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No Meio da Névoa
6 - Situação enevoada
1433 palavras • 7798 caracteres • ⏱ 5 min 44 s

6 - Situação enevoada

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Após o Corvo Branco ter saído e o estranho ido com ele, ainda não consigo parar de pensar sobre o que o corvo me disse. Ele parece ser muito perigoso e saber mais o que acontece aqui do que o próprio dono dessa casa, eu me pergunto se o corvo entrou em minha mente e descobriu que eu fiz um acordo com alguém misterioso para sair deste lugar, acredito que a resposta não esteja tão nublada assim.

Então, supondo que o corvo saiba quem eu sou de verdade e saiba com quem eu fiz um acordo de fuga, por que ele também quer me manter aqui, se não é por interesses próprios também? Aqui todo mundo quer alguma coisa, e se para sobreviver precisa ter algum tipo de ambição, então o que quero é sair daqui, voltar para casa, para o meu pai, que é a única família que me restou.

Eu preciso conseguir aquela joia, apesar de achar que me aproximar daquele sujeito estranho está completamente fora de cogitação, mas tenho que tentar mesmo com medo dele. Meus pensamentos quanto a isso estavam a todo vapor, mas logo sou interrompida pelo barulho que meu estômago estava fazendo, sei o que significa: estou com fome. Mas quase fui morta por comer aquelas simples frutinhas murchas, e que nem estavam tão boas, na verdade, aliás, quase morri de susto só por comê-las.

Não sei se seria um absurdo achar que ele poderia me manter aqui presa e não me alimentar ou me manter aqui presa e me trazer comida em todos os períodos do dia. Talvez a segunda opção não esteja na mente daquele rude homem, então provavelmente serei eu quem vai agir por conta própria para sobreviver aqui até a minha fuga. 

Com esse pensamento, tomo coragem e saio do quarto devagar, e como não notei nem sinal do estranho e daquele homem corvo, tenho que agir rápido, então vou até o mesmo armário que encontrei aquelas frutinhas na esperança de encontrar alguma coisa para comer, mas não tem nada dessa vez, acho que eu já esperava, não tem nada aqui, além de muito pó.

Porém consigo notar um objeto escondido em uma prateleira embaixo do balcão, e quando o pego, vejo que é uma vasilha com algumas frutinhas murchas apenas. Eu como tudo sem pensar duas vezes, mas estou com tanta fome, só isso não será o suficiente. Nem me lembro da minha última refeição, parece que não como nada há dias, não sei como ainda estou viva. 

Ouço um barulho vindo de fora, parece que o tal Níthy voltou, então preciso retornar para o quarto antes que ele me pegue aqui, assim, eu deixo a vasilha no mesmo lugar no balcão e vou correndo até a porta do quarto, mas sinto minhas pernas fracas demais para ir mais rápido.

Para a minha infelicidade, não consigo entrar no quarto a tempo, a porta da frente é escancarada de repente mostrando ele lá parado, o que causa o aceleramento do meu coração e começo a tremer.

Ah, não! 

Acredito que agora não tenho como escapar dele. Ele começa a adentrar a pequena cozinha devagar, a cada passo dele minha respiração fica mais pesada. 

Pergunto-me se consigo entrar rapidamente no quarto e fechar a porta sem que ele me dirija qualquer palavra, mas eu não consigo sair do lugar, apenas o observo. Noto que a porta da frente ainda está aberta e não consigo deixar de observar o que está do lado de fora, tem muita névoa, ela realmente não se dissipa durante o dia, parece que é perpétua.

O tal Níthy dá só alguns passos para entrar totalmente dentro da cozinha e nesse momento, algo muito inesperado acontece, ele cai para a frente, ficando completamente imóvel. O capuz ainda cobre sua cabeça e demoro uns instantes para processar o que acabou de acontecer, pisco completamente confusa e vou bem devagar até ele para confirmar o que estou pensando que é.

 Passo por seu corpo caído sem tirar os olhos dele, completamente alerta para qualquer movimento de perigo que ele possa fazer, claro que ele também pode está fingindo apenas para me pegar querendo fugir daqui e me matar de uma vez, ou pior, me torturar.

Percebo que ele continua como está e fico um pouco curiosa para saber o que causou isso, penso que talvez tenha sido o homem corvo, mas olho para a porta que está escancarada e do lado de fora não tem nenhum sinal dele. 

Volto minha atenção o esse homem caído a minha frente, vê-lo assim, aparentemente morto me dar um certo alívio, pois posso fugir agora, e é isso que estou prestes a fazer, agora em frente a porta aberto, olhando para fora e encarando a névoa que envolve tudo ali, estou com o coração acelerado e então dou o primeiro passo antes de começar a correr o máximo que der para longe daqui.

– Você... não pode sair... vai se perder na névoa... vai morrer se ir...

Viro-me para ele, então ele não morreu e quer me convencer a ficar, mentindo só para que eu não fuja, estou com tanta raiva agora, além da fome que está me deixando fraca.

– Eu vou morrer aqui se eu ficar, de qualquer modo! – é a primeira vez que tenho coragem de me alterar dessa forma.

Ele não diz nada dessa vez, voltando a ficar imóvel, e eu volto a olhar para fora, agora com insegurança e percebendo o quanto que a névoa pode ser enganosa, ela está em todo lugar, além de que eu não sei onde estou e nem para que direção fica a vila.

– Eu tenho que ir embora daqui – começo, com o meu tom calmo habitual, porém confusa se me arrisco na névoa ou se fico. – Você não me conhece e nem eu te conheço.

– Eu conheço você...

A voz dele está quase sumindo, mas deu para entender.

– Eu não sou Aruna, entendeu? Sou a Alexsandra, ou simplesmente a Lessie da vila, minha vida é simples, tenho poucos amigos e a única família que eu tenho é o meu pai, que deve está louco procurando por mim. Então, por favor, se estiver morrendo, faça pelo menos uma única coisa boa e me mostre a direção certa para sair daqui. Por favor!

Meu desespero é bem evidente, mas sinto que esse lugar está fazendo alguma comigo, sinto uma pontada de ousadia correr pelo meu corpo, e quase cogito em terminar com a vida dele de vez já que ele está vulnerável, mas esse pensamento para mim é tão horrível que fico assustada comigo mesma. Eu jamais faria isso. Mas como posso ajudá-lo? 

Eu nem sei o que aconteceu com ele, não sei se foi aquele homem corvo que o deixou assim e depois sumiu. Tento analisar sua situação, olho para o chão perto da porta e percebo gotas de sangue que vai até Níthy, especificamente em um de seus braços. Onde sua mão segura um ramo de ganhos com várias folhas verdes e uma frutinha vermelha aqui, outra ali entre os galhos, para quê será que ele pegou isso?

Penso que talvez esse ramo seja venenoso, mas a resposta fica clara quando algo em sua outra mão me deixa mais intrigada, está ensanguentada e, apesar de ser fina como uma corda, percebo que se trata de uma serpente com aspecto bem sinistro, o corpo é bem fino e poderia passar despercebida sem ninguém notar, mas a cabeça dela tem uns espinhos deixando sua aparência um tanto horrenda, os olhos dela são tão vermelhos, parecem brilhar, contrastando com a cor branco e cinza de seu corpo. 

Ela está morta, Níthy deve tê-la esmagado ao ponto de seu corpo ser partido, mas... pra ele está no chão assim só pode significar que ele foi picado.

O meu corpo luta querendo sair daqui correndo o mais rápido possível, mas a minha mente parece querer se fazer de ingênua de novo por causa dele. 

Acontece que essa situação é bem parecida com uma de quando eu era criança, o meu pai já foi picado por uma serpente pouco tempo depois que chegamos na vila, foi eu quem o ajudei com isso, mas com orientação dele, enquanto ele tentava lutar contra o veneno, porém no final tudo deu certo e ele sobreviveu. Mas não tenho certeza se essa pessoa aqui caída vai ter a mesma sorte.

Eu solto um longo suspiro pensando no que estou prestes a fazer, mesmo sabendo que isso pode valer a minha cabeça: vou ajudar esse homem a se livrar do veneno. 

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