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No Meio da Névoa
13 - Diálogos enevoados
1997 palavras • 10867 caracteres • ⏱ 7 min 59 s

13 - Diálogos enevoados

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Tudo era tão escuro, será que é assim depois que alguém morre? Foi isso que a mamãe viu quando morreu? Isso é horrível. Espere, uma voz, distante, mas ainda assim uma voz. Parece que está ficando mais perto e mais distinguível.

– Eu não queria ter feito aquilo. Não devia ter feito, eu não esperava que você... bem, eu não esperava aquilo que aconteceu com você, mas mesmo assim, não queria te... machucar, Lessie. Eu não sei o que estava pensando em querer me aproximar de você.

Consigo ouvir e sentir tudo mais claramente, sinto sua mão na minha. A mão de Níthy é grande e agora eu sinto seu calor, ele estava se esforçando para passar todo o seu sentimento com seu toque e sua fala, pelo menos é o que eu penso. Ele parece tão triste, talvez se sentindo um miserável por ter me deixando assim: completamente imóvel, deitada no colchão surrado, mas serviu para que eu aprendesse a lição de não esperar o melhor dele e me aproximar só vai fazer com que eu me machuque mais.

Abro os olhos devagar, não está tão claro, já que tem apenas uma lamparina em cima da mesinha no quarto. Levo algum tempo para ter certeza que estou mesmo em seu quarto, mas, na verdade, eu não estava deitada no colchão sujo no canto do quarto, e sim na cama de Níthy. Quando a gente olha para ela não parece confortável, mas agora deitada sobre ela eu percebo que nunca estive sobre algo tão bom e confortável antes. 

Eu demoro um pouco antes de virar a cabeça na direção de Níthy, que por sua vez está com a cabeça encostada na cama, os cabelos compridos cobrindo seu rosto e sua mão ainda está sobre a minha, como se torcesse para que isso me ajudasse a melhorar rapidamente.

Quase rio do jeito em que ele se encontra agora, até que eu me lembro do porquê estou deitada aqui, as lembranças chegam como fragmentos: começou com uma simples carícia no rosto, até aquilo acontecer de novo, eu vi tudo em sua mente - agora sei que foi realmente eu quem fez isso-, então ele perdeu o controle de sua força me arremessando contra o balcão de madeira e agora estou aqui deitada em uma cama, pensando que talvez eu estivesse mais segura quando ele de fato, queria me matar. Quero me levantar e tento fazer isso, mas meu corpo dói tanto, como se minhas costas estivessem quebradas devido ao impacto.

Níthy percebe que eu acordei, olho para ele com uma careta inevitável por causa da dor que sentia, então levo minha mão para longe do contato da sua para que eu possa tentar me levantar, mas tudo dói quando faço isso.

– Eu faço isso para você – ele diz, levantando-se e esticando os braços para me ajudar.

– Não... eu não quero sua ajuda – digo apertando os dentes para evitar deixar escapar qualquer barulho de dor.

Ele fica parado, apenas me observando, enquanto eu acabo desistindo de tentar levantar, sinto vontade de chorar, fecho os olhos e respiro fundo para evitar que isso aconteça.

– Deixa eu te ajudar – ele diz, mais baixo dessa vez, quase sussurrando. – Eu não devia ter feito aquilo com você.

É como se ele tivesse tentando pedir desculpas, sua voz quase suave é tentadora para mim, talvez se fosse uma situação em que eu não me encontrasse quebrada, até daria para perdoar e seguir em frente. Entretanto não posso fazer isso comigo, olhe só para mim?

– Olhe só para você, cara mocinha, finalmente acordou. Aquele remédio que eu passei no seu machucado faz um belo de um milagre, não é? Você tinha que ver como você estava quando eu cheguei aqui, eu pensei que não tinha jeito...

O Corvo aparece na porta do quarto, falando sem parar, até que é interrompido.

– Já basta! – Níthy parece explodir de irritação com a fala do Corvo.

– Só estava querendo dizer o que aconteceu para ela. Parece que o seu mau humor está pior hoje.

Níthy olha para mim, mas eu desvio o olhar dele, ouço-o suspirar profundamente.

– Vou esperar lá fora – ele diz ao Corvo Branco.

– Você pode ajudar, caro Níthy.

– Ela não quer minha ajuda.

Ele simplesmente sai sem dizer mais nada, eu continuou deitada na cama, sentindo aquela dor por todo meu corpo.

– É incrível o que você conseguiu fazer com ele, estou realmente muito surpreso – diz o Corvo se aproximando de mim.

– E... o que ele fez comigo? – digo, referindo-me ao quanto Níthy me machucou.

– Eu sinto muito pelo que aconteceu, nesse caso, não tenho como defendê-lo, mas eu posso te ajudar.

Ele me mostra algo que parece ser um pote pequeno. Meu olhar vai do pote para ele.

– O que é isso?

– Um remédio, possui substâncias naturalmente puras, elas são bem raras de onde venho, se tiver sorte ficará boa em poucos dias, cara mocinha.

– Eu mal consigo me mexer, tudo dói, talvez eu não fique tão boa assim – digo, tristemente.

– Ah, a esperança é a primeira coisa que perdemos em momentos difíceis, não é? Mas você não vai perder a sua tão facilmente. Vai por mim, é a primeira pessoa que consegue sobreviver por tanto tempo neste lugar.

Não digo nada, volto a olhar para o teto da cabana novamente e sinto uma lágrima escorrer.

– Eu não sei o que estava esperando – comecei a desabafar, por algum motivo confio nele nesse momento para dizer isso. – Sei que eu causei isso, então de repente estava sendo jogada contra o balcão. Eu sei que foi pelo que eu fiz, mas eu não sei como fiz... – começo a chorar.

– Você parece bem chateada e triste, mas ainda assim você o defende, como se dissesse que você foi a responsável pelo seu estado agora. Eu vou te ajudar a trocar a faixa que está em volta de você e passar esse remédio novamente para curar seu ferimento e depois quando você se recuperar – ele faz uma breve pausa antes de continuar – Eu vou dizer o que vai fazer com Níthy. Lembre-me disso.

Poucos instantes depois ele me ajuda a me sentar na cama, a dor quase me impossibilita disso. Levanto um pouco a blusa que estou usando e, de fato, tem uma faixa ao redor de meu dorso, eu nem percebi. A faixa foi tirada e sinto o remédio sendo passado nas minhas costas, é tão frio que me assusto quando sinto.

– Isso é feito com o quê? – pergunto, curiosa.

– Ervas e sementes especiais de onde venho.

– É muito frio.

– Sim, eu venho de um lugar muito frio – ele diz.

Eu fiquei com receio do Corvo ser um pervertido, mas ele está me tratando muito bem e com respeito, parece um médico, e só nos vimos poucas vezes, enquanto Níthy... Não! Não quero pensar nele, estou muito irritada para isso.

Logo o Corvo termina de enfaixar ao redor de mim de novo, e eu abaixo a blusa.

– Se Níthy fosse um pouco mais delicado, ele quem poderia estar aqui no meu lugar – ele diz, afastando-se da cama.

– O que você quer que eu faça com Níthy? O que quis dizer com isso?

Ele fica em silêncio por um breve momento antes de me responder.

– Eu quis dizer, cara mocinha, que eu posso te ajudar a se vingar de Níthy por ele ter te deixado assim.

– O quê? – pergunto, completamente incrédula com que ouvi. – Ele te contou o que aconteceu?

– Ah, não. Não me contou quase nada, não os detalhes importantes pelo menos, ele estava tão desesperado para que eu cuidasse de você logo – ele diz isso mais como uma provocação, mas tento ignorar para me preservar um pouco.

Tento me manter sentada na cama, apoiando-me com as duas mãos sobre o colchão, mas sinto minhas mãos tremerem um pouco.

– Ele não contou o que eu fiz, não é? Como eu entrei na mente dele, vendo as coisas que ele viveu antes de se tornar o Níthy? Ele era o Terence, o... namorado da Aruna, a garota que ele achou que fosse eu. Aruna... esteve aqui, eu a vi, ela fez a mesma coisa comigo, tentou invadir a minha mente para tentar descobrir o máximo possível sobre Níthy, para tentar trazer o Terence de volta para ela. Até que de repente, eu entrei em sua mente também, a princípio achei que ela quem estava permitindo isso, mas então percebi que não era ela, mas eu quem estava fazendo aquilo também. Foi então que eu vi o que aconteceu com ele, com Níthy, quando estava em sua mente. Eu não sabia o que estava fazendo, como se estivesse em transe, mas ele me despertou quando me empurrou, ele deveria ter... se assustado.

Ouço o Corvo gargalhar debaixo de sua máscara de pássaro branco como se tivesse acabado de ouvir uma piada.

– É engraçado o quanto você ainda se preocupa em como Níthy se sente quando deveria está preocupa com você – ele diz, apontando para mim. – Bom, é uma história bem interessante, agora consigo entender muitas coisas, eu até sabia que você era diferente de uma simples humana, mas não esperava que você fosse uma psike invasora de mentes.

– Espera uma o quê? – faço uma careta completamente confusa.

– Uma pessoa que tem uma habilidade de invadir mentes, os pensamentos mais escondidos de uma pessoa, mas pelo que eu sei, alguém assim só usaria suas habilidades para ajudar pessoas em diferentes questões, nunca para causar problemas a elas.

– Então eu sou... isso?

– É claro, se Aruna estiver mesmo por aqui, ela também é. Com certeza vai usar suas habilidades para tentar trazer Terence de volta, mas isso é impossível. Não existe mais Terence, apenas Níthy, mas ela não vai deixar ele em paz.

– Isso parece um sonho que nunca tem fim e ainda por cima, acontece coisas estranhas como ter habilidade de invasão de mentes – suspiro profundamente com isso, sinto uma leve dor nas costas, então me deito devagar no colchão e fecho os olhos.

– Acho que foram muitas coisas para você assimilar hoje. Descanse agora, se precisar de mim, estarei aqui fora e, depois que você se recuperar e ainda quiser minha ajuda para se vingar dele, conte comigo.

Ele estava quase saindo quando eu viro o meu rosto em sua direção.

– Mas e como ele está? – Arrependo-me na mesma hora de ter perguntado sobre ele, não sei porquê ainda insisto nisso.

– Cara mocinha, já falei para não se preocupar com ele e sim com você.

– Hum... não estou preocupada com ele, estou com raiva pelo que ele fez comigo, olha o meu estado – digo, mesmo sabendo que a minha boca estava falando algo que o meu coração não estava sentido.

O corvo riu ironicamente, como se soubesse de algo.

– Sei exatamente que raiva é essa. Agora descanse.

Ele sai do quarto antes que eu tenha a chance de falar alguma coisa.

Terence. Aruna. Lobo. Psike.

E o que o Corvo planeja sendo tão atencioso comigo? Será que ele só veio cuidar de mim por que o Níthy pediu ou tem segundas intenções?

Fico um tempo pensativa com tudo isso, principalmente com a psike, esse nome eu nunca ouvi falar, mas a sensação é de alguma forma familiar para mim, porém não me lembro se isso já aconteceu quando eu estava fora desse lugar. 

Ainda tem muitas coisas para mim que não fazem sentido, mas eu estou quase querendo buscar por respostas neste lugar, ao invés de apenas ter medo e querer ir embora. Com esse pensamento, eu fecho meus olhos por alguns instantes, sem ter intenção de dormir.


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Mais um capítulo concluído.

Boa leitura!


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