Eu não quis vê-la antes de sair para caçar aquele lobo maldito. Sabia que ela não queria me ver. Talvez eu não queria ver o que fiz com ela. Isso aconteceu depois do encontro com aquele lobo, eu sei o que ele veio fazer por aqui, sei o que quer, mas ainda não consigo entender porquê ele quer essa velha pedra de memórias.
Entretanto, considerando o pouco que sei sobre esse maldito cão das sombras, com certeza ele não usaria essa pedra para nada de bom. Mas qual o propósito de usar a Lessie nisso? O que ele fez com ela? Ele vai pagar caro por isso.
Porém...
E se isso for realmente algo que vem dela, como o Corvo me disse? Nesse caso, eu não poderei fazer nada a respeito, mas isso não quer dizer que eu não tenha muitas perguntas sobre isso.
Abaixo-me perto de uma árvore após ver uma pegada que desconfiei ser meu alvo, era enorme e com garras grandes, mas não era dele, era só um urso marrom gigante. Uma espécie que estou acostumado a caçar. Por um momento, há uns dois ou três dias, pensei ter sentido o cheiro do lobo por perto, mas sumiu completamente.
Isso me faz pensar que ele tenha retornado as sombras de onde veio, mas não vai ser para sempre, já que ele quer muito essa pedra. Eu preciso me certificar de que ele não consiga pegá-la, já que ele veio me incomodar, irei atrapalhar bastante seus planos, então.
Eu senti outro cheiro junto ao cheiro do lobo. Esse outro cheiro era mais próximo de algo familiar, algo que eu já senti antes. Quero acreditar que é impossível, mas no fundo sei que não é. Esse outro cheiro é dela, Aruna. Não era para estar aqui. E sei que não vale a pena ir atrás, pois pode ser uma armadilha desse miserável cão. Ele pode achar que isso pode me distrair do meu objetivo, mas já acabei com Aruna há muito tempo.
Já fui em todos os lugares e esconderijos possíveis em que aquele cão maldito poderia se esconder, mas nada dele. Já não está mais na Floresta da Névoa como eu imaginei. Não sei por quanto fiquei atrás dele, mas está na hora de voltar para a minha velha cabana. E ver como aquela garota está. Não sei como ela ainda não morreu, ou como ainda não a matei, mas eu sei que ela não é a Aruna e acho que é por isso que não consegui matá-la.
Ainda assim, não consigo parar de fazer comparações idiotas como o fato de que Aruna era independente quando estávamos juntos, e era forte, não precisava que eu a protegesse e tinha a minha admiração por isso, entretanto ela colocava uma espécie de máscara quando estava perto de sua família e no final isso nos separou.
Mas essa garota... Lessie. Parece tão frágil, indefesa, precisa de proteção, precisa de mim. Só que eu a machuco ao invés de protegê-la, como se fosse difícil estar perto dela sem machucar, o que me causa muita raiva, porque no fundo não quero machucá-la, então que devo fazer? Eu acho que já tenho a resposta: o que eu devia ter feito antes, segundo o Corvo.
Suspiro pesadamente, eu queria que as coisas ficassem do jeito que estão, mas não que ela se machucasse. Quando me viro para iniciar a jornada de volta para a cabana, ouço uma voz distante que parece vir de todos os lugares da floresta, em meio a névoa.
– Terence!
Olho ao redor.
Não pode ser. É dela essa voz. Aruna.
Mas ela não está em lugar nenhum. Ouço a voz outra vez.
– Terence!
Dessa vez eu não procurei pela dona da voz, apenas fechei os olhos me concentrando de onde realmente vinha essa voz.
Terence!
Achei. A voz vinha da minha cabeça. Começo a pensar que ou o lobo está mais forte do que eu pensava, ou isso não é coisa dele. Eu sei que o sepultamento de Aruna não foi real, já que não acharam o corpo dela, e seria idiotice minha achar que não é ela que está por trás disso.
Eu deveria estar calmo, mesmo com essa possibilidade, mas, na verdade, estou me irritando com os pensamentos em Aruna, principalmente com o fato de que ela pode está aqui, querendo brincar com a minha mente. Minha irritação está fazendo com que a névoa ao meu redor fique mais densa do que ela está, cobrindo quase totalmente as árvores daqui
– Sou eu quem está deixando você assim, Terence?
A voz dela fala na minha cabeça com um tom de provocação que me deixa mais irritado. Antes o Terence gostava da maneira como ela falava, mas agora eu só sinto repulsa e uma raiva mortal por ela está me incomodando nesse momento.
– Eu sei que no fundo você sente minha falta, se não, não teria encontrado uma garota tão parecida comigo, não é?
Fecho os punhos com essa provocação tão baixa.
– Ela não é nenhum pouco como você, Aruna – digo, ainda mantendo o controle na voz.
– Aquela garota olha para você e só vê um monstro, eu vi na mente dela, Terence, não se engane com ela. A garota lhe contou sobre a minha visita há alguns dias, não contou?
Fico em silêncio, eu senti que a Lessie queria me dizer mais alguma coisa no dia que ela me contou sobre o lobo, mas não insisti.
– Você tem muita coragem de chegar perto da minha casa – digo, mesmo sabendo que não era exatamente da cabana que eu estava me referindo.
– Ah, Terence, você poderia facilitar as coisas para mim. Sabe, aquela garota me deu um pouco de trabalho para uma amadora, mas ela teve sorte, na próxima...
– Chega, Aruna! Você parece uma serpente cuspindo veneno. Ouça, esteja onde estiver, se você chegar perto da minha casa outra vez, eu te caço e te mato, vou me certificar de que fique em seu túmulo dessa vez, junto com suas memórias sobre Terence, porque é só isso que você terá dele.
Depois de deixar claro meu recado para ela, sua voz desaparece da minha mente e eu sigo meu caminho. Quase bato em algumas árvores devido a intensificação da névoa, mas sei exatamente para onde estou indo. Preciso me acalmar ou essa névoa pode mexer com minha maldita cabeça. O que pode me acalmar agora?
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Pensei em raios de sol passando por entre as copas da árvores em um lugar onde não havia névoa, os raios de sol indo de encontro a uma jovem de costas, com cabelos loiros e longos brilhando com o sol, quando ela se virou seus olhos verdes eram brilhantes também, principalmente quando sorria, e seu vestido de cor creme a deixava de certa forma encantadora. Não, não era Aruna, no começo eu pensei que era e a odiei por isso, porém suas atitudes diziam que não era ela. Isso fez com que eu me aproximasse dela, mas eu não queria assustá-la, então me aproximei devagar, até ela perceber que eu estava ali e quando me preparei para ouvir seus gritos assustados, não vieram.
– Quem é você? – perguntou curiosa. Entretanto eu não respondi, fiquei apenas a encarando.
– Por que está escondido atrás dos arbustos? Não gosta da luz?
Eu apenas balancei a cabeça devagar, sem tirar os olhos dela. Então ela se aproximou de mim devagar, fazendo-me perguntar se ela não tinha medo do perigo.
– Uau, seus olhos brilham como o brilho de vagalumes, eu acho bonito. Gosta de vagalumes?
Novamente eu não respondi, inclinei a cabeça, curioso por ela encontrar em mim algo para chamar de "bonito".
– Olhos de vagalumes! O que acha? Posso te chamar assim? – ela pergunta, abrindo um sorriso e inclinando a cabeça para mim.
Não consigo entender como ela não sentiu medo de mim, sem ver meu rosto, apenas meus olhos, que já daria medo em muita gente normal e, principalmente, em Aruna.
– O meu nome é Alexsandra. Estou procurando um apelido para meu nome, todos os meus amigos têm um apelido para seus nomes, menos eu.
O nome dela era grande, parecia de alguém muito difícil para eu alcançar, era nobre e bonito, e para mim, complicado de falar. Porém, veio algo na minha mente, pelo menos mais próximo de algo que combinasse com o nome dela, para mim.
– Lessie... – sussurrei para ela.
– Lessie? – ela indagou, erguendo uma sobrancelha. – Então vai ser esse, é um pouco diferente até, mas está bom.
Uma voz longe chamou nossa atenção.
– Alexsandra? – era uma voz masculina.
– Ah, é o meu pai, eu tenho que ir, Olhos de Vagalumes.
Ela se afasta, indo até uma pequena cesta de flores e a pegando, então se vira para mim antes de ir.
– Voltarei aqui novamente amanhã, se você quiser vir.
Não respondo e nem faço nenhum gesto, e ela vai embora. Ela era mais nova, e eu tinha acabado de me transformar em Níthy com a ajuda do Corvo. No início, ficava fora de mim e muitas vezes tinha atado o Corvo também, demorei um tempo até me controlar.
Entretanto, quando a vi, não quis atacar, só queria observá-la, não sei porque ela me acalmou naqueles poucos dias que a vi e ela ainda assim, não se lembrou de mim. Eu não pensava em Aruna, só pensava na Lessie. Até que ela nunca mais voltou.
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Paro um pouco quando percebo algo errado, apesar da névoa ainda está densa demais, eu ouço o forte bater de um coração, como se estivesse desesperado, como se fosse um bichinho assustado fugindo de um predador. Lessie. Eu sabia que era ela, mas não sabia o que estava acontecendo, alguma coisa estava errada na cabana e eu precisava voltar o mais rápido possível. E assim fui. Em todo o caminho, o bater do coração dela estava cada vez mais forte e a névoa não ajudava nenhum pouco nesse momento.
Não posso acreditar que o Corvo esteja por trás disso, ele não teria essa coragem. Será que é o lobo? Será que só me manteve distraído aqui para atacá-la? Esse maldito! Pareceu que se passou uma eternidade antes de eu chegar na cabana, mas quando finalmente consegui chegar na minha casa, algo me fez parar.
– Cara mocinha! Onde você está? – era a voz do Corvo. Estava chamando pela Lessie do lado de fora da cabana.
Como se ela tivesse... se perdido.
– Corvo!
Ele se vira mim assim que o chamo.
– Caro Níthy... não tenho boas notícias. A caro mocinha se perdeu na névoa, não consigo encontrá-la.
Como eu temia. Agora ela pode ser um alvo fácil de qualquer coisa que aparecer na frente dela. Que maravilha! Tento rastrear qualquer coisa que a névoa possa me trazer que tenha haver com ela como cheiro, som, medo. Alguma pista de onde ela possa estar.
Coração batendo. É mesmo, o coração dela continua batendo fortemente. Concentro-me nisso, e então a névoa vai se dissipando mais em uma parte da floresta, abrindo um caminho. O caminho até ela. Corro naquela direção com o Corvo logo atrás de mim. Sinto mais alguém, é esse alguém que está perseguindo a Lessie.
Não acredito nisso, é aquele maldito do Shady! Eu vou matar ele!
Paro por um momento, após perceber que algo mudou. É como se o Shady de repente tivesse sido apagado, o coração quase não batendo direito, entretanto a Lessie... O coração dela também estava mais fraco. O que está acontecendo? Olhando um pouco a frente, percebi uma silhueta caída no chão, corro imediatamente até lá, mas não era dela, era Shady. Ele estava deitado no chão olhando fixamente o vazio, como se estivesse hipnotizado.
– Shady? – O Corvo se ajoelha perto dele.
Sem dar chance para o Corvo examiná-lo, vou até ele e o pego pela gola da camisa, erguendo-o.
– Cadê ela? Onde ela está, seu maldito? Eu sei que era você perseguindo a Lessie!
– Espere um pouco, Níthy, ele...
Nesse momento, nós dois nos viramos na mesma direção após sentirmos algo incomum.
– É ela, caro Níthy.
Sem olhar para ele, apenas largo o inútil que estava segurando e vou na mesma direção que me virei, como se me guiasse até ela. Sigo mais um pouco em frente até perceber um movimento de trás de uma árvore. Percebi que era ela assim que me aproximei, eu a vi sentada, abraçando as pernas e com a cabeça baixa apoiada nos joelhos. Ela não chorava, nem fazia nenhum barulho, estava quieta. Ajoelhei na sua frente devagar.
– Lessie, você está bem? – perguntei, tentando parecer que nada daquilo me tirou do sério.
Ela não respondeu e demorou um pouco para levantar a cabeça. Entretanto, quando o faz, o que vejo quase me assusta profundamente. Seus olhos estão brilhando em um verde intenso, da mesma cor que brilharam quando ela entrou em minha mente, mas sua expressão indica que está em um estado de hipnose, como o Shady. Parece que ela invadiu a mente dele, como fez comigo, mas por que ela está assim?
– Achou ela? – o Corvo se aproxima. – Por sorte, Shady vai ficar bem, foi apenas um mal entendido, caro Níthy.
– Olha o que ele fez com ela! Ele a perseguiu, ele vai pagar por isso.
– Deixe eu ver o que aconteceu com ela.
Afasto-me o suficiente para ele se ajoelhar na frente dela. O Corvo tira as luvas brancas e pega na mão dela para sentir alguma coisa que eu não entendo.
– Pobre mocinha, parece que ela esteve na mente conturbada do Shady, ficando bem mais que o necessário para uma iniciante. Por isso, tanto ela quanto Shady estão nesse estado hipnótico. Isso poderia ter causado danos irreparáveis, principalmente para ela. Vou tentar ajudar tirando um pouco desse peso em sua mente.
Ele toca em sua testa e depois de alguns instantes, parece ter conseguido alguma coisa. Os olhos dela voltam a cor normal, e ela pisca algumas vezes, mas parecia estar um pouco atordoada.
– É melhor você levar ela para descansar um pouco – ele diz, levantando-se.
– O que fez com ela? – pergunto, sem tirar os olhos dela. A pego em meus braços e ela deita a cabeça em meu peito, fechando os olhos na mesma hora.
– Níthy... tonta... – é o que ela consegue dizer.
– Foi apenas uma supressão de boa parte do que ela absorveu. Eu entendi uma coisa, sobre o porquê dela não saber de suas habilidades. Alguém fez isso, e quando ela usava sua habilidade de invasão de mentes, logo tudo era apagado. A cara mocinha não tem a menor noção de que já invadiu a mente de outras pessoas antes.
Então isso já aconteceu muito antes da Lessie vir para este lugar.
– Entendi – olhando para ela.
Passo pelo Corvo com a Lessie, vou levá-la para a cabana e depois eu vejo o que faço quanto a essa habilidade dela. Agora ela precisa descançar e se recuperar. E talvez se preparar para partir.
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Mais um capítulo para vocês! Espero que gostem.
Nem eu esperava que a Alexsandra pudesse dar conta do Shady. kkkkk

