Não tenho certeza se os supersticiosos aldeões ajudariam o meu pai em minha procura, ele com certeza deve estar muito preocupado comigo.
Depois que a mamãe… morreu, ele se dedicou muito a cuidar de mim da melhor maneira que pôde, eu agradeço muito por isso.
Tive uma infância agradável até, o papai sempre tentava preencher a falta que a mamãe fazia, e após o distinto sepultamento dela, nós nos mudamos para um vilarejo bem agradável e cresci com alguns amigos, os irmãos Gadhe e Janne, ambos são ruivos, foram criados pelos avós; Matthew, estrangeiro do sul, ele tem a pele escura como a mãe, o pai é desconhecido, mas foi com quem eu mais gostava de brincar e se tornou o meu melhor amigo, junto com a Eivy, ela tinha lindos cabelos escuros e lisos, e olhos azuis cristalinos, nunca vistos antes, éramos as crianças mais diferentes do vilarejo, todos comentavam.
Eu não tinha nada de diferente em minha aparência, olhos verdes e cabelos loiros, como o papai, mas era a mamãe que fazia com que eu me sentisse diferente mesmo não estando ali, sua morte foi a mais estranha daquele lugar, na verdade ela foi tida como morta, mas seu corpo nunca foi encontrado, o único pertence seu encontrado foi um pedaço de vestimenta com sangue próximo a Floresta da Névoa, lugar do qual, segundo todos contam, quem entra nunca mais sai, e quem consegue sair não é o mesmo, se realmente minha mãe tiver entrado ali, infelizmente ela foi uma das pessoas que não conseguiu sair.
Eu só tinha 8 anos quando ela se foi, a cada ano seu rosto se torna só uma lembrança distante e eu não consigo recuperar, não tenho nenhuma pintura dela, praticamente nada dela, a não ser uma parte das Escrituras que ela gostava de ler para mim antes de dormir, tratava-se de uma oração, tem o nome dela no canto da primeira página: Jayna H., eu guardei muito bem guardado em uma caixa de madeira que fica embaixo da minha cama, eu lia sempre antes de dormir como ela fazia, mas depois de um tempo, pegar naqueles papéis era tão doloroso que eu não fazia sempre.
Talvez agora eu esteja sofrendo as consequências de não ter lido as Escrituras com frequência como minha mãe fazia.
Agora, aqui nesse lugar estranho e escuro, sinto como se tudo estivesse perdido, como se eu estivesse sozinha no mundo.
será que eu estou dentro da Floresta da Névoa e vou morrer como minha mãe?
Pensar nisso faz meus olhos encherem de lágrimas e abraço meus joelhos enquanto elas escorrem pelo meu rosto.
Então ouço um barulho vindo de algum lugar daquela casa estranha, barulhos que não consigo distinguir do que pode ser, é nesse momento que me lembro daquele estranho com aquelas cabeças em cima da mesa de madeira.
será que é ele?
Todo o meu corpo treme de medo e percebo que o quarto está ficando mais escuro, deve está anoitecendo agora, mas não gosto do escuro, não sei como irei sobreviver a esta noite.
Depois de alguns instantes os barulhos, assim como minhas lágrimas, diminuíram, não sei se isso é bom ou ruim, acho que agora só devo esperar a morte chegar, apesar disso ser dramático da minha parte, não vejo o que mais posso fazer.
– Até que você está lidando bem com tudo isso, menina – ouço uma voz vinda do cômodo onde estou, mas agora está muito escuro e não consigo ver ninguém.
– Quem está aí? – começo a me desesperar, olhando em todas as direções.
– Alguém interessado em toda essa situação em que você se meteu – a voz é de um homem, mas não parece ser o mesmo que eu vi, o brutamontes que talvez provavelmente tenha me trazido para este lugar, é outro, alguém que está se divertindo com o meu desespero.
– Você sabe onde eu estou? Pode me tirar daqui? Por favor? – não sei se irei conseguir alguma coisa com essa pessoa, mas preciso tentar
– Bom, você está onde muitas pessoas chamam de Floresta da Névoa, o lugar aonde muitos vão e nunca voltam – ele parece irônico ao dizer a última parte. – Não é assim que dizem?
– O que? – digo, mais para mim do que para ele.
Realmente estou no lugar onde temia, agora com certeza nunca mais irei voltar, não viva pelo que sei. Ele parece saber de meus pensamentos, apesar de parecer a própria escuridão ao meu redor.
– Mas eu sei como você pode sair dessa névoa, menina, e viva, sem nenhum dado – sua voz parece está em todas as direções em que viro minha cabeça. Ele então continua. – Mas não posso te dar uma informação tão valiosa por nada, não acha?
– Por favor, eu faço qualquer coisa – digo, implorando com o desespero em minha voz.
– Eu quero que você pegue uma coisa para mim, uma coisa que sempre está com o nosso amigo grandão, dono desse lugar.
– Mas o que é exatamente?
– Pode ser um pequeno frasco, ou um jarro ou até uma jóia, algo que, assim como esse lugar, parece ter névoa dentro, é uma peculiaridade que só ele entende.
– Mas como eu posso pegar algo que não sei como é? E, além disso, eu não sei quando ele vai voltar, ou o que quer comigo – digo, sem esperança alguma.
– Menina, seja mais otimista e corajosa, ou você não sobreviverá por mais tempo que isso.
Não sei o que essa pessoa quer com isso, mas se ele realmente for me tirar daqui, eu preciso agarrar qualquer resquício de esperança para isso.
– Tudo bem, eu vou conseguir o que você quer – afirmo a ele, sem talvez acreditar muito no que eu falei.
– Muito bom, mas eu quero a sua palavra, minha querida menina.
– Tudo bem, eu prometo que farei isso, mas eu também preciso que me prometa que vai me tirar daqui, pois irei me arriscar para conseguir o que você quer – tento parecer o mais firme possível ao dizer isso.
– Agora sim, eu gostei. Eu prometo, menina – ele diz, isso me alivia um pouco, até ele continuar. – Mas essas promessas que estamos fazendo um para o outro são tão cheias de névoa quanto esta floresta que nos cerca.
– O que isso quer dizer?
– Apenas uma reflexão, de algo que vi, mas tenho certeza que você conseguirá – é a única explicação que ele me dá.
– Você é mesmo real, ou algo da minha cabeça? Eu não tinha parado para pensar nessa possibilidade também.
Nesse momento, ouço uma leve gargalhada ecoando de todos os cantos daquele quarto.
– Talvez um dia vamos nos ver, menina. Consiga para mim o que prometeu, nosso amigo está voltando – sua voz agora é quase inexistente, até que desaparece por completo e sei que ele se foi.
Os barulhos e ruídos do lado de fora do quarto voltam, agora eu não sei o que fazer.
será que eu fiz uma promessa para algum espírito maligno?
Preciso pensar em uma maneira de encontrar esse objeto com névoa, espero muito que isso não custe a minha alma, talvez enquanto procuro por esse objeto excêntrico, eu descubro porque estou aqui.
Agora, ainda abraçando firmemente os meus joelhos que estão cobertos pela longa saia do meu vestido, eu encosto a cabeça na parede e fecho os olhos por alguns segundos, e ouço os barulhos no outro cômodo diminuindo, ou então, a minha mente que está se desligando.

