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No Meio da Névoa
5- Memórias e névoas
1639 palavras • 9004 caracteres • ⏱ 6 min 33 s

5- Memórias e névoas

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O maldito corvo finalmente vai embora.

Como sempre, eu o acompanho até o lado de fora da minha casa e só entro quando tenho certeza que ele se foi.

Esse miserável pode ser tão traiçoeiro quanto uma serpente, eu não posso confiar nele, mas não posso matá-lo também, ter pra onde ir é essencial pra mim no momento, ainda mais agora que encontrei ela.

– Então, caro Níthy, seu mau humor hoje está adorável como sempre.

Ele nunca perde a oportunidade de me irritar com seu sarcasmo maltido.

– Adeus – é a única coisa que digo para fazer ele se apressar e sumir.

Mas antes de ir, ele se vira pra mim ainda mais uma vez.

– Níthy, eu acho que não preciso dizer que essa garota não é quem você está procurando, porque eu sei que sabe. Mas não posso deixar de observar que ela também é especial, como nós.

Eu não digo nada e não queria escutar também, acima de tudo, não quero ter que admitir que ele está certo.

– Sei que combinei de não me meter nos seus negócios, Níthy – ele continua. – mas se você quer matá-la ou quer respostas para alguma coisa, eu cuidaria logo com isso, pois sabemos que esse lugar pode mudar as pessoas de uma forma um tanto desagradável, e você sabe que não tem poder sobre isso.

– Eu sei o que tenho que fazer, agora vai embora – digo, rispidamente como de costume.

– Ah, mais uma coisa – seu tom detestável volta de novo – a mocinha está um tanto chateada que você não a alimenta, espero que, se for para matá-la, que não seja de fome, entendeu, foguinho?

Não conseguindo mais tolerar esse idiota, vou em sua direção com uma pequena faca que eu havia escondido no cinto de couro.

– Ah, calma, espera aí! – ele dá um passo pra trás erguendo as mãos. – Quando era mais novo você gostava desse apelido.

– Eu detestava, assim como detestava você, agora saia daqui,corvo!

– Está bem, já estou indo – ele diz se virando para finalmente ir embora. – Só pensa naquilo que eu te falei, certo? Ah, e alimenta a Mocinha. Estamos a uma década do vigésimo século, há maneiras melhores de torturar uma pessoa.

                                §§§§§

Aquele corvo maldito!

Sempre se metendo no que eu faço.

Sempre foi assim, desde que cheguei aqui, porém, é por causa dele que estou nesse lugar, então só tenho que aceitar que ele vai me atormentar eternamente, parece o inferno.

Como esse lugar é envolvido por uma névoa densa e sem fim, o céu é sempre nublado e nunca se viu um único raio de sol atravessando as nuvens e iluminando verdadeiramente a nenhum canto daqui.

Mas é bom assim, e posso manipular a névoa como quiser e afastar qualquer intruso que ousar se aventurar no meu lado da floresta, isso não inclui apenas as pessoas patéticas comuns de vilas e vilarejos próximos a Floresta da Névoa, mas seres como eu e o corvo, e tem muitos, porém eu não ando procurando.

A única pessoa que procurei foi ela. Aruna.

Levei um tempo para me recuperar de todo sofrimento que ela me fez passar, tudo porque ela foi fraca e me traiu.

Eu fui um maldito tolo e acreditei nela, acreditei que poderíamos ser felizes juntos e acreditei que poderíamos fugir juntos para longe de sua família.

Como eu estava errado!

Ela me entregou para sua família na primeira oportunidade, seu pai e seus irmãos mais velhos, aqueles malditos, viviam de aparências quando estavam com as outras pessoas, como lobos em pele de cordeiro, mas são completamente diferentes quando se deparam com pessoas que eles não gostam, e parece que tive o azar de ser uma dessas pessoas.

A minha aparência tão singular no meio de tantas pessoas iguais com peles claras, cabelos claros, olhos claros, roupas claras.

E o maldito corvo ainda diz que não se parece com elas.

Não sei porque estou pensando nisso agora. Não passam de pensamentos idiotas.

Viro-me para entrar na minha velha casa e, após fechar a porta, começo a pensar em como alimentar ela, a garota medrosa que treme só de olhar para mim. Isso me faz querer rir muito, pois eu sei que não precisaria fazer nada com ela, só bastaria dizer para ela morrer, e estaria feita, sem o menor esforço para isso.

Aruna teria um pouco mais de determinação, ela me enfrentaria antes de se dar por vencida...

Não!

Pensar como se ela não fosse Aruna, só faria com que aquele corvo vencesse, mas... no momento eu prefiro ficar na hipocrisia mesmo, por enquanto.

Olho para os armários, estão vazios, balcão, vazio, lareira, vazia, nada aqui.

Eu não costumo usar a cozinha, então isso explica ela parecer abandonada.

Assim, eu saio de casa outra vez, seguindo por um caminho atrás de casa, e não demorou muito para eu encontrar uns arbustos que contém algumas frutas roxas, isso vai servir já que foi isso que ela comeu na última vez.

Geralmente eu não como essas frutas, apenas as uso como isca para os ratos da floresta que entram pelo porão da casa, e é claro, também uso os ratos de isca para pegar criaturas maiores a noite, porém ontem eu não peguei nada, assim o rato, aquele enorme da última noite, se tornou o meu jantar e estava uma delícia, eles são diferentes dos ratos das cidades e vilarejos que se deixam contaminar comendo porcarias.

É uma pena que a garota não saberia apreciar uma refeição dessas.

Após pegar alguns ganhos - sem ser muito seletivo, é claro -, volto para a casa.

O dia vai ser muito longo sem ter o que fazer aqui, mas até que a garota está sendo o maior entretenimento pra mim.

Pensar no tanto que a deixo com medo é bem agradável, e sinto o meu humor melhorar, além de também sentir uma vontade grande de aparecer lá só para vê-la suspirar de susto para depois eu poder rir e me divertir com isso, mas algo me faz parar antes de subir os dois degraus da pequena varanda quase caindo aos pedaços onde deixei a porta fechada.

É uma voz!

"Olhos de vagalumes!"

Eu lembro bem dessa voz, era uma criança, não a vejo há muito tempo.

Essa voz ecoou apenas dentro da minha cabeça, mas foi como se ecoasse ao meu redor.

Que coisa! Com a empolgação de assustar a garota, acabei deixando minhas emoções serem brevemente expostas para a névoa desse lugar, sei que ela pode brincar com a mente de qualquer pessoa que ela envolver, até mesmo eu, que posso manipulá-la para o que eu quiser desse lado da floresta, mas não posso esquecer que ela está aqui a mais tempo do que eu, então essa névoa também pode ter vontade própria quando eu não estiver prestando atenção no que sinto.

Eu não quero que me lembre disso.

Esse momento se remete a algo da minha vida que já passou e que eu prefiro não ter que lembrar, não porque tenha sido ruim, não, foi na verdade, um momento... agradável.

Foi depois de Aruna que eu conheci aquela criança.

Após todo o sofrimento que Aruna me fez passar, o corvo me trouxe para essa floresta me oferecendo uma nova chance para viver, chance na qual poderia usar também para me vingar de Aruna e sua maldita família, assim eu fiz, começando pelo pai e os irmãos.

Eu sempre fui muito bom em iniciar incêndios.

Eu deixei Aruna por último, para fazê-la sofrer mais, porém... a desgraçada foi mais rápida do que eu.

Após esse período da minha nova vida aqui, eu quis explorar outros lugares fora da névoa, foi quando a conheci, a criança alegre que não se assustou comigo, e ainda me colocou um apelido tolo: 'olhos de vagalumes'.

Mesmo após a minha mudança e nunca mais fui feliz e sorri, mas está com aquela criança fora dessa névoa, em um lugar onde o sol brilhava como os seus cabelos que ainda voavam com o vento... o céu era tão azul e bonito como o seu sorriso... a vegetação era tão verde e deslumbrante como os seus olhos... tudo isso no lugar onde estávamos, e nela, deixava-me tão contente que eu não queria ir embora.

Mas um dia eu precisei ir embora para sempre, voltar para a Floresta da Névoa, onde ela não poderia me encontrar.

E tudo se transformou em cinzas e névoa, nunca mais senti aquele contentamento, nada, vivo como um maldito fantasma que vaga assustando miseráveis que tentam se aproximar dessa floresta enevoada.

Até que me deparei com essa garota assustada como um coelho e que se parece tanto com Aruna, o que me deixa um tanto curioso com isso, e eu quero descobrir o porquê de tanta semelhança.

Quando finalmente meus sentidos voltam e tento bloquear minha mente desses pensamentos e subir os degraus da varanda, sinto um leve incômodo no meu braço próximo ao pulso direito, onde a minha mão deste mesmo lado está segurando os galhos com as frutas. Ao abaixar meus olhos, vejo, sem muita surpresa, que fui picado por uma maldita serpente espinhosa vermelha, típica apenas daqui da floresta.

Eu a puxo do meu braço, onde ela estava enrolada e com apenas um aperto da minha mão esquerda, esmago seu corpo dividindo-a em duas partes.

Ao abaixar o olhar novamente para o lugar da picada da serpente, noto o sangue que começou a escorrer e só consigo pensar o quanto estou irritado por ter deixado isso acontecer comigo, mas estranhamente começo a achar que pelo menos foi 'comigo' e não... inferno!

Isso pode ser efeito do maldito veneno.

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