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No Meio da Névoa
4- Uma presença mais enevoada
1250 palavras • 6655 caracteres • ⏱ 5 min 00 s

4- Uma presença mais enevoada

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Queria que tudo aquilo fosse apenas um terrível pesadelo e que logo iria acordar e tudo ficaria bem, mas não é um sonho, estou bem acordada e alerta para o que ele tentar fazer comigo.

Ele passa um bom tempo me encarando da porta enquanto eu o encaro de volta e, embora esteja tremendo muito, não me atrevo a desviar o olhar e nem sequer piscar, ansiando que aquele estranho vá embora logo ou execute suas intenções comigo e acabe de uma vez com ele pesadelo.

Ele não diz nada, não faz nenhum movimento, parece que simplesmente veio me assustar com sua presença e está conseguindo.

Então, finalmente aquele ser intimidante sai da porta, deixando-a aberta, o que me intriga um pouco, pois qual é o motivo disso?

Por causa desse susto, nem percebi que a lamparina estava apagada e que a luz do dia entrou pela fresta da janela na parede que estou me encostando, iluminando um pouco o quarto.

De qualquer modo, sinto que ele ainda vai voltar pela forma como deixou a porta aberta.

Decido ficar de pé e me viro para a janela, olhando através da fresta para o lado de fora, é quando me assusto com o barulho vindo da porta e novamente o vejo parado lá.


Desta vez, apesar do medo, percebo que ele não está com a capa e as ombreiras de pelos de urso, mas está com o capuz cobrindo sua cabeça e ainda não consigo ver seu rosto, até que noto um ponto brilhante em seu pescoço, acredito que seja um colar, porém a maneira como a pedra cinza do colar brilha me faz lembrar algo.

"Pode ser um pequeno frasco, ou um jarro ou até uma jóia, algo que, assim como esse lugar, parece ter névoa dentro, é uma peculiaridade que só ele entende".

Aquela voz me vem à mente nesse momento enquanto encaro a pedra no pescoço do meu bruto sequestrador.

Será que é isso?

Tenho uma leve impressão que sim, a névoa ao redor desse lugar é da mesma cor, então isso pode ser a minha porta de saída daqui.

– Acredito que eu já possa entrar.

Uma voz diferente invade o quarto, e uma figura tão excêntrica quanto o homem encapuzado parado na porta, entra, com a passagem agora liberada para isso.

Dou um passo para trás quando vejo uma pessoa com roupas brancas, tudo branco, desde o capuz que cobre totalmente a cabeça até as botas cano longo, ele usa um casaco comprido que desce até os joelhos e com mangas compridas, também brancas, luvas brancas, calças brancas, ele segura um chapéu branco junto ao peito com uma mão, enquanto a outra segura uma bengala comprida e também branca.

Ele é uma figura muito assustadora, principalmente porque está usando uma máscara (também branca) com bico de corvo que parece se moldar perfeitamente ao seu rosto.

Eu já vi figuras em livros que li sobre “médicos da peste”, médicos que cuidavam de pessoas contaminadas com a peste há alguns séculos, eles usavam roupas parecidas com as dessa pessoa à minha frente, porém eram roupas escuras, nunca vi esse tipo de roupa totalmente branca.

Vou dando passos para trás conforme ele vai adentrando o quarto, até que minhas costas bateram na parede e não tenho mais para onde ir.

– Olá, mocinha – ele diz olhando para mim e logo se vira para o estranho encapuzado na porta com os braços cruzados. – Não me informou que ela era tão bonita, eu deveria ter me preparado melhor e, quem sabe, deveria ter trazido um presente – ele se volta para mim novamente.

  O estranho de branco percebeu o quanto estou assustada com sua presença e se aproxima de mim devagar.

– Não fique com medo, cara mocinha, irei me apresentar – ele se curva formalmente – Corvo Branco está a sua disposição.

Corvo Branco?  Esse é mesmo o nome dele, ou… ele interrompe meus pensamentos e continua.

– Acredito que você não saiba o porquê do nome, não é? – ele diz com ironia e logo solta uma leve gargalhada disso, para depois colocar o chapéu na cabeça e estender  a mão para mim.

Ah, nem imagino.

– Venha – eu hesito um pouco e, vendo que talvez não tenha escolha, coloco minha mão em cima da palma enluvada da mão dele devagar.

Ele me leva para o meio do quarto, até que pára e fica a minha frente ainda segurando minha mão, tento puxá-la da mão dele, mas ele a segura um pouco mais firme para que eu não a solte ainda.

– Fale alguma coisa, mocinha. Diga seu nome – ele insiste.

– Eh… Alexsandra.

Ele solta minha mão de repente, virando-se um pouco em direção a porta.

– Achei que o nome dela fosse outro, tem certeza que não pegou a garota errada?

– Isso não é da sua conta. Agora que fez a maldita visita, vai embora! – o sujeito na porta parece um tanto irritado pelo estranho de branco está aqui.

– Bem, mocinha – ele se vira para mim novamente. – você tem um nome bonito de qualquer modo, é imponente como o de uma rainha, não? Mas vamos concordar que Lessie fica bem melhor mesmo. – ele sussurra a última parte para mim.

– Como você sabe? – Olho para ele surpresa. – É assim que sou conhecida na vila…

– Ora, do que está falando, mocinha? – ele parece irônico.

Eu sei que ele sabe quem eu sou, mas está fingindo não saber, talvez ele também tenha medo do homem parado na porta, o que me faz pensar que não posso contar com esse tal “Corvo Branco” para sair daqui.

– Hora de ir embora, corvo – na porta, o estranho dono dessa casa parece tão ansioso para que o homem com roupas brancas vá embora quanto estou ansiosa para sair desse lugar.

– Caro Níthy, você não é nenhum pouco hospitaleiro, sabia? – o homem corvo lamenta, enquanto vai em direção ao homem ao qual acabara de chamar de Níthy.

– Ao inferno com isso! – o tal Níthy sai, deixando a porta ainda aberta.

O Corvo Branco para antes de segui-lo, ele gira sobre os calcanhares em minha direção.

– Sabe, eu teria cuidado… com o que aparece para mim quando tudo está escuro, não daria ouvidos a nenhuma voz na escuridão, elas tendem a enganar.

– O que disse? – pergunto, um pouco surpresa com o que ele acaba de me dizer.

– Tenha um bom dia, cara Lessie.

Assim ele se vai e eu fico refletindo sobre o que me disse: “voz na escuridão”, isso não me é tão estranho.

Mas como ele sabe? Como sabia como eu sou conhecida da vila? Será que ele entrou na minha mente quando segurou minha mão?

E o mais importante: quem de fato é ele? Pela sua relação com o tal Níthy, ele parece ser tolerável apenas; outra coisa é que ele sabe que eu não sou a pessoa que esse Níthy está procurando, mas por que quer simplesmente deixar passar?

Isso só pode significar uma coisa: que esse corvo talvez queira entrar para a lista de pessoas que quer alguma coisa de mim.

Parece que quanto mais ele fala e tenta se aproximar, mas longe de conhecê-lo fica.

Eu acho que ele é muito mais do que aparenta ser, e também, acho que ele pode ser mais perigoso que o estranho dono dessa casa.




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