ele se vira e vem em minha direção, parando bem próximo a mim.

– Hoje você vai dormir no meu quarto – levanto minhas sobrancelhas, e me pergunto se ouvi direito.

Primeiro ele tenta me matar, depois não tenta mais e nem quer que outra pessoa o faça; então ele me deixa com fome por alguns dias e depois permite que eu coma até não poder mais, e agora ele quer que eu vá dormir em seu quarto? Suas intenções para comigo ficam cada vez mais incertas e eu não sei mais o que pensar com tudo isso.





Olá! Mais um capítulo para vocês!!! Espero que gostem!!

Quero avisar que as imagens foram produzidas por I.A.

Sobre o nosso mais novo personagem "Shady", a imagem que eu coloquei não está totalmente fiel ao que eu imagino, mas é o mais próximo que achei, espero que gostem dele, ele é bem simpático kkkkk


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