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No Meio da Névoa
7- Sonho enevoado
2485 palavras • 13728 caracteres • ⏱ 9 min 56 s

7- Sonho enevoado

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Não acredito no que eu faço, parece que não tenho controle e simplesmente começo a agir rápido conforme vou me lembrando de todos os procedimentos que foram usados para ajudar meu pai quando também foi envenenado.

Menos quando chega na parte em que tenho que virá-lo para que fique de barriga para cima, para respirar melhor; nessa parte eu começo a agir um pouco devagar, com receio, parece que vou finalmente ver o seu rosto, que talvez ele não queira mostrar. Começo a me preparar para o que posso ver e, tiro o ramo de galhos de uma de suas mãos e a serpente morta da outra, que estavam sendo seguradas firmemente.

Então, eu o empurro para o lado, para virá-lo sobre o piso de madeira, e é muito, muito pesado para isso, estava achando que era a sua roupa que dava volume ao seu corpo, mas pude comprovar que são músculos mesmo, ele é mesmo um brutamontes. 

Com o esforço que fiz para virá-lo, meus ombros doem um pouco, mas isso é esquecido, pois finalmente consigo ver seu rosto, nesse momento fico um tanto aliviada em saber que ele não é tão assustador, pelo menos não assim, quando está tão... vulnerável.

Ele continua imóvel, desacordado, suas feições são de um pessoa normal, sua pele tem uma linda tonalidade escura da mesma cor da pele de Matt, porém, Níthy parece um pouco pálido, deve ser por causa do veneno. Tem uns fios de cabelos escuros que estão sobre seu rosto e tem algo que chama minha atenção mais ainda para ele: é uma cicatriz de queimadura que pega boa parte do lado direito de seu rosto. 

Consigo notar que o mesmo lado do seu pescoço também tem cicatriz de queimadura. Isso não me assusta, na verdade, faz-me pensar em como ele conseguiu tantas cicatrizes assim. Afasto de vez o seu capuz, que estava só um pouco recuado permitindo ver seu rosto, para trás, tendo o vislumbre de seu cabelo longo e desgrenhado; acredito que quando ele está penteado, se é que ele penteia o próprio cabelo, passe dos ombros, talvez com ondulações escuras.

Paro de pensar nisso, e volto a focar em tentar tirar o veneno da área contaminada; percebo que ele tem algumas facas enfiadas sobre o colete e cinto de sua roupa escura, pego uma delas e após dobrar a manga de sua camisa escura, expondo a marca da picada da serpente um tanto peculiar, respiro fundo, pensando se estou fazendo a coisa certo ou a maior das idiotices da minha vida.

- Certo, Lessie, você vai conseguir, você sabe as instruções básicas, concentre-se. - digo a mim mesma - usando o nome que sou conhecida no vilarejo vizinho, quando ofereço ajuda às casas de lá, pois sei que o meu verdadeiro nome é um tanto desconfortável para as pessoas, por causa da minha mãe -, sabendo que não sou enfermeira e nada similar, mas tento me lembrar de como consegui ajudar o meu pai.

Eu faço um pequeno corte no local da picada para que o sangue junto com o veneno posso sair; para ajudar, rasgo um pedaço da minha longa saia, que já está toda suja com as minhas demais roupas, e amarro o mais apertado que posso acima do corte para pressionar o sangue e veneno para fora do seu braço. 

Quando o sangue que passa a sair não está mais com uma cor estranha, rasgo um outro pedaço da minha saia para amarrar, dessa vez, sobre o corte. Talvez esse não seja o jeito mais profissional de lidar com veneno de serpente, mas deu certo com o meu pai, então Níthy com certeza vai... Antes que eu terminasse de racionar, ele levanta de uma vez, ficando sentado bem perto de mim me assustando completamente.

Níthy levanta a cabeça e olha em meus olhos, ele continua pálido e está muito sério, então finalmente percebo a cor de seus olhos, não são verdes e nem totalmente amarelos, eles têm um brilho que cintila como o brilho de vagalumes em uma noite de verão; sempre gostei de vagalumes, eles fazem a escuridão parecer menos assustadora. 


Nesse momento, esse brilho em seus olhos, por um segundo me fez achar que todo aquele medo que eu senti diante da sua presença tão misteriosa, se tornasse sem sentido nenhum, era como a escuridão, mas agora é como se surgisse vagalumes para deixar o ambiente mais agradável.

Níthy abaixa o olhar para o seu braço enfaixado com um pedaço da minha saia, mas não parece nenhum pouco surpreso, ou agradecido por nada que eu tenha tentado fazer para ajudar.

- O que você fez? Tentou tirar o veneno sozinha? Tola - ele não olha para mim enquanto diz isso, continua encarando seu braço enfaixado.

- Eu só...- mais uma vez não sei o que dizer, mas tento me manter firme e não demonstrar tanto medo. - Eu só estava tentando ajudar.

Então, como se estivesse ouvido a mais hilária das histórias, ele gargalha do que eu disse, enquanto o observava, irritada pelo seu descaso com meu gesto, sendo que eu poderia estar bem longe daqui.

- Ora, se não fosse pela minha atitude, você não estaria rindo assim.

Não consigo evitar demonstrar minha indignação, mas parece que isso o faz rir ainda mais.

- Achou mesmo que um veneno de nada iria me matar? Como você é ingênua. Nada vai conseguir me matar tão facilmente assim. Mas quanto a você...

Ele de repente agarra o meu pescoço com muita firmeza. Eu tento soltar a mão dele, mas ele é muito forte, parece que eu me enganei quanto ele, não passa de um monstro que se diverte com o sofrimento das pessoas. Ele me solta tão rápido me jogando para o lado e se levanta dali indo em direção a porta que continuava aberta, enquanto eu respirava muito rápido e passava a mão no meu pescoço.

- Eu... devia ter ido... embora... mesmo... - digo para mim mesma, esquecendo que ele estava perto.

- Ah, não, nunca irei deixar você escapar de mim, Aruna.

- Eu já disse que não sou essa... Aruna...

- Não pense que você pode ter liberdade para fazer o que quiser só porque saiu do quarto uma vez. Hora de voltar pra lá, garota.

Ele fecha a porta, batendo-a com força e vem em minha direção, sei que vai querer me arrastar de volta para aquele quarto escuro, mas estou tão fraca para andar e não quero que ele me machuque mais, tenho que fazer alguma coisa, então lembro da faca que usei para cortar seu ferimento que está bem perto de mim.

- Espere, por favor... - eu levanto uma das mãos na frente dele e a sinto tremer, acho que ele percebeu também.

Antes que eu continue a falar, ele pega a minha mão e me levanta de repente, segurando meu corpo perto de si, mas eu havia pego a faca que estava próxima a mim e tento me afastar dele ameaçando ferí-lo. 

Ele se desvia do meu ataque e assim aproveito essa oportunidade para empurrá-lo com força antes que ele tenha a chance de fazer qualquer coisa comigo; e ainda com a faca na minha mão, aponto para ele na intenção de mantê-lo longe de mim.

- Fique longe - continuou, segurando a faca com as duas mãos tremendo. - Agora, eu vou sair daqui e você vai me deixar em paz, seu monstro.

Minha voz estava tão trêmula quanto minhas mãos, mas ele continuava parado como se eu não o estivesse assustando, pelo contrário, ele sorria como se achasse aquilo divertido.

- Há um momento atrás você estava bem mais corajosa. O que aconteceu? Está com medo de mim, Aruna? -Ele dá um passo à frente, aproximando-se de mim.

- Pare! Não se aproxime de mim!

O desespero me domina neste momento e ainda estou com a faca apontada na direção dele, mas enquanto ele tenta se aproximar de mim, eu dou um passo para trás, para me afastar dele, porém no meu desespero acabo tropeçando e caindo. 

Estou no chão, com a cabeça doendo muito, acho que a bati em alguma coisa, talvez fosse o balcão de madeira, era a única coisa que estava atrás de mim que eu me lembre.

- Ei... - ouço uma voz próxima a mim, mas estou com os olhos fechados e a cabeça doendo muito, será que é ele? A voz parece muito distante, mas continua. - Não se mexe, você vai ficar... bem.

É a última coisa que escuto antes de tudo se envolver em uma escuridão outra vez.

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Estou em um lugar coberto pela névoa, de repente algumas coisas começam a aparecer na minha frente, então uma pessoa surge, ela está usando uma capa de cor vermelha escura e capuz cobrindo a cabeça, tinha a sensação de que se tratava de uma mulher e ao segui-la, descobri que era mesmo. 


Ela havia saído dos fundos de uma casa enorme, que para mim tinha alguma coisa familiar, e foi diretamente para uma floresta atrás da casa, desaparecendo na névoa, eu a seguir, pois alguma coisa estava me atraindo para aquilo. 

Quando a alcancei, ela havia parado de andar, eu estava atrás dela, então aquela pessoa misteriosa finalmente tira o capuz e longos cabelos loiros se revelam - apesar da névoa me impedir de ver seu rosto -, mas ela parece está esperando por alguém, pela maneira como olha com expectativas para a névoa a sua frente.

- Sou eu, pode aparecer agora - ela diz, como se alguém estivesse alí além de nós duas, mas realmente havia alguém.

Uma silhueta surge na névoa e então, ele se aproxima da mulher loira misteriosa. Ele também está de capa e capuz, mas quando começa a falar, sei que se trata de uma voz masculina.


- Você demorou demais dessa vez, Aruna - ele se aproxima e a abraça, tocando em seus cabelos como se estivesse a muito tempo sem fazer isso.

- Desculpe-me, Terence, mas acho que meus irmãos estão desconfiando de nós, receio que posso ter problemas com o papai.

Eles se separaram do abraço, Terence tira o capuz e então consigo ver seu rosto, mas não sei quem ele é.

- Eu estava com saudade de você - declara Terence, ele parecia muito apaixonado, como se não se importasse com os irmãos e o pai de Aruna, que parece ser um grande obstáculo para eles.

- Eu também estava, de você - ela acaricia seu rosto e se aproxima dele.

Terence também aproxima seu rosto do dela para beijá-la, deixando muito claro a sua paixão pela jovem amada. Porém, o beijo deles é interrompido por um barulho de galho quebrando; ambos se viram em minha direção, mas não é para mim que estão olhando. 

Do meu lado sai de detrás de alguns arbustos um homem usando calça, botas cano longo, camiseta branca com mangas compridas e colete lilás por cima, e luvas brancas, parecia um cavalheiro de certa forma, mas ele estava com uma espingarda de caça nas mãos, semelhante ao que eu pai usava quando eu era mais criança.

Atrás do homem, surgiram dois jovens, mas eu não conseguia ver seus rosto, nem do homem portando a arma em suas mãos, assim como também não conseguia ver o de Aruna, só conseguia ver o rosto do jovem Terence.

- Aruna, vamos para casa agora mesmo! - brada o homem armado

- Papai?

Não consigo perceber a expressão no rosto de Aruna, mas pelo seu tom de voz, ela parece bem assustada.

- Você trouxe minha filha para este lugar, desgraçado? - a voz do pai da jovem é mais raivosa quando ele se dirige ao Terence.

- Não, papai, eu vim sozinha...

- Quieta! - o pai a interrompe.

- Sim, foi ideia minha trazê-la até aqui! - Terence finalmente anuncia.

- Seu maldito! Vou acabar com isso hoje - o pai da jovem aponta sua arma para Terence.

Aruna, com visível desespero, fica na frente de Terence para protegê-lo.

- Papai, por favor, não! - ela protesta.

- Saia da frente, Aruna! Obedeça-me! - seu pai grita determinado.

- Tudo bem, Aruna. Deixa que eu resolvo isso - Terence a conforta e vai para a sua frente, ficando na mira da arma.

Porém, antes que o pai de Aruna possa atirar, uma coisa estranha acontece: a mesma névoa daquele lugar cobriu o corpo de Terence e, foi possível perceber a sua silhueta crescendo; ele foi ficando cada vez mais grande e forte. 

Quando a névoa deu espaço para a sua nova aparência, sua roupa havia mudado de tons claros para escuros, seus cabelos castanhos, para pretos, seus olhos verdes para um brilho esverdeado que lembrava vaga-lumes. 

Aquele não era o Terence, e sim, Níthy, com sua expressão séria e presença ameaçadora; ele estava segurando um machado na mão, que surgiu de repente na névoa, assim como ele.


É nesse momento que percebo que Aruna havia desaparecido, assim como seu pai e os dois jovens que o seguiram até aquele lugar, ficando apenas eu e Níthy, que agora está me encarando friamente. 

Até então, ninguém conseguia me ver, mas agora ele consegue. O que tudo isso quer dizer, eu realmente não sei, só sei que pela expressão dele, com certeza ele não está querendo conversar comigo.

Então, Níthy avança em minha direção, querendo me golpear com seu machado de aspecto terrível. Dou um passo para trás, na intenção de correr dele, mas minhas pernas não me ajudam, só posso esperar o pior, enquanto coloco instintivamente meus braços em frente a minha cabeça para me proteger, desejando muito que isso acabe logo. 

Com isso, fecho os meus olhos tão forte que que tudo fica escuro e tenho a sensação que estou caindo no meio da escuridão de um abismo profundo.

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Acordo assustada com esse sonho, porém, aliviada por não passar de um pesadelo. Ainda. Levanto-me e percebo que estou em cima do colchão sujo de sempre. Mais uma vez estou nesse quarto. 

Isso sim é um pesadelo sem fim. Pergunto-me o que Níthy quer realmente de mim. Por que não acaba logo com isso? Não foi por isso que me trouxe a este lugar? 

Ele está mexendo tanto com meus pensamentos, que está aparecendo em todos os meus sonhos, ou pior, pesadelos. Mas esse sonho que tive não parece ser um sonho comum, parece uma lembrança e que não é minha. Será que são lembranças da Aruna? Não consegui ver seu rosto com clareza, apenas de... Terence. Por que ele se parece tanto com Níthy?

***

Olá!!! Finalmente mais um capítulo depois de 3 mil anos kkkk Espero que gostem!! 

Obs: As imagens que coloquei nesse capítulo foram geradas por I.A. para ajudar no imaginário de vocês sobre os personagens. Não são totalmente perfeitas, mas é mais ou menos assim que eu imagino meus personagens.

Até a próxima!

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