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No Meio da Névoa
1- Cativeiro Enevoado
1829 palavras • 10161 caracteres • ⏱ 7 min 19 s

1- Cativeiro Enevoado

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Acordo depois do que parece ser um longo tempo de sono profundo, sinto meu corpo sonolento e demoro um pouco para perceber que estou dentro do que parece ser uma gaiola enorme, provavelmente para algum animal. A princípio, não fico surpresa, até que toco nas barras de ferro e percebo que estou presa, bato nessas e nada acontece. 


Só quando tento olhar para além das barras, o ambiente ao redor da gaiola (com formato retangular), é que fico completamente horrorizada, deparo-me com uma mesa de madeira contendo algumas facas enormes e sujas, um machado e logo depois três cabeças ensanguentadas, uma de porco selvagem, e uma de urso, posso dizer que até aí eu já me assustei para vida toda, mas a terceira cabeça com certeza vai me impedir de dormir por um bom tempo: é de um homem.


          Talvez se o lugar onde me encontro fosse mais claro poderia dizer que eu estou em algum tipo de sonho aleatório, mas aqui é uma sala, não sei, é tudo fechado e não tem janelas, só uma porta larga de madeira desgastada que estava fechada, os cantos desse cômodo são escuros, e há uma lâmpada de cor meio esverdeada bem no centro, onde está a mesa. Pergunto-me se tem alguém aqui e se devo gritar por socorro, penso que isso pode ser uma ideia idiota, porém se eu ficar quieta ninguém virar, preciso saber onde estou e como sair daqui. 


– Por favor… – antes mesmo que eu possa chamar por ajuda, a porta é escancarada de uma só vez, como se alguém a tivesse empurrado abruptamente e, isso me faz arregalar os olhos e meu coração acelerar ainda mais.


Vou bem devagar para o final da gaiola, enquanto observo o indivíduo que acaba de chegar. Pelo que  pude ver, ele vem puxando uma carroça de madeira que parece extremamente pesada com apenas uma das mão, ele parece um brutamontes, é grande e assustador, mesmo que ele vá para debaixo da lâmpada, não é possível ver seu rosto.


Ele dar atenção aos elementos que estão em cima da mesa, em seguida coloca as três cabeças dentro de um saco de pano e joga alguma substância dentro, mas eu não consegui adivinhar o que seria, após tudo isso, o estranho joga o saco em cima de um monte de sacos de pano naquela carroça de madeira e só agora consigo entender que há vários sacos ali, com alguma coisa dentro de cada um deles, E se forem cabeças também?, penso, Será que ele é um tipo de caçador? Mas o que explicaria a cabeça de um homem junto com as de animais?


O estranho indivíduo pega a carroça novamente com apenas uma das mãos, parece que ele quer dar a volta à mesa, mas percebe que a gaiola em que estou está no caminho dele, e você acha que ele vai empurrá-la educadamente para o lado para liberar a passagem? Não! 


Como um perfeito brutamontes ele simplesmente empurra a gaiola com tudo assim como fez com a porta e, comigo dentro, saio rolando e gritando apavorada até que esta mini prisão retangular bate na parece e tudo se acalma de novo. Felizmente não quebrei nenhum osso, mas sinto dores em pontos que bateram nas barras de ferro, como cabeça, costelas, braços. 


– Ai… – solto um gemido de dor enquanto tento me mexer, estou de barriga para baixo na gaiola, e resolvo ficar assim até as dores em meu corpo cessarem. 


Viro a cabeça um pouco e noto que aquela pessoa não está mais aqui. O que será que ele vai fazer comigo? Como faço para sair daqui? Estou em um pesadelo? Sinto um cheiro estranho, mas antes de descobrir o que pode ser, tudo na minha frente fica embaçado e então vem a escuridão.


                            §§§§§


Sou acordada bruscamente com a porta sendo chutada de novo, parece que ele voltou, sem a carroça dessa vez. Ainda me sinto sonolenta para entender o que ele possa estar tramando para mim, porém nesse momento sinto a gaiola sendo virada de uma vez comigo dentro.


– Ah! – ele a  vira de novo – Espera! – quando eu caio na parte da gaiola que está totalmente plana, ele para. – Ai…– solto outro gemido, tudo começou a doer de novo.


Vejo que ele vai até a mesa e pega uma das facas que está sobre ela, e eu me afasto para o mais fundo possível da gaiola, ao prevê o que ele está pensando em fazer comigo. Então ele vem em minha direção com aquela faca de aspecto feio e eu em meio ao desespero, tento implorar para que ele não me mate. 


– Por favor, espere, eu… – começo.


– Quieta! – ele me interrompe rapidamente, é a primeira vez que ouço sua voz.


Eu fico impossibilitada de falar ou fazer alguma coisa para me salvar, sinto as lágrimas preencherem meu rosto e então, fecho os meus olhos com medo de tudo aquilo, só desejando que tudo acabe logo.


– Maldição! – ele ruge, como uma fera e se afasta da gaiola. 


Abro os meus olhos e percebo que ele não está mais aqui, mas o que foi isso? Ele claramente queria me matar, o que o impediu? Por um instante suspiro aliviada, e só consigo pensar que preciso sair deste lugar. Tento novamente procurar por alguma saída nas barras, bato nelas, mas nada acontece. 


Como ele conseguiu me colocar aqui dentro? Não vejo cadeado trancando nenhuma parte da gaiola, deve ter algum compartimento que eu não consiga notar, mas … aqui está! Encontrei, tem algumas barras com furos, e outras barras lisas dentro delas fazendo uma espécie de bloqueio, é isso que está deixando essa mini prisão firme.


Estou em um cenário de terror, como nas histórias que eu ouvia na casa Henryton, a casa da minha família, mas não tem como comparar uma simples história com a realidade do momento, isso é certo. 


Porém se eu quiser sair daqui, não posso me desesperar, então tento tirar as barras lisas de dentro das barras furadas e levo um bom tempo para conseguir tirar todas as seis barras, pareceu uma eternidade e meu coração estava todo tempo acelerado, com medo daquele ser assustador aparecer a qualquer momento e estragar a minha tentativa de fuga. 


Finalmente consegui fazer com que a parte de cima da gaiola se abrisse, rápido e completamente aliviada (talvez não tanto), saio daquela jaula de animal, e vou em direção a porta, ela não está trancada, por um momento me sinto feliz, mas fui totalmente ingênua e descuidada e não pude adivinhar o golpe em cheio que levei no rosto assim que passei pela porta e me virei depois de fechá-la atrás de mim. 


Foi tão rápido, eu estava perdendo a consciência, antes de conseguir processar o que aconteceu. 

Minha visão estava embaçada de novo, e eu o vi se aproximando de mim, também estava ouvindo um zumbido, mas pude, antes de desmaiar novamente, ouvir uma voz grave, a voz dele.


– Miserável… você nunca vai conseguir escapar de mim. 


                               §§§§§


Mais uma vez eu acordo depois de um período inconsciente, porém dessa vez, não estou dentro de uma gaiola e sim de um quarto. Estou deitada sobre um colchão sujo, não tinha travesseiro e nem cobertor aqui, sento-me sobre o colchão e observo ao redor, o quarto possui paredes de tábuas de madeira sujas, tem várias manchas, tem uma específica na parede perto da porta, que parece ser de sangue, mas não tem mais uma cor tão forte, como se estivesse ali há muito tempo, e isso faz meu coração gelar, saber que talvez alguém tenha… Não quero pensar sobre isso. 


Observando mais o lugar onde me encontro, noto uma caixa com alguns panos dentro, parece algumas roupas, ao lado dela tem uma bandeja velha com uma jarra com água e um copo perto.


O quarto está pouco iluminado, na parede perto de onde estou sentada tem uma janela não muito larga, ela tem vidros manchados e ainda tem tábuas de madeira escura pregadas sobre a janela, para que a iluminação não entre totalmente, mas há uma fresta que não está tampada e é por ela que a luz está entrando no cômodo. Será que foi ele que me trouxe para este lugar? Qual a razão de tudo isso? 


Esfrego o meu rosto e logo sinto a dor na testa, em uma região entre os olhos, deve ter sido onde recebi o golpe dele. Tento me levantar rápido, mas sinto dores por todo o meu corpo, então vou mais devagar e me viro para a janela, especificamente para a fresta por onde entra a luz do dia. 


Resolvo olhar por entre ela para ver se consigo conhecer o lugar onde estou, mas vejo que tem muitas árvores e arbustos, além de uma névoa muito densa, parece que esse lugar é em uma floresta bem densa também, porém consigo ver um pouco do céu cinzento, e o lugar onde estou presa deve ser cercado pela floresta.


Tem mais uma coisa, algo no qual concentro minha atenção: é ele, o brutamontes de ontem (pelo menos acho que foi ontem), com certeza foi quem me trouxe aqui, mas por que? É isso que quero saber. 


Entretanto, ele não está sozinho, ele está em uma parte quase adentrando a floresta, e é possível ver alguém ou pelo menos perceber que tem uma pessoa ali, que até o momento parece normal, tenho quase certeza que é um homem, é alto também, e acredito que esteja usando um casaco muito comprido e branco, totalmente branco, algo que nunca vi antes. 


Não dá para ver suas feições claramente, pois ele está atrás de uns arbustos e um galho de árvore, que está muito baixo, cobre seu rosto. 


Essa pessoa estranha gesticula bastante para o grandão que me sequestrou, enquanto este está parado apenas ouvindo o que aquele estranho (que talvez para ele não seja um total estranho), está dizendo. 


Nesse momento, enquanto os observo, o estranho que gesticula para de repente, ele abaixa as mãos, e se vira na direção em que eu estou, como se ele percebesse minha presença ali, então levanta a mão para tirar o galho da sua frente, mas eu, sentindo um calafrio como se não quisesse ver seu rosto, saio da frente da janela e me sento rapidamente no colchão velho e sujo no chão. 


Meu coração ainda está acelerado, parece que eu simplesmente adivinhei que veria algo muito assustador, e já estou bem assustada só estando nesse lugar, sem saber se vou sair daqui viva. Olho ao redor e sinto que esse lugar vai ser o meu mais novo cativeiro cercado por névoa por um bom tempo.


Alexsandra Henryton, o que você fez para merecer isso?


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