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No Meio da Névoa
14 - Espera enevoada
2069 palavras • 11321 caracteres • ⏱ 8 min 17 s

14 - Espera enevoada

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– Hora de acordar, cara mocinha – a voz do Corvo me desperta completamente, não era meu plano adormecer de novo. – Essa cama deve ser bem confortável, não é?

– Olá... bom, na verdade, estou com vontade de sair daqui, deste quarto – digo, pensando nas poucas vezes em que eu pude ver a névoa do lado de fora da cabana.

– Você vai sair, não se preocupe, assim que se recuperar. Eu trouxe algo para você comer, na verdade foi Níthy quem me pediu para vir te trazer essa comida. Bom apetite.

– Níthy? Onde ele está? Quero dizer... não que eu me importe com ele... – minhas palavras são diferentes do que eu imaginei.

Com meu corpo menos dolorido do que antes, consigo me sentar na cama com menos dificuldade agora. Estico o braço para pegar uma vasilha com alguns bolinhos e faço uma leve careta devido o esforço. Sinto o olhar do Corvo em mim, mesmo que ele continue com aquela máscara de pássaro que já me deu muito medo, mesmo assim, não sei o que ele está pensando ou o que quer de mim, porque eu sinto que ele quer alguma coisa. Ele está quieto, sei que eu não o conheço bem, mas o pouco que eu pude ver dele, é que esse homem se mostra ser um tanto tagarela, algo que irrita muito o Níthy.

– Não está com fome, cara mocinha? – ele diz, ao perceber que eu estou encarando a vasilha com bolinhos enquanto estou imersa em meus pensamentos.

– Sim...

– Está pensando em Níthy de novo? Ele vai gostar muito de saber disso, mas se quiser deixo que você mesma conte...

Pronto, o lado tagarela dele voltou, acho que ele não consegue ficar muito tempo quieto.

– Se isso for fazer você se sentir melhor – ele contina e eu me viro para ele. – Níthy vai caçar um pouco mais ao norte e ficará três dias fora.

Eu confesso que não esperava por essa. Caçar? Não irei vê-lo por três dias então? Isso quer dizer que enquanto eu fico aqui nessa cama sem quase poder me mexer direito, a vida dele vai seguir normalmente? Isso me deixa um pouco mais irritada do que eu esperava. Tento mexer meus pés e virar minhas pernas para sair da cama.

– Para onde pensa que vai, cara mocinha?

O Corvo me impede de deixar a cama e essa raiva acaba fazendo com que a dor no meu corpo passe quase despercebida. Eu só consigo pensar no quanto Níthy é malvado, não precisa de mim e simplesmente quer que eu morra aqui. E eu acreditando que ele poderia mudar, mas percebi que quem tem que mudar sou eu e é isso que vou fazer.

– Eu quero falar com ele. Com Níthy, Corvo – não consigo evitar demonstrar minha raiva. Sinto meu rosto esquentar.

– E o que vai dizer para ele?

Não digo nada, apenas fechei os olhos e suspirei. Paro de tentar sair da cama, sei que nessas condições não consigo fazer nada.

– Eu só quero sair desse lugar, ele não precisa de mim para nada. Se ele só está prolongando minha morte, está perdendo tempo, poderia fazer isso de uma vez se quisesse. O fato de eu ser tão parecida com Aruna, não significa nada, porque eu não sou como ela. Eu confesso que o Níthy não estava mais sendo tão assustador para mim, estava começando a enxergá-lo de outra forma, mas eu me enganei, acho que ele nunca vai mudar. Então por que ele não acaba logo com isso? O que ele vai ganhar me mantendo viva aqui?

Eu acabei desabafando com o Corvo sem perceber, as palavras simplesmente foram saindo de minha boca.

– Entendo, cara mocinha, mas por que você não pergunta para ele? – é o que ele diz indo até a porta do quarto e a abrindo, então Níthy passa por ela e o Corvo saiu, fechando a porta atrás de si. Não acredito que ele fez isso. Será que Níthy ouviu tudo?

Agora ele está com uma camada a menos de roupa, está sem a capa de pêlo e o colete escuro que comporta suas facas. Nesse momento, Níthy está uma camisa de mangas compridas de cor marrom, o que parece ser braceletes de couro amarrados em seus pulsos e calças escuras, os cabelos escuros caem sobre seus largos ombros e parecem estar umedecidos, seus olhos continuam com o mesmo brilho verde fluorescentes, entretanto, não me sinto mais tão intimidada por eles. Sua cicatriz também não é mais algo que me assusta, e, de alguma forma, acho que nem ele. Pelo menos não agora.


– Então, você queria me dizer alguma coisa? – ele diz, aproximando-se lentamente da cama.

Fico o encarando por alguns instantes e, após afastar pensamentos bobos que permeavam minha mente, finalmente consigo dizer:

– Sim, Níthy. Eu quero sair desse quarto, quero ir para fora, por favor – surpreendo - me no quão firme me mantive ao dizer isso.

– Você vai ficar aqui até se recuperar, só então irá sair do quarto – ele se inclina até seu rosto está próximo do meu. – Entendeu, Lessei?

Olho para ele completamente irritada, será que ele se esqueceu quem me deixou nessa situação?

– Não me chame assim, não é o meu nome. E depois, foi você quem...

Sou interrompida quando ele abruptamente coloca uma mão sobre o colchão bem próximo ao meu corpo e se aproxima ainda mais do meu rosto.

– Você está brava? – ele diz, não com um tom sério de costume, mas como uma provocação. Eu sinto que ele conhece o que quero, os meus pensamentos e os meus sentimentos.

Tenho vontade de fazer uma coisa bem louca, para que ele me mate de uma vez, mas a única coisa que posso fazer agora me dá bastante vergonha de dizer, minha mãos estão suando e meu coração está acelerado com o pensamento. Está bem, Níthy, você quem pediu. Rapidamente o puxei para mim pela gola da camisa, até que nossas bocas se tocaram. Quando nos afastamos, consigo perceber sua surpresa, algo que com certeza também estava estampado na minha cara, então olho ao nosso redor e o quarto estava estranho, se mexendo. Até que consigo reconhecer uma voz familiar que chama a atenção.

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– Cara mocinha.

– Cara mocinha?

O Corvo estava me chamando. Pisco algumas vezes antes de entender onde estávamos. Tudo aquilo não passou de um sonho que tive antes de Níthy partir. Na verdade, fiquei apenas paralisada quando o Corvo me informou sobre a caça de Níthy e quem ele estava caçando.

– O que estava dizendo mesmo? – pergunto, agora prestando atenção nele.

Pelos cinco (e não três) dias em que Níthy está fora caçando, eu tive que ficar sendo cuidada pelo Corvo, que mesmo usando aquela máscara feia, não se mostrou tão desagradável assim. Porém, não consigo parar de pensar naquele sonho que tive beijando o Níthy. Não consigo parar de pensar nele, além disso, ele não foi me ver antes de sair para caçar.

Segundo o Corvo, Níthy acha que foi aquele lobo que me deixou estranha, que fez alguma coisa comigo ao ponto de me dar essa "habilidade" de invadir as mentes. Mesmo que o Corvo tenha falado para ele que não era isso, Níthy não ouviu, é como se estivesse cego para matar aquele lobo. Entretanto, eu sinto que ele não conseguiu se perdoar por ter me machucado e por isso não quis me ver. Eu também não tive a chance de falar com ele sobre Aruna, e se ele a encontrar? Será que vai matá-la? Ele ainda está com raiva dela pelo que aconteceu? Pelo que eu pude entender, tanto nas memórias de Aruna, quanto nas memórias de Níthy, não acho que Aruna teve escolha, ela havia ficado presa enquanto o pai e os irmãos torturavam Níthy.

Entretanto, sinto que tem alguma coisa que não entendi nisso, ou que esteja faltando.

– Eu estava dizendo que hoje a névoa está mais densa que nos outros dias, você não acha? – ele estava insinuando alguma coisa pelo seu tom. O pouco tempo que passei sozinha com o Corvo, acabei compreendo melhor os tons de sua voz e o que elas querem dizer, já que não posso ver seu rosto.

– Então... você acha que tem alguma coisa errada com Níthy? – pergunto, olhando para a névoa ao meu redor.

Nós estávamos na varanda da cabana. Em pouco tempo consegui me recuperar totalmente e já conseguia andar sozinha pelo interior da velha cabana. Eu estava sentada em um dos degraus, com um lençol sobre meus ombros já que estava muito mais frio dessa vez. Mesmo assim, eu insisti muito com o Corvo para poder vir respirar um pouco aqui fora, principalmente depois de considerar uma eternidade esperar por Níthy dentro daquele quarto. Sim, eu percebi que a névoa estava mais densa, quase não dava para ver as sombras das árvores ao redor.

– O que você acha, cara mocinha? – ele pergunta.

O Corvo quer que eu julgue uma situação que para mim é como essa névoa, sei que existe, mas não posso ver o que está além dela.

– Se tem haver com Níthy, isso quer dizer que ele está correndo perigo? – minha preocupação ficou bem mais evidente do que eu pensava.

– Não se precipite demais, cara mocinha. Nosso caro Níthy sabe muito bem cuidar de si mesmo e do que ele...

Ele não termina a frase e eu o encaro.

– E do que ele o quê? – pergunto, com cuidado.

– E do que ele quer preservar – ele se volta para a névoa à nossa frente.

– Ou seja, esse lugar – digo, mais para mim do que para ele. Quando volto a encarar o nada que névoa proporciona, vejo uma silhueta familiar, então meu coração acelera na perspectiva de ser o Níthy. – É ele.

Minha voz era contida, mas eu sentia um contentamento e alívio só de vê-lo. Minhas pernas não ficaram quietas. Como no sonho estranho, não conseguia controlar minhas atitudes. Eu simplesmente deixei o lençol jogado no piso da varanda e fui correndo em sua direção. Acho que eu quis demonstrar a ele que não estava mais zangada. O Corvo mal conseguiu me acompanhar passando por ele.

– Cara mocinha, espere! – ele me chamou, mas sabia que estava segura, eu sentia.

Eu estava quase o alcançando, quase abrindo um sorriso ingênuo para ele, porém ele não se movia, estava no mesmo lugar desde quando o vi, então, eu também parei, finalmente percebendo que havia algo errado.

– Níthy? – chamei, porém a silhueta já não era dele. Entretanto, era de alguém um tanto familiar também, tinha garras nas pontas dos dedos e quando o sujeito se aproximou, só então entendi que se tratava do tal Shady. O Corvo havia me dito que ele teve uma "missão importante" na fronteira da Floresta da Névoa há alguns dias e, pelo visto, sua missão acabou e ele está de volta.

Olho para trás à procura do Corvo, mas ele sumiu, assim como a cabana. Só há névoa, que não está nenhum pouco a meu favor hoje.

– Não me diga que o infeliz do Níthy deixou você sozinha perambulando por aí – ele diz, se aproximando bem devagar, com intenções mortais. – Mas que sorte a minha ter te encontrado, assim posso te dar o fim que ele não teve coragem.

– Meu Deus – digo, dando passos para trás, para me afastar dele.

Shady ri com minha reação.

– Sabe, eu tive que passar dias sem um pouco de diversão de verdade. Matar você agora vai fazer meu retorno valer a pena.

– Se fizer isso, o Níthy vai... vai te matar também – digo, sem conseguir esconder o tremor na voz.

– Ao menos terei o prazer de ver a cor do seu belo sangue!

Ele avança em minha direção e com a adrenalina invadindo meu corpo, saí correndo no meu névoa. Passo por árvores e arbustos, percebendo que tomei um rumo diferente do caminho da cabana, mas como não consigo ver nada, só me resta correr o máximo que puder e não deixar o Shady me pegar. Ai, Níthy, eu queria que você estivesse aqui.

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Mais um capítulo. Espero que gostem!


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