Abro os olhos de repente e parece que se passaram só alguns instantes, mas me deparo com o quarto estranhamente iluminado com uma lamparina contendo uma vela acesa, desperto-me completamente com essa visão.
Devo está sonhando.
É o que penso estranhando esse objeto que não sei como foi parar aqui, mas um pouco aliviada por ele está aqui dissipando a escuridão desse lugar.
Por um bom tempo apenas observo a luz daquele objeto, sem me mover, aquela luz me faz acreditar que posso voltar para minha casa no vilarejo e que tudo vai ficar bem, é como se a esperança que tinha ido embora a um momento tivesse voltado com aquele brilho.
Então percebo que a porta está entreaberta e me levanto de onde estava sentada para ir até lá, apesar do medo, sinto-me um pouco confiante com aquela luz, pego a lamparina e abro a porta devagar, com a luz revelando tudo que estava ali.
Confesso que eu imaginava um lugar enorme com vários quartos contendo pessoas aprisionadas como eu, mas o que vejo é uma pequena cozinha com tábuas mais claras, poucos móveis, como uma mesa de madeira e uma única cadeira perto dela, um balcão de madeira, alguns compartimentos nas paredes de tábuas, formando a pequena cozinha.
O lugar parece abandonado, pois está muito sujo, com folhas secas espalhadas pelo piso de madeira, pó por todos os móveis, manchas nas tábuas das paredes, no chão e na porta no final do pequeno cômodo que, acredito eu, daria para a entrada da frente da casa.
Até agora não comi nada e, como se estivesse lendo meus pensamentos, meu estômago começa a fazer um barulho indicando que estou com fome, porém antes de pensar em ir procurar algo para comer (se é que vou encontrar algo alí), vou primeiramente até a porta, que deve dar para a saída daquele lugar e tento abri-la, mas é em vão.
O que consigo perceber é que a porta é bem resistente e não tem maçaneta, talvez ela seja trancada por fora, assim eu não conseguiria abri-la, é claro.
Desse modo, viro-me para a pequena cozinha empoeirada, com alguns passos, estou entre um balcão de madeira e algo que parece o lugar de lavar os pratos, tem uma torneira e uma bacia cor bronze escuro, totalmente vazia e quando me aproximo e giro a parte de cima da torneira de ferro dourado enferrujado, a água demora um instante para sair, a princípio vejo uma fumaça densa sair, mas finalmente a água saiu em seguida.
Pego um pouco com a mão e depois de uma análise e dedução de que se trata apenas de água comum, experimento e, após perceber que é boa, vou a procura de comida e com isso me deparo com uma pequena lareira no canto da cozinha, isso me faz pensar como conseguiram encaixar uma lareira naquela cozinha tão pequena, além disso, vejo que tem algumas folhas secas ali também, e ela está, assim como os outros móveis dali, empoeirada, o que me faz pensar a quanto tempo aquela lareira não é acesa para aquecer a casa.
Deixando a lareira de lado por enquanto vou procurar por alguma comida, apesar de talvez acreditar que não vou encontrar nada naquele lugar, porém no último compartimento do armário de madeira grudado na parede, eu vejo algo, era uma porção de frutinhas vermelhas e roxas que estavam murcham, mas serviriam para mim, no fundo do compartimento e, logo atrás da vasilha de frutinhas encontrei um prato marrom com um pão de formato retangular, assim meus olhos brilham quando eu os vejo ali.
Fico na ponta dos pés e os pego, levando para o balcão e indo a procura de talheres, principalmente para cortar o pão, mas o que consigo encontrar são uma colher, um garfo e uma faca, ambos quase enferrujados e, antes de usá-los eu os lavo na pia de bronze escuro.
Para a minha infelicidade, o pão estava tão duro que a faca quase é entortada com a força que eu faço para ela cortar o pão, é quando decido rapidamente deixar essa ideia de lado, pego as frutinhas quase murchas na vasilha e experimento, elas têm gostos que variam entre doce e azedo, mas é bom, para quem está com fome pelo menos.
Após comer todas as frutinhas e torcer para que elas não me façam nenhum mal, pego a lamparina e olho ao redor novamente, até que minha atenção vai para uma porta que eu não havia percebido até esse momento.
Talvez seja outro quarto, fica na mesma parede do quarto de onde saí, é de madeira escura, a maçaneta está quebrada, mas tem algo escrito na porta.
Ao me aproximar para ver, noto que são letras, possivelmente iniciais: A e T, porém a letra ‘A’ foi riscada com algum objeto pontiagudo na intenção de apagá-la completamente, mas sem sucesso.
Pergunto-me de quem são esses nomes, observo as iniciais até me esquecer onde estou, e de repente, sou abruptamente lembrada quando sinto alguém atrás de mim, acho que ele sabe que eu percebi.
– Então – a voz grave dele me faz ter calafrios por todo o meu corpo –, já se sente à vontade para andar por aí? – ele parece irônico, algo que me assusta ainda mais.
Viro-me devagar e o vejo me encarando, não consigo ver seu rosto com clareza, apesar do ambiente está bem iluminado pela lamparina, pois ele está com uma capa escura com capuz cobrindo sua cabeça, tem pelos grossos e marrons cobrindo seus ombros, parece de algum animal, como urso.
Toda aquela roupa e pelos parecem dar mais volume ao seu corpo, deixando-o ainda maior e mais assustador do que da última vez que o vi.
– Eu-eu… só estava… – não sei exatamente que desculpa devo dar por está ali, simplesmente quero sair correndo e me esconder, mas não tenho para onde ir.
– Conseguiu me reconhecer, Aruna? Está surpresa com o que fez comigo? – sua voz se altera da primeira para a segunda pergunta.
– Aruna? Espere, esse não é o meu nome – digo, quase sussurrando.
– É mesmo? Ah, nossa – ele lamenta, dando um passo à frente, ficando mais próximo de mim. Por um segundo acredito que ele sequestrou a pessoa errada e quase penso cogitar em perdoá-lo por isso. – É claro que você negaria, como negou antes.
– Não sei do que está falando e não sei quem é você – digo, com a voz trêmula, implorando – Por favor, deixe-me ir.
Ele parece pensar um pouco sobre o que eu disse, fazendo o seu silêncio me deixar muito tensa. Abro a boca para tentar lhe dar mais motivos para me deixar ir embora, mas ele quebra o silêncio antes de mim.
– Mas você parece tão à vontade como antes para comer a minha comida. Você é mesmo um…– antes que ele terminasse a frase, um ruído chama nossa atenção para um canto do cômodo, onde um rato enorme e horrendo sai de um buraco feito ali, quase pulo de susto daquela criatura tão nojenta, mas o estranho a minha frente não parece nenhum pouco surpreso com aquilo. –...rato. Ah, olha só – ele se vira para mim. — sua presença aqui não foi inútil, conseguiu atrair o jantar.
– O que? – estou horrorizada com que ouço.
Mas antes de qualquer reação ele me pega pelo braço direito - que está dolorido devido sua bruteza ao girar aquela gaiola gigante comigo - e me arrasta de volta para o quarto que eu estava antes.
Faço um grande esforço para tentar deixar a lamparina acesa, ela quase é apagada quando ele me joga com tudo para dentro do quarto como se eu fosse algum tipo de objeto descartável.
Ele então se vira ameaçando sair e fechar a porta, mas rapidamente me dirijo a ele.
– Espere, o que pretende fazer comigo?
Ele apenas fica parado nos segundos em que eu faço a pergunta e não me diz nada, em seguida, a porta é fechada e fico sem nenhuma resposta.
Minutos depois ouço uns barulhos atrás da porta, acho que é aquele rato horrendo, então o barulho que ele faz se torna barulhos de agonia, até se tornarem de algo sendo despedaçado.
Nesse momento volto para o colchão completamente assustada com tudo isso, deixo a lamparina mais próxima possível do colchão e, logo as lágrimas enchem meus olhos ao pensar que talvez nunca vou conseguir sair viva daqui.
São com as lágrimas que consigo dormir, mas talvez devesse ter ficado acordada mesmo, pois tenho pesadelos horríveis com aquele ser estranho onde ele tenta me matar enquanto estou dormindo.
Assim, acordo suada, como se realmente estivesse lutando para sobreviver, acho que eu estava mesmo, pois minha respiração está muito rápida, estou completamente apavorada, isso com certeza vai me matar mais rápido do que aquele… demônio, que só de pensar nele meu corpo treme.
Como se estivesse lendo meus pensamentos, olho em direção a porta do quarto e lá está ele, parado com a mão na porta e me encarando, meu fôlego parece ir embora e o tempo para ao meu redor, sinto que chegou a minha hora.

